Onde Antes Existia um Lar, Hoje Resta Apenas um Terreno:
Um Artigo Sobre a Impermanência, a Memória e a Força do Tempo.
Por: José Montalvão
Há momentos na jornada humana em que a filosofia deixa de ser mera abstração para tornar-se a única linguagem capaz de traduzir a realidade da perda. O desaparecimento de um lar – um espaço que abrigou oitenta anos de vida, atravessou gerações e testemunhou a passagem silenciosa do tempo – é um desses instantes em que somos confrontados com a lei inexorável da impermanência. Onde antes existia vida pulsante, hoje repousa um terreno vazio que, paradoxalmente, permanece carregado de significado.
Heráclito de Éfeso já nos advertia: “Nada é eterno, tudo se transforma.” Seu famoso rio, no qual nunca se entra duas vezes, também corre através da minha história. O rio da minha antiga residência secou; a casa se desmaterializou; e o “eu” que nela habitou também já não é o mesmo. O ciclo visível se encerrou, mas a sua essência, essa, persiste — intocada e indestrutível.
A Conversão do Material em Imaterial
Heidegger, o filósofo do “ser-que-habita”, nos lembra que homem e casa não são separados: habitar é existir. A casa não era apenas a soma de seus cômodos; era o alicerce geográfico da minha identidade, o eixo emocional que sustentava meu percurso no mundo. Sua demolição não representou apenas uma destruição física, mas um processo profundo de interiorização: o lar, expulso do espaço concreto, refugiou-se definitivamente na alma.
A Eterna Morada da Memória
Mesmo após mais de uma década de ausência, ver a casa desaparecer foi um momento de ruptura visceral. Foram oito décadas de raízes fincadas, laços familiares, vozes, passos, celebrações, dores e superações. Quando um lar cai, uma parte de nós se despede. Porém, o que permanece é o que realmente importa.
O Preço Coletivo da Demolição: Um Apelo à Memória Urbana
Uma cidade não é definida apenas pelo que constrói, mas pelo que tem maturidade e sensibilidade para preservar.
O Terreno: Um Espaço Vazio Apenas em Aparência
E Assim a Vida Continua
Sigo em frente, munido da serenidade que apenas a aceitação filosófica é capaz de proporcionar. Carrego comigo as eternas lembranças daquele lar que, embora fisicamente extinto, permanece vivo onde nada pode destruí-lo: na eternidade da alma.
Pois certas moradas não foram feitas para durar no espaço — mas para perdurar no tempo.
