Publicado em 24 de julho de 2026 por Tribuna da Internet

Charge do Claudio (Folha)
Pedro do Coutto
A decisão da federação União Progressista, formada por União Brasil e Progressistas (PP), de manter neutralidade na disputa presidencial de 2026 representa um revés importante para a candidatura de Flávio Bolsonaro. Não porque os dois partidos tenham rompido definitivamente com o campo político da direita, mas porque escolheram não colocar a estrutura nacional de suas máquinas partidárias a serviço do projeto presidencial do filho de Jair Bolsonaro.
Na prática, Flávio perde um apoio que poderia ampliar seu tempo de propaganda no rádio e na televisão, fortalecer sua presença territorial e oferecer uma estrutura política mais ampla para enfrentar a eleição de outubro. É importante, contudo, compreender a dimensão exata do movimento.
POSIÇÕES DIFERENTES – A decisão da União Progressista não significa que União Brasil e PP estejam, em todos os estados, contra Flávio Bolsonaro. Em São Paulo, por exemplo, os diretórios estaduais das duas legendas oficializaram apoio à candidatura do senador. A posição nacional é outra: a federação prefere manter-se neutra na corrida presidencial e preservar liberdade para seus integrantes nas disputas estaduais. Essa diferença entre o plano nacional e o regional é reveladora da estratégia adotada pelo Centrão.
O cálculo é essencialmente pragmático. Partidos como União Brasil e PP não costumam organizar suas estratégias nacionais apenas em torno de afinidades ideológicas. Seu principal ativo é a capacidade de negociação política. Ao evitar um compromisso antecipado com Flávio, a federação mantém abertas as portas para diferentes cenários eleitorais e preserva espaço de negociação para 2027, quando estarão em jogo a formação do novo governo, a composição do Congresso e a disputa pelo comando das duas Casas legislativas.
É justamente aí que está o significado político mais profundo do episódio. O bolsonarismo continua capaz de mobilizar uma parcela expressiva do eleitorado e de produzir uma identidade política reconhecível, mas isso não significa que consiga, automaticamente, converter essa força social em uma coalizão partidária nacional. Uma eleição presidencial exige mais do que militância digital, capacidade de mobilização nas redes e um eleitorado fiel. Exige palanques, alianças, recursos, capilaridade e uma articulação capaz de atravessar diferentes regiões e interesses.
LIMITES NATURAIS – O problema de Flávio Bolsonaro, portanto, não está apenas no tempo de televisão que deixa de conquistar. Está na dificuldade de construir uma candidatura que ultrapasse os limites naturais do bolsonarismo mais fiel. A televisão e o rádio continuam relevantes, especialmente para alcançar eleitores menos conectados às redes sociais, e a ausência de grandes partidos na aliança nacional reduz a capacidade de comunicação da campanha. Segundo levantamento publicado pela Folha, caso permaneça isolado, Flávio poderá ter cerca de 20% menos tempo de propaganda eleitoral do que Luiz Inácio Lula da Silva.
O episódio também evidencia uma contradição que acompanha a candidatura desde o início. De um lado, Flávio precisa preservar a identidade política construída pelo pai e manter mobilizada a base bolsonarista. De outro, precisa convencer setores mais moderados do eleitorado e partidos do Centrão de que sua candidatura pode ser competitiva e eleitoralmente segura. O desafio é encontrar um ponto de equilíbrio entre fidelidade ao núcleo duro do bolsonarismo e capacidade de ampliar a própria base.
MODERAÇÃO – Essa equação já havia aparecido nas negociações anteriores. Em abril, quando PP e União Brasil ainda sinalizavam aproximação, as condições colocadas pelas lideranças partidárias envolviam justamente a necessidade de uma campanha mais moderada e menos dependente do discurso radical. A mudança de cenário mostra como a construção da candidatura de Flávio permanece sujeita a cálculos políticos que vão muito além da relação familiar com Jair Bolsonaro.
Há ainda um componente simbólico que não pode ser ignorado. Durante anos, o bolsonarismo se apresentou como uma força capaz de desafiar o sistema político tradicional. Agora, seu principal candidato precisa justamente desse sistema para ampliar suas chances eleitorais. A dependência de partidos do Centrão, do tempo de propaganda e das alianças regionais expõe um paradoxo: a força que nasceu em oposição à política tradicional precisa negociar com ela para chegar ao Palácio do Planalto.
O afastamento nacional de União Brasil e PP também deve ser lido dentro de uma disputa mais ampla pela reorganização da direita brasileira. O Centrão não parece disposto a entregar antecipadamente seu capital político a uma candidatura que ainda enfrenta dificuldades para consolidar alianças e definir sua chapa. A recusa da senadora Tereza Cristina em ser vice de Flávio, por exemplo, acrescentou outra dificuldade à construção da chapa presidencial e reforçou a percepção de que o PL ainda precisa ampliar sua capacidade de articulação.
APROXIMAÇÕES FUTURAS – Isso não significa, evidentemente, que a eleição esteja decidida ou que o bolsonarismo tenha perdido sua capacidade de competição. Política eleitoral é dinâmica, e alianças podem ser refeitas. O próprio comportamento do Centrão demonstra isso: a neutralidade de hoje não impede aproximações futuras, especialmente se as pesquisas, os palanques estaduais ou a conjuntura política alterarem os cálculos dos partidos.
Mas há uma diferença importante entre ter força eleitoral e conseguir organizar uma candidatura presidencial competitiva. Flávio Bolsonaro terá de demonstrar que pode fazer essa transição. Seu desafio não será apenas manter o eleitorado que herdou do pai, mas convencer uma parcela maior do país de que sua candidatura tem condições de vencer. Para isso, precisará construir uma coalizão que vá além do núcleo mais fiel do bolsonarismo.
O episódio envolvendo União Brasil e PP, nesse sentido, funciona como um sinal de alerta. O Centrão não está necessariamente abandonando a direita, muito menos rompendo com o bolsonarismo em todos os estados. Está, antes, recusando-se a apostar todas as fichas, neste momento, em uma candidatura presidencial que ainda não conseguiu reunir uma frente partidária nacional robusta.
RECADO – Na política brasileira, essa diferença é decisiva. O apoio popular pode lançar uma candidatura, mas são as alianças que frequentemente determinam sua capacidade de sobreviver à campanha. Ao chegar à reta decisiva sem o apoio nacional de dois dos maiores partidos do Centrão e ainda enfrentando dificuldades para completar sua chapa, Flávio Bolsonaro recebe um recado claro: o sobrenome Bolsonaro continua sendo um ativo eleitoral, mas já não basta, sozinho, para organizar ao seu redor o conjunto da direita e do centro político.
O golpe, portanto, é menos sobre a propaganda eleitoral e mais sobre a demonstração de força. Ao escolher a neutralidade, União Brasil e PP preservam seus próprios interesses e deixam Flávio diante de uma tarefa que pode ser a mais difícil de sua campanha: provar que o bolsonarismo, sem Jair Bolsonaro como candidato, continua capaz de construir uma maioria política nacional.