domingo, dezembro 15, 2024

O gato sai de casa; ratos fazem o diabo

Braga Neto e Bolsonaro em Brasília Foto: Marcos Corrêa / Palácio do Planalto


Publicado em 15/12/2024 às 07:43

Alterado em 15/12/2024 às 07:57

Por Coisas da Política

GILBERTO MENEZES CÔRTES - gilberto.cortes@jb.com.br


O caro leitor se lembra da frase lapidar do então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, na fatídica reunião ministerial de 22 de abril de 2020? Foi quando o então presidente Jair Bolsonaro disse que mudaria as chefias da Polícia Federal e até o ministro (da Justiça, que era Sérgio Moro, e que se demitiu no dia seguinte – 23 de abril) para proteger a família e amigos. Salles conclamou o Ministério a aproveitar que “a imprensa está ocupada com a pandemia, para a gente abrir a porteira e deixar passar a boiada, de baciada”.

Pois esta semana, os bolsonaristas aproveitaram que o governo Lula ficou meio desorientado e abalado com a internação do presidente da República - Lula correu risco de vida na viagem de Brasília a São Paulo, para drenar um coágulo na nuca, sequela do tombo no banheiro do Alvorada em outubro - para deitar e rolar na aprovação de medidas radicais e reacionárias na Câmara dos Deputados, com retrocesso no Estatuto do Desarmamento. A última palavra será do Senado.

Em meio à correria para aprovar o projeto da Reforma Tributária, e medidas do Pacote Fiscal, houve “plantação” de “jabutis em cima de árvores”, com predomínio de medidas retrógadas do interesse das bancadas da bala (exclusão das armas do “Imposto do Pecado") e do agronegócio, e descarados subsídios como na regulamentação da energia eólica “off-shore”, que ganhou contraditória prorrogação de subsídios a carvão vegetal e a termoelétricas a gás, de 2028 para 2050. Como nas fábulas do reino animal, pode-se dizer que “bastou o gato sair de casa, para os ratos tomarem conta e fazerem o diabo”. Mas as “artes” não se voltam só contra o governo e Lula, que vai bem, obrigado (na avaliação da pesquisa da Quaest). Prejudicam os consumidores e a imensa maioria do país.

Ausência de Lula cria vácuo de Poder
A ausência do presidente Lula, por emergência médica, deixou claro que Luís Inácio Lula da Silva, como não podia deixar de ser, é o “expoente máximo” do governo Lula. Mas o fato é que pela emergência, um procedimento que se esperava breve e pode demorar mais que o imaginado, pegou o governo despreparado. Talvez, receoso, face aos planos sinistros que envolviam seu sequestro e envenenamento no fim da 2022 e que resultaram nos atos violentos contra as sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023, Lula não fez a transferência do poder para o vice Geraldo Alckmin – com mandato para negociar com o Congresso nesta semana crucial - e muito menos escalou um porta-voz para acompanhar os boletins médicos e organizar as entrevistas dos médicos que atendem o presidente no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. A primeira-dama, Janja da Silva, fazia o papel informal de porta-voz. Por coincidência, antes de ser internado, Lula tinha decidido trocar o ministro da Comunicação do governo, Paulo Pimenta, mas não deu tempo de sacramentar a nova estrutura. Ficou um grande vácuo na comunicação oficial.

Uma onda de boatos, no mesmo esquema de robotização de mensagens, usados pelos transmissores de “fake News” que alimentaram os preparativos para o golpe, varreu o país nesta semana. Desde “Lula teve morte cerebral” a “Lula já era em 2026”. O próprio, tão logo deixou a UTI na tarde de sexta-feira, apareceu andando, lépido e fagueiro, ao lado do médico, para mostrar vigor. Ótimo, presidente. Mas, para calar os críticos e chegar bem em 2026, siga o repouso e trate de reduzir o ritmo de trabalho neste fim de ano.

O susto começou na tarde de segunda-feira, 9 de dezembro, quando Lula sentiu forte dor de cabeça enquanto debatia, com os presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), e da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), o pacote fiscal e outras medidas que o Congresso precisa aprovar até o recesso em 20 de dezembro, como a proposta de Orçamento Geral da União e a aprovação de três diretores do Banco Central, no Senado.

