quinta-feira, julho 22, 2010

O futuro depois da derrota

Carlos Chagas

Em tempo de eleição os candidatos só pensam na vitória. Fala-se de candidatos para valer, é claro, dada a existência daqueles que entram nas disputas eleitorais para fazer figuração ou até por questões patológicas. Mas os verdadeiros candidatos nem de longe raciocinam com a derrota. Pensarão nela quando chegar a hora.

Mesmo assim, aqui de fora, não nos sentimos limitados para deixar de imaginar o que acontecerá com os derrotados. Qual o futuro deles?

Vale começar com o mais velho. José Serra, caso perca a eleição, não repetirá o percurso anterior, de candidatar-se a prefeito de São Paulo, depois a governador do estado. Menos pelos seus 68 anos de idade, mais por enfado, quem sabe por cansaço. Perdendo a corrida para o único cargo que ainda não exerceu na política, a presidência da República, tudo indica a disposição de recolher-se à vida acadêmica. Quem sabe aceitará consultorias em empresas privadas? Afinal, não sendo rico, apesar das aposentadorias de prefeito e governador, precisará prover o futuro com algum trabalho. Dificilmente admitirá permanecer no primeiro plano da política tucana, fazendo oposição a um novo governo do PT.

Já Dilma Rousseff, se não for eleita, também precisará trabalhar. Não é mulher para ficar apenas cuidando dos netos e nem dispõe de patrimônio capaz de garantir-lhe o ócio. Como executiva, enriqueceria qualquer empresa privada. Poderá, com facilidade, integrar governos estaduais chefiados por companheiros e aliados, do Rio Grande do Sul, se Tarso Genro eleger-se, ao Acre, com Tião Viana. Não aceitaria qualquer participação num governo do PSDB, se lhe fosse oferecida. Continuaria na linha de frente do PT, junto com o Lula.

Marina Silva sabe estar plantando para o futuro. Deixa uma reeleição mais do que certa no Senado, muito possivelmente disputará outra vez o palácio do Planalto, em 2014. Permanecerá como férrea defensora de causas ecológicas e ambientais.

Quanto aos candidatos à vice-presidência, mais sofrerá Michel Temer, com a derrota. Pensará sempre que poderia ter permanecido na presidência da Câmara pelo biênio 2011-2012, desde que se reelegesse, não fosse a ambição de tornar-se companheiro de chapa de Dilma. Fora de seus planos estará a disputa municipal de daqui a dois anos, em São Paulo, restando-lhe retornar como deputado em 2014.

Sobre o Índio da Costa, lamentará apenas haver trocado a Câmara Federal pelo sonho de ser vice sem voto, mas, pela pouca idade, poderá imaginar-se nas eleições para a prefeitura do Rio, dentro de dois anos.

Em suma, hoje os candidatos referidos torcerão o nariz diante de qualquer pergunta sobre uma eventual derrota, que não aceitam. Ou será que lá no fundo, bem no fundo, a hipótese já foi cogitada por eles?

No reino da fantasia (1)

A gente não sabe o que é mais singular: se os tribunais eleitorais continuarem multando o presidente Lula e Dilma Rousseff por propaganda antecipada e abuso de poder ou se os pedidos de desculpa dos dois. Porque já são sete multas para cada um, se hoje não apareceu mais alguma. O presidente e sua candidata continuam fazendo o que bem entendem, assim como José Serra e o governador Alberto Goldman. Dão de ombros para a legislação eleitoral, aliás, legislação burra. Até agora não pagaram um centavo, encontrando-se as penalidades em grau de recurso.

Mesmo se não estivesse em recesso, não daria para o Congresso mudar as regras do jogo em nome da liberdade de expressão, mas algum dia, a partir do ano que vem, essa floresta de obstruções acabará desbastada. Desde que não se façam campanhas com dinheiro público, inexistem motivos para impedi-las. Quem se desgasta é a justiça eleitoral.

No reino da fantasia (2)

Todo mundo escorrega, José Serra também teve o seu dia. Falando a empresários de Goiás, saiu-se com a seguinte definição: “o papel mais importante do empresário não é ficar rico, mas gerar empregos e ajudar a construir o Brasil.” A platéia não riu por delicadeza.

Economia aquecida

Divulgam os jornais que os Estados Unidos já gastaram mais de um trilhão de dólares na luta contra o terror. Boa parte dessa inimaginável soma serviu para operações militares, produção e aquisição de material bélico e de sofisticados aparelhos para monitorar terroristas. Feliz, mesmo, está o complexo industrial-militar denunciado pelo presidente Eisenhower no discurso em que passou o poder para John Kennedy. Um refrigério na economia americana, só superado durante a II Guerra Mundial. Lucro para muitos. Empregos, também. Acontecerá o quê, se o terror for completamente extirpado?

Fonte: Tribuna da Imprensa

Em destaque

Mobilização de filiação partidária na Bahia em 2026

  Mobilização de filiação partidária na Bahia em 2026 Porcentagem de filiados entre todos os eleitores registrados em cada cidade na Justiça...

Mais visitadas