sábado, janeiro 24, 2026

No coração da crise do STF, o caso Master testa a legitimidade institucional


Novos elementos associam Toffoli ao Resort Tayayá

Pedro do Coutto

Nas últimas semanas, o cenário político-judicial brasileiro voltou a expor uma fratura sensível na relação entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e a opinião pública. No centro dessa tensão está o ministro Dias Toffoli, relator das investigações que apuram suspeitas de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master — um caso que, inicialmente restrito ao sistema financeiro, passou a adquirir contornos institucionais mais amplos.

Reportagens recentes de O Globo revelaram novos elementos que associam, ainda que de forma indireta, o nome do ministro a um empreendimento imobiliário de alto padrão, o Resort Tayayá, no Paraná, ligado a familiares e a fundos de investimento citados no contexto do escândalo.

COMPROVAÇÃO – Embora não haja, até o momento, comprovação de ilegalidade direta, a sobreposição entre relações pessoais, estruturas financeiras e a função de relatoria reacendeu o debate sobre imparcialidade, prudência institucional e aparência de neutralidade — valores centrais para a credibilidade de qualquer Corte constitucional.

A reação institucional foi rápida e coordenada. O presidente do STF, ministro Edson Fachin, destacou que a atuação do relator segue os parâmetros constitucionais e que a Corte não pode se deixar capturar por pressões externas, reafirmando que “crises e adversidades não suspendem o Estado de Direito”.

O decano Gilmar Mendes, por sua vez, endossou o arquivamento, pela Procuradoria-Geral da República, do pedido de afastamento de Toffoli, interpretando a decisão como expressão do funcionamento regular das instituições. Formalmente, o sistema respondeu como previsto: o pedido foi analisado, a PGR entendeu não haver providência a adotar, e o STF reafirmou a confiança em um de seus membros.

CONFIANÇA SOCIAL – O problema, contudo, não se encerra no plano formal. Em democracias constitucionais maduras, a legitimidade das instituições não depende apenas da legalidade estrita de seus atos, mas também da confiança social que conseguem sustentar.

A insistência de novos pedidos de suspeição, a vocalização de críticas por parlamentares e o desconforto relatado nos bastidores do próprio Supremo indicam que o caso Master ultrapassou os limites de um episódio isolado. Ele toca em um ponto estrutural: a dificuldade histórica do STF em administrar situações em que a legalidade se mantém, mas a percepção pública se deteriora. Nesse terreno, a ausência de transparência suficiente — ainda que juridicamente justificável — pode corroer silenciosamente a autoridade da Corte.

CONFLITO DE INTERESSES – O dilema, portanto, não é apenas sobre a conduta individual de um ministro, mas sobre como o Supremo lida com conflitos de interesse reais ou aparentes em um ambiente de crescente polarização e desconfiança institucional. A defesa corporativa, compreensível sob a ótica da autonomia judicial, corre o risco de ser percebida como fechamento excessivo, alimentando narrativas de autodefesa e distanciamento da sociedade. Ao mesmo tempo, ceder a pressões políticas pode fragilizar a independência judicial, um pilar inegociável do Estado democrático de direito.

O caso Master expõe, assim, uma encruzilhada institucional. Ou o STF avança em mecanismos mais robustos de autocontenção, transparência e prestação de contas — especialmente em situações sensíveis que envolvem seus próprios membros —, ou continuará operando em um ciclo recorrente de crises de confiança. Em tempos de instabilidade política e erosão da credibilidade pública, preservar a legitimidade institucional exige mais do que decisões juridicamente corretas: exige sensibilidade democrática, prudência ética e a disposição de reconhecer que, para além da lei, a justiça também se sustenta na confiança que inspira.


sexta-feira, janeiro 23, 2026

Corregedoria do TJ-BA instaura processo disciplinar para apurar graves irregularidades em cartório

 

Corregedoria do TJ-BA instaura processo disciplinar para apurar graves irregularidades em cartório

Por Política Livre

23/01/2026 às 10:22

Foto: Divulgação

Imagem de Corregedoria do TJ-BA instaura processo disciplinar para apurar graves irregularidades em cartório

A Corregedoria Geral da Justiça da Bahia instaurou Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para apurar uma série de graves irregularidades na atividade registral de um cartório, conforme estabelece a Portaria nº CGJ-34/2026-GSEC, publicada nesta quinta-feira (22).

