quarta-feira, março 18, 2026

Escândalo do Banco Master acirra crise entre Congresso e STF e preocupa Lula


Planalto também acende alerta por desgaste eleitoral

Victoria Azevedo
O Globo

O avanço das investigações relacionadas ao escândalo do Banco Master elevou a temperatura entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) e passou a preocupar o governo Lula pelo potencial desgaste eleitoral que o caso pode gerar.

Parlamentares da cúpula da Câmara e do Senado e integrantes do Executivo dizem enxergar um cenário de desordem em Brasília, com a apuração sobre o Master ganhando novos contornos políticos e pressionando deputados e senadores, o Planalto e o STF às vésperas das eleições. Eles afirmam que a tendência é que o caso ainda se arraste por algum tempo, podendo provocar impacto nas eleições.

TENSÃO – Há também tensão entre integrantes do Supremo e a cúpula do Congresso com o governo federal. Nos bastidores, políticos e magistrados dizem enxergar aval do Planalto na condução da Polícia Federal (PF) nas investigações. Ministros do STF ficaram incomodados com o movimento do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, em entregar ao presidente da Corte, Edson Fachin, informações do celular de Daniel Vorcaro que incluíam menções ao ministro Dias Toffoli, então relator do caso no Supremo.

Na leitura de interlocutores do tribunal, o chefe da PF não teria feito esse movimento sem antes ter obtido o aval do Planalto. Além disso, avaliam que o entorno do presidente Lula fez coro às críticas a Dias Toffoli, expondo o ministro e a Corte como um todo.

Já congressistas acusam o Planalto de influenciar a atuação da PF para prejudicar adversários políticos de Lula. O governo, por sua vez, se vê também pressionado com as suspeitas de envolvimento de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, um dos filhos do presidente, com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, e busca distensionar a relação com os demais Poderes.

REVELAÇÕES  –  Aliados de Lula veem o cenário com apreensão, especialmente no momento em que as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs), antes em segundo plano, ganharam visibilidade diante do interesse de congressistas em capitalizar eleitoralmente os trabalhos e da divulgação do material dessas investigações. Integrantes do governo avaliam que a escalada de tensão entre Congresso e Supremo, somada ao avanço de revelações sobre os casos, pode criar um ambiente político de difícil controle e alimentar discursos da oposição.

Pesquisa Genial/Quaest divulgada na última quinta-feira mostrou que a confiança da população no STF caiu para 43%, enquanto 49% desconfiam — os dados mostram um recuo de sete pontos percentuais na parcela da população que confia no Supremo, se comparado ao levantamento anterior, de agosto.

TENTATIVA DE EQUILÍBRIO –  Governistas dizem ainda que é preciso buscar um equilíbrio entre não tensionar totalmente com o Congresso, para não fragilizar a base do Palácio do Planalto, e reforçar a autonomia da PF nas investigações, “doa a quem doer”. Além disso, afirmam que é preciso cautela para evitar qualquer ruído com partidos num momento em que são costuradas alianças nas eleições.

Interlocutores de Lula dizem, por outro lado, que o governo não pode adotar postura defensiva em meio às revelações do Master. Uma das linhas adotadas por governistas tem sido atrelar o escândalo a figuras da oposição usando o termo “Bolso Master”, em referência ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e seus aliados. Eles têm explorado, por exemplo, o fato de o empresário Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro preso neste mês, ter sido um dos principais doadores das campanhas eleitorais do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e de Bolsonaro em 2022.

A Câmara e o Senado realizaram sessões sem a necessidade de parlamentares registrarem sua presença fisicamente em plenário, o que deixou o Congresso esvaziado. Apesar de oficialmente a justificativa para tal decisão esbarrar nas articulações políticas da janela partidária e na montagem de alianças locais, ela foi interpretada por líderes como uma tentativa de esfriar o ambiente político após novos desdobramentos do caso Master apontarem relação entre os investigados e figuras públicas.

