domingo, outubro 18, 2026

Flávio Bolsonaro muda de discurso, mas deixa a economia sob suspeita


Esquerda reage no 2º turno e supera direita em engajamento nas redes

 Publicado em 18 de outubro de 2026 por Tribuna da Internet

A virada expõe nova força de Lula no 2º turno

Bruno Romani
O Globo

Apesar das reclamações da campanha de Lula (PT) a respeito de interferência de big techs no processo eleitoral contra Flávio Bolsonaro (PL), o campo da esquerda superou a direita em engajamento nas redes sociais na primeira semana da campanha do 2º turno, refletindo a mobilização de apoiadores do candidato que busca a reeleição.

Segundo dados da empresa de análise Bites, obtidos com exclusividade pelo O Globo, influenciadores de esquerda subiram o engajamento nas redes da Meta em 783% entre 4 e 11 de outubro, contra 162% de influenciadores da direita. No Instagram sozinho — ou seja, sem o Facebook —, a esquerda subiu 1.195%, e a direita, 241%.

INTERAÇÕES ORGÂNICAS – O estudo não mede alcance ou impressões brutas — dados restritos às próprias plataformas. O levantamento acompanha as interações orgânicas públicas (curtidas, comentários e compartilhamentos) e mostra a mobilização da esquerda após a derrota no 1º turno da votação presidencial.

A falha técnica reconhecida pela Meta nesta sexta (16), que bloqueou temporariamente a conta de anúncios pagos de Lula por algumas horas, ocorreu no sistema de impulsionamento pago. Por isso, ela não afetou os dados do estudo, que monitorou apenas o engajamento orgânico do feed público.

A medição foi feita semanalmente ao longo de três períodos: pré-campanha (1º/6 a 15/8), campanha do 1º turno (16/8 a 3/10) e 2º turno (4/10 a 11/10). Antes da campanha, os perfis de direita somavam 11 milhões de interações por semana, contra 4,6 milhões da esquerda. Durante a campanha do 1º turno, a direita saltou para 25 milhões, contra 11,5 milhões da esquerda. Na semana seguinte ao 1º turno, a esquerda virou: 49 milhões, contra 45 milhões da direita. Essa é a única semana da série em que a esquerda superou a direita em interações.

TRAÇÃO EM MASSA – Somente os deputados federais André Janones e Erika Hilton tiveram, respectivamente, 24,7 milhões e 21,6 milhões de interações. Segundo André Eler, diretor técnico da Bites, a utilização de grandes comunidades organizadas no Telegram e no WhatsApp (grupos com até 2 milhões de pessoas convocadas para interagir simultaneamente) gerou tração orgânica em massa sem ferir as regras das plataformas.

Na esquerda, três perfis somam 76% das interações do campo no segundo turno: Janones (33%), Erika Hilton (29%) e Jones Manoel (15%). Na direita, Nikolas Ferreira sozinho responde por 49% das interações do campo, tanto no 1º quanto no 2º turno.

A medição olhou para 13 nomes da direita (André Fernandes, Bia Kicis, Carlos Bolsonaro, Damares Alves, Deltan Dallagnol, Gustavo Gayer, Jeffrey Chiquini, Julia Zanatta, Kim Kataguiri, Lucas Pavanato, Michelle Bolsonaro, Nikolas Ferreira e Pr. Marco Feliciano) e 9 da esquerda (Ana Elisa, André Janones, Erika Hilton, Guilherme Boulos, Jones Manoel, Pedro Rousseff, Rick Azevedo, Sâmia Bomfim e Tabata Amaral).

EMPATE –  No 1º turno, influenciadores tanto de esquerda quanto de direita tiveram queda no engajamento nas redes da Meta, de 17% e 35%, respectivamente. Embora numericamente a queda na esquerda seja menor, a Bites considera o resultado um “empate”.

A queda generalizada é considerada normal. Com as regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que proibiam a distribuição algorítmica de conteúdos de candidatos durante o período de campanha, o algoritmo deixou de levar esses conteúdos aos feeds de não seguidores (a aba “Para Você” ou as sugestões), restringindo a entrega à própria bolha de seguidores. Com o fim das restrições, os números explodiram na disputa do 2º turno, com a ajuda de influenciadores que também eram candidatos.

LULA TAMBÉM SOBE –  Além dos influenciadores, o perfil de Lula também superou o engajamento do de Bolsonaro na primeira semana do 2º turno. O petista teve aumento de 298%, contra 110% de seu adversário, nas redes da Meta, no TikTok e no X. Na campanha do 1º turno, ambos tinham caído: Flávio, 16%, e Lula, 27%.

Impulsionado pela proximidade da aprovação da escala 6×1 e pela movimentação que resultou nos grandes atos do fim de semana, Lula teve um aumento muito expressivo no engajamento do Instagram na primeira semana do 2º turno: alta de 1.789%. Flávio cresceu 694%.

Lula mudou de estratégia ainda na campanha do 1º turno, passando de 110 para 300 posts por semana. Flávio manteve o ritmo e, depois do 1º turno, até reduziu para 56 posts. Assim, o petista ultrapassou o rival em interações na semana de 31/8 e ficou à frente até o fim da série.


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Emendas parlamentares turbinam votos e transformam dinheiro público em força eleitoral

Publicado em 18 de outubro de 2026 por Tribuna da Internet

Charge do Baggi (Jornal de Brasília)

Dimitrius Dantas
Lauriberto Pompeu
O Globo

Na cidade de Várzea, município de 2,7 mil habitantes no Sertão da Paraíba, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), recebeu 253 votos para deputado federal em 2022. No último dia 4, superou em quatro vezes esse desempenho e foi escolhido por 1.067 eleitores, a maior votação da cidade. Entre uma eleição e outra, a prefeitura recebeu R$ 1,73 milhão em emendas destinadas pelo parlamentar, o equivalente a 43% de todos os recursos desse tipo destinados à localidade no período.