A decisão foi assinada pelo desembargador Roberto Maynard Frank, corregedor-geral da Justiça do Estado, com base nos autos do Processo Administrativo nº 0000114-65.2026.2.00.0805. O procedimento tramitará sob sigilo, em razão da natureza das denúncias e para resguardar a apuração dos fatos.

De acordo com a portaria, o PAD foi instaurado para investigar possíveis violações a diversos dispositivos legais que regem a atividade notarial e registral, incluindo normas da Lei de Parcelamento do Solo, da Lei dos Cartórios, da Lei de Registros Públicos, além de regras previstas no Código de Normas da Corregedoria da Bahia.

Entre as condutas que serão apuradas estão suspeitas de recebimento de propina por empresa privada para favorecimento na prática de atos cartorários, além da abertura irregular de matrículas imobiliárias, supostamente sem observância de procedimentos legais obrigatórios, como apuração de remanescente, retificação judicial e correta qualificação objetiva dos imóveis.

O processo também investiga registros de desmembramento de áreas sem autorização do poder público municipal, supressão indevida de área verde, possível benefício a empresas e advogados específicos, além de qualificações registrárias consideradas irregulares, inclusive em casos de escrituras de rerratificação realizadas sem a anuência de parte já falecida à época da alteração contratual.

Outro ponto sensível envolve procedimentos de usucapião extrajudicial, que teriam sido arquivados de forma supostamente irregular, com indícios de tentativa de dificultar o acesso a requerimentos relevantes e posterior fracionamento de grandes áreas. Há ainda apuração sobre eventual uso indevido de recursos da serventia, com dedução de despesas pessoais, como imposto de renda, lançadas como custo do cartório.

Para conduzir o processo, o corregedor-geral designou o juiz assessor especial da Corregedoria Geral da Justiça, Marcos Adriano Silva Ledo, que ficará responsável pela presidência do PAD e terá o prazo de 90 dias para apresentar relatório conclusivo.

A instauração do procedimento reforça a atuação da Corregedoria no controle da legalidade e da moralidade dos serviços extrajudiciais no estado, especialmente diante de denúncias que envolvem possível prejuízo ao interesse público, ao ordenamento territorial e à segurança jurídica dos registros imobiliários.

A portaria determina a publicação do ato com o devido sigilo e o imediato cumprimento das providências administrativas cabíveis

Politica Livre


Nota da Redação Deste Blog - Ainda Existem Juízes em Berlim

A notícia de que a Corregedoria do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) instaurou processo disciplinar para apurar graves irregularidades em um cartório é, sem dúvida, um alento para quem ainda acredita na Justiça como instrumento de equilíbrio social e de moralização das instituições públicas. Em tempos em que a descrença toma conta de grande parte da população, decisões como essa reacendem a esperança de que “ainda existem juízes em Berlim”.

A Corregedoria do TJ-BA agiu exatamente como manda a lei: com independência, responsabilidade e respeito ao interesse público. Demonstrou, na prática, que quem erra deve ser punido, independentemente do tamanho do cargo que ocupa ou da influência que possa ter nos bastidores do poder. Isso é Justiça de verdade. Isso é Estado de Direito funcionando.

Para julgar os outros, é preciso andar na linha. É preciso dar o exemplo. Não se pode usar a toga, o cargo ou a autoridade para proteger quem está errado, nem para privilegiar aliados ou amigos. Muito menos para condenar, perseguir ou tentar silenciar aqueles que têm a coragem de denunciar falhas, abusos e trambicagens que corroem a credibilidade das instituições.

Infelizmente, em muitos casos, o que se vê é o inverso: quem denuncia vira réu, quem aponta irregularidades passa a ser tratado como inimigo, e quem erra se esconde atrás do cargo, da influência política ou de conchavos corporativistas. Esse tipo de distorção é uma violência contra a sociedade e um ataque direto à própria ideia de Justiça.