QUEIXAS – Uma das principais queixas dos parlamentares que defendem aprofundar as investigações é que a cúpula do Congresso estaria impedindo o avanço dos trabalhos das CPIs. Tanto o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), quanto o do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), já indicaram que não deverão instalar uma comissão específica para analisar o Master. Há também críticas entre congressistas à atuação do Supremo nesse caso.

Decisões recentes dos ministros têm contrariado parlamentares que atuam nas comissões, entre elas a possibilidade de investigados não comparecerem às CPIs, além de restrições à quebra de sigilos dos envolvidos. Na quinta-feira, o ministro Cristiano Zanin indeferiu pedido para que o Supremo determinasse a instalação imediata de uma das CPIs do Banco Master que já foram apresentadas. O requerimento tem a assinatura de 201 parlamentares, mas Motta já afirmou que isso não será discutido neste momento. “Essa investigação é um caminho sem volta. Envolve atores de todos os Poderes, que precisam dar uma resposta para evitar que aconteça de novo”, afirma a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), que defende uma CPI específica sobre o tema.

Com a comissão sob espera, o colegiado dedicado às fraudes no INSS busca brechas para ampliar o alcance sobre o Master. A divulgação de mensagens e outros dados de Vorcaro que estão em poder do colegiado fez Mendonça mandar a PF investigar um possível vazamento de dados e levou ministros da Corte a acionarem parlamentares pedindo cautela na divulgação. Na quinta, o presidente da CPI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), determinou que material sigiloso de Vorcaro ficará retido numa sala com acesso restrito de parlamentares e assessores designados sem a possibilidade de gravar, salvar ou copiar o conteúdo do material — somente anotações em papel e caneta serão permitidas.

REFLEXOS – Essa iniciativa ocorre num momento em que novas informações sobre relações entre políticos e integrantes do Judiciário com o banqueiro começam a ser divulgadas, ampliando o alcance político das investigações e aumentando a pressão sobre diferentes setores do poder público.

O Globo revelou, por exemplo, que o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União), pré-candidato ao governo da Bahia, recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da Reag, segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão vinculado ao Banco Central.

Parlamentares apostam que o caso continuará produzindo novos capítulos nas próximas semanas, à medida que as investigações avançam, e se arrastará até o processo eleitoral.

 

Decisão de Mendonça trava CPI do INSS e expõe risco de vazamento de dados sigilosos


Ministro não foi provocado após quebra de sigilo de banqueiro

Mariana Muniz
O Globo

A decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que proibiu o acesso ao material armazenado na sala-cofre da CPI do INSS decorrente da quebra de sigilo do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, foi tomada de ofício, ou seja, pelo próprio magistrado. O Globo apurou junto a interlocutores do ministro do STF que a determinação não partiu de um pedido específico feito por nenhum dos investigados ou da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Ainda de acordo com relatos feitos ao O Globo, a decisão de Mendonça teve como motivação a preocupação com vazamentos de conteúdos sensíveis presentes no material extraído da quebra de sigilo de Vorcaro. O ministro teria sido informado da existência de vídeos íntimos entre os documentos que estariam na sala-cofre da CPMI.

NOVA TRIAGEM – Por isso, ainda de acordo com interlocutores do magistrado, Mendonça pediu que a Polícia Federal retirasse os equipamentos do local e fizesse uma nova triagem dos dados existentes. Na semana passada, vazamentos de trocas de mensagens do banqueiro com a ex-namorada Martha Graeff foram divulgadas e circularam nas redes sociais, e geraram críticas inclusive nos bastidores do STF.

Na decisão, Mendonça afirmou que a medida é necessária para preservar o sigilo de aspectos da vida privada do investigado. Com a determinação, o conteúdo reunido pela comissão parlamentar ficará temporariamente inacessível até que seja feita uma análise mais detalhada dos dados.

A existência de conteúdos pessoais envolvendo o banqueiro ex-dono do Master foi confirmada pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG), presidente da Comissão Parlamentar que apura as fraudes nas aposentadorias, em entrevista ao programa Roda Viva também nesta segunda-feira, após a divulgação da decisão do ministro do STF.

