terça-feira, julho 29, 2025

Lula busca retomar popularidade com pacote social em meio ao tarifaço


Pacote de programas sociais deve ser lançado no 2º semestre

Pedro do Coutto

O presidente Lula da Silva prepara um amplo pacote de investimentos sociais para o segundo semestre, numa tentativa de reconquistar índices de popularidade que sofreram queda desde o início do ano. O projeto, que deve incluir habitação, transporte, educação e combate à fome, surge como resposta tanto às demandas internas quanto ao cenário de tensão internacional.

Lula aposta que um plano robusto de inclusão social pode consolidar apoio político e reafirmar sua liderança num momento em que pressões externas começam a influenciar a agenda doméstica. Essas pressões ganharam corpo após Donald Trump anunciar tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, condicionando a redução das taxas à concessão de anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

IMPASSE – A iniciativa foi interpretada como uma tentativa direta de ingerência na política interna brasileira, criando um impasse diplomático sem precedentes. Para Lula, essa postura não apenas fere a soberania nacional, como também fortalece uma narrativa de resistência diante de uma ameaça estrangeira.

Em meio à crise, a estratégia norte-americana parece ter produzido o efeito inverso. Em vez de enfraquecer o governo, a pressão externa começou a gerar uma onda de solidariedade interna, inclusive entre setores conservadores que até então orbitavam a base bolsonarista. A opinião pública, sensível ao discurso de defesa nacional, passou a enxergar em Lula um contraponto firme à tentativa de condicionamento político por parte da Casa Branca.

Lula reagiu com um tom assertivo, deixando claro que a independência do Judiciário não será colocada em xeque para satisfazer exigências externas. Em pronunciamentos recentes, o presidente destacou que o Brasil não aceitará nenhuma forma de tutela internacional e sinalizou que poderá aplicar medidas retaliatórias caso as tarifas sejam efetivamente implementadas.

IMPACTOS – A Lei de Reciprocidade Comercial, aprovada pelo Congresso no primeiro semestre, dá ao governo brasileiro instrumentos para responder proporcionalmente a ações consideradas hostis. Os impactos econômicos, no entanto, não podem ser ignorados.

O aumento tarifário ameaça setores estratégicos da economia, como exportadores de café, suco de laranja, aço e autopeças, que têm nos Estados Unidos um de seus principais mercados. Pequenos e médios produtores, especialmente do agronegócio, já expressam preocupação com perdas significativas, caso a crise não encontre solução negociada.

Por outro lado, esse cenário adverso pode ser politicamente útil para o governo. Ao se colocar como defensor da soberania e, ao mesmo tempo, propor medidas de proteção social, Lula constrói uma narrativa que mistura resistência externa e compromisso interno. Essa combinação, se bem administrada, pode inverter a curva negativa da popularidade presidencial, transformando a crise em oportunidade de fortalecimento político.

MOBILIZAÇÃO – A história recente mostra que governos sob pressão internacional costumam utilizar o sentimento nacionalista como combustível para mobilização social. Foi assim no Canadá, no México e na Austrália, diante de sanções comerciais impostas por grandes potências. Lula segue essa trilha, reforçando sua imagem de líder que não se dobra diante de pressões e, ao mesmo tempo, garantindo que o povo brasileiro não será penalizado por disputas políticas externas.

O pacote social, previsto para os próximos meses, é mais do que um conjunto de medidas econômicas: é uma resposta simbólica à tentativa de condicionamento político. Programas como o Minha Casa, Minha Vida, obras de infraestrutura e investimentos em educação básica devem compor o núcleo dessa iniciativa, reforçando a mensagem de que o governo está focado em melhorar a vida da população, mesmo em um ambiente internacional hostil.

AUTONOMIA – Para Lula, esse momento é uma encruzilhada histórica: ou sucumbe às pressões, sacrificando princípios democráticos, ou reafirma a autonomia institucional e retoma o protagonismo social que marcou sua trajetória política. Tudo indica que o presidente optou pelo segundo caminho, ancorando sua estratégia na defesa da soberania e na ampliação dos direitos sociais.

Se bem-sucedido, esse movimento poderá não apenas recuperar a popularidade perdida, mas também consolidar um novo pacto político em torno da ideia de que o Brasil não se curva a imposições externas. Em tempos de crise global e disputas de poder, transformar adversidade em oportunidade é uma habilidade reservada a poucos líderes — e Lula parece disposto a jogar essa partida com todas as cartas na mesa.

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