Fazenda enxuga gelo
Houve impactos especulativos nos mercados de dólar e juros futuro e na B3, que caiu fortemente face ao cenário de juros elevados para 2025, anunciado quarta-feira, 11 de dezembro, pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central e desenhado para 2025. A escalada de juros da Selic prevista até 15% ao ano – motivo da derrubada do mercado de ações -, deve transferir rendas para as faixas mais ricas da sociedade e o sistema financeiro em volume muito acima da economia prevista no pacote de reforço do Arcabouço Fiscal.

Nos planos do governo, os cortes e clivagens nos programas sociais e o aumento do IR para quem tiver renda mensal acima de R$ 50 mil, a partir de 2026, economizaria R$ 72 bilhões em 2025 e 2026. Mas, ao analisar o pacote, o Itaú vê chances de serem implementadas medidas no montante de só R$ 56 bilhões (R$ 24 bilhões em 2025 e R$ 34 bilhões em 2026). Ocorre que, segundo o Banco Central, cada aumento de um ponto na taxa Selic onera em R$ 55 bilhões, ao fim de 12 meses, os custos da dívida pública. Como o aumento previsto é de quatro pontos, somaria R$ 220 bilhões, três vezes além do previsto e quase quatro vezes o estimado pelo Itaú. Com o aumento de juros, o Pacote Fiscal do ministro da Fazenda, Fernando Hadad, (virtual herdeiro político de Lula) vai enxugar gelo. Salvo se arrecadar muito IR dos rentistas.

Isso explica o vai e vem das cotações do dólar – o mercado está cético quando a nova baixa de juros nos Estados Unidos pelo Federal Reserve, no próximo dia 18, pois deve esperar a posse de Donald Trump, em 20 de janeiro, para atuar em cima de suas medidas protecionistas. Na tarde de sexta-feira, 13 de dezembro, quando se anunciou que Lula deixaria a UTI, pela melhora do quadro clínico, a maior parte do país respirou um pouco mais aliviado. Mas o dólar voltou a subir mais de 1%, mesmo com fortes intervenções do BC vendendo contratos de câmbio (o que deve ser mais comum daqui para a frente). Mesmo assim, a semana terminou com o real acumulando alta de 0,79% frente à moeda norte americana, em queda ante as principais moedas.

Cerco se fecha aos cabeças do golpe
A tese da anistia sofreu mais um revés com a decisão de 9 x 1 do Supremo Tribunal Federal de desconsiderar o pedido da defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro que pedia o impedimento de Alexandre de Moraes à frente do inquérito das “fake News” que levaram ao incitamento do fracassado golpe contra a eleição e posse de Lula. O placar não foi 11 X 0 porque, nessa ação, Moraes se declarou impedido e o voto solitário, que pôs fé na canhestra tese da defesa, foi do terrivelmente evangélico ministro André Mendonça. Até Nunes Marques, também nomeado por Bolsonaro, reconheceu que a trama para matar Moraes se devia ao fato de ele ser ministro do STF e presidir – em regime de rodízio, que porá Marques como substituto da ministra Carmem Lúcia em 2026 – não era propriamente dirigida à pessoa física, mas ao ocupante do cargo.

E o cerco se fechou mais ainda sobre os mentores e articuladores do golpe com a prisão na manhã desse sábado (14), pela Polícia Federal, do ex-candidato a vice na chapa derrotada de Jair Bolsonaro, o general Walter Braga Netto, que foi ministro da Defesa e chefe da Casa Civil antes de deixar o governo para concorrer às eleições de outubro de 2022. As provas e as acusações são pesadas. A cada pena que a PF levanta, não sai uma galinha, mas um aviário.