VÍDEOS ÍNTIMOS – “Existem vários vídeos lá, íntimos, particulares, de pessoas que enviavam, possivelmente garotas de programa, contratadas para as festas. Agora, isso não tem nada a ver com a investigação, não é um problema nosso”, disse Viana. “É uma investigação, não é um momento de humor para o país. Eu fico muito chateado com isso”, acrescentou.

De acordo com o senador, seu entendimento é o de que “assim que as questões pessoais forem retiradas”, Mendonça irá devolver o acesso aos dados. Viana afirmou que o material contém vídeos íntimos, e que o vazamento prejudicaria a “credibilidade” da CPMI.

Em prisão preventiva na Penitenciária Federal de Brasília, Vorcaro é investigado por fraudes financeiras envolvendo o Master e suspeito de liderar uma organização criminosa que contaria até com um “braço armado” para intimidar adversários do grupo.


Zanin aponta esquema de corrupção em emendas e incrimina três deputados do PL


Zanin citou cobrança de propinas em “cenário de intimidações

Pepita Ortega
Mariana Muniz
O Globo

O ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, afirmou nesta terça-feira que existem “robustas provas” no sentido de que os deputados Josimar Maranhãozinho (PL-MA), Pastor Gil (PL-MA) e Bosco Costa (PL-SE) incorreram em crime de corrupção passiva. Eles são acusados de formarem uma organização criminosa voltada à “comercialização de emendas parlamentares”.

Em julgamento, o ministro citou alguns elementos que, em sua avaliação, vão na “direção inequívoca da prática do crime”. Ao longo de seu voto, Zanin leu diversas mensagens identificadas pela Polícia Federal, as quais tratam do encaminhamento das emendas, assim como de cobranças de valores ilícitos. 

“CENÁRIO DE INTIMIDAÇÕES” – O relator anotou que as solicitações de propina foram realizadas em um “cenário de intimidações que tinham o pleno conhecimento dos réus”. Zanin ponderou que não foram “poucas” as provas que comprovam tal contexto.

O ministro também ressaltou que, para que os deputados fossem enquadrados por corrupção passiva bastava a comprovação da solicitação de propina. Segundo o relator, houve não só tal comprovação, mas também foram reunidas provas sobre a consumação, com mensagens com dados bancários e recibos de transferência bancária.

O papel de liderança de Josimar Maranhãozinho foi destacado durante toda a tramitação processual, apontou o ministro. “Contra os três parlamentares há robustas provas indicando que teriam atuando em concertação ilícita para solicitar o pagamento de vantagem indevida, o que caracteriza o crime de corrupção passiva”, registrou Zanin.

“PROPOSTA VOLUNTÁRIA” –  O ministro afastou alegações das defesas de que o caso não envolvia emendas parlamentares, mas “proposta voluntária” feita por gestores municipais para pedir recursos aos ministérios. Segundo Zanin, tal discussão foi “superada” por documentos que “deixam inequívoca” a origem parlamentar dos recursos destinados para o município de São José de Ribamar, no Maranhão.

Ao citar os depoimentos dos réus prestados em interrogatório, sobretudo o de Josimar Maranhãozinho, o ministro do STF enfatizou que havia “plena consciência de que esses recursos precisavam ser pleiteados perante o Ministério da Saúde e que esses recursos vinham de um incremento de origem parlamentar”.

AÇÃO CRIMINOSA – Zanin rebateu outra tentativa das defesas de contestar a denúncia contra os parlamentares, no sentido de que um deles teria sido eleito por outro Estado, no caso Bosco Costa, por Sergipe . “Também não afasta a alegação da Procuradoria da República, porque, na verdade, ele não estava fazendo uma ação política, mas sim uma ação criminosa que buscava o recebimento de vantagens indevidas “, disse o ministro.

Também foi afastado o argumento das defesas de que transferências realizadas entre os parlamentares se trataram de empréstimos. Segundo o ministro, diálogos mantidos entre os deputados deixam claro que os valores depositados teriam lastro em atividades ilícitas.

“FIRME PUNIÇÃO” – Na semana passada, quando o julgamento teve início, o subprocurador-geral Paulo Vasconcelos Jacobina defendeu uma “firme punição” aos parlamentares em razão da “elevada gravidade das condutas”.

