Publicado em 23 de novembro de 2025 por Tribuna da Internet

Entidades de previdência fizeram apostas arriscadas
Pedro do Coutto
O escândalo do Banco Master escancarou um problema grave em que poder político, gestão de fundos de pensão e risco financeiro se combinam de forma explosiva. Fundos de previdência de servidores — especialmente a Rioprevidência, do Estado do Rio, e a Amprev, do Amapá — investiram juntos quase R$ 2 bilhões em letras financeiras emitidas pelo Master, títulos que não têm garantia do FGC.
No caso do Rioprevidência, o investimento foi especialmente preocupante: cerca de R$ 960 milhões, que representam quase 10% do patrimônio do fundo.E isso ocorreu mesmo depois de alertas do Tribunal de Contas do Estado do Rio (TCE-RJ), que apontou irregularidades nas operações.
ESFERA POLÍTICA – Já a Amprev, do Amapá, tem uma relação ainda mais sensível com a esfera política: Alberto Alcolumbre, irmão do senador Davi Alcolumbre, faz parte do conselho fiscal da entidade. O presidente da Amprev, Jocildo Lemos, foi indicado por Davi Alcolumbre, segundo relatos.Mesmo com alertas formais — do TCU e do Ministério Público Federal — sobre os riscos dos papéis do Master, a Amprev seguiu investindo.
O Banco Central, por sua vez, decretou recentemente a liquidação extrajudicial do Master, após constatar uma séria crise de liquidez e “graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional”. A decisão levou à indisponibilidade dos bens dos controladores e ex-administradores do banco, segundo o BC. Para os fundos de pensão investidos, isso representa um risco real: os títulos adquiridos — letras financeiras — poderão não ser resgatados integralmente no processo de liquidação, que tende a ser longo.
Politicamente, a situação ganha contornos ainda mais sensíveis justamente pela conexão entre a Alcolumbre e a Amprev. A suspeita de que teria havido favorecimento — ou ao menos uma decisão de investimento politicamente influenciada — alimenta críticas sobre governança e conflito de interesse. Se confirmado, poderíamos estar diante de um caso de tráfico de influência ou de má gestão institucional, com graves impactos para os servidores públicos que confiaram seus recursos de aposentadoria a esses fundos.
FRAGILIDADES – Além disso, o episódio evidencia fragilidades maiores no sistema de previdência complementar e no mercado financeiro: fundos de pensão, por vezes, concentram grandes quantias em bancos menos sólidos, motivados por taxas altas de retorno, mas sem a devida proteção regulatória. No caso do Master, suas letras financeiras se mostraram atraentes, porém extremamente arriscadas — e agora expõem os segurados a perdas que podem penalizar diretamente suas futuras pensões.
É urgente que haja uma investigação independente, com auditoria dos fundos afetados, para que se apure com rigor se houve decisão técnica ou política nas aplicações. Também é necessário que o Banco Central e outros órgãos reguladores fortaleçam as regras para impedir que entidades de previdência façam apostas arriscadas sem uma governança robusta. Por fim, as lideranças políticas envolvidas — especialmente aquelas com laços familiares ou institucionais — precisam dar explicações claras à sociedade.
Em última análise, esse caso do Master é um alerta duro: não basta apenas regular o mercado financeiro, é preciso blindar a gestão da previdência pública contra interesses que possam comprometer o futuro de quem mais depende dela.