quinta-feira, abril 23, 2026

Flávio retoma discurso de 2018 e reacende confronto entre agro e terras indígenas


Flávio volta à cartilha do ex-presidente Jair Bolsonaro

Luísa Marzullo
O Globo

No palanque de uma das principais feiras do agronegócio do país nesta quarta-feira, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) retomou o discurso que marcou a ascensão de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em 2018, ao explorar a oposição entre produtores rurais e habitantes de terras indígenas.

Buscando avançar sobre o setor do campo, Flávio indicou que o tema será incorporado aos discursos durante a campanha eleitoral. “Nenhuma dessas reservas será demarcada se depender do nosso governo”, disse Flávio, ao discursar para produtores presentes na Norte Show, em Sinop (MT).

VELHO DISCURSO – A formulação ecoa uma das frases mais repetidas por Bolsonaro ainda antes de assumir o Planalto. Em novembro de 2018, em entrevista ao programa Brasil Urgente, da Band, o então presidente eleito afirmou: “Eu tenho falado que, no que depender de mim, não tem mais demarcação de terra indígena”.

À época, o argumento vinha acompanhado da promessa de garantir segurança jurídica ao campo e frear o avanço de novas áreas protegidas. No governo, a diretriz foi mantida: não houve novas demarcações homologadas entre 2019 e 2022.

Ao recuperar esse eixo, Flávio não apenas mobiliza o repertório do pai, mas tenta reativar a mesma lógica política que aproximou o bolsonarismo do agronegócio: a ideia de que a expansão da produção depende de freios à política indigenista e à regulação ambiental.

MAIS DO MESMO – A passagem pela feira foi desenhada para sinalizar essa continuidade. Depois de chegar ao estado com uma camiseta com o slogan “o agro é top”, Flávio trocou de roupa e vestiu outra blusa com os dizeres “o futuro nasce do campo”. Circulou entre produtores, participou de encontros com lideranças e repetiu gestos associados à campanha de Bolsonaro, incluindo a realização de uma motociata.

O pré-candidato também apresentou um pacote de acenos ao setor. Interlocutores relatam que os pontos apresentados pelo senador estavam alinhados a um documento entregue por representantes de entidades do setor, uma espécie de “cartilha” com prioridades do agro — que vão desde crédito e segurança jurídica até posicionamentos sobre regulação ambiental e política fundiária.

O senador defendeu a retomada de linhas de crédito do Plano Safra com juros mais baixos, a facilitação do financiamento aos produtores e a redução de burocracias. Também afirmou que pretende atuar contra a moratória da soja, com a intenção de levar o tema ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica e ao Supremo Tribunal Federal.

CRÍTICA – No campo ambiental, Flávio voltou a criticar o que chamou de uso “ideológico” da pauta e disse que o papel do governo deve ser o de “não atrapalhar” o setor produtivo, outra formulação recorrente no discurso de Bolsonaro quando tratava da relação com o agro. A movimentação ocorre em um cenário mais competitivo do que o enfrentado pelo ex-presidente em 2018. O setor segue majoritariamente alinhado à direita, mas já não se organiza de forma automática em torno de um único nome.

A entrada de Ronaldo Caiado (PSD) na corrida presidencial alterou esse equilíbrio. Com histórico ligado ao setor, tendo sido uma das principais vozes da bancada ruralista no Congresso, e interlocução consolidada com produtores, o ex-governador passou a disputar o mesmo eleitorado e, na avaliação de aliados de Flávio, freou uma adesão que antes era tratada como natural ao bolsonarismo.

PLEITO POR VICE –  Esses movimentos também dialogam com pressões internas do próprio agronegócio. Lideranças do setor têm defendido, nos bastidores, que a chapa da direita em 2026 inclua um vice com origem ou forte ligação com o segmento, como forma de garantir interlocução direta em temas sensíveis.

Nomes como o da ex-ministra da Agricultura Tereza Cristina (PP-MS) aparecem com frequência nesse debate, justamente por reunirem trânsito no setor e experiência na condução da política agrícola. No entanto, a senadora tem se mostrado relutante e já disse a Flávio que pretende disputar a presidência do Senado no próximo biênio.

Sem Tereza, outros nomes com trânsito no setor, como a deputada federal Simone Marquetto (PP-SP), são citados. Também aparecem alternativas fora do agro, como a vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL-CE) e a deputada federal Clarissa Tércio (PP-PE), ligadas ao eleitorado conservador e evangélico, além do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), que tem perfil mais voltado à gestão e ao empresariado.


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Publicado em 23 de abril de 2026 por Tribuna da Internet Facebook Twitter WhatsApp Email Flávio volta à cartilha do ex-presidente Jair Bolso...

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