quarta-feira, julho 05, 2023

Candidato nanico do PMN é peça-chave num esquema das ‘rachadinhas’ na Uerj


Professor Jordão candidato apontado como peça-chave do esquema de rachadinha da Uerj - Rede Social/Arte UOL

Professor Jordão foi candidato a deputado e teve 486 votos

Ruben Berta
Do UOL

Um candidato nanico a deputado estadual é apontado como responsável por cooptar pessoas para participar de um espantoso esquema de “rachadinha” na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Trata-se de José Luiz Jordão de Jesus, o Professor Jordão, do PMN, professor aposentado de educação física, de 75 anos, disputou uma vaga na Alerj (Assembleia Legislativa do RJ) e obteve apenas 486 votos na eleição de outubro de 2022.

Sob a condição de anonimato, uma pessoa contratada como bolsista em um projeto de qualificação profissional revelou ao UOL ter sido chamada por Jordão para integrar o programa.

VIA BOLETO – Na ocasião do primeiro pagamento, Jordão acompanhou a pessoa contratada pela Uerj a um banco. Foi feito então um saque de toda a remuneração (R$ 25 mil líquidos). O bolsista diz ter ficado com R$ 2.000 e que usou o restante para pagar um boleto bancário em nome de uma empresa, a qual não soube identificar.

Apesar de contratada como bolsista, a pessoa relatou que nunca trabalhou no projeto. Disse também que deixou o programa quando percebeu que não se tratava de um “trabalho sério” e afirmou ter doado os R$ 2.000 a uma instituição de caridade.

Ao menos outros sete apoiadores do Professor Jordão foram contratados no mesmo projeto da Uerj: eles ganharam ao todo R$ 742 mil (em valores brutos) ao longo de cinco meses, às vésperas das últimas eleições.

CAMPANHA – Jordão fez campanha com Mabelle Perez, também candidata do PMN e casada com um servidor da Uerj que ganhou R$ 408 mil brutos nas folhas de pagamento secretas.

O Professor Jordão foi procurado por telefone e WhatsApp, mas não se manifestou. A reitoria da Uerj afirmou, em nota, que “tomou conhecimento dos fatos a partir das informações apresentadas pelo UOL e vai apurá-los”.

Assim como Jordão, a psicóloga Mabelle Perez, 37, teve uma votação inexpressiva: 556 votos para deputada federal. Ela é casada com Rodrigo Borges Carvalho Perez, coordenador do IFHT (Instituto Multidisciplinar de Formação Humana com Tecnologias), que é responsável na Uerj pela realização de projetos feitos com dinheiro do governo Cláudio Castro (PL).

PATROCINADORA – O projeto que contratou os apoiadores de Jordão foi tocado pelo IFHT com dinheiro da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia. A Uerj pagou R$ 23,7 milhões a quase 400 pessoas nos cinco meses que durou o programa de qualificação profissional.

No projeto, também foram contratados a irmã e o cunhado de Rodrigo Perez. Juntos, Fernanda Perez e Carlos de Abreu receberam R$ 277 mil entre abril e agosto do ano passado.

Rodrigo Perez foi a 8ª pessoa que mais recebeu entre as mais de 20 mil contratadas nos 19 projetos com folhas de pagamento secretas aos quais o UOL teve acesso: R$ 408 mil entre janeiro de 2021 e agosto de 2022.

SEM COMENTÁRIOS – Rodrigo e Mabelle Perez foram procurados por e-mail e WhatsApp, mas não se manifestaram. Fernanda Perez, irmã do servidor, afirmou que trabalhou por demanda no projeto para o qual foi contratada, elaborando relatórios ligados a qualificação profissional.

Apesar de Professor Jordão ter apenas 330 seguidores em suas páginas no Facebook e no Instagram, os contratados da Uerj foram fiéis em curtidas e comentários.

A microempresária Marina Von Dollinger foi uma delas. Ela postou santinhos de Jordão e Mabelle juntos, acompanhados da legenda “Neles eu confio!”. Ela ganhou R$ 100 mil da Uerj entre abril e agosto do ano passado, enquanto sua filha, Julia Von Dollinger Cracel Stefano, recebeu R$ 60 mil entre abril e julho -média de R$ 20 mil por mês.

SEM DETALHES – Por telefone, Marina admitiu que deu “uma ajudinha” para as campanhas de Jordão e Mabelle. Ela disse que realizou serviços de eventos para a Uerj, mas que detalhes sobre o trabalho deveriam ser dados pela universidade. A microempresária negou que os candidatos tenham tido influência na sua seleção.

Outro seguidor fiel do Instagram de Jordão foi o advogado Clayton Nascimento. Em setembro, ele comentou em uma postagem: “Vamos professor, o Estado do Rio precisa de você”. Nascimento ganhou R$ 102 mil da Uerj em três pagamentos de R$ 34 mil entre abril e julho do ano passado.

“Não posso entrar em detalhes [sobre o trabalho] porque foi um serviço jurídico acobertado pela proteção de sigilo com o cliente. Quem me indicou é uma informação pessoal minha. Procure a assessoria da reitoria”, disse ele à reportagem do UOL.

MAIS UMA – Thiago Triani Barbosa da Silva, que colocou figuras de aplausos nas postagens de Jordão no Instagram, teve a irmã contratada pela Uerj. Professora de uma escola particular na zona sul carioca, Fabiana Triani Barbosa da Silva ganhou R$ 170 mil entre abril e agosto de 2022.

Thiago foi procurado por meio de sua rede social, mas não se manifestou. Greisuran Nascimento dos Santos e Celso Antônio Barbosa da Silva foram procurados por WhatsApp, mas também não se manifestaram. O UOL não localizou André da Silva Vanderlei, genro de Antônio Jordão, irmão do candidato do PMN.

O PMN, partido pelo qual Mabelle e Jordão concorreram, elegeu apenas um parlamentar no estado do Rio nas eleições de 2022. O cantor gospel Frederico Augusto Cruz Pacheco, o Fred Pacheco, conquistou uma vaga na Alerj com 13.946 votos.

EM FAMÍLIA – Fred é irmão do ex-deputado estadual Márcio Pacheco, atualmente conselheiro do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Estado do Rio) e considerado o principal padrinho político do governador Cláudio Castro (PL).

Fred recebeu R$ 112 mil entre agosto e dezembro de 2021 no projeto Observatório do Segurança Presente, que fez pesquisas sobre um programa de patrulhamento do governo do Rio.

A assessoria de imprensa dele afirmou que Fred foi selecionado por meio de “processo seletivo simplificado, conforme preveem instruções normativas da Uerj”. “Ele prestou consultoria para treinamento de qualidade no atendimento e motivação dos agentes do programa”, concluiu a nota.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
 – Excelente matéria, enviada por Armando Gama. Não causa surpresa a criatividade dessa gente para desviar recursos dos cofres públicos. O que espanta é a facilidade com que esse dinheiro é liberado. Será que algum envolvido será processado? Ou a impunidade está garantida? (C.N.)

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