Publicado em 6 de outubro de 2025 por Tribuna da Internet

Charge do Cazo (blogdoaftm.com.br)
Pedro do Coutto
A mais recente pesquisa divulgada por O Globo revela um dado que merece atenção: se as eleições presidenciais fossem hoje, 54% dos brasileiros estariam vacilando na escolha de seu candidato. Trata-se de um percentual elevado, que indica não apenas indecisão, mas também cansaço com a polarização política e ausência de identificação com as opções que dominam o cenário eleitoral.
Embora ainda falte um ano para a disputa de 2026, a fotografia atual lança luz sobre uma parcela do eleitorado que tem sido chamada de “os invisíveis”: cidadãos que não se alinham nem ao campo governista nem à oposição radical, e que, justamente por isso, podem se tornar o fiel da balança no pleito.
REPRESENTATIVIDADE – O ponto central é que indecisão não significa apatia. Grande parte desses eleitores acompanha o debate, sente os efeitos da política no cotidiano, mas não encontra representação clara entre os nomes colocados. Essa massa rejeita discursos beligerantes e se mostra exausta da retórica de “nós contra eles” que marcou o Brasil nos últimos ciclos.
Isso abre espaço tanto para alternativas mais moderadas, que dialoguem com anseios pragmáticos, quanto para outsiders que consigam se comunicar de maneira eficaz com frustrações difusas. É nesse vácuo que reside o risco: uma parte expressiva do eleitorado flutuante pode se tornar terreno fértil para candidaturas populistas, menos sujeitas a escrutínio institucional, e que apareçam como soluções fáceis para problemas complexos.
A ciência política mostra que em sociedades polarizadas, quando a maioria se sente órfã de representação, cresce a volatilidade eleitoral. Foi o que ocorreu em 2002, com a ascensão do PT, e em 2018, com a ruptura promovida por Jair Bolsonaro. O Brasil conhece bem esses realinhamentos súbitos. Hoje, o dado dos 54% sugere que há novamente uma oportunidade para uma recomposição do campo político, caso surja uma liderança capaz de se comunicar com esses “invisíveis”.
PROXIMIDADE – Para isso, porém, não bastará marketing agressivo ou confronto direto com adversários: será preciso oferecer uma narrativa de proximidade, com propostas concretas para saúde, educação, emprego e segurança, áreas que tendem a pesar fortemente entre indecisos.
As campanhas precisarão, portanto, de mais sutileza. O tom agressivo pode afastar quem já rejeita radicalismos, e qualquer tentativa de capturar esse eleitorado por meio de ataques ideológicos terá efeito limitado. O desafio está em identificar com precisão quem são esses vacilantes — que não compõem um grupo homogêneo — e encontrar linguagem e propostas que ressoem em suas vidas. Esse trabalho de microsegmentação será decisivo em 2026, e exigirá capacidade de leitura social e de empatia política.
Por outro lado, é preciso cautela: pesquisas são retratos momentâneos, e parte desse contingente pode rapidamente migrar para candidatos já conhecidos, caso a polarização se reforce. A indecisão expressa hoje pode se converter em voto estratégico amanhã, se um dos polos conseguir mobilizar emoções fortes o suficiente para vencer a rejeição. Ainda assim, o fato de mais da metade da população não se sentir convencida pelas opções atuais é um sinal de alerta para todo o sistema político.
REFLEXO – Em síntese, os “invisíveis” retratados pela pesquisa de O Globo não são apenas indecisos, mas o reflexo de uma sociedade que anseia por alternativas à polarização e que pode definir o rumo da eleição de 2026. Quem conseguir traduzir suas dúvidas e esperanças em um projeto político consistente terá vantagem decisiva.
Se esse espaço for ocupado por lideranças moderadas, o país poderá viver um processo de reconstrução de consensos. Se, pelo contrário, for capturado por discursos oportunistas, o Brasil corre o risco de repetir ciclos de frustração e ruptura. A escolha, ao que tudo indica, está menos nos polos já estabelecidos e mais nesse vasto território de eleitores que ainda hesitam, mas que decidirão, no fim, quem governará o país.