O representante da PGR destacou, por exemplo, que a atuação do grupo investigado não se restringiu à prefeitura de São José de Ribamar — caso específico sob análise. Segundo ele, o “aliciamento e cobrança” de valores para liberação de emendas “em municípios diversos” levou à abertura de outras apurações em curso na Corte.

Segundo a denúncia, entre janeiro e agosto de 2020, os deputados solicitaram de um prefeito do interior do Maranhão o pagamento de R$ 1,7 milhão em propina em contrapartida ao encaminhamento de cerca de R$ 6,7 milhões em emendas parlamentares para a cidade. A PGR também imputou crimes a outros cinco réus, entre eles responsáveis por cobranças e abordagens com o objetivo de obter propinas.


Se Deus descansou no sétimo dia, Ele defende a escala 6x1?


Marcelo Rede

É doutor pela Univ. de Paris 1 e professor de história da USP


Tese defendida em púlpitos evangélicos conservadores é de uma simplicidade sedutora. Mas o mandamento do sábado no Êxodo é um freio contra trabalho sem limite


O fim da jornada de trabalho 6x1 —o regime de seis dias de labor para um de descanso— voltou ao debate em Brasília. Surpreendentemente, um dos argumentos em defesa da manutenção desse modelo não vem da economia liberal clássica, mas de púlpitos evangélicos conservadores. A tese é de uma simplicidade sedutora: se Deus criou o mundo em seis dias e descansou apenas no sétimo, a escala 6x1 seria uma espécie de mandato criacional, uma ordem divina inscrita na existência dos humanos.

Por trás da lógica aparente, há, contudo, um grande anacronismo, que transforma um texto antigo em regulamento moderno de jornada de trabalho. Há, também, uma suspeita vontade de usar a Bíblia para evitar qualquer progresso social, para naturalizar um arranjo trabalhista que, no Brasil real, recai com mais força sobre aqueles que têm menos renda, menos autonomia e menos capacidade de dizer "não".

Comecemos pelo começo: o livro do Gênesis não descreve uma escala de trabalho, nem um ritmo produtivo abençoado, nem um turno religiosamente mais adequado. É um relato cosmológico, estruturado em sete dias para afirmar que o mundo é ordenado e que o tempo culmina numa consagração. No sétimo dia, Deus cessa, e o dia é abençoado e santificado.

Se é para extrair do texto um princípio, o mais honesto não é que se deve trabalhar incessantemente; é que o descanso é tratado como algo sério, separado do restante e digno de bênção. O mandamento do sábado no Êxodo não é um hino à labuta de seis dias; é um freio contra trabalho sem limite: "Não farás nenhum trabalho, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu escravo, nem tua escrava, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está em tuas portas" (êxodo 20:10). Note-se que o sábado é dispositivo de proteção dos mais fracos e dependentes, exatamente os que, numa sociedade desigual, tendem a ter menos condições de negociar.

É preciso não esquecer que os textos bíblicos foram escritos em épocas em que a escravidão era a norma. Sugerir o descanso de uma mão-de-obra que era considerada uma propriedade a ser explorada não é pouca coisa.

O Deuteronômio deixa ainda mais explícito o motivo: "lembra-te de que foste escravo... por isso te foi ordenado o sábado" (Deuteronômio 5:15). O descanso é um memorial antiescravista para aqueles que foram prisioneiros no Egito ou, mais concretamente, estavam cativos na Babilônia. A lógica é: quem foi liberto não pode reorganizar o tempo para recriar servidão por outros meios. Se a Bíblia entra nessa conversa, ela entra dizendo "vocês não são escravos" e não dizendo "aceitem como normal viver para trabalhar".

E o texto vai além do sábado. Êxodo 23:12 amplia o princípio: "seis dias trabalharás, mas ao sétimo descansarás, para que descansem o teu boi e o teu jumento, e se refaça o filho da tua serva e o estrangeiro". Repare no foco: refazer-se, recuperar fôlego, proteger quem é mais vulnerável. A Torá ainda cria pausas maiores: o ano sabático (Levítico 25) e um horizonte de recomposição social, o jubileu. Não é "copie e cole" para o Brasil de 2026, mas a direção ética é inequívoca: tempo e economia precisam de limites; a vida humana não é peça consumível.

