domingo, dezembro 13, 2009

O refúgio onde a arara-azul é feliz

Fotos: Luciano Candisani / Detalhe do charme das araras-azuis: a coloração amarela em volta dos olhos e no bico
Detalhe do charme das araras-azuis: a coloração amarela em volta dos olhos e no bico Meio ambiente

O refúgio onde a arara-azul é feliz

Em 20 anos, projeto triplicou a população da espécie na região do Mato Grosso do Sul, que hoje chega a aproximadamente 5 mil aves

| Vinicius Boreki

Neiva Guedes desfaz a expressão sisuda, sorri e soca o ar de punho cerrado. A alusão à comemoração de Pelé não se deve a um gol, mas à confirmação do nascimento de mais uma saudável arara-azul. Os pássaros conquistaram Neiva em 1989, quando avistou uma árvore com cerca de 30 aves. Foi amor à primeira vista. Mal sabiam elas que essa aliada (com apoio de companheiros e empresas) conseguiria triplicar a população da espécie em 20 anos. De 1,5 mil, em 1989, estima-se que o número se aproxime de 5 mil hoje. E a atuação do Instituto Arara-Azul, do qual Neiva é coordenadora e idealizadora, comemora 20 anos em 2009, estendendo-se por cerca de 450 mil hectares do Pantanal sul-mato-grossense. Se os braços do projeto esbarram nas fronteiras estaduais, o legado avança a outros países com ocorrência da espécie, como Bolívia e Paraguai.

O reconhecimento chega após anos de teimosia, superando a falta de pesquisas e a dificuldade de logística. Há duas décadas, praticamente inexistiam informações sobre o comportamento e o modo de vida dos pássaros. Hoje, conhecem-se os modos de reprodução, as características típicas, e a evolução (do nascimento até o primeiro voo). Para rodar pelo Pantanal, Neiva precisava de veículo adequado às condições locais: alagada na cheia e acidentada na seca. Encontrou acolhida na Toyota, que cedeu de início um jipe Bandeirante. Atualmente, o projeto conta com três caminhonetes Hilux. O próximo passo da parceria será a construção de um Centro de Sustentabilidade, em Campo Grande.

Diversidade

Pantanal mistura ecossistemas

As araras-azuis são as maiores representantes dos psitacídeos, família de aves em que estão incluídos periquitos, papagaios e araras. Pássaros de belas plumagens e que, por esse motivo, são muito visados pelo tráfico de animais e pela caça indígena. O Pantanal, porém, tem muito mais a mostrar do que esses pássaros. Na região, existem aproximadamente 1,1 mil espécies de borboletas, 262 de peixes, 50 de répteis, 650 de aves, 80 mamíferos e 1,7 mil de vegetação. “A variação entre cheia e seca permite essa diversidade”, explica Neiva Guedes. O padrão alternativo possibilita ver características de outros ecossistemas brasileiros, como o Cerrado e a Mata Atlântica.

Pesquisa tem apoio do “GPS mental” de Cezar

Carlos Cezar Corrêa, assistente de pesquisa do Projeto Arara-Azul, carrega um GPS atualizado do Pantanal. Um GPS mental. Em vez de se orientar por prédios e esquinas, ele se baseia na luz do sol, nas árvores e nas trilhas seguidas pelo gado de corte criado nas fazendas da região. “É mais fácil do que andar em São Paulo”, garante. Quando Cezar deixa uma das pistas da fazenda, o passageiro pode ter uma convicção: um ninho, em breve, será encontrado. A certeza invariavelmente se confirma. “Fui escoteiro, militar. Conheço o posicionamento do sol, o que me ajuda muito. Há também o pessoal do Pantanal, que ensina os caminhos”, revela.