E por falar em cerco, ou em crime e castigo, em matéria de rapidez a Coreia do Sul está dando um exemplo ao mundo. Onze dias depois de o presidente do país surpreender a nação, em 3 de dezembro, com um decreto de Lei Marcial, que foi rejeitado pelo Parlamento, motivo que levou Yoon Suk-yeol a voltar atrás e à queda do ministro da Defesa, fiador e inspirador do golpe, a Câmara de representantes da Coreia do Sul destituiu o presidente, nesse sábado, e aceitou a instauração do processo de “impeachment”: dos 300 deputados da Câmara, 204 votaram a favor do “impeachment” de Yoon por insurreição, e 85 votaram contra. O ex-presidente tem 180 dias para tentar anular o afastamento, que será definitivo, se a decisão for mantida.

Síria no xadrez da energia

A queda do regime de Bashar al-Assad deve mudar o xadrez da energia no Oriente Médio. Ele foi mantido no poder a ferro e fogo pela Rússia de Vladimir Putin, que o ajudou a superar a desestabilização geral da “Primavera Árabe”, de 2011, quando a aviação russa bombardeou as cidadelas do então Estado Islâmico, arrasando várias regiões do país. A guerra interrompeu os planos de Irã e Catar, que são concorrentes, para atravessar o território sírio com gasodutos que levassem até o sul da Europa (Bulgária), através da Turquia, o gás iraniano ou o gás catari. Putin entrou na guerra para sustentar Bashar al-Assad, como forma de manter a Europa do Norte, em especial a Alemanha, como dependente cativa do gás russo.

Mas a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, para garantir a passagem estratégica de sua frota naval pelo Mar Negro, rumo ao Mediterrâneo e ao Sudeste Asiático, via Canal de Suez, mudou totalmente a geopolítica nos últimos quatro anos. Acossada pelas retaliações da OTAN, que acolheu Suécia e Finlândia, dois países que deixaram a neutralidade que permitia a livre saída da frota russa para o Mar do Norte, a Rússia ainda sofreu o boicote dos aliados europeus da OTAN, que suspenderam a compra de gás. O vácuo foi aproveitado pelos Estados Unidos, com a venda na Europa de gás natural liquefeito, e pela Noruega, com venda de gás natural.

Entretanto, quando se trata de problemas geopolíticos no Oriente Médio, nunca se pode desconsiderar a conexão entre os movimentos políticos e alianças dos principais países da região com os negócios do petróleo&gás, as maiores fontes de receitas dos Estados da região. Durante 12 anos, a Rússia suportou ferozmente as reações da Síria a seus inimigos. Mas os esforços nos embates com a Ucrânia privaram Putin de receitas europeias para o gás e de capacidade bélica para dar suporte militar ao regime de Bashar al-Assad.

O resultado é que na sexta-feira o líder do grupo jihadista Hayet Tahrir al-Sham (HTS), Ahmed al-Sharaa, antes conhecido como Abu Mohammed al-Jawlani, que tomou o poder, sem maiores resistências do antigo regime, com apoio velado da Turquia de Recep Erdogan, pediu ao povo sírio que não comemorasse as orações semanais com os habituais tiros para o alto do Estado Islâmico. Se isso marca o sinal de uma nova era de paz, não se sabe.

Mas, parece indicar que, sem a resistência direta da Rússia, que queria ter o virtual monopólio do mercado consumidor de gás da Europa, e o apoio da Turquia, podem ser novamente reabertas as duas propostas que entraram em conflito no já distante ano de 2009, quando Bashar al-Assad fazia um leilão entre Irã e Catar para ver quem daria mais (em termos de “royalties”) para cruzar o país com oleodutos e gasodutos para abastecer o Sul da Europa. A “Primavera Árabe, de 2011, desestabilizou todos os governos autocratas da região, e levou a Rússia, que queria garantir o escoamento de seu gás à Alemanha e ao Norte da Europa, a bancar a Síria, mesmo que à custa de limpeza étnica, para impedir a concorrência tanto do gás do Irã quanto do Catar – o maior produtor do mundo – que estava associado à Arábia Saudita, à Jordânia e à Turquia, a partir de onde o gás e o petróleo chegariam ao Ocidente (com apoio velado dos Estados Unidos). Já o Irã, pretendia construir, junto com o Iraque, oleoduto e gasoduto para levar óleo e gás até o Mediterrâneo cruzando a Síria, com suporte da Rússia.

