domingo, novembro 23, 2025

🌟 A Casa de Oitenta Anos: Crônica da Demolição e o Preço da Impermanência na Memória Urbana



 Onde Antes Existia um Lar, Hoje Resta Apenas um Terreno:

Um Artigo Sobre a Impermanência, a Memória e a Força do Tempo.

Por: José Montalvão

Há momentos na jornada humana em que a filosofia deixa de ser mera abstração para tornar-se a única linguagem capaz de traduzir a realidade da perda. O desaparecimento de um lar – um espaço que abrigou oitenta anos de vida, atravessou gerações e testemunhou a passagem silenciosa do tempo – é um desses instantes em que somos confrontados com a lei inexorável da impermanência. Onde antes existia vida pulsante, hoje repousa um terreno vazio que, paradoxalmente, permanece carregado de significado.

Heráclito de Éfeso já nos advertia: “Nada é eterno, tudo se transforma.” Seu famoso rio, no qual nunca se entra duas vezes, também corre através da minha história. O rio da minha antiga residência secou; a casa se desmaterializou; e o “eu” que nela habitou também já não é o mesmo. O ciclo visível se encerrou, mas a sua essência, essa, persiste — intocada e indestrutível.


A Conversão do Material em Imaterial

A sabedoria científica de Lavoisier ecoa esse mesmo destino: “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.”
As paredes que ruíram, o telhado que caiu, o quintal que emudeceu — nada disso se perdeu no vazio. Tudo se converteu em memória, afeto, lembrança e história. Esses elementos imateriais, delicadamente guardados na consciência, são mais duradouros que qualquer tijolo.

Heidegger, o filósofo do “ser-que-habita”, nos lembra que homem e casa não são separados: habitar é existir. A casa não era apenas a soma de seus cômodos; era o alicerce geográfico da minha identidade, o eixo emocional que sustentava meu percurso no mundo. Sua demolição não representou apenas uma destruição física, mas um processo profundo de interiorização: o lar, expulso do espaço concreto, refugiou-se definitivamente na alma.


A Eterna Morada da Memória

Mesmo após mais de uma década de ausência, ver a casa desaparecer foi um momento de ruptura visceral. Foram oito décadas de raízes fincadas, laços familiares, vozes, passos, celebrações, dores e superações. Quando um lar cai, uma parte de nós se despede. Porém, o que permanece é o que realmente importa.

A casa segue viva — não na paisagem, mas em mim.
Ela é o cenário eterno de risos, silêncios, cheiros, gestos, encontros e despedidas.
É o espaço imaterial onde minha história repousa em segurança.


O Preço Coletivo da Demolição: Um Apelo à Memória Urbana

A perda de um lar pessoal transcende o indivíduo; alcança a comunidade.
Casas antigas são arquivos vivos. Elas registram não apenas vidas privadas, mas capítulos inteiros da história urbana. Representam modos de viver, épocas, estilos arquitetônicos, economias e sociabilidades.

Demolir uma casa de oitenta anos não libera apenas um novo terreno:
cria-se uma lacuna na memória coletiva, uma espécie de amnésia arquitetônica.
É a ruptura da narrativa visual da rua, da vizinhança e da própria cidade.

Uma cidade não é definida apenas pelo que constrói, mas pelo que tem maturidade e sensibilidade para preservar.


O Terreno: Um Espaço Vazio Apenas em Aparência

O terreno hoje desocupado não é um vazio.
É um repositório sagrado — um altar da memória.
Carrega o peso das heranças afetivas, dos passos que ali ecoaram por décadas e da certeza profunda de que aquilo que verdadeiramente importa nunca pertenceu à matéria, mas ao espírito.


E Assim a Vida Continua

Sigo em frente, munido da serenidade que apenas a aceitação filosófica é capaz de proporcionar. Carrego comigo as eternas lembranças daquele lar que, embora fisicamente extinto, permanece vivo onde nada pode destruí-lo: na eternidade da alma.

Pois certas moradas não foram feitas para durar no espaço — mas para perdurar no tempo.

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