Publicado em 13 de julho de 2025 por Tribuna da Internet

Ilustração de Ricardo Cammarota (Folha)
Luiz Felipe Pondé
Folha
Seria Jesus um místico? Nada do que direi aqui pressupõe qualquer debate teológico acerca do que significa a figura do Cristo para os cristãos. Trata-se, apenas, de um diálogo com dois grandes especialistas no “profeta de Nazaré”, como um dos dois autores aqui se refere a Jesus Cristo.
Mas, antes, um reparo. O que significa dizer que alguém é um místico? O substantivo “mística” já é, por si só, um objeto de alta credencial teológica, filosófica e histórica, que demanda repertório consistente e vasto se quisermos entender pelo menos um pouco acerca desse fenômeno que atravessa muitas religiões.
VEM DO GREGO – O substantivo é comumente derivado da palavra grega “mystikós” —em transliteração, significaria algo como “iniciado”, “oculto”. Ao longo do tempo, no mundo cristão, especificamente, a palavra, na sua versão adjetiva ou substantiva, se transformou.
Segundo um dos maiores historiadores da mística cristã, Bernard MacGinn (nascido em 1937), o termo “mística” ou “místico” foi, de início, usado no nascente cristianismo como um adjetivo qualificativo para textos sagrados nas suas camadas mais profundas de interpretação.
Com o tempo o uso migrou para a transformação da consciência do leitor mergulhado nos textos sagrados, para finalmente chegar ao adjetivo usado para pessoas que teriam uma experiência direta com Deus. Esse uso vai se tornar usual e conceitual a partir dos séculos 13 e 14 até o uso canônico no século 15 e adiante.
A PRESENÇA DE DEUS – Sua obra com diversos volumes chama-se “The Presence of God, a History of Western Christian Mysticism”, que tem vários volumes traduzidos em português, até onde sei.
Portanto, quando se usa o adjetivo “místico” para Jesus, se quer dizer que ele esteve imerso em alguma tradição religiosa em que a ideia de estar face a face com Deus — ou numa experiência direta de conhecimento de Deus — estava presente. Evidentemente, essa tradição religiosa é a judaica.
Um dos autores, Pierluigi Piovanelli, professor de judaísmo antigo e origens do cristianismo da Universidade de Ottawa, no Canadá, identifica essa tradição como sendo a mística judaica, típica do período do segundo templo israelita de Jerusalém em que Jesus viveu.
MOISÉS E JESUS – O outro autor, o teólogo Joseph Ratzinger, papa Bento 16, que dispensa apresentações, localiza Jesus na linhagem da mística mosaica em que Moisés é visto como o único que viu Deus face a face no Sinai, segundo a narrativa bíblica, e que Jesus teria ido além nesse tipo de visão direta de Deus, por ser ele mesmo, o seu filho.
A obra-chave de Piovanelli sobre o “Jesus místico” é “Le Jésus des Historiens: Entre Vérité et Légende”, ou o Jesus dos historiadores, entre verdade e lenda, sem tradução no Brasil, até onde sei.
Nessa obra, o autor afirma que Jesus era um místico da tradição da “merkava”, ou carruagem, em transliteração para o português.
NA CARRUAGEM – Aqui a alma do místico viaja numa espécie de carruagem que a leva a dimensões, mesmo perigosas, em direção ao trono de Deus no reino dos céus. Essa tradição, marcadamente visionária, é apontada pelo autor em inúmeras passagens em que são descritas visões extáticas de Jesus —ou sobre ele— no evangelho.
Seu batismo e a descida do espírito santo sobre sua cabeça como uma pomba. As tentações no deserto e as visões que o Satanás o faz contemplar.
As inúmeras referências à “Casa do Pai” e suas moradas e ao “Reino de Deus”. A transfiguração do Cristo no monte Tabor. Segundo Piovanelli, esse repertório fez de Jesus alguém que falava uma língua reconhecida pelos judeus à sua volta. Daí, seu carisma.
JESUS DEUS – Já a obra de Ratzinger é “Jesus de Nazaré, do Batismo no Jordão à Transfiguração” (ed. Planeta). Trata-se, mais especificamente, do prefácio e da introdução deste que é o primeiro volume dos três tomos dessa obra.
Aqui Ratzinger faz uma crítica metodológica sobre a abordagem histórico-crítica da Bíblia, sem recusá-la obviamente. Mais especificamente a “obsessão” pelo Jesus histórico em detrimento do Cristo da fé, para ele, uma figura muito mais ligada à leitura teológica interna da Bíblia —o que ele chama de “exegese canônica”— e o aporte posterior que construirá a ideia do Jesus Deus, do que a figura meramente histórica do profeta de Nazaré.
Nesse sentido, ele defenderá a ideia de que Jesus falava com Deus e via sua face diretamente, como é narrado em vários momentos do Evangelho, radicalizando aquela intimidade que Moisés tinha com Deus. A mística é uma forma de intimidade com Deus, sempre. Nada nesse tipo de reflexão diminui o caráter divino do Cristo para os cristãos, apenas o situa na tradição judaica de então.
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