Tem mais. Como editor-chefe do WikiLeaks, Julian selecionou os documentos sobre a guerra do Iraque e Afeganistão, os prisioneiros de Guantánamo e os comunicados diplomáticos das embaixadas americanas no mundo todo. Elaborou uma estratégia de publicação visando impacto, organizou uma equipe, criou um sistema seguro de administração dos documentos, garantiu sua veracidade e, então, entregou os documentos a jornalistas, que os leram, organizaram e vetaram os nomes de cada um dos informantes dos diplomatas americanos nas embaixadas do mundo todo. Ao mesmo tempo em que saíam as centenas de notícias nos jornais, o WikiLeaks publicava a íntegra de cada documento revisado pelos jornalistas no seu site para que qualquer pessoa pudesse verificar por si mesma, ajudando a formar um consenso sobre o que representava aquele tesouro histórico. Como disse recentemente uma grande amiga jornalista, o que o WikiLeaks fez ao agir assim foi uma grande homenagem ao jornalismo, numa época em que já estava mais que claro o seu declínio.
O trabalho do WikiLeaks e de Julian, pessoalmente, ajudou a revigorar a imprensa em um momento de enorme incerteza; demonstrou que o jornalismo investigativo era popular, que investigar os poderosos seguia em voga. Reinventou um dos mais antigos expedientes do jornalismo, o vazamento de informações internas de empresas e governos por informantes, aliando-o à irrefreável digitalização das instituições, que facilitaram os vazamentos massivos, e a uma tecnologia que apagava a identificação do vazador. Imprimiu sua marca ao jornalismo do século 21 ao obrigar grandes redações do mundo todo a colaborarem para o tratamento dos documentos, dando ao novo jornalismo a marca da colaboração que é a essência do trabalho de qualquer desenvolvedor ou tecnólogo. Criou um modelo que continua a ser replicado por organizações jornalísticas de ponta como o Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), que publicou depois os Panama Papers, fruto de um enorme vazamento de contas offshore, e o The Intercept Brasil, que publicou a Vaza Jato.
Aos fatos: Assange está por ser extraditado para os EUA por 18 acusações, sendo 17 por ter publicado documentos secretos do governo americano vazados pela ex-soldado Chelsea Manning. A decisão pelo seu indiciamento, por si só, me causa arrepios. Começa dizendo que o WikiLeaks é culpável por “requerer” vazamentos de documentos, coisa que muitos sites, jornais e podcasts fizeram desde então (A Folha, por exemplo, teve um projeto chamado “Folhaleaks”, com um Dropbox seguro, como o do WIkiLeaks).
Depois, alega que Assange é acusado por ter tentado ajudar Chelsea Manning a obter um código que ajudaria a mascarar a identidade dela durante a obtenção de documentos dentro do sistema americano – coisa que não deu certo. (Essa acusação sempre me lembra a história de um apartamento que nunca chegou a ser comprado no Guarujá).
Em seguida, criminaliza um diálogo entre Assange e Manning sobre os documentos, no qual Assange não instrui, não solicita, não paga, não demanda nada da então soldado. Diz apenas: “curious eyes never run dry” (“olhos curiosos nunca se satisfazem”). Se algum jornalista já falou com uma fonte interna de um governo e fez menos do que isso, que atire a primeira pedra.
A acusação segue dizendo que os documentos foram publicados “com intenção de prejudicar os EUA”. Oi? Como se expor e denunciar os abusos de uma superpotência não fosse o dever mínimo de qualquer jornalista que se preze.
Vale lembrar que a extradição iminente de Assange para os EUA foi cercada de artimanhas que fariam o ex-juiz Sérgio Moro corar. Primeiro, o australiano foi acusado de crimes sexuais na Suécia, para onde queriam extraditá-lo. Seus advogados sempre disseram que isso era uma desculpa para extraditá-lo para os EUA e sempre ofereceram que ele fosse questionado em solo inglês. O caso ruiu dois anos atrás sem maior alarde – depois do governo americano admitir oficialmente que queria extraditá-lo.
Para fugir do imbróglio, Assange refugiou-se na embaixada do Equador, que o manteve por lá até que uma troca de governo possibilitou uma aproximação com os EUA, e o asilo foi revogado. Então Julian foi arrastado para a prisão de segurança máxima de Belmarsh para cumprir a ridícula pena de 50 semanas por ter violado sua condicional pela justiça britânica ao ter buscado asilo junto ao Equador. A pena terminou de ser cumprida em 2020. |