O Catar, Irã, Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos (EAU), o Iraque e o Kuwait formam um conjunto de países com as maiores reservas de petróleo e gás natural do mundo. O gás é um insumo muito importante na transição energética, por ser menos poluente. É nesta região do Golfo Pérsico que surgiu a tensa relação entre os países árabes sunitas – EAU, Kuwait, Bahrein, e o Egito, liderados pela Arábia Saudita, e com apoio dos EUA. Houve até acusações ao Catar de ligações graves ao terrorismo pelos xiitas. Não por acaso, Arábia Saudita e Catar, ao lado do Egito, atuaram, recentemente, como intermediários, ao lado dos EUA, para tentar avançar o cessar fogo entre o Hamas e o Hezbollah, ambos apoiados pelo Irã, contra Israel. Os xiitas são liderados pelo Irã e se espalham pelo Iraque, Iêmen e Eritreia. Os dois últimos funcionam como bastiões para filtrar o tráfego de petroleiros e navios gaseiros (outra forma de exportação do gás local) à Ásia, o que, além dos riscos de ataques piratas, aumenta os custos de transporte frente à segurança de oleodutos e gasodutos.

As peças do tabuleiro do xadrez geopolítico do petróleo e gás do Oriente Médio se moveram. Mas não se pode esquecer que, a partir de 20 de janeiro, entra em cena um poderoso jogador: o novo presidente dos Estados Unidos. Donald Trump vem com promessas e apetite para proteger e incentivar os produtores de gás no território dos EUA, que se tornaram um dos maiores exportadores para a Europa quando o abastecimento dos dois gasodutos russos foi cortado. Numa prova do pragmatismo da geopolítica do O&G, os russos logo se deslocaram para atender a China e a Índia com a construção de gasodutos.

https://www.jb.com.br/colunistas/coisas-da-politica/2024/12/1053418-o-gato-sai-de-casa-ratos-fazem-o-diabo.html 

Prisão de Braga Netto muda algo para Bolsonaro? Entenda

 Foto: Reprodução/Arquivo

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL)15 de dezembro de 2024 | 07:08

Prisão de Braga Netto muda algo para Bolsonaro? Entenda

brasil

A prisão preventiva do general da reserva Walter Braga Netto, neste sábado (14), sob suspeita de obstrução de Justiça, não impacta, por si só, a situação do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O ex-mandatário foi indiciado em novembro pela Polícia Federal sob suspeita de ter participado da trama golpista em 2022 que tentou impedir a posse do presidente Lula (PT) no mesmo inquérito que resultou no indiciamento de Braga Netto.

Segundo a PF, Bolsonaro planejou, atuou e “teve domínio de forma direta e efetiva dos atos executórios” do golpe. A trama, ainda de acordo com a corporação, envolveu um plano para matar em 2022 o então presidente eleito, Lula, o vice, Geraldo Alckmin (PSB), e o ministro Alexandre de Moraes, do STF (Supremo Tribunal Federal).

A prisão dos envolvidos, inclusive de Bolsonaro, pode ocorrer em duas situações.

A primeira é se eles forem considerados culpados após transcorrido todo o processo na Justiça.

Isso só acontecerá depois de a Procuradoria-Geral avaliar se faz a denúncia, arquiva o inquérito ou pede mais investigações sobre o caso.

Feita a denúncia, os ministros do STF julgam se aceitam o caso. Se sim, os acusados passam à condição de réus e começam a responder ao processo. Depois disso, é dada a sentença, que pode levar à condenação se os acusados forem considerados culpados mesmo após os recursos cabíveis.

Braga Netto foi preso antes desse trâmite porque, no seu caso, ocorreu um segundo cenário possível: foi decretada prisão preventiva.

Essa medida é prevista em uma investigação policial ou processo judicial nos casos em que outras opções menos restritivas, como a proibição de deixar um determinado local ou se comunicar com suspeitos, não forem suficientes.

