Temor de pedido de vista de Fux manteve ministros em alerta no julgamento de Bolsonaro

A possibilidade de Fux paralisar a ação marcou as sessões
Bela Megale
O Globo
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux cumpriu a sinalização que havia feito aos colegas da Primeira Turma de que não pediria vista no julgamento de Jair Bolsonaro na trama golpista. A tensão sobre a possibilidade de o magistrado mudar de ideia e paralisar a ação, no entanto, marcou as sessões do caso.
O dia de maior apreensão foi a quarta-feira (10), quando Fux surpreendeu os colegas ao negar a existência da tentativa de golpe de Estado e dos ataques às instituições — episódios que ele próprio viveu na pele.
TENSÃO – Ministros relataram que o próprio Fux contou a eles, em detalhes, a tensão que enfrentou no 7 de setembro de 2021, quando era presidente do STF e havia o temor de uma invasão à sede do tribunal, com Jair Bolsonaro ainda na Presidência da República. Na ocasião, snipers foram posicionados no edifício para proteger o local e Fux passou a noite em claro, dentro do próprio STF.
As contradições no posicionamento de Fux no caso de Bolsonaro e dos demais réus da trama golpista, em relação à postura que ele adotou em mais de 400 processos relacionados ao 8 de janeiro, além de falas consideradas como ataques diretos a colegas — especialmente Alexandre de Moraes — deixaram o ambiente ainda mais tenso.
Apesar da avaliação de que seria necessário fazer contrapontos firmes ao voto de Fux, o presidente da Turma, Cristiano Zanin, e os demais ministros decidiram respeitar o pedido do colega de não ser interrompido durante sua manifestação.
INTERVENÇÃO – O receio era de que o ministro pudesse usar qualquer intervenção como justificativa para mudar de posição e pedir vista, paralisando o julgamento. A solicitação para que não fosse interrompido durante seu voto foi feita por Fux cerca de uma semana antes do início da análise do caso.
O voto, com mais de 13 horas de duração, também foi visto pelos ministros como uma estratégia de “vencer pelo cansaço”. A leitura dos magistrados é que Fux pretendia estender sua manifestação para o dia seguinte, fazendo com que seu posicionamento ocupasse mais tempo das sessões e gerasse repercussão prolongada.
SESSÃO ALONGADA – Mais uma vez, o presidente da Turma, Zanin, em conjunto com os demais ministros — Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Flávio Dino — decidiu alongar a sessão de quarta-feira o quanto fosse necessário para que Fux concluísse sua fala no mesmo dia.
Foi apenas na quinta-feira (11), quando Cármen Lúcia e Zanin proferiram seus votos sacramentando a condenação de Bolsonaro e dos demais réus da trama golpista, que se teve certeza de que Fux não faria nenhum movimento para paralisar o julgamento.