Na última década, enquanto as empresas de mídia lutavam para ganhar dinheiro em um mercado digital em transformação, governos propuseram leis para exigir que as Big Techs paguem aos veículos de comunicação pelo uso do seu conteúdo.
Em qualquer país que tentou legislar sobre a relação entre sites de notícias e plataformas digitais, Richard Gingras, ex-vice-presidente de notícias do Google, podia ser visto argumentando que as leis são equivocadas e que a Alphabet (holding de tecnologia e empresa-mãe do Google) defende uma internet livre.
Sua presença em diversos países revela como a influência do Google é abrangente. No primeiro semestre de 2023, ele conversou com jornalistas brasileiros em um evento exclusivo do Google, em São Paulo; seu rosto estampou sete monitores em uma sala de um comitê desimportante na capital do Canadá; e discursou para jornalistas em Taipei.
Mas ele não agiu sozinho. O conselheiro jurídico da empresa, Kent Walker, também esteve ativo no Canadá, enquanto profissionais de relações públicas da empresa em dezenas de países também receberam a tarefa de influenciar as políticas de negociação.
Uma investigação transnacional descobriu que a cruzada do Google e da Meta para impedir ou atrasar projetos de leis que exigiam compensação à imprensa e proteger seus lucros – via construção de relacionamentos com a mídia, realização de eventos, acordos privados com meios de comunicação, mobilização do público contra a mídia e apoio do governo dos Estados Unidos – foram robustas, consistentes e, em muitos países, muito bem-sucedidas. Um verdadeiro “manual” de como interferir na legislação.
Essa investigação faz parte do projeto A Mão Invisível das Big Techs, uma coalizão de 17 organizações de jornalismo trabalhando em 13 países, liderada pela Agência Pública e pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP), para investigar o lobby das Big Techs ao redor do mundo.
Outra investigação da série descobriu que, por meio do Destaques, o Google se comprometeu a gastar um bilhão de dólares em jornalismo no mundo todo. Nesse processo, impulsionou dependência financeira e uma cultura de sigilo, coagiu veículos a abrirem mão de reivindicações de direitos autorais e possivelmente se blindou contra futuras ações legais pelo uso de notícias para treinar modelos de inteligência artificial.
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