De acordo com a PF, a operação deste sábado teve como objetivo cumprir mandados judiciais expedidos pelo STF envolvendo pessoas “que estariam atrapalhando a livre produção de provas durante a instrução processual penal”, a fim de impedir a repetição da conduta ilícita.

Segundo relatório da PF que baseou a ação deste sábado, Braga Netto tentou obter detalhes da delação de Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, com o pai do militar.

A instituição afirma que Braga Netto atuou de forma “reiterada e destacada para impedir a completa identificação dos fatos investigados”.

A decisão do ministro Alexandre de Moraes, divulgada neste sábado, aponta que Mauro Cid confirmou as suspeitas da PF de que Braga Netto tentou pedir informações a ele ainda em setembro de 2023, após o ex-ajudante de ordens deixar a prisão em Brasília.

Teria havido, ainda, outras tentativas de interferir nas investigações, e a PF cita um documento com perguntas e respostas sobre a delação de Cid que também estaria relacionado a Braga Netto.

“As ações perpetradas indicaram que Braga Netto tentou obter os dados repassados pelo colaborador Mauro Cid à investigação, com o objetivo de controlar as informações fornecidas, alterar a realidade dos fatos apurados, além de consolidar o alinhamento de versões entre os investigados”, conclui a PF.

A decisão também relata que ele “obteve e entregou os recursos necessários” para a organização e execução do plano de matar Lula, Alckmin e o próprio Moraes.

A defesa do general da reserva diz que ele não tentou interferir na investigação. Ele já negou anteriormente o plano de golpe e de assassinato de autoridades.

Para Maurício Zanoide, professor de processo penal da USP, o relatório da PF aponta elementos que indicam ter havido a tentativa de obstrução de justiça. Ele explica que toda investigação criminal precisa ficar imune à interferência de pessoas que queiram prejudicar o andamento dos trabalhos.

Zanoide também diz que colaborações premiadas como a de Cid são sigilosas e que tentar obter informação sobre elas é tentar interferir nas investigações. O professor aponta que a situação de interferência em si representa, em tese, outro crime, que é uma variação do crime de organização criminosa, com pena de 3 a 8 anos.

No caso de Bolsonaro, uma prisão preventiva poderia ocorrer apenas se as autoridades entenderem também haver elementos previstos em lei que ensejam a medida.

Segundo o artigo 312 do Código Penal, a prisão preventiva pode ocorrer em caso de tentativa de obstruir ou atrapalhar de qualquer forma a instrução criminal, colocar em risco a aplicação da lei penal, com, por exemplo, tentativa de fuga, e colocar em risco a garantia da ordem pública ou econômica.

Ana Gabriela Oliveira Lima, FolhapressPoliticaLivre

Angelo Coronel diz que coordenador do Dnocs na Bahia coloca sigilos fiscal e bancário à disposição da Justiça

 Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado/Arquivo

O senador Angelo Coronel (PSD)15 de dezembro de 2024 | 07:56

Angelo Coronel diz que coordenador do Dnocs na Bahia coloca sigilos fiscal e bancário à disposição da Justiça

exclusivas

O senador Angelo Coronel (PSD) afirmou a este Política Livre ter convicção de que o atual coordenador do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) na Bahia, Rafael Guimarães de Carvalho, não tem envolvimento com os crimes apurados pela Polícia Federal na Operação Overclean, deflagrada na semana passada para investigar desvios de recursos no órgão, sobretudo por meio do direcionamento de emendas parlamentares. Rafael foi nomeado em junho do ano passado para o cargo após ter sido indicado pelo parlamentar parlamentar baiano, como revelou o site na época (clique aqui para ler).

“Rafael é uma pessoa de conduta ilibada. Antes de indicá-lo, fiz questão de pesquisar o nome dele, e não havia nada de desabonador. Confio plenamente nele. Inclusive, se a Justiça assim o desejar, ele está à disposição para abrir mão dos sigilo fiscal, bancário e telefônico”, declarou Coronel.

