Publicado em 15 de setembro de 2025 por Tribuna da Internet

Charge do Clayton (opovo.com.br)
Pedro do Coutto
A reportagem publicada por Lauriberto Pompeu e Luís Amazulo em O Globo neste domingo revelou um movimento que pode redefinir o tabuleiro da sucessão presidencial de 2026: uma corrente do Centrão pressiona Jair Bolsonaro a indicar desde já um candidato à sua sucessão, antes mesmo de enfrentar eventuais desdobramentos judiciais mais graves, mas ao mesmo tempo deseja que nenhum integrante da família Bolsonaro, incluindo o próprio ex-presidente e sua esposa Michele, seja lançado à disputa.
A estratégia é clara: preservar o capital eleitoral expressivo do bolsonarismo sem carregar o peso político, jurídico e simbólico que o ex-presidente e seus filhos representam após sucessivas condenações. Trata-se de um cálculo pragmático típico do Centrão, que historicamente busca acomodar interesses e minimizar riscos, mas que nesta conjuntura envolve um dilema de difícil resolução.
OBSTÁCULOS – A ideia de um “bolsonarismo sem Bolsonaro” enfrenta obstáculos quase intransponíveis. Parte do eleitorado que se identifica com a direita o faz por devoção pessoal a Bolsonaro, e não apenas às pautas que ele defende. A simples tentativa de desvincular o movimento do líder pode provocar fraturas internas e ressentimentos entre apoiadores fiéis.
Os próprios filhos do ex-presidente, com capital político consolidado, resistem a qualquer movimento que os exclua, e Michele Bolsonaro, embora apareça em pesquisas como alternativa, não tem musculatura política ou estrutura partidária capazes de sustentar uma campanha presidencial competitiva.
Esse impasse é agravado pela ascensão de nomes de oposição fora do núcleo bolsonarista, como governadores e lideranças regionais, que podem surgir como opções mais viáveis para ocupar esse espaço de direita.
FATORES EXTERNOS – Do outro lado do tabuleiro, pesquisas recentes do Datafolha apontam uma melhora nos índices de aprovação de Lula, que amplia vantagem em cenários simulados contra candidatos da direita, inclusive Bolsonaro e sua família. Parte desse efeito decorre de fatores externos, como a tentativa de Donald Trump de pressionar o Brasil com tarifas para forçar a libertação de Bolsonaro, movimento que soou como interferência indevida e acabou reforçando a imagem de Lula como líder soberano diante de pressões internacionais.
Assim, enquanto o Centrão tenta resolver o enigma de como manter votos bolsonaristas sem carregar Bolsonaro, Lula colhe dividendos de uma conjuntura que o favorece e se projeta para 2026 com vantagem. No fundo, o dilema expõe um paradoxo: o bolsonarismo nasceu de um personalismo radical, sustentado no carisma e na narrativa de Bolsonaro como outsider, mas agora precisa sobreviver justamente sem sua figura central.
RUPTURAS – Se o Centrão conseguir construir essa transição, será um feito histórico de engenharia política. Mas, diante da força simbólica do ex-presidente junto a seus eleitores mais fiéis e da resistência da própria família, parece mais provável que essa tentativa produza rupturas do que consensos.
O tempo até 2026 dirá se a direita conseguirá encontrar um caminho de unidade ou se, fragmentada entre herdeiros diretos e nomes alternativos, abrirá espaço para a consolidação da hegemonia lulista por mais um ciclo eleitoral.