Por isso, a atuação da Corregedoria do TJ-BA merece ser reconhecida. Ela envia um recado claro: não há intocáveis. Não há cargos sagrados. Não há privilégios que estejam acima da lei. Todos devem responder por seus atos, do mais simples servidor ao mais alto magistrado.

Essa é a Justiça que todos queremos: firme contra os abusos, justa com quem cumpre a lei, corajosa para enfrentar interesses poderosos e leal ao cidadão comum, que paga impostos e espera, em troca, instituições sérias, éticas e responsáveis.

Que esse episódio não seja exceção, mas regra. Que sirva de exemplo para todo o Judiciário e para toda a administração pública. Porque só com transparência, responsabilidade e punição aos culpados é que se constrói a confiança do povo nas instituições.

Sim, ainda existem juízes em Berlim. E quando eles aparecem, a esperança renasce. ( José Montalvão)

Liquidação do Will Bank expõe fragilidades do sistema e cobra transparência das autoridades

 

Pedro do Coutto

A decisão do Banco Central de decretar a liquidação do Will Bank marca mais um capítulo delicado no já conturbado processo envolvendo o banco Master e lança luz sobre fragilidades que insistem em reaparecer no sistema financeiro brasileiro — sobretudo quando o impacto recai, de forma desproporcional, sobre clientes de baixa renda.

A medida, revelada em reportagem de O Globo, não surgiu do nada: foi a resposta a uma sequência de descumprimentos legais e operacionais que tornaram insustentável a continuidade da instituição. O ponto de inflexão ocorreu no dia 19, quando o Will Bank deixou de honrar sua grade de pagamentos junto à Mastercard.

BLOQUEIO – Diante da falta de liquidez, a operadora de cartões bloqueou as transações, paralisando, na prática, a vida financeira de milhares de clientes. O episódio expôs não apenas a fragilidade da instituição, mas também a dependência estrutural de um modelo que exige confiança permanente entre bancos, bandeiras e consumidores. Quando um elo falha, o efeito dominó é imediato.

O Banco Central, ao intervir, cumpriu o papel que lhe cabe: preservar a estabilidade do sistema e evitar que o problema se alastre. A liquidação, ainda que traumática, é um instrumento extremo justamente para conter riscos maiores. Ao mesmo tempo, a autoridade monetária avalia a possibilidade de venda das operações do Will Bank no mercado financeiro, hipótese que, embora prevista na regulação, se mostra complexa. O prazo de até 120 dias para negociações existe, mas o histórico recente e o tamanho do passivo tornam a tarefa árdua.

Enquanto isso, quem paga a conta da incerteza são os correntistas. Muitos deles recorreram ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo essencial para proteger depósitos e limitar danos sociais em crises bancárias. O FGC cumpre uma função silenciosa, mas decisiva: impedir que episódios como esse se transformem em tragédias financeiras pessoais. Ainda assim, o acesso à informação e ao próprio dinheiro, segundo relatos de clientes, tem sido confuso e lento — um problema que não pode ser tratado como detalhe operacional.

DESAFIOS – Há, neste episódio, uma dimensão política e institucional que não pode ser ignorada. A proliferação de bancos digitais ampliou a inclusão financeira e reduziu custos, mas também impôs desafios regulatórios inéditos. A supervisão precisa ser firme sem sufocar a inovação, e a comunicação com o público deve ser clara, sobretudo quando decisões duras — como uma liquidação — se tornam inevitáveis. Falhas de governança e de compliance não são acidentes; são escolhas ou omissões que, mais cedo ou mais tarde, cobram seu preço.

O caso do Will Bank reforça uma lição conhecida, mas frequentemente esquecida: estabilidade financeira não é um dado permanente, é uma construção diária. Exige vigilância técnica do Banco Central, responsabilidade dos controladores e transparência com a sociedade. Quando essa equação se desequilibra, o discurso da modernização bancária perde força diante da realidade concreta de clientes sem acesso ao próprio dinheiro. E isso, em um país ainda marcado por desigualdades profundas, é um risco que vai muito além das planilhas e dos balanços.


Diretor do BC pressionou BRB a comprar créditos fraudados do Banco Master



Jatinho usado por Toffoli em Lima aparece em voos para o resort do ministro



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