Rafael não teve a prisão preventiva decretada na operação, mas foi alvo de mandato de busca e apreensão. Ele é citado como agente público supostamente facilitador da atuação do grupo criminoso liderado pelo empresário Alex Parente, um dos donos da empresa familiar Allpha Pavimentações Ltda., favorecida em licitações e contratos com o Dnocs e prefeituras da Bahia, mesmo prestando serviços que seriam de péssima qualidade e burlando especificações técnicas.

“São fatos relacionados ao passado, a gestões anteriores do Dnocs, órgão que já foi alvo até de intervenção federal por conta de irregularidades. Rafael não tem nada a esconder. Se fosse o caso, o indicaria novamente”, ressaltou Angelo Coronel.

O interventor Jackson Carvalho assumiu a coordenação do Dnocs na Bahia em setembro de 2021, permanecendo até a chegada de Rafael Carvalho. Ainda no governo Jair Bolsonaro (PL) e antes de Jackson, o cargo era ocupado justamente por Lucas Lobão, ligado ao deputado federal Adolfo Viana (PSDB) e ao vereador de Salvador Alexandre Aleluia (PL), e preso da Operação Overclen.

Na época da intervenção, a Controladoria Geral da União (CGU) identificou um sobrepreço estimado de até R$192 milhões na aquisição de 470 mil reservatórios de água de polietileno realizada pela coordenadoria, num pregão realizado em 2020.

Política Livre

Operação Overclean: Esquema em Jequié movimenta mais de R$ 1 milhão em contratos da Allpha Pavimentações

 

Operação Overclean: Esquema em Jequié movimenta mais de R$ 1 milhão em contratos da Allpha Pavimentações

Por Eduarda Pinto

Operação Overclean: Esquema em Jequié movimenta mais de R$ 1 milhão em contratos da Allpha Pavimentações
Foto: Divulgação / Prefeitura de Jequié

Além dos desvios de emendas parlamentares envolvendo o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), a empresa Allpha Pavimentações, também é investigada pela Operação Overclean por superfaturamento e desvio de dinheiro em contratos envolvendo prefeituras baianas. Uma delas é a de Jequié, na região do Médio Rio de Contas, onde o esquema chegou a movimentar mais de R$ 1,440 milhão e envolvia o pagamento de propinas a uma servidora da Secretaria Municipal de Infraestrutura. 

 

Segundo a investigação da Polícia Federal, Kaliane Lomanto Bastos, atuava na fiscalização de obras públicas de responsabilidade da própria empresa Allpha Pavimentações. A servidora é citada com uma das principais suspeitas do esquema da empresa em Jequié, tendo recebido mais de R$48 mil reais em propina para facilitar a obtenção de contratos da empresa e liberação de pagamentos e notas fiscais. 

 

Em conversas telefônicas obtidas pela Polícia Judiciária, em janeiro deste ano, Kaliane se dirigia a Alex Parente - sócio da Allpha e um dos principais investigados da Overclean junto ao irmão, Fábio Rezende Parente -, cobrando o pagamento por suas operações no esquema. Ela relata que estaria sem receber desde outubro, cerca de três meses, e relata que conseguiu liberar mais de R$ 580 mil reais em pagamentos à Allpha Pavimentações. 

 

Na conversa a servidora cita que ainda haveria quatro notas da empresa “travadas” no Executivo. Elas estariam sobre o controle de Kleber Ramos de Jesus, Controlador Geral do Município de Jequié. Para dar seguimento a suas atividades junto ao grupo formado por Alex Parente; Lucas Maciel Lobão, ex-Coordenador Estadual do Dnocs; e Anderson Gomes dos Reis, também ligado a Allpha Pavimentações, Kaliane Bastos pede o pagamento de R$ 15 mil reais em uma conta sugerida por ela, no nome de Henrique Pires Bastos.

Operação Overclean: Esquema de Alex e Fábio Parente movimenta R$ 14 milhões e capta ao menos dois servidores na Prefeitura de Barreiras

 

Operação Overclean: Esquema de Alex e Fábio Parente movimenta R$ 14 milhões e capta ao menos dois servidores na Prefeitura de Barreiras
Foto: Divulgação / Prefeitura de Barreiras

O município de Barreiras, no extremo oeste da Bahia, se junta a JuazeiroJequiéCampo Formoso e outros municípios, em que os irmãos Alex e Fábio Parente protagonizaram um esquema de lavagem de dinheiro e superfaturamento de contratos junto às prefeituras. Investigados no âmbito da Operação Overclean, deflagrada pela Polícia Federal na última terça-feira (10), os irmãos Parente seriam os principais líderes de uma organização que desviava dinheiro dos cofres públicos. 