A 68 quilômetros dali, em Condado (PB), o cenário foi parecido. Motta obteve 1.834 votos, o que representou 44,7% do total, o maior índice entre os demais candidatos, e 656 a mais do que há quatro anos. Nesse intervalo, enviou R$ 2,08 milhões em emendas ao município, 80% de tudo o que a prefeitura da cidade recebeu nessa modalidade.

INFLUÊNCIA DAS VERBAS – Os dois casos são exemplos da influência das verbas federais no resultado eleitoral. Um levantamento feito pelo O Globo mostra que a cada R$ 10 enviados em emendas nos últimos três anos, R$ 7 foram para o grupo de municípios em que os deputados tiveram suas maiores votações proporcionais.

Os dados indicam que em 90% das cidades em que um único deputado respondeu por mais da metade das emendas, o parlamentar terminou entre os três candidatos mais votados. Em 70%, foi o primeiro colocado.

Motta admite que seu desempenho nas urnas é fruto das verbas enviadas nos últimos anos e defende a utilização do instrumento por parlamentares para abastecer seus redutos eleitorais. Em sua gestão à frente da Câmara, o valor reservado no Orçamento para este tipo de recurso bateu recorde, com R$ 50,4 bilhões em 2025 e R$ 49,9 bilhões reservados neste ano.

NOTA – “A votação é consequência dessa minha atuação e revela a importância das emendas parlamentares. São os parlamentares que conhecem as necessidades de sua região”, afirmou Motta, em nota enviada por sua assessoria.

Mas a relação das emendas com o resultado eleitoral não se restringiu à disputa pela Câmara. O deputado federal Arthur Lira (PP-AL), por exemplo, foi o candidato a senador mais votado em três de cada quatro cidades de Alagoas que receberam emendas de sua autoria nos últimos três anos. Em 52 dos 55 municípios contemplados, terminou entre os dois primeiros colocados.

No município de Girau do Ponciano (AL), por exemplo, Lira havia recebido 221 votos e ficado em 14º lugar entre os candidatos a deputado federal em 2022. Nos três anos seguintes, destinou R$ 3,15 milhões apenas em emendas individuais ao município, o equivalente a 78% de toda a verba do tipo recebida pela cidade. Foi o mais votado, sendo escolhido por 14,6 mil eleitores. Procurado, ele não respondeu.

VOTO TURBINADO –   Os dados mostram ainda que o desempenho eleitoral dos parlamentares melhora quanto maior é o peso das suas emendas no orçamento municipal. Nos casos em que um único deputado foi responsável por mais de 75% dos recursos enviados à prefeitura, oito de cada dez foram os candidatos mais votados da localidade.

Ao comparar os dados de 2026 com os de 2022, os números indicam que o envio das emendas ajudou a turbinar a votação de deputados que disputaram a reeleição. É o caso, por exemplo, de Felipe Carreras (PSB-PE), que em 2022 obteve 83 votos em Santa Cruz do Capibaribe, município de 98 mil habitantes no Agreste pernambucano. Na ocasião, foi apenas o 33º entre os mais votados na cidade.

Quando o resultado da eleição à Câmara foi divulgado, o cenário já era outro. Carreras foi o mais votado no município, com 22,3 mil eleitores o escolhendo como o candidato a deputado. Entre uma eleição e outra, foi quem mais destinou emendas individuais para a cidade, com R$ 7,9 milhões.

COMEMORAÇÃO – O salto foi comemorado por Carreras em suas redes sociais: “O federal campeão em recursos é também o federal campeão de votos da cidade!”. Durante a campanha, o parlamentar também publicou diversos vídeos destacando as obras realizadas na cidade. “Santa Cruz virou um verdadeiro canteiro de obras, e por trás de cada avanço tem uma palavra que faz toda a diferença: parceria”, escreveu o deputado em uma das publicações. Procurado, ele não respondeu.

A relação entre voto e emenda também é observada em cidades maiores. Em Marabá, município de 267 mil habitantes no Pará, o deputado Delegado Caveira (PL-PA) saiu do oitavo lugar, com 4,3 mil votos em 2022, para o primeiro, com 35,4 mil neste ano. Entre as duas eleições, enviou R$ 17,9 milhões em emendas individuais para a cidade, o equivalente a 82% de todos os recursos desse tipo recebidos pelo município. Questionado sobre as verbas, não se manifestou.

Em São João de Meriti, na Baixada Fluminense, Luciano Vieira (PSDB-RJ) passou do terceiro para o primeiro lugar entre uma eleição e outra, passando de 10,5 mil para 50,4 mil votos. No período, ele foi o principal autor das emendas individuais destinadas ao município, com R$ 51,1 milhões. O parlamentar não comentou.

PRESENÇA – Para o deputado Danilo Forte (PP-CE), que relatou a Lei de Diretrizes Orçamentárias em 2024, é natural que deputados sejam mais votados em municípios para os quais enviam mais recursos, pois é onde se fazem mais presentes.

— As minhas emendas são em cima das demandas, então é lógico que eu vou enviar para os municípios nos quais eu ando e tenho parceria — disse Forte.

Em 2022, Forte recebeu 74 votos em Uruburetama, no interior do Ceará, o equivalente a 0,54% dos votos válidos para deputado federal no município. No dia 4 deste mês, o cenário foi outro: o parlamentar recebeu 6.065 votos na cidade e alcançou 42,13% da votação local. Entre uma eleição e outra, Uruburetama foi destino de R$ 7,76 milhões em emendas individuais empenhadas pelo parlamentar.

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