domingo, dezembro 11, 2022

A meritocracia, de Confúcio a Sandel




Tzu-chang perguntou a Confúcio: “Como um cavalheiro deve ser para que digam que ele conseguiu distinguir-se?”. O Mestre disse: “Que diabos você quer dizer com ‘distinguir-se’?”.

Por Luiz Gonzaga Belluzzo (foto)

Tzu-chang respondeu: “O que tenho em mente é um homem que tem certeza de ser conhecido, sirva ele em um reino ou em uma família nobre”. O Mestre disse: “Isso é ser conhecido, não se distinguir. O termo ‘distinguir-se’ descreve um homem que é correto por natureza e que gosta do que é certo, sensível às palavras das outras pessoas e observador da expressão nos rostos delas e que sempre se preocupa em ser modesto. Por outro lado, o termo ‘ser conhecido’ descreve um homem que não tem dúvidas de que é benevolente, quando tudo o que ele está fazendo é mostrar uma fachada de benevolência que não condiz com suas ações”.

Ao palmilhar os caminhos de Confúcio, o norte-americano Michael J. Sandel, em seu livro “A Tirania do Mérito”, vai cuidar dos valores que inspiram a meritocracia. O autor contrapõe delicadamente a virtude e o vício no mesmo movimento de constituição dos comportamentos dos indivíduos nas sociedades contemporâneas. “Se meu sucesso é obra minha, algo que ganhei por meio do talento e trabalho duro, posso me orgulhar disso, confiante de que mereço as recompensas que minhas conquistas trazem. Uma sociedade meritocrática, então, é duplamente inspiradora: afirma uma poderosa noção de liberdade e dá às pessoas o que ganharam para si mesmas e, portanto, merecem. Embora seja inspirador, o princípio do mérito pode tomar um rumo tirânico, não apenas quando as sociedades não permitem que seja cumprido, mas também - especialmente - quando o fazem. O lado negro do ideal meritocrático está embutido em sua promessa mais sedutora, a promessa de autorrealização pessoal. Essa promessa vem com um fardo difícil de suportar. O ideal meritocrático coloca grande peso na noção de responsabilidade pessoal”.

Ao escolher essa forma de tratamento da meritocracia, Sandel evita os caminhos dos pensadores binários que separam o vício da virtude, o bem do mal. Ele mergulha esses dois conceitos nas profundezas do espírito que anima a vida concreta dos indivíduos-habitantes das sociedades contemporâneas, sempre enredadas na maldição de negar o que afirmam e de afirmar o que negam.

A busca pelo enriquecimento, pela diferenciação do consumo e dos estilos de vida é a marca registrada da concorrência na sociedade de massa. Os impulsos para acompanhar os hábitos, gostos e gozos dos bem aquinhoados esboroam-se nas angústias da desigualdade. A maioria não consegue realizar seus desígnios.

Sandel reconhece que, em sua configuração atual, as sociedades escancaram a incapacidade de entregar o que prometem aos cidadãos. A celebração do sucesso colide com a exclusão social promovida pela transformação tecnológica e pela migração dos empregos para as regiões de baixos salários.

A pressão competitiva-aquisitiva desencadeia transtornos psíquicos nos indivíduos-utilitaristas consumidores. Os trabalhos de destruição da subjetividade são realizados por uma sociedade que precisa exaltar o sucesso econômico e abolir o conflito. Nesse ambiente competitivo, algozes e vítimas das promessas irrealizadas de felicidade e segurança assestam seus ressentimentos contra os “inimigos” imaginários, produtores do seu desencanto. Os inimigos são os outros: os imigrantes, os pobres preguiçosos que preferem o Bolsa Família e recusam a vara de pescar, comunistas imaginários etc.

Aqui caberia recorrer a Freud para tratar do narcisismo dos ressentidos. Sigmund observa: “O narcisista parece ter realmente retirado sua libido das pessoas e das coisas no mundo exterior, sem tê-las substituído por outras em sua fantasia. Qual é o destino da libido retirada dos objetos na esquizofrenia? A megalomania, característica desses estados, indica a resposta... A libido subtraída do mundo exterior foi trazida para dentro do eu, emergindo assim um estado ao qual podemos dar o nome de narcisismo”.

Minhas deambulações curiosas me levaram à leitura do artigo dos psicanalistas Camila de Araujo Reinert e Matias Strass burger: “Um, Nenhum, Cem Mil” - Uma breve compreensão do narcisismo em Green através de um personagem literário de Pirandello e de um caso clínico”. Green é o psicanalista André Green, considerado um dos mais criativos herdeiros de Sigmund Freud. O artigo traz uma epígrafe copiada do Livro III das metamorfoses de Ovídio, o grande poeta romano.

“O adolescente (Narciso), cansado pelo esforço da caça e pelo calor, estendeu-se no chão, atraído pelo aspecto do lugar e pela fonte. Mas, logo que procura saciar a sede, uma outra sede surge dentro dele. Enquanto bebe, arrebatado pela imagem de sua beleza que vê, apaixona-se por um reflexo sem substância, toma por corpo o que não passa de uma sombra. Fica extático diante de si mesmo, imóvel, o rosto parado, como se fosse uma estátua de mármore de Paros. Deitado no chão, contempla dois astros, seus olhos, os cabelos dignos de Baco e de Apolo, o rosto imberbe, o pescoço ebúrneo, a linda boca e o rubor que cobre a cútis branca como a neve. Admira tudo, pelo que é admirado ele próprio. Deseja a si mesmo, em sua ignorância, e, louvando, é a si mesmo que louva. Inspira a paixão que sente, e, ao mesmo tempo, acende e arde. Quantas vezes beijou em vão a água enganosa! Quantas vezes, para abraçar o pescoço que via, mergulhou os braços na água, sem conseguir abraçar-se”.

Na aurora do século XXI, Elisabeth Roudinesco ausculta os rumores narcísicos cochichados nos bastidores da sociedade contemporânea. Diz ela que estamos sempre nos indagando o que preferimos: as figuras mais puras