
Brasil demonstra que não perdeu relevância ou prestígio
Marcelo Copelli
Revista Fórum
Num raro alinhamento entre geopolítica, economia e disputa institucional, o governo dos Estados Unidos anunciou o fim da tarifa de 40% sobre produtos agrícolas brasileiros justamente na semana em que o Supremo Tribunal Federal tornou réu o deputado Eduardo Bolsonaro. A coincidência é reveladora: expõe, com clareza quase cirúrgica, dois projetos antagônicos que hoje disputam o rumo do país — um que recompõe pontes internacionais e outro que se fragmenta sob o peso de contradições internas e dilemas judiciais.
A remoção das tarifas corrige um desvio que havia desorganizado exportadores, comprimido margens e tensionado a relação bilateral com Washington. Mais do que um acerto técnico, o gesto consagra a eficácia de uma diplomacia conduzida com método, discrição e persistência pelo governo Lula da Silva. A resposta brasileira evitou escaladas retóricas, recusou movimentos impulsivos e apostou em diálogo qualificado com atores de Estado — uma estratégia que, em vez de ceder à pressão do conflito, privilegiou resultados concretos e restabeleceu confiança entre as partes.
NARRATIVA – Ao desmontar um dos símbolos das barreiras impostas por Donald Trump, a decisão americana desfaz a narrativa segundo a qual o Brasil teria perdido relevância ou prestígio. Na prática, reabre mercados, sinaliza confiança e recoloca o país em uma rota de previsibilidade internacional. Para o agronegócio — setor historicamente associado à oposição — é um gesto que transcende a lógica comercial e reverbera no debate eleitoral que se aproxima.
O contraste torna-se ainda mais expressivo diante do avanço do processo judicial contra Eduardo Bolsonaro. A acusação de ter buscado, em solo americano, formas de pressionar instituições brasileiras ilumina a contradição estrutural do bolsonarismo: proclamar nacionalismo enquanto recorre a mecanismos externos para fragilizar o próprio Estado. A denúncia, ao revelar essas movimentações, corrói um dos pilares do discurso da direita radical e amplia seu desgaste político e moral.
ANISTIA – A crise se aprofunda quando se observa a situação de Jair Bolsonaro. Condenado por tentativa de golpe e prestes a entrar na fase de execução da pena de 27 anos e três meses, o ex-presidente enfrenta o esvaziamento de seu principal escudo político: a promessa de uma “anistia ampla e irrestrita”. O Congresso, sensível ao custo eleitoral de associar-se a iniciativas de autoproteção da família Bolsonaro, recua. A direita radical, antes coesa, se fragmenta entre defensores de uma saída impossível e parlamentares receosos de comprometer sua própria sobrevivência política.
Neste contexto, a retirada das tarifas projeta um contraste inequívoco. De um lado, um governo que reconstrói credibilidade internacional, estabiliza relações estratégicas e opera com racionalidade diplomática. De outro, uma oposição em processo acelerado de desgaste, marcada por crises judiciais, tensões internas e perda de ressonância social. O episódio não apenas reorganiza o tabuleiro político; redefine a percepção pública sobre capacidade de governo e responsabilidade institucional.
A decisão de Washington, portanto, ultrapassa sua função comercial para tornar-se marcador político e metáfora de um momento histórico. É um Brasil que retoma seu lugar no mundo no exato instante em que o bolsonarismo enfrenta o ápice de sua implosão. E é também um lembrete de que, na arena internacional — assim como na doméstica — resultados concretos tendem a falar mais alto do que narrativas artificiais. Aqui, o contraste não poderia ser mais eloquente.