José Ivandro
Foto: Arquivo Tribuna do PovoAndando pelas ruas do Acampamento Chesf, percebo a cada dia uma mudança dolorosa no visual daquele lugar que sempre me encantou. Antes tão arborizado, tão fresco, tão acolhedor, agora caminha na contramão do que se recomenda para qualquer cidade que se preocupa minimamente com qualidade de vida. Árvores somem da paisagem como se não fizessem falta — mas fazem, e muita.
E não são árvores quaisquer. São as nossas queridas Caraibeiras, tão presentes na cultura local, cantadas em prosa e verso, celebradas até recentemente em uma semana inteira dedicada a elas. Uma homenagem irônica, ao que parece, já que, no cotidiano, elas vêm sendo simplesmente expurgadas do cenário urbano.
Hoje, ao passar pela praça do CPA, contei ao menos sete árvores cortadas. Algumas delas com certeza Caraibeiras de cerca de 40 anos, maduras, imponentes, que proporcionavam sombra, frescor e beleza. Qual foi o motivo de sua remoção? Alguém sabe? Alguém explicou? No entorno do CPA o quadro se repete: árvores retiradas para “desobstruir” fachadas, como se a arquitetura importasse mais que o bem-estar de quem circula pelas ruas.
E o que mais me espanta é que esse fenômeno se intensificou justamente depois que o município ganhou uma Secretaria de Meio Ambiente, cuja função, ao menos na teoria, deveria ser proteger essas árvores, e não assistir, passivamente, ao seu desaparecimento. Em várias cidades brasileiras, planos de arborização urbana estabelecem critérios rigorosos para a retirada de árvores de grande porte, justamente porque elas desempenham funções ambientais essenciais: ajudam na redução da temperatura, aumentam a permeabilidade do solo, favorecem a biodiversidade. Em Paulo Afonso, porém, a lógica inversa vêm prevalecendo.
Quando retiram as Caraibeiras, a justificativa costuma ser vaga: “estavam doentes”. Mas onde estão os laudos? Onde está a transparência? E, principalmente, onde está a reposição? Porque nada é plantado no lugar, no máximo palmeiras pequenas ou espécies de porte reduzido, incapazes de cumprir o papel das antigas moradoras daquele espaço. Adeus sombra, adeus conforto térmico, adeus identidade paisagística do antigo acampamento, da cidade.
Há bem pouco tempo uma das árvores mais bonitas da cidade, foi removida para "abrir espaço" para a Ciclovia, sem que se apresentasse um motivo razoável, já que todos que visitaram o local condenaram a atitude. O que esperar de quem age assim?
https://www.tribunadopovo.net/noticia/9861/paulo-afonso/geral/o-avanco-do-concreto-sobre-as-caraibeiras.html
Nota da redação deste Blog :
A Crônica da Regressão Urbana: A Patologia da Destruição de Craibeiras em Jeremoabo e Além
É com um misto de indignação e tristeza que observamos o que parece ser uma patologia recorrente no âmbito da gestão pública: a inexplicável e brutal decepação de árvores nativas que adornam e dão vida às nossas cidades. O caso de Jeremoabo e Paulo Afonso, onde o ex-gestorde Jeremoabo foi alvo de críticas por ter suprimido inúmeras craibeiras de ruas, praças e vias públicas, é um sintoma alarmante dessa regressão no trato com o patrimônio natural e paisagístico.
Não se trata de um incidente isolado. A coincidência, ou talvez a confirmação de um padrão destrutivo, revela que alguns gestores demonstram uma estranha incapacidade de apreciar as belezas da natureza, em particular árvores nativas e majestosas como as craibeiras (Tabebuia aurea).
🌼 A Majestade da Craibeira: Mais que Madeira
A craibeira, com sua floração exuberante de um amarelo vibrante que anuncia a chegada de estações e embeleza a paisagem, é muito mais do que um ornamento:
Patrimônio Biológico e Paisagístico: É uma espécie nativa, perfeitamente adaptada ao clima da região, que oferece sombra generosa, conforto térmico e uma identidade visual única à cidade.
Serviços Ecossistêmicos: A presença de árvores em áreas urbanas é vital. Elas ajudam na filtragem do ar, na redução da poluição sonora, na diminuição das ilhas de calor (um fator crucial em cidades quentes) e servem de abrigo e alimento para a fauna local.
Qualidade de Vida: Pesquisas demonstram que a proximidade com áreas verdes e árvores melhora o bem-estar psicológico e a saúde dos cidadãos.
A remoção dessas árvores não é apenas um ato de vandalismo ambiental, mas um tiro no pé do próprio desenvolvimento e da qualidade de vida urbana.
📉 Regressão: O Sinal de que Não Estamos Evoluindo
O cerne da questão reside na aparente regressão da nossa espécie. Como seres humanos, em vez de evoluirmos para uma consciência ambiental e urbanística mais sofisticada, parece que retrocedemos a um estágio onde o concreto e a conveniência imediatista (e muitas vezes questionável) se sobrepõem à sabedoria da natureza e ao planejamento de longo prazo.
O Paradoxo da Gestão: A gestão pública, que deveria zelar pelo bem-estar e pelo futuro da cidade, adota a prática de destruir o que levou décadas para crescer e amadurecer. Essa ação reflete uma visão míope e imediatista do espaço urbano, onde a sombra e a beleza são vistas como "obstáculos" e não como "ativos".
⚠️ A Urgência da Responsabilidade Cidadã
A crítica ao ex-gestor de Jeremoabo, e a qualquer outro que cometa ato semelhante, não deve parar na indignação. Ela precisa ser o catalisador para uma mudança de paradigma na forma como as cidades são geridas:
Exigir Transparência: Todo corte de árvore deve ser precedido de um laudo técnico transparente, com motivos justificáveis e a devida autorização dos órgãos ambientais competentes.
Educação Ambiental para Gestores: É fundamental que os líderes municipais e suas equipes técnicas compreendam o valor inestimável da arborização urbana.
Planejamento de Longo Prazo: É necessário implementar Planos Diretores de Arborização que prevejam o plantio de espécies nativas e adequadas, garantindo a reposição e a manutenção do patrimônio arbóreo.
A atitude de decepar craibeiras é um triste símbolo de uma gestão que falha em enxergar a cidade em sua totalidade, priorizando a intervenção bruta em detrimento da convivência harmoniosa com o meio ambiente. Que o caso de Jeremoabo e Paulo Afonso, sirva de lição e alerta para que a beleza, a sombra e a vida que as craibeiras representam não sejam mais vítimas da ignorância e da patologia destrutiva. A evolução, em contexto urbano, também se mede pelo respeito às árvores. (José Montalvão)

