sexta-feira, agosto 13, 2010

As relações perigosas de empresários e torturadores na ditadura militar. A participação do general Fiuza (o filho), do major Brilhante Ustra e do delegado Sergio Fleury. Anos de chumbo, que jamais devem ser esquecidos.

Carlos Frederico Alverga: “Hélio, apenas uma observação: a verdadeira origem do DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna), foi a famigerada e tristemente famosa Operação Bandeirantes, a Operação OBAN, que consistiu na associação criminosa entre empresários paulistas, o Exército, o governo do Estado de São Paulo, a prefeitura de São Paulo e outras autoridades, incluindo elementos da polícia paulista, entre eles o mais famoso de todos, o delegado Sérgio Fernando Paranhos Fleury que, juntos, articulados, engendraram a diabólica e exitosa política pública do Estado Ditatorial Nacional da tortura generalizada, institucionalizada e total, com a finalidade de exterminar as organizações armadas da extrema esquerda brasileira.”

Comentário de Helio Fernandes:
Uma satisfação, Alverga, receber tanta informação, e de primeira qualidade, sobre os tempos dolorosos, selvagens e terríveis, em que predominava a tortura, Ainda em 1964, Ernesto Geisel,”chefe da Casa Militar” do “presidente” Castelo, foi mandado a Recife por causa de denúncias de tortura indiscriminada.
Foi, viu e voltou. Como acreditava no próprio futuro, (e reconheçamos, em parte por ser contra a tortura, coisa que não acontecia com seu irmão Orlando, que implantou a OBAN no Rio), fez “um relatório secreto mas rigorosamente verdadeiro”, sobre o que acontecia em Pernambuco e principalmente no Recife. Entregou em mãos de Castelo, que leu, “impressionado”.
Como não sabia o que fazer, Castelo colocou o carimbo de “ultra-secreto”, mandou arquivar. O que fazer com aquelas denúncias, comprovadas e contadas pelo seu auxiliar mais graduado? De uma certa maneira, não querem liberar documentos sobre o que acontecia de violência, logo a partir dos primeiro dias, por causa desse “relatório Geisel”.
Quando escrevi sobre 1963, disse, “foi a minha primeira ida à Barão de Mesquita”. Verdade, e o DOI-CODI só existiria a partir de 1967/68. Logo depois, Costa e Silva ficou “incapacitado” e em seguida morreria. Derrotado nas urnas militares, Orlando Geisel não pôde ser “presidente”, mas dividiu o Poder com Médici, que na verdade não queria assumir.
Orlando Geisel ficou com a parte de Segurança do governo, aumentou o poder do DOI-CODI, que você detalha com a significação da sigla. (Numa das muitas vezes em que fui para esse antro do terror, seu comandante era o general Fiuza de Castro, o filho, o pai também general, não se metia em tortura, excelente figura).
O vice era o coronel Paca, que sofria tanto ou mais do que os torturados. A família Paca, de militares, tinha excelente reputação. Enquanto esperavam “ORDENS DE CIMA“, para saber o que fazer comigo, alguém falou em “CODI-DOI”. Fiuza de Castro corrigiu, dizendo, “mudou, agora é DOI-CODI”. Como alguém pedisse explicação, Fiuza falou, rindo sadicamente, “é que DOI primeiro”. Não consegui apurar a mudança, mas a partir daí, em palavras faladas ou documentos logicamente oficiais, era sempre DOI-CODI.
Todas as autoridades citadas por você, Alverga,participaram “satisfatoriamente” da tortura. Nem posso garantir a comprovação dessa palavra SATISFATORIAMENTE, mas o maior volume de tortura valia para promoção. E tudo referendado (e mais grave, AJUDADO, por jornais RESPEITÁVEIS), o que aconteceria depois, quando a OBAN passou para o Rio. (Foi festejada e avalizada pelos jornalões daqui, com a exceção pública e notória da Tribuna da Imprensa).
Abreu Sodré, aristocrata do café (e a partir de 1967, sócio de Sarney, ganharam fortunas), foi feito “governador” de São Paulo pela conivência, cumplicidade e concordância com as maiores chacinas que presenciou, antes de ser “eleito”, e que AUTORIZAVA depois da posse.
Não foi por acaso, que mais tarde os sócios se juntaram. Feito “presidente” por causa da morte de Tancredo, Sarney não esqueceu o sócio, que já deixara o “governo”. Nomeou-o então ministro do Exterior, Sodré era aristocrata, mas não era diplomata).
Você falou em Sergio Fleury, que era o executor da tortura, em todas as instâncias. Deram até nome a essa selvagem: “Política de Tortura do Estado Ditatorial”. Ninguém mais suportava tanta violência. Recebiam recursos financeiros volumosos DOADOS por empresários importantes, que como RECOMPENSA, recebiam PROTEÇÃO e FAVORECIMENTO ESTADUAL E FEDERAL.
Os “colaboradores” eram muitos, grupos divididos, as execuções não eram individuais e sim coletivas. O governador Sodré sabia de tudo, CONTABILIZAVAM as EXECUÇÕES em documentos, não ligavam para o que ficasse MARCADO para o futuro.

