Publicado em 15 de julho de 2023 por Tribuna da Internet

Charge do JCaesar (Arquivo do Google)
Pedro do Coutto
A operação “Desenrola”, anunciada pelo governo Lula da Silva, será iniciada na próxima segunda-feira como caminho para a recuperação das dívidas de pessoas que assumiram créditos com bancos e lojas comerciais num processo rotativo que faz com que as incríveis taxas de mais de 400% por 12 meses se façam presentes num mercado financeiro do absurdo. O Banco Central deveria – isso sim – ter tomado providências com essa viagem estratosférica num rumo impossível de alcançar, pois ninguém pode pagar uma dívida com uma taxa que atinja esse nível, oitenta vezes superior à inflação de 2022.
A aplicação de juros nessa escala é faturada pelos próprios bancos e lojas que emitem cartões, pois nas compras mais simples, sou testemunha, a cobrança quando é enviada propõe a alternativa do parcelamento. Parece fácil, mas se olharmos a taxa projetada para o mês, verificamos que ela oscila em cerca de 19%. É uma impossibilidade e até mesmo uma crueldade em relação aos que necessitam parcelar as suas contas através de cartões de crédito oferecidos intensamente todos os dias pela publicidade comercial.
IMPORTÂNCIA SOCIAL – No fundo, é um processo de sedução para que a pessoa não pense na dívida que assumirá e se volte mais para o efeito imediato de um crédito ou para a aquisição de um produto através desse crédito fatal. Logo, a operação “Desenrola” tem uma importância social extraordinária, sem dúvida alguma. Mas é preciso, e não vejo sinais disso, que fosse acompanhada por uma observação: a de que as pessoas beneficiadas não assumam depois créditos em tais condições inalcançáveis de resgatar. Como é possível, conforme já dito no início deste artigo, pagar-se uma conta aos juros anuais de mais de 400%?
A resposta a essa indagação está no volume das dívidas existentes e no número de inadimplentes que se eleva a 70 milhões de brasileiros e brasileiras. O governo não pode contribuir por omissão para que tal calamidade opressora e antissocial permaneça na legislação em vigor. O BC não se preocupa com isso, mas com os juros anuais de 13,75% que incidem sobre a dívida bruta do país de R$ 6 trilhões. Os lucros concentram mais ainda a renda do país. No O Globo, a reportagem é de Geralda Doca, edição desta sexta-feira.
MARINA SILVA – Numa extensa entrevista à Eliane Oliveira e Jeniffer Gularte, O Globo de ontem, a ministra Marina Silva reclama da falta de apoio político e da atitude de parte do Congresso Nacional em relação ao problema do meio ambiente. Falou sobre pontos importantes retirados de seu ministério na votação do Congresso Nacional, os quais foram repostos, pois o presidente Lula da Silva vetou as alterações que Marina Silva classifica como negacionistas.
Focalizou a questão da Petrobras cuja licença de exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas foi negada pelo Ibama. Marina Silva classifica a divergência como normal, mas lembra que o pedido já fora negado em 2018. Na ocasião, o pedido foi feito por uma empresa privada, e agora a Petrobras reapresentou. A Petrobras e o Ministério de Minas e Energia ficaram de corrigir os pontos que levaram à negativa.
A impressão que se tem da entrevista é que Marina Silva está enfrentando dificuldades, inclusive no relacionamento com o ministro Alexandre Silveira em matéria de indicações políticas para cargos. Marina Silva assinala, porém, que a questão do meio ambiente envolve sobretudo a própria existência humana do planeta. Acrescentou que está preparando uma agenda para o encontro de cúpula dos países amazônicos marcada para o mês de agosto.
DISCURSO – Ao discursar na quarta-feira no congresso promovido pela União Nacional dos Estudantes, o ministro Luís Roberto Barroso foi tocado pela emoção e ultrapassou o limite entre a democracia e a área restrita aos ministros do Supremo e do próprio Poder Judiciário.
Exaltou conquistas da democracia no período que sucedeu a ditadura de 1964 a 1985, e concluiu que a sociedade derrotou o bolsonarismo. Falou a verdade, claro. Mas nem todas as verdades podem ser ditas pelos ministros do STF. Recebeu críticas, sem dúvida pertinentes pela extravasão, conforme assinala Bruno Bogossian em artigo ontem na Folha de S. Paulo.
É preciso lembrar, porém, que o presidente Bolsonaro participou de várias manifestações na Esplanada dos Ministérios com os apoiadores defendendo o fechamento do Supremo Tribunal Federal e, na reunião de 22 de abril de 2020, o ex-ministro da Educação Weintraub chegou a defender a prisão dos ministros que classificou como “vagabundos”. O que dizer de um presidente da República que assiste a tais fatos sem desautorizá-los? A manifestação de Barroso é procedente pela emoção, embora pela razão foi um excesso.