Publicado em 17 de julho de 2025 por Tribuna da Internet

Charge de Zé Dassilva (nsctotal.com.br)
Pedro do Coutto
O novo tarifaço imposto por Donald Trump aos produtos brasileiros, com alíquota de 50%, acendeu um alerta vermelho tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos. A decisão, tomada de forma unilateral e inesperada, gerou reações contundentes de empresários dos dois países, que agora se unem em um raro consenso: é preciso negociar urgentemente antes que os danos comerciais se tornem irreversíveis.
A medida já causa impacto direto nos frigoríficos brasileiros, que suspenderam parte dos abates voltados à exportação. O setor da carne, um dos mais integrados à cadeia produtiva norte-americana, vê a taxação como um risco não apenas para o Brasil, mas também para a estabilidade de preços nos Estados Unidos, especialmente em tempos de inflação sensível ao bolso do consumidor médio.
REAJUSTE -Não foi apenas o setor de carnes que sentiu o golpe. As tarifas sobre produtos como café, suco de laranja e aeronaves da Embraer atingem diretamente o consumo e a indústria norte-americana. O café brasileiro representa cerca de um terço do abastecimento dos EUA, e grandes redes já indicam reajustes de preço nos próximos meses.
A Embraer, por sua vez, alertou que os impactos econômicos das novas tarifas podem ser comparáveis aos sofridos durante a pandemia da Covid-19, tamanho o prejuízo para seus contratos com companhias aéreas americanas. O mercado reagiu: ações da fabricante brasileira recuaram quase 9% em meio à apreensão do setor aeroespacial.
O pano de fundo político também não passou despercebido. Analistas interpretaram o movimento como uma retaliação indireta à crise política que envolve Jair Bolsonaro — aliado de Trump — atualmente sob investigação no Brasil por crimes contra o Estado Democrático de Direito. Nesse sentido, a tarifação acaba sendo um recado de teor pessoal, travestido de decisão econômica.
APOIO – A Câmara de Comércio dos EUA, por sua vez, rompeu com a postura habitual de neutralidade e passou a apoiar a pressão brasileira por uma reabertura de diálogo, sob o argumento de que a medida prejudica consumidores, importadores e exportadores americanos. Para os empresários de ambos os países, essa não é uma guerra comercial tradicional: é um erro político com custos econômicos elevados.
Economistas apontam que os efeitos dessa escalada já se refletem no aumento do custo de vida nos Estados Unidos, que ainda enfrenta os resquícios da inflação pós-pandemia. Enquanto isso, o Brasil analisa medidas de resposta, como a aplicação da Lei de Reciprocidade Econômica, embora especialistas alertem que devolver a ofensiva com nova taxação pode aprofundar o problema e desencadear uma guerra tarifária prejudicial aos dois lados.
REUNIÃO – O presidente Lula, embora publicamente moderado, autorizou sua equipe econômica e diplomática a pressionar por uma reunião bilateral urgente, com foco na criação de exceções tarifárias ou cotas de exportação, especialmente para alimentos e bens industriais sensíveis.
O cenário é crítico, e não comporta soluções simplistas. Se Trump deseja manter influência entre produtores rurais e industriais dos EUA, precisará repensar sua estratégia antes que as consequências se tornem politicamente insustentáveis — afinal, é o eleitor norte-americano que pagará mais caro pelo bife, pelo café da manhã e pela passagem aérea.
O pragmatismo dos empresários já falou mais alto. Agora, resta saber se o presidente norte-americano será capaz de ouvir o recado e agir com responsabilidade. Neste momento, as vontades pessoais precisam ceder espaço ao bom senso econômico. O tempo urge.