Publicado em 22 de julho de 2026 por Tribuna da Internet

Trump coloca país entre os mais taxados
Douglas Gavras
Maeli Prado
Folha
Conforme anunciado pelos Estados Unidos há uma semana, uma nova tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros começou a ser aplicada a partir da 1h01 (horário de Brasília) desta quarta-feira (22). A decisão do governo de Donald Trump afeta cerca de 3.000 produtos e foi tomada a partir de uma investigação da Seção 301, feita pelo USTR (Escritório do Representante do Comércio dos EUA), que examina práticas comerciais consideradas injustas.
A investigação concluiu que práticas brasileiras restringem os negócios de agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores americanos —entre elas estão: comércio digital, serviços de pagamento, tarifas desleais, corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal. Além do etanol, o novo tarifaço deve afetar exportações de máquinas agrícolas, papel e vestuário.
POSIÇÃO NO RANKING – Com a nova leva de tarifas, o Brasil se tornará um dos países mais taxados pelos Estados Unidos, ocupando a segunda posição no ranking, somente atrás da China. Antes da nova tarifa, o Brasil estava na 13ª posição. O governo Lula (PT) estima que o tarifaço atinja 18% das exportações aos EUA. Ainda assim, mais de 2.100 produtos estarão isentos —isso inclui carne, café, petróleo, laranja, suco de laranja e partes para fabricar aviões, produtos de maior peso na pauta exportadora nacional.
Entre as justificativas apresentadas pelos norte-americanos, está a criação do sistema de pagamento Pix, que, segundo a Casa Branca, prejudicou as empresas de cartões de crédito nos Estados Unidos. Outro ponto mencionado é o desmatamento no Brasil, que, segundo os EUA, permite que os agricultores brasileiros operem com custos menores. Isso fez com que o USTR retirasse da lista de produtos isentos a celulose de alta pureza.
O governo brasileiro contesta as alegações, com dados que apontam redução do desmatamento e crescimento das bandeiras americanas de cartões no mercado brasileiro, mesmo durante a implementação do Pix. Além disso, o Brasil possui superávit na balança comercial com os EUA.
PREOCUPAÇÃO – O anúncio de um novo tarifaço preocupa o setor produtivo brasileiro, que viu uma queda em 20 dos 27 estados brasileiros mais o Distrito Federal nas exportações para os Estados Unidos no primeiro trimestre do ano.
A Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio para o Brasil) calcula que mais de US$ 11 bilhões (R$ 55,9 bilhões) em exportações poderão ser afetados agora, em linha com o estimado pela CNI (Confederação Nacional da Indústria). A estimativa do governo é de US$ 5,8 bilhões (R$ 30 bilhões).
“Embora não tenha sido possível alcançar um acordo, as negociações se intensificaram nos últimos meses e seguem sendo o caminho mais eficaz para a retirada das sobretaxas e a construção de uma agenda bilateral mais ampla”, disse em nota Abrão Neto, presidente da Amcham Brasil.
QUEDA – Os exportadores temem que o aumento das tarifas aprofunde a retração do comércio bilateral, que já registra queda de 12,8% no primeiro semestre, segundo dados do Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), fechando em US$ 36,4 bilhões (R$ 184,8 bilhões), com saldo favorável aos Estados Unidos em US$ 1,5 bilhão (R$ 7,6 bilhões).
As tarifas preocupam a indústria, que aponta para o agravamento dos impactos negativos das sobretaxas em vigor desde o ano passado, como a perda de competitividade em relação a fornecedores de outros países.
A CNI destaca que, desde 2025, houve redução de 8,7% nas vendas de bens industriais, com destaque para produtos semimanufaturados de ferro e aço, ferro, pasta de madeira e óleos de petróleo. A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que culpa o governo Lula pelas tarifas, afirmou que vê a aplicação de novas sobretaxas com “profunda preocupação”.
RETROCESSO – Representante de um setor que direciona 20% das suas exportações para os EUA, a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) destacou que as vendas ao país alcançaram US$ 3,2 bilhões (R$ 16,3 bilhões), enquanto as importações totalizaram US$ 4,8 bilhões (R$ 24,4 bilhões). Para a Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados), também um dos setores mais afetados, a decisão representa um retrocesso na relação comercial.
A Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia) criticou a tarifa adicional sobre o etanol brasileiro e afirmou que a política adotada pelo Brasil está conforme as regras da OMC (Organização Mundial do Comércio).
Para a entidade, não há acordo bilateral que obrigue o país a conceder tratamento tarifário diferenciado ao etanol americano. A Unica atribui a queda das exportações dos EUA ao mercado brasileiro principalmente ao aumento da produção nacional, sobretudo de etanol de milho.