 

Nos autos do inquérito obtido pelo Bahia Notícias, a Polícia Federal já sinaliza que “similar aos demais contratos, o grupo criminoso, através de operadores centrais e regionais, coopta servidores públicos, com a finalidade de obter diversas vantagens, seja no direcionamento, seja na execução dos contratos”. O detalhamento das operações aponta, por sua vez, que o esquema em Barreiras chegou a movimentar R$ 14 milhões em contratos e contava com a participação de, pelo menos, um secretário municipal e uma servidora chamada Maria. 

 

No extremo oeste, o esquema utilizou uma das empresas de fachada, Qualymulti Serviços Eireli, para conseguir cerca de 24 contratos com a prefeitura de Barreiras, segundo levantamento junto ao site Tribunal de Contas dos Municípios da Bahia (TCM-BA). Por meio de uma escuta ambiental, a Polícia interceptou uma conversa entre Alex e um interlocutor não identificado, em que este último “reporta uma liberação de pagamentos de contratos firmados com a Prefeitura de Barreiras, mediante ajuste e pagamento de propina”. 

 

O diálogo foi registrado em 06 de agosto de 2024 e, segundo a conversa, uma servidora de prenome Maria, vinculada ao setor financeiro da Prefeitura, seria uma das envolvidas na liberação dos valores contratuais. Os suspeitos afirmam ainda que ainda haveria valores a serem pagos pelo Executivo Municipal, por meio da Secretaria de Infraestrutura (Seinfra). A promessa é que os pagamentos fossem priorizados na “fila” para quitação até o décimo dia do mês. 

 

“Noutra senda, apontamos também, informação obtida por fonte humana, que a servidora Maria Valdeci teria recebido em 05/08/2024, propina cujo valor ainda é desconhecido, como ajuste pelo empenho dos valores em benefício da empresa Qualymulti Serviços”, diz o inquérito da PF. 

 

A Polícia Federal sugere ainda que a fonte não identificada possa ser Fábio Netto do Espírito Santo, também integrante do esquema dos irmãos parente, mas não necessariamente ligado à Prefeitura. Na conversa, ambos citam um outro suspeito, de codinome “Sequeta”, que as investigações apuram ser um secretário de Infraestrutura ou Meio Ambiente de Barreiras. Este secretário teria então sugerido uma conta jurídica, com nome de GMD Borba Distribuidora Ltda., onde teria recebido R$ 20.000,00 na conta corrente, em valor de propina no dia 07 de agosto. 

 

No dia seguinte, 08 de agosto, foram liberados oito pagamentos de ambas as secretarias direcionados aos contratos com a Qualymulti Serviços, dos irmãos Parente. Os pagamentos, somados, chegam a R$ 800 mil reais. Por meio da quebra de sigilo bancário, a PF descobriu ainda que a empresa utilizada pelo servidor municipal para o pagamento da propina, GMD, recebeu “aproximadamente 330.000,00 mil reais em repasses sucessivos e mensais no valor de R$ 20.000,00 vinte mil reais” vindos da empresa BRA TELES, utilizada como “fachada” pelo esquema de Alex e Fábio para pagamento das propinas.

 

O esquema do grupo em Barreiras venceu licitação para prestar, sob demanda, serviços de engenharia na Prefeitura de Barreiras, num total de até R$10 milhões, sendo que já teria arrecadado um valor de R$ 4.380.000,00 pelos serviços prestados em 24 contratos. Ao total, a movimentação de recursos no município chega a mais de R$ 14 milhões.

