sábado, setembro 09, 2023

As aventuras de Sua Lulidade e o Supremo Tribunal da Farofa




Nem nas suas piores bad trips Raul Seixas imaginava que a Suprema Corte brazuca seria o melhor exemplo do que ele chamava de metamorfose ambulante. 

Por Ruy Goiaba 

Quem precisa de futebol, novela ou outros tipos de entretenimento de massa diante de todas as emoções que o STF, Supremo Tribunal da Farofa, nos propicia? Nenhuma obra de ficção oferece tantos plot twists quanto o tribunal que descondena Lula, conduz o inquérito Rexona® das fake news (“sempre cabe mais um”) e decide que a coisa julgada pode ser desjulgada e tudo bem, o Universo é essa coisa que flui mesmo. Ainda agorinha o ministro Dias Toffoli, aquele que em 2018 assegurava que a prisão de Sua Lulidade e o impeachment de Dilma Rousseff haviam respeitado a Constituição, chamou a mesma prisão do mesmíssimo Lula de “um dos maiores erros judiciários da história”. Demora uns cinco anos, mas tudo que é sólido desmancha no ar.

Outra coisa: vocês lembram que, para soltar Lula, o STF argumentou que a Lava Jato não tinha conseguido provar a conexão entre os crimes investigados e o então ex-presidente, apesar do PowerPoint caprichado de Deltan Dallagnol? Aquele esquema criminoso de “corrupção sistêmica” envolvendo a Petrobras, com o Deus-Sol no centro: nada estava provado. De repente, esse negócio de conexão virou frescura: ninguém sabe o que o inquérito das fake news tem a ver com o caso das joias de Jair Bolsonaro, e tudo bem também. O importante é ficar tudo na mão do Xandão — que, aliás, parece ter revisto suas opiniões sobre o princípio do “juiz natural”: o impedimento de que um magistrado escolha o que julgar era “uma das mais importantes garantias da democracia”, escreveu o antigo Alexandre de Moraes. É importante, mas, se quiser, pode ignorar também: o Bananão é isso aí, tem lei que pega e lei que não pega, nada acontece, feijoada.

Nem nas suas piores bad trips Raul Seixas imaginava que a Suprema Corte brazuca seria o melhor exemplo do que ele chamava de metamorfose ambulante. Mas os ministros vão ainda além no humor (negro) involuntário: na decisão em que anulou as provas contra Lula obtidas no acordo de leniência com a Odebrecht, Dias Toffoli escreveu que os investigadores da Lava Jato “atingiram vidas ceifadas por tumores adquiridos”. Você, leitor, pode achar o que quiser dos métodos da operação, apontar ilegalidades, criticar, repudiar etc.; agora, dizer que a Lava Jato CAUSA CÂNCER é outro patamar de surrealismo. E a imprensa nem tchuns, como se a frase delirante fosse a coisa mais natural do mundo. (Eu aproveitaria para lançar os cigarros Lava Jato, com aquelas fotos horríveis de câncer no verso e um “Dias Toffoli adverte” no lugar do Ministério da Saúde.)

Enquanto Toffoli faz de tudo para voltar a ficar de bem com o Painho, Lula se esforça para driblar as cobranças da esquerda identitária por uma mulher negra na vaga de Rosa Weber no Supremo. Por um lado, a militância lulista nas redes cai em cima de Gregorio Duvivier por ousar sugerir que o presidente tome um café com potenciais candidatas à corte: quem é você para querer tutelar o Lula, seu playboy branco esquerdinha do Leblon etc. (cría cuervos, Gregorio). Pelo outro, Sua Lulidade nomeia mulheres, negras ou não, para tribunais e cargos que são uma espécie de Série B do Judiciário, enquanto a vaga na Série A segue disputada por homens brancos como “Bessias” e Bruno Dantas. Poderia até ser uma pessoa não binária e azul; o diacho é que Lula não encontra nenhuma que seja também garantista (garanta nunca prendê-lo). Como disse uma amiga, se a Janja tivesse feito direito em alguma Uniesquina, certeza que a vaga seria dela.

Outro amigo vê como manobra diversionista, para desviar o foco desse tipo de cobrança, aqueles absurdos que nosso querido presidente disse para defender o voto secreto no Supremo (“a sociedade não tem que saber como é que vota um ministro da Suprema Corte”. Quem disse que precisa de PEC para mudar o artigo 93 da Constituição, né? Lula pode fingir que ele não existe, e tudo bem também). Nosso estadista se preocupa muito com o risco de que um homem público apanhe na rua, exceto se ele for presidente do Banco Central. Mas pensando bem, se for para tomar conhecimento de decisões vergonhosas como a da Odebrecht, talvez seja melhor a gente não ficar sabendo mesmo. Em breve estaremos todos, como previu o economista Daniel Sousa, devolvendo à empreiteira o dinheiro desviado, com um lacinho e um pedido de desculpas.

Revista Crusoé

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