sábado, abril 11, 2026

Caso banco Master teve espionagem e teia de 216 fundos e 143 empresas

 

Caso banco Master teve espionagem e teia de 216 fundos e 143 empresas

Dia da liquidação teve enredo de filme policial com informantes, hackers, tentativa de driblar o BC e simulação de compra do banco

Por Adriana Fernandes/Lucas Marchesini/Folhapress

11/04/2026 às 07:00

Atualizado em 11/04/2026 às 08:33

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Arquivo

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Banco Master

Espiões contratados por Daniel Vorcaro já sabiam desde 23 de julho do ano passado que investigadores estavam muito perto de fechar o quebra-cabeça de fraudes que envolveram a tentativa de aquisição do Master pelo BRB (Banco de Brasília).

Naquele dia, uma ação de hackers conseguiu acessar toda a documentação do caso, que estava no computador do procurador Gabriel Pimenta, então responsável pela investigação criminal aberta pelo MPF (Ministério Público Federal) contra o dono do Master.

Só Pimenta tinha acesso aos arquivos do processo que foram parar no dia seguinte no celular do ex-banqueiro.

O acesso ilegal foi descoberto pelo procurador poucos dias após uma varredura nos sistemas pela área de tecnologia do MPF, mas o esquema de espionagem não parou por aí.

A despeito do nível 5, grau máximo de sigilo adotado pela Justiça, o ex-banqueiro também soube com antecedência que o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, havia assinado, por volta das 15h de 17 de novembro, o pedido para prendê-lo na primeira fase da operação Compliance Zero, que investigou a venda de R$ 12,1 bilhões de carteiras de crédito para o BRB.

O vazamento da operação deflagrou um contra-ataque do time de Vorcaro, segundo relatos feitos à reportagem, numa sucessão de eventos comparada por investigadores a um enredo de filme policial. A jogada final de Vorcaro na tentativa de sair ileso seria a fuga do país.

Ao mesmo tempo em que corria para conseguir autorização pelos órgãos de controle do tráfego aéreo para um plano de voo para Malta, no Mediterrâneo, a defesa dele apresentava uma petição ao juiz para revogar qualquer medida cautelar que fosse expedida para evitar a prisão.

No final da tarde, a Fictor Holding Financeira anunciou uma proposta de compra do Master. Para investigadores, o lance não passou de um simulacro para facilitar a fuga de Vorcaro.

Mais cedo, entre 13h30 e 14h10, Vorcaro se reuniu, por videoconferência, com o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, com o então chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana, e o seu adjunto, Paulo Sérgio de Souza. Os dois últimos foram afastados do banco e são investigados por prestar suposta consultoria informal ao ex-banqueiro.

Na reunião, o dono do Master falou das iniciativas que estariam em curso em busca de uma solução de mercado que evitasse a liquidação do banco. O relato apresentado incluía a hipótese de venda da instituição a potenciais investidores estrangeiros. Ele chegou a informar que viajaria a Dubai para avançar nas tratativas.

A fala acendeu a desconfiança no BC do risco de fuga, reforçada pelo fato de que o ex-banqueiro tinha pedido para antecipar para aquela segunda-feira um encontro que estava marcado só para o fim daquela semana.

Enquanto as conversas com o BC aconteciam, a PF monitorava os passos de Vorcaro. Os policiais identificaram pelo menos três planos de voo. A defesa de Vorcaro sempre negou a tentativa de fuga, alegando que ele estava embarcando para Dubai para contatos com compradores.

Integrantes da corporação avaliam que a existência de mais de uma rota comprovaria que ele tentava fugir do país e que foi abastecido por informantes, como mostraram depois mensagens retiradas do celular trocadas com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o "Sicário".

Identificado pela PF como operador central de um grupo chamado "A Turma", ele coordenava atividades voltadas à obtenção de informações e monitoramento de pessoas e uso de violência.

Mourão morreu, no início de março, após tentativa de suicídio em uma cela da superintendência do órgão em Minas Gerais, segundo informações da PF, logo depois de ter sido preso na segunda fase da Compliance Zero.