A sabedoria bíblica também tem recados diretos. O Salmo 127 ironiza o culto ao excesso: "É inútil que madrugueis e que atraseis o vosso deitar para comer o pão com duros trabalhos" (Salmos 127:2). Eclesiastes pergunta o que sobra: "que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol?" (Eclesiastes 1:3).

No Novo Testamento, Jesus se recusa a aceitar que os dogmas não possam ser alterados para garantir a integridade humana: "o sábado foi feito por causa do ser humano, e não o ser humano por causa do sábado" (Marcos 2:27). E convidou os exaustos: "vinde a mim… e eu vos darei descanso" (Mateus 11:28). A prioridade é a vida. A regra existe para servir ao humano, não para esmagá-lo.

Por isso, a pergunta não é "a Bíblia autoriza a jornada 6×1?". É: o regime de trabalho preserva a dignidade, a saúde, o convívio e a justiça, especialmente para quem tem menos escolha? Se a resposta for "não", então usar Gênesis como justificativa é mais do que erro de leitura: é converter a Bíblia em álibi.

Resolução do PT formaliza mudança de estratégia para 2026 e associa Flávio Bolsonaro à ameaça democrática

 

Por Ricardo Abreu, g1 e TV Globo — Brasília

 

A cúpula do Partido dos Trabalhadores (PT) divulgou nesta segunda-feira (16) uma resolução política que oficializa a mudança de postura da legenda para o ciclo eleitoral de 2026.

O documento, aprovado pela Comissão Executiva Nacional, vai na contramão da cautela do Planalto, e coloca o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como alvo opositor, classificando sua pré-candidatura como uma ameaça democrática e um projeto "autoritário e antipopular".

A ofensiva ocorre em um momento em que pesquisas internas e levantamentos recentes indicam um empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro, o que acendeu o alerta entre integrantes da ala mais à esquerda do governo e dirigentes petistas.

Esse setor tem demonstrado dúvidas sobre se a estratégia adotada até aqui, priorizando a divulgação de agendas positivas e entregas sociais — é suficiente para alavancar a intenção de voto de Lula em seu projeto de reeleição.






Na resolução, o PT abandona as generalizações contra o movimento que apoia a família Bolsonaro e foca nominalmente no filho do ex-presidente, afirmando que: "A candidatura de Flávio Bolsonaro representa a continuidade do mesmo projeto autoritário e antipopular que o Brasil derrotou nas urnas (...) Sua candidatura simboliza apenas a tentativa da extrema direita de manter vivo um projeto político baseado no ataque à democracia."

Para a cúpula petista, a vitória em 2026 depende não apenas de vencer a disputa majoritária, mas de impedir que o grupo de Flávio domine o Legislativo. O texto define como 'condição fundamental' a criação de uma barreira institucional no Congresso:

"Eleger bancadas comprometidas com o povo brasileiro é condição fundamental para assegurar governabilidade, enfrentar o poder do rentismo e da extrema direita no Parlamento."

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à esquerda e senador Flávio Bolsonaro (PL), à direita. — Foto: Esa Alexander/Reuters e Evaristo SA/AFP

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à esquerda e senador Flávio Bolsonaro (PL), à direita. — Foto: Esa Alexander/Reuters e Evaristo SA/AFP





O 'Fator Master' e o Centrão

Um dos pontos centrais da resolução é o uso do escândalo envolvendo o Banco Master. No documento, o PT busca nacionalizar o caso, associando a expansão da instituição ao governo anterior, de Jair Bolsonaro, com a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central.

"Por que o Banco Central, então sob a gestão de Roberto Campos Neto, indicado por Bolsonaro, não tomou as medidas necessárias para intervir e proteger o sistema financeiro e os recursos públicos?"

Nos bastidores, interlocutores do partido afirmam que a estratégia petista é associar o banco ao "bolsonarismo" para neutralizar o avanço de Flávio nas pesquisas.

