
Roberto Marinho, um Cidadão Kane vendido aos militares
Carlos Newton
Achei interessante assistir na TV Globo os supostos biógrafos de Roberto Marinho dando palpites sobre os 100 anos de O Globo e a transformação do jornal numa das maiores corporações de comunicação social do mundo, no decorrer dos 21 anos da ditadura militar brasileira.
Caramba! Para começar, esses supostos biógrafos não destacaram o impressionante papel do jornalista baiano Euricles de Matos, que deve ser considerado o verdadeiro criador do jornal, porque o patriarca Irineu Marinho morreu em 1925, poucos dias depois do lançamento de O Globo.
JOVEM DEMAIS – Irineu deixou três filhos. Roberto era o mais velho, com apenas 21 anos e não tinha a menor condição de dirigir o jornal, que desde a fundação vinha sendo comandando pelo diretor de redação, Euricles de Matos.
Todos achavam que O Globo iria fracassar, porque o empreendimento tinha sido muito caro, Irineu Marinho deixara pesadas dívidas. Mas o jornalista Euricles de Matos, que era um grande intelectual, poeta e historiador de arte, criou um jornal dedicado também à cultura, à defesa do consumidor e aos esportes, o projeto foi um sucesso e logo se transformou num dos maiores vespertinos do país.
Quando Euricles de Matos morreu, em 1931, Roberto Marinho já tinha 26 anos e assumiu a direção do jornal simbolicamente, pois jamais participou da redação, sempre cuidou apenas da administração da empresa.
O CONCORRENTE – Na época em o jovem Marinho assumiu, teve de assistir ao formidável crescimento da organização jornalística criada por seu maior concorrente, Assis Chateaubriand, que era 12 anos mais velho e tinha uma experiência formidável, pois trabalhava em redação de jornal desde os 15 anos, era professor de Direito e empresário, escrevia os editoriais etc.
Entre o final dos anos 1930 e início dos anos 1960, Chateaubriand foi o Cidadão Kane das comunicações no Brasil, como dono dos Diários Associados, o maior conglomerado de mídia da América Latina, que em seu auge contou com mais de cem jornais, emissoras de rádio e TV, revistas e agência telegráfica.
Também é conhecido como o criador e fundador, em 1947, do Museu de Arte de São Paulo (MASP), junto com Pietro Maria Bardi, e ainda como o responsável pela chegada da televisão ao Brasil, inaugurando em 1950 a primeira emissora do país, a TV Tupi. Foi senador da República entre 1952 e 1957, embaixador na Inglaterra e membro da Academia Brasileira de Letras.
SEM CONDIÇÕES – Roberto Marinho não tenha a menor condição de enfrentar Chateaubriand. Para conseguiu fazer a Organização Globo Crescer e substituir os Diário Associados, Marinho teve de se aliar ao embaixador americano Lincoln Gordon na conspiração contra o presidente João Goulart e durante 21 anos alugou sua consciência à ditadura militar.
Ao montar a TV Globo, descumpriu as leis para associar-se ao grupo americano Time Life, por seis milhões de dólares. Na mesma época, apoderou-se do controle da TV Paulista, canal 5 de São Paulo, sem pagar um centavo aos mais de 600 acionistas da empresa.
Dessa forma, Marinho imitava Chateaubriand, que apoiara e explorara o governo de Getúlio Vargas, e o ditador lhe concedeu até o pátrio poder sobre uma filha que o jornalista sequestrara: “Se a lei é contra mim, vamos ter que mudar a lei”, disse Chateaubriand, à época.
NÃO ERA JORNALISTA – Roberto Marinho imitou o rival no que ele tinha de pior. Mas não conseguiu ser jornalista e redigir seus próprios artigos. Em sua sala em O Globo, havia uma máquina de escrever sobre uma mesinha, mas Marinho somente a usava para tirar fotografias, fingindo estar escrevendo.
O filho mais velho, Roberto, morreu num acidente rodoviário, ao voltar de um final de semana em Cabo Frio. Seus três irmãos herdaram a fortuna, mas nenhum deles conseguiu trabalhar como jornalista ou administrador. Especializaram-se em nada fazer.
Quando a esquerda chegou ao poder, ficaram com medo e abominaram o pai, que morreu em 2003, e proclamaram que tinha sido um erro Marinho apoiar a ditadura. O pai lhes deu tudo e, mesmo assim, eles renegaram sua memória.
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P.S. – Amanhã, se eu estiver bem disposto, contarei como foi a véspera do AI-5 para Roberto Marinho. Ele estava tão enfurecido que espumava pela boca... (C.N.)