Espiões contratados por Daniel Vorcaro já sabiam desde 23 de julho do ano passado que investigadores estavam muito perto de fechar o quebra-cabeça de fraudes que envolveram a tentativa de aquisição do Master pelo BRB (Banco de Brasília).

Naquele dia, uma ação de hackers conseguiu acessar toda a documentação do caso, que estava no computador do procurador Gabriel Pimenta, então responsável pela investigação criminal aberta pelo MPF (Ministério Público Federal) contra o dono do Master.

Só Pimenta tinha acesso aos arquivos do processo que foram parar no dia seguinte no celular do ex-banqueiro.

O acesso ilegal foi descoberto pelo procurador poucos dias após uma varredura nos sistemas pela área de tecnologia do MPF, mas o esquema de espionagem não parou por aí.

A despeito do nível 5, grau máximo de sigilo adotado pela Justiça, o ex-banqueiro também soube com antecedência que o juiz Ricardo Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, havia assinado, por volta das 15h de 17 de novembro, o pedido para prendê-lo na primeira fase da operação Compliance Zero, que investigou a venda de R$ 12,1 bilhões de carteiras de crédito para o BRB.

O vazamento da operação deflagrou um contra-ataque do time de Vorcaro, segundo relatos feitos à reportagem, numa sucessão de eventos comparada por investigadores a um enredo de filme policial. A jogada final de Vorcaro na tentativa de sair ileso seria a fuga do país.

Ao mesmo tempo em que corria para conseguir autorização pelos órgãos de controle do tráfego aéreo para um plano de voo para Malta, no Mediterrâneo, a defesa dele apresentava uma petição ao juiz para revogar qualquer medida cautelar que fosse expedida para evitar a prisão.

No final da tarde, a Fictor Holding Financeira anunciou uma proposta de compra do Master. Para investigadores, o lance não passou de um simulacro para facilitar a fuga de Vorcaro.

Mais cedo, entre 13h30 e 14h10, Vorcaro se reuniu, por videoconferência, com o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino, com o então chefe do departamento de Supervisão Bancária, Belline Santana, e o seu adjunto, Paulo Sérgio de Souza. Os dois últimos foram afastados do banco e são investigados por prestar suposta consultoria informal ao ex-banqueiro.

Na reunião, o dono do Master falou das iniciativas que estariam em curso em busca de uma solução de mercado que evitasse a liquidação do banco. O relato apresentado incluía a hipótese de venda da instituição a potenciais investidores estrangeiros. Ele chegou a informar que viajaria a Dubai para avançar nas tratativas.

A fala acendeu a desconfiança no BC do risco de fuga, reforçada pelo fato de que o ex-banqueiro tinha pedido para antecipar para aquela segunda-feira um encontro que estava marcado só para o fim daquela semana.

Enquanto as conversas com o BC aconteciam, a PF monitorava os passos de Vorcaro. Os policiais identificaram pelo menos três planos de voo. A defesa de Vorcaro sempre negou a tentativa de fuga, alegando que ele estava embarcando para Dubai para contatos com compradores.

Integrantes da corporação avaliam que a existência de mais de uma rota comprovaria que ele tentava fugir do país e que foi abastecido por informantes, como mostraram depois mensagens retiradas do celular trocadas com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o "Sicário".

Identificado pela PF como operador central de um grupo chamado "A Turma", ele coordenava atividades voltadas à obtenção de informações e monitoramento de pessoas e uso de violência.

Mourão morreu, no início de março, após tentativa de suicídio em uma cela da superintendência do órgão em Minas Gerais, segundo informações da PF, logo depois de ter sido preso na segunda fase da Compliance Zero.

ESTADO TERMINAL

A estratégia de Vorcaro não deu certo. Ele foi preso pela PF no aeroporto de Guarulhos na noite do dia 17. O colegiado do BC já tinha aprovado a liquidação do Master, quase na mesma hora em que o juiz assinou a prisão.