Embora o banco possua conexões históricas com lideranças do Centrão, o texto do PT foca estrategicamente na "relação estreita" com governadores e parlamentares da extrema direita, citando doações de campanha e o uso de aeronaves do dono do banco por aliados da família Bolsonaro.

O partido classifica o episódio como um sistema de proteção a privilégios:

"Esses elementos revelam que não se trata de um episódio isolado, mas de um sistema de relações promíscuas entre operadores políticos, interesses financeiros e setores do Estado que protege privilégios de poucos em detrimento do interesse nacional."





Cerco no Congresso e Faria Lima

O texto também faz um diagnóstico duro sobre o atual papel do Legislativo. O PT acusa a influência do setor financeiro — rotulado politicamente como "Faria Lima" — de capturar parlamentares para travar pautas sociais e manter juros altos. Segundo a resolução, o endividamento das famílias está diretamente ligado a esse poder:

"É fundamental estabelecer limites ao poder do rentismo, fortalecer a renda do trabalho e dinamizar o mercado interno, além de assegurar a redução da taxa Selic pelo Banco Central."

A resolução destaca que a eleição de uma maioria democrática e popular no Congresso em 2026 é tratada como "questão de sobrevivência" para o projeto petista. Nos bastidores, dirigentes admitem que o foco no Parlamento visa neutralizar dois riscos principais:

  • Impeachment no STF: O receio de que um Congresso com maioria da extrema direita avance com pedidos de deposição de ministros da Suprema Corte, desestabilizando a atual correlação de forças.
  • Travamento de políticas: A percepção de que o Orçamento e as reformas sociais estão reféns de parlamentares alinhados aos interesses do mercado financeiro.

No documento, o PT afirma que o sucesso de um eventual novo mandato depende de mudar a cara da Câmara e do Senado:




"Eleger bancadas comprometidas com o povo brasileiro é condição fundamental para assegurar governabilidade, enfrentar o poder do rentismo e da extrema direita no Parlamento e aprofundar as transformações que o país necessita."

DO BOLSOLÃO AO BOLSOMASTER: O LEGADO QUE BOLSONARO DEIXOU – E O CONGRESSO INIMIGO DO POVO ENGOLIU


 Jair Bolsonaro não governou. Entregou o Brasil de bandeja à extrema-direita corrupta do Centrão. Seu único projeto real era a reeleição — escudo contra processos e prisão (pressionado por impeachment, CPI da Covid e investigações, priorizou alianças congressuais para aprovar pautas e sobreviver politicamente). Para isso, inflou as emendas parlamentares até o Legislativo virar dono de quase metade do orçamento federal. Dinheiro público virou moeda de troca: desvios de finalidade, superfaturamento, obras fantasmas. Nasceu o Bolsolão. Hoje, com o mesmo Centrão no comando, o esquema evoluiu. Chama-se Bolsomaster. Mesmos nomes, mesmas emendas, mesmo saque.


A maior vergonha deste país, porém, não é Bolsonaro. É a plateia. Cerca de 58 milhões de brasileiros que votaram nele, que ainda o defendem, que aplaudem o circo enquanto o país sangra. Eles não foram vítimas. Foram cúmplices ativos. Enquanto aplaudiam o “mito”, o Congresso pilhava o Orçamento com a bênção presidencial. Do Bolsolão ao Bolsomaster, o roteiro é o mesmo: poder trocado por propina, povo trocado por voto.


A diferença? Agora o povo paga a conta — e ainda grita “Lula ladrão” ou “Bolsonaro inocente”. A real ladroagem é outra: a que transforma o Congresso em máfia orçamentária e o eleitor em torcida organizada. Enquanto isso continuar, o Brasil não terá governo. Terá leilão.

Por Luis Celso Jornalista

Em destaque

"Corruptocracia: O regime político brasileiro..." by Atena Editora

  Corruptocracia: O regime político brasileiro (Atena Editora)  Atena Editora 2021, Corruptocracia: O regime político brasileiro (Atena Edit...

Mais visitadas