Operação Overclean em Juazeiro: Esquema utilizava fotos antigas para comprovar execução de novas obras; entenda

 

Operação Overclean em Juazeiro: Esquema utilizava fotos antigas para comprovar execução de novas obras; entenda
Foto: Imagem Ilustrativa. Reprodução / Rede GN

O inquérito policial da Operação Overclean, que investiga a atuação de organizações criminosas em crimes de peculato, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva, fraude em licitações e organização criminosa, através de contratos firmados pelo Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (DNOCS), mostrou como o esquema funcionava na cidade de Juazeiro, no norte baiano. 

 

O esquema de corrupção, que tem como alvo a Allpha Pavimentações e prefeituras, funcionava por meio de uma complexa rede de contatos e ações ilícitas que almejavam direcionar recursos públicos para a entidade, com o intuito de gerar vantagens indevidas para os envolvidos. 

 

O Bahia Notícias acessou com exclusividade o documento de investigação da Polícia Federal, que aponta que, no município do Norte baiano, os atos criminosos foram divididos em três fases.

 

A primeira acontecia por envio de recursos públicos para Juazeiro. Quem estava à frente do processo era o empresário José Marcos de Moura, empresário, conhecido como o “rei do lixo”. Influente no segmento da política baiana, o investigado atuava para que recursos de convênios federais, destinados a melhorias públicas, fossem direcionados para a gestão municipal de Juazeiro.

 

Segundo o documento, Moura tinha o intuito de favorecer a Allpha Pavimentações, empresa dos irmãos Fábio e Alex Parente, para estabelecer que a entidade fosse a escolhida para executar as obras.

 

Após o recebimento das quantias, na segunda fase, a gestão municipal aderiu à ata nº 07/2023 do DNOCS – CEST/BA, que havia sido manipulada para favorecer a organização dos irmãos Parentes. O pregão em si, segundo extrato de contrato obtido pelo BN, era no valor global de R$ 16.254.000,00, tendo como vencedora a Allpha e como contratante a Secretaria Municipal de Obras e Desenvolvimento Urbano e seria no prazo de 12 meses. 

 

No entanto, segundo o inquérito, a terceira fase da ação foi frustrada após o contrato ser reprovado pela Caixa Econômica Federal. Segundo o ofício da Procuradoria-Geral do município de Juazeiro, a Caixa Econômica Federal, órgão gerenciador do recurso, não aprovou os termos do contrato administrativo de nº 420/2024, determinando o seu distrato, motivo pelo qual não existem pagamentos para a Allpha realizados pelo município de Juazeiro que sejam referentes a essa contratação. 

 

A reprovação causou a não execução da 2ª fase, que era estruturado no desvios de verbas e no superfaturamento e pagamentos de propinas. 


 

ARTICULAÇÕES FEITAS POR MENSAGENS 

O inquérito da PF acessado pelo BN traz imagens das mensagens trocadas entre o “rei do lixo” e Alex Parente. Os dois projetavam a aprovação de cerca de R$ 14.507.757,00 em um programa do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional para construção e manutenção de vias. Nas conversas, ambos indicavam o desejo de favorecer a Allpha e controlar a destinação dos recursos citados anteriormente. 

 

Mensagens trocadas entre Marcos Moura e Alex Parente, obtidas durante a investigação, revelam a articulação para a aprovação de R$ 14.507.757,00 em um programa do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional. Essas mensagens demonstram o interesse de Moura em favorecer a Allpha e seu controle sobre a destinação dos recursos.

 

 

Ainda em Juazeiro, outro ato ilícito do grupo criminoso foi divulgado no documento. Trata-se do uso de fotos de obras de pavimentação na Rua Primeiro de Maio como comprovação de pavimentação de outra rua na cidade de Rio Real, na divisa de Bahia e Sergipe. 

 


 

Lucas Lobão, investigado por liderar parte do esquema criminoso, foi visto pedindo para que fossem removidas datas, horários e locais de obras de algumas dessas imagens, para que as mesmas fossem utilizadas em falsos relatórios, visando comprovar que serviços foram realizados em outras cidades. 

 

 

A investigação indicou também a cooptação de agentes públicos, manipulação de processos licitatórios e direcionamento de recursos para beneficiar a Allpha Pavimentações.

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