Veja a matéria completa

 / O projeto, idealizado em 1989 por Neiva Guedes, deu origem ao instituto Ampliar imagem

O projeto, idealizado em 1989 por Neiva Guedes, deu origem ao instituto

O “brincar de Deus” foi essencial para afastar o perigo de extinção do pássaro (a ararinha-azul, cujo último exemplar na natureza foi visto em 2000, existe apenas em cativeiro). A razão para o risco estava na intensidade do tráfico de animais até a década de 80, sobretudo em razão de sua característica exibicionista. “Ela se adapta muito bem ao cativeiro”, explica Neiva. Ao contrário de outras espécies, a arara-azul não se assusta com a presença do homem, e sua personalidade solidária atrai outras aves quando começam a gritar, somando quatro ou cinco casais de pássaros simultaneamente em uma mesma árvore. Ao menos hoje, o tráfico de animais e a caça indígena são problemas menores.

A atuação do projeto, que virou instituto em 2003, consiste em monitorar ninhos naturais, instalar e acompanhar abrigos artificiais –pequenas “casas” de madeira construídas com material específico e adotadas pelas araras e outros animais –, marcar os pássaros nascidos, coletar material biológico e mapear ninhos desconhecidos. Esporadicamente, tratam de aves machucadas. Ao todo, 400 ninhos naturais e 220 artificiais foram observados e boa parte continua sob vigília. Araras-vermelhas, tucanos, gaviões e animais terrestres, como veados, antas, tamanduás-bandeiras e onças, encontram abrigo mais tranquilo no Pantanal graças ao projeto, pois seu foco chega à comunidade, incentivando a defesa da fauna e da flora.

Os bons resultados, contudo, não permitem intervalo no trabalho. A reprodução da arara-azul não é das mais intensas e, apesar de “apenas” 13% da área total do Pantanal ter sido modificada pela ação humana, a árvore predileta para os ninhos (o manduvi, cuja semente é espalhada pelos tucanos) desaparece a cada ano. Como os animais são fiéis aos abrigos (procuram sempre o mesmo local para se reproduzir) e aos companheiros (são monogâmicas), as casas artificiais conseguem enganar a natureza. É necessário, porém, preservar o vegetal. “As araras-azuis têm função de engenheira ambiental. Encontram buracos feitos por pica-paus, por exemplo, e o aumentam. Depois, outras espécies ocupam também. O mesmo ocorre nos ninhos artificiais”, esclarece Neiva.

Dificuldade natural

A cada 100 ovos postos por araras-azuis, apenas 60 eclodem. Os desafios desses sobreviventes não param por aí. Eles precisam resistir à predação de gaviões e tucanos e ao ataque de doenças e de pequenos insetos. Muitos são mortos quando os pais saem juntos em busca de alimentos. Apesar de a maior parte dos casais colocar dois ovos em média, geralmente apenas um filhote sobrevive e é criado pelos pais por aproximadamente nove meses. Ou seja, o comportamento natural dificulta o trabalho. Sua alimentação se baseia em apenas dois frutos de palmeiras: o acuri e a bocaiuva.

Artigos

A evolução do saber sobre os pássaros se conecta com o Instituto Arara-Azul. Desde 1989, o co­­nhecimento se disseminou, gerando artigos e publicações em congressos nacionais e internacionais. No total, as araras-azuis foram tema de 77 apresentações em congressos e de 19 artigos. A base do projeto desde 1998, no Refúgio Ecológico Caiman, em Miranda, é constantemente procurada por biólogos e outros pesquisadores. “Sempre estamos ajudando em pesquisas e em imagens”, conta Carlos Cezar Corrêa, assistente de pesquisas. A pequena equipe é, atualmente, composta por outras quatro pessoas: as biólogas Ana Maria Faldine, Grace Ferreira, Juliana Rechetezo e Fernanda Fontoura.

* * * * *

O jornalista viajou a convite da Fundação Toyota.

Fonte: Gazeta do Povo

Em destaque

Moraes suspende dosimetria aprovada no Congresso até STF julgar lei que pode reduzir pena de Bolsonaro

  Moraes suspende dosimetria aprovada no Congresso até STF julgar lei que pode reduzir pena de Bolsonaro Decisão consta em execuções penais ...

Mais visitadas