quarta-feira, novembro 05, 2025

Não há mal que não traga um bem? — O massacre nos morros e a verdade que as chamas revelaram


Há um velho ditado: “Não há mal que não traga um bem”. Difícil — e doloroso — encaixar essa frase diante de corpos, casas afundadas no medo e famílias rasgadas pela violência. Ainda assim, é legítimo e necessário olhar para o que sobressai depois da tragédia: o que esse abismo de sangue expôs sobre o crime organizado, suas verdadeiras rotas de poder e os nexos que atravessam a sociedade.

No final de outubro de 2025, uma operação que deixou mais de uma centena de mortos nos complexos da Penha e do Alemão reacendeu o debate público e político sobre a estrutura real das facções. A repercussão nacional foi imediata: diante do estardalhaço e da consternação, o Senado instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o crime organizado e suas conexões. Essa reação institucional mostrou que, por pior que seja a matança, algo útil — uma janela de investigação — pode emergir. Correio Braziliense+1

O primeiro equívoco a ser derrubado é a visão simplista e visual: os morros como “fabricantes” de chefes. A realidade é outra. Historicamente e nos relatórios das investigações mais robustas, a cúpula das facções aprendeu a se proteger: muitos líderes evitam o convívio permanente nas zonas de conflito, preferindo viver ou proteger bens em condomínios de alto padrão, mansões e até esconder-se fora do país. Essas residências de luxo servem tanto para ostentar quanto para ocultar patrimônio e redes de lavagem de dinheiro. Operações da polícia e do Ministério Público já encontraram arsenais, bunkers e sinais de lavagem ligados a mansões e empreendimentos de alto padrão. Metrópoles+1

Esse deslocamento estratégico traduz uma transformação: as facções não operam apenas como “gangues de rua”, mas como organizações com departamentos — captação de recursos, logística, lavagem de dinheiro, comunicação. Lideranças que estão presas ou foragidas continuam a emitir ordens e gerir negócios com a sofisticação de corporações criminosas, usando celulares, advogados, laranjas e o mercado imobiliário para dar aparência de legalidade ao produto do crime. O aprisionamento de um nome famoso não significa o fim do seu comando — ao contrário: o sistema prisional, por vezes, serviu para fortalecer estruturas de mando. Agência Brasil+1

Por que, então, a matança de “peixes pequenos” é inútil — além de bárbara? Porque a violência seletiva que mata membros de baixa hierarquia não arranca a raiz do problema. Quando se elimina “soldados” do tráfico, as facções descartam e substituem; a cadeia produtiva do crime (compra, transporte, distribuição, arrecadação e lavagem) é resiliente. Chegar ao topo exige investigação financeira, controle de bens, quebras de sigilo bancário, cooperação internacional e mapeamento das redes que tangenciam setores “legítimos” — incorporadoras, advogados, operadores imobiliários, laranjas. Sem atacar essas bases, as mortes nas favelas só aprofundam a tragédia social e permitem que o problema se reproduza. Agência Brasil+1

Outra verdade desconfortável: parte da proteção que permite a vida em luxo para chefões é a cumplicidade — ativa ou passiva — de setores do poder público e de empresários que se beneficiam. Há casos documentados de políticos, ex-policiais e intermediários que atuaram como ponte entre o mundo “oficial” e as facções, convertendo lucros ilícitos em patrimônio legítimo. A CPI recém-instalada terá, pois, de mirar não só nos milhares de mortos nas comunidades, mas nas rotas do dinheiro e no nexo entre crime, impunidade e interesses econômicos. O Tempo+1

O que a sociedade e o Estado precisam fazer — e que essa tragédia, por terrível que seja, pode empurrar para a agenda — é um conjunto de medidas integradas:

  1. Investigações financeiras coordenadas: ações que acompanhem o rastro do dinheiro, desde depósitos suspeitos até aquisições imobiliárias e empresas de fachada. Sem atacar a lavagem, as capturas pontuais serão cosméticas. Metrópoles

  2. Quebra de proteção institucional: identificar e responsabilizar servidores públicos, políticos e empresários que compactuam ou se beneficiam. Transparência e punição são essenciais. O Tempo

  3. Reforma do sistema prisional e controle de comunicação: reduzir a possibilidade de chefes comandarem de dentro das cadeias exige respostas técnicas no sistema penitenciário e melhor monitoramento das comunicações. DSpace MJ

  4. Políticas sociais e presença estatal: combater o ciclo da violência passando por educação, emprego e serviços públicos nas periferias — nada substitui investimento social de longo prazo. Agência Brasil

  5. Cooperação internacional: quando o dinheiro e os foragidos cruzam fronteiras, é preciso agir além do pórtico nacional — acordos de extradição, congelamento de ativos no exterior, troca de inteligência. YouTube

Nenhum desses passos é simples. Mas o que ficou claro nas últimas semanas é que olhar apenas para corpos nos morros é atirar nos sintomas. A chance real de transformar o “mal” em um bem coletivo — justiça, responsabilização e políticas públicas eficazes — passa por usar a comoção pública e a CPI para abrir caixas, seguir trilhas financeiras e expor os nós de poder que permitem que o crime se reproduza no mais alto patamar social.

O sangue derramado exige resposta: não vingança cega, mas investigação rigorosa, responsabilização ampla e reformas reais. Se algo de útil pode nascer dessa escuridão, é a convicção — pública e institucional — de que o problema só será vencido quando o Estado enfrentar não apenas os “peixes pequenos”, mas os tubarões que nadam nas águas limpas do dinheiro e do poder


José Montalvão -  Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, proprietário do Blog DedeMontalvão, matrícula ABI C-002025  

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