terça-feira, novembro 15, 2022

Em busca de novos paradigmas energéticos - Editorial



A crise provocada pela Rússia não só impõe estratégias de diversificação no fornecimento de petróleo e gás, mas fortalece argumentos em favor de investimentos em tecnologias limpas

Além das atrocidades contra o povo ucraniano, a ameaça à segurança global ou as rupturas na cadeia alimentar, o impacto mais dramático da guerra criminosa de Vladimir Putin é sobre o sistema de energia global. O choque impôs pressões inflacionárias e riscos de recessão que castigam especialmente os mais pobres. Com a combinação da crise pandêmica, a Agência Internacional de Energia (AIE) estima que 70 milhões de pessoas que ganharam recentemente acesso à eletricidade devem perder a capacidade de pagar por ela e 100 milhões precisarão recorrer a combustíveis insalubres e perigosos para cozinhar.

A crise é uma advertência sobre a fragilidade e a insustentabilidade do sistema corrente de energia. Como os governos devem responder para remodelar os mercados de energia? Qual o impacto sobre a transição para energias limpas: retrocesso ou catalisação? O Panorama da Energia Mundial da AIE, o primeiro após a guerra, oferece subsídios importantes para enfrentar essas questões.

“O uso global de combustíveis fósseis cresceu junto ao PIB desde o início da Revolução Industrial”, lembra a AIE. “Reverter esse crescimento, continuando, ao mesmo tempo, a expansão da economia global, será um momento cardeal na história da energia.” Junto a medidas de curto prazo, muitos governos preparam estratégias de longo prazo, seja no sentido da diversificação do fornecimento de petróleo e gás, seja no da aceleração de mudanças estruturais. 

Segundo a AIE, a alta na utilização de carvão deve ser temporária. À medida que os mercados se reequilibram, as fontes renováveis, apoiadas pela energia nuclear, devem trazer ganhos sustentáveis. Há razões para um otimismo cauteloso. Pela primeira vez, o Panorama vislumbra, a se manterem as políticas implementadas nos últimos anos, um platô para os combustíveis fósseis. A partir de meados desta década, a demanda total deve passar a declinar continuamente, dos atuais 80% no sistema energético para 75% em 2030 e até 60% em 2050.

Novas políticas estão ampliando os investimentos em energia limpa, que podem chegar a US$ 2 trilhões em 2030, 50% a mais do que hoje. É uma arena para a competição econômica internacional, que pode gerar imensas oportunidades para o crescimento e empregos.

Os déficits de investimento em combustíveis limpos são naturalmente maiores em economias emergentes ou em desenvolvimento. Ao mesmo tempo, é nelas que mais cresce a demanda por energia. “Um esforço internacional renovado é necessário para acelerar as finanças climáticas e enfrentar os vários riscos econômicos e em projetos específicos que detêm os investidores.” A velocidade com que os investidores reagirão a uma transição crível depende na prática de uma série de temas granulares. As cadeias de fornecimento são frágeis e o trabalho qualificado e a infraestrutura nem sempre estão disponíveis. Procedimentos claros para aprovação de projetos, sustentados por capacidades administrativas adequadas, são vitais para acelerar o fluxo de projetos viáveis e aptos a atrair investimentos.

À medida que o mundo avança a um novo paradigma de segurança energética, será preciso evitar novas vulnerabilidades decorrentes de preços altos e voláteis de minerais ou cadeias de fornecimento altamente concentradas de energia limpa. Assim como a dependência do petróleo da Rússia expôs a vulnerabilidade do sistema energético atual, uma dependência de países como a China para o fornecimento de minerais críticos e muitas tecnologias limpas impõe riscos que precisam ser ponderados.

Mas, tudo somado, a guerra fortaleceu os argumentos em favor de tecnologias limpas a preços viáveis. “Muito mais precisa ser feito, e à medida que esses esforços ganham tração é essencial trazer todos a bordo, especialmente em um momento em que as fraturas geopolíticas na energia e no clima estão mais visíveis”, conclui a AIE. “A jornada rumo a um sistema energético mais seguro e sustentável pode não ser suave. Mas a crise de hoje mostra com clareza cristalina porque precisamos de um impulso à frente.”

O Estado de São Paulo

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