
A prisão preventiva redefine a trajetória política de Bolsonaro
Pedro do Coutto
A prisão preventiva de Jair Bolsonaro, decretada após a tentativa — por ele próprio narrada — de romper a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda, não é um episódio isolado, mas o capítulo mais explícito de um processo em que o ex-presidente revela, sem filtros, sua disposição de se livrar das amarras judiciais a qualquer custo. A possível intenção de que pretendia se evadir da prisão domiciliar e, quem sabe, buscar asilo em uma embaixada estrangeira desmonta de forma definitiva o discurso reiterado de perseguição política e expõe uma estratégia de autopreservação que já vinha se insinuando em seus movimentos desde agosto.
Nos últimos meses, o país assistiu a uma escalada de condutas que, vistas de forma isolada, poderiam parecer apenas mais um conjunto de afrontas à institucionalidade — algo comum no repertório político bolsonarista. Mas, observadas em sequência, compõem o retrato de um ex-presidente ciente do cerco jurídico que o envolve e disposto a recorrer tanto a subterfúgios quanto à mobilização de sua base radical para tentar abrir rotas de fuga, literais e políticas.
LIMITES – A decisão do ministro Alexandre de Moraes, que converteu a prisão domiciliar em preventiva, se apoia justamente nesse padrão reiterado. A tentativa de romper a tornozeleira é apenas o gesto mais explícito, quase simbólico: não se trata apenas de desobedecer à medida cautelar, mas de anunciar que não reconhece mais os limites impostos pelo sistema judicial. É a ruptura física e política, um ato que demonstra desprezo pelas instituições e, ao mesmo tempo, medo das consequências que se avolumam.
As instituições brasileiras, que historicamente se mostraram ambíguas diante de figuras poderosas, agora se deparam com um caso em que a manutenção da ordem processual depende não apenas da punição a delitos já julgados, mas da contenção preventiva de condutas que colocam em risco a própria aplicação da Justiça. Em outras palavras, o Judiciário percebeu que Bolsonaro, longe de ser um réu resignado, segue operando como líder de um movimento político que usa a desinformação, a mobilização digital e até a desorganização institucional como instrumentos de sobrevivência.
MÉTODOS CLANDESTINOS – A tentativa do ex-presidente revela um paradoxo inquietante: Bolsonaro, que por anos se apresentou como defensor da ordem, da lei e da autoridade, termina seu percurso político às voltas com métodos clandestinos de evasão e articulações de bastidores para buscar proteção diplomática. Ao admitir que cogitou asilo, ele próprio compromete sua narrativa de inocência perseguida. Quem acredita que está sendo punido injustamente busca provar sua inocência; não busca refúgio em embaixadas.
É também um gesto que isola o bolsonarismo. Seus aliados sabem que acompanhar Bolsonaro nessa fronteira da ilegalidade não é apenas politicamente arriscado — é eleitoralmente suicida. A possibilidade de fuga mina a aura de coragem que sempre tentou cultivar e transforma o ex-presidente num líder vulnerável, quase errático, dependente da mobilização de seguidores justamente para evitar a execução plena das decisões judiciais.
SUCESSÃO – É nesse ponto que se percebe a crise de sucessão no campo bolsonarista. Bolsonaro nunca preparou um herdeiro claro. Seus filhos, divididos entre impulsos políticos e responsabilidades judiciais próprias, apenas agravaram a percepção de desordem. Ao mesmo tempo, figuras da direita mais institucional, como Tarcísio de Freitas, observam à distância, tentando não serem arrastadas para um abismo que pode comprometer o campo conservador por uma década.
A prisão preventiva não encerra a trajetória política de Bolsonaro — mas redefine seu lugar. Ele deixa de ser o líder capaz de pautar a direita brasileira e passa a ser um passivo judicial e eleitoral cuja instabilidade ameaça todos ao redor. A imagem de um ex-presidente tentando serrar uma tornozeleira com um ferro de solda é, ao mesmo tempo, trágica e reveladora: o símbolo final de um projeto político que sempre flertou com a ruptura e agora se vê prisioneiro dela.
O episódio, mais do que jurídico, é histórico. E mostra que, no Brasil de 2025, as instituições aprenderam — talvez tardiamente, mas de forma firme — que a tolerância com aventuras antidemocráticas produz exatamente isso: líderes que, diante da responsabilidade, tentam fugir.