Um dos mais “encarniçados” empresários da tortura, era o dinamarquês Henning Boilesen. Como Pinochet, adorava assistir torturas. Muito ligado ao “governador” Sodré e ao “prefeito” Paulo Maluf. Outros empresários também assistiam torturas (feitas em vários quartéis do II Exército). Quando não iam, Boilesen aproveitava, almoçava na FIESP, contava tudo, vibração geral.
A participação do empresariado paulista era tão conhecida e tão representada por esse sádico Boilesen, que em abril de 1971, resolveram eliminá-lo.
Tiveram antes a INTUIÇÃO GENIAL. Se convenceram que liquidá-lo em casa ou no escritório, impossível. Traçaram então o trajeto que fazia duas ou três vezes por semana, indo para a FIESP. A área da Avenida Paulista sempre “atravancada”, “engarrafada” com milhares de pessoas. Designaram então três militantes para se livrarem de Boilesen. Mas no dia da execução havia uma feira-livre, o empresário fez um trajeto diferente, seu Galaxie foi cercado na esquina da Alameda Casa Branca, antes de chegar à Av. Paulista, onde recebeu vários tiros de fuzil e metralhadora.
Essa morte assustou, perdão, apavorou todos os que participavam das EXECUÇÕES, civis e militares. O responsável na área militar, o então major Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador nato e que aprendeu a técnica e a tática da tortura com o americano Daniel Mitrione (conhecido como “o mago da tortura”) foi transferido. Não admitiu sair de São Paulo, e como SABIA MUITO, contrariou o ALTO COMANDO e ficou, mandando e desmandando na tortura.

Decidiram então “limpar a pedra”, eliminando os mais comprometidos. O primeiro da “hierarquia civil da tortura”, era Sérgio Paranhos Fleury. “Bateu” com a cabeça na quina de um barco, morreu imediatamente. Seu corpo foi sepultado sem ter sido autopsiado. Pânico geral, mas toda a esquerda ou os que eram tidos como “de esquerda”, já dizimados.
Esse CODI-DOI (ou DOI-CODI, não importa) acabou se fundindo ou se acobertando junto ao poderoso SNI, que “fazia” até “presidentes”. Não vou contar agora, minha temerosa assiduidade na ida a essa Barão de Mesquita. O que impressionava: prendiam jovens de 20, 21, 22 anos, que eram logo torturados. Eu ouvia os gritos, choros e lamentos desses meninos

***

PS – Eram todos de classe média alta, entusiasmados na luta contra a tortura sádica e selvagem. Quando chegava o “pistolão” dos pais, eram libertados imediatamente, alguns ficaram marcados para sempre.
PS2 – O “mago da tortura”, Dan Mitrione, foi “justiçado” pelos TUPAMAROS no Uruguai. Em São Paulo ou Minas, (não lembro bem) deram a uma rua o nome de MITRIONE.
PS3 – Assim que acabou a censura, protestei contra esse fato, imediatamente tiraram a placa da rua, acho que não sabiam de nada.
PS4 – O pior de tudo é SER TORTURADO POR AMADORES. Herzog e Fiel Filho foram mortos por AMADORES. Os PROFISSIONAIS conhecem o limite do corpo humano, torturam por necessidade ou para obter INFORMAÇÕES. (O bravo Rubens Paiva foi MORTO por AMADORES da FAB e do Exército.
PS5 – Um dia escreverei sobre tortura. nacional e internacional. Partindo da afirmação de Dona Dilma, “fui TORTURADA por 3 anos”. E com a contestação de Antonio Santos Aquino: “Ninguém aguenta ser TORTURADO durante 3 anos”.
PS6 – E o acréscimo deste repórter: ninguém SUPORTA 3 anos de tortura. E mais: ninguém é tão importante que MEREÇA 3 anos desse tipo de represália. Só conheço um homem que foi torturado por 3 anos: Luiz Carlos Prestes.

Helio Fernandes/Tribuna da Imprensa

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