O anúncio só foi feito no dia seguinte (18) depois que o liquidante Eduardo Félix Bianchini entrou no prédio do Master em São Paulo. O BC concluiu que o conglomerado enfrentava uma crise crônica de liquidez, que evoluiu para uma crise aguda e insustentável:

"As estratégias de negócios inadequadas, acompanhadas de graves irregularidades e ilícitos (incluindo cessão de créditos inexistentes e descumprimento reiterado de normas regulatórias), aliadas à composição de ativos de baixa liquidez e à frustração de soluções de mercado, justificaram a adoção imediata de medidas saneadoras", justificou o BC em relatório ao TCU (Tribunal de Contas da União).

Funcionários antigos do BC contaram à reportagem que nunca tinham visto tanta pressão sobre o órgão. Em depoimento à CPI do crime organizado, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, relatou um episódio às vésperas da decisão de veto à operação com o BRB, em setembro, que retrata a situação:

"Na semana da rejeição da compra do BRB, eu me lembro de fazer o caminho da minha residência até o BC e não havia um ponto de ônibus em que não tivesse a foto de um diretor do BC [Renato Gomes] acusado por rejeitar a aquisição, [dizendo] que ele estava fazendo um trabalho político por estar rejeitando", contou.

Imagens com a foto do então diretor Renato Gomes, responsável pela área que analisou e recomendou o veto à operação, foram espalhadas em painéis luminosos gerenciados pelo Metrópoles em Brasília, apontando ele como responsável por dificultar o negócio. O ex-senador Luiz Estevão disse recentemente à Folha que os painéis exibem, além de propagandas, reportagens jornalísticas.

"Conforme conhecimento público, diversos veículos de comunicação firmaram contratos de publicidade com a dupla Master/BRB", completou.

Na véspera da negativa, partidos do Centrão na Câmara assinaram requerimento de urgência para um projeto de lei permitindo ao Congresso destituir presidentes e diretores do BC.

Os dois movimentos resultaram numa união maior no colegiado do BC, que no início do processo estava dividido. Essa fragmentação ficou representada pelos diretores Aquino, que defendia uma venda do banco, e Gomes, que era a favor de uma liquidação mais rápida.

No dia do anúncio da liquidação, o Master tinha em caixa R$ 4,8 milhões, enquanto os vencimentos de CDBs (Certificados de Depósitos Bancários) eram de R$ 48,6 milhões naquela data. Somando os vencimentos de toda aquela semana, o passivo era de R$ 123,8 milhões.

O banco de Vorcaro terminou com um déficit de liquidez imediato superior a 2.400%. Ao TCU, o BC disse que a liquidação reduziu os custos para a sociedade e o FGC (Fundo Garantidor de Crédito).

Procurada nesta quinta (9) e sexta-feira (10), a defesa de Vorcaro não se manifestou.

TEIA DE FUNDOS E EMPRESAS

As fraudes do Master contavam com pelo menos 216 fundos diferentes e 143 empresas, de acordo com levantamento da Folha, que começou a ser montado a partir de janeiro deste ano. Um software especial foi utilizado para montar as conexões como se fossem um sistema solar e seus satélites. A lista é abastecida regularmente.

O fio dessa rede começou a ser puxado com base nos seis fundos da Reag, identificados como suspeitos pelo BC na investigação sobre o Master: Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna. Juntos, eles tinham um patrimônio líquido de R$ 102,4 bilhões.

Nesses fundos estão os ativos usados por Vorcaro para operar as fraudes, como os papéis podres do extinto Besc (Banco do Estado de Santa Catarina), conhecidas como cártulas, e créditos de carbono.

Esses ativos de difícil avaliação tinham o seu valor estimado como bilionário pelos fundos. A partir daí, suas cotas se valorizavam.

O dinheiro obtido era injetado em outros fundos e empresas da ciranda de fraudes. Em um desses casos, o dinheiro serviu para comprar a mansão de R$ 36 milhões que Vorcaro usava quando estava em Brasília e que foi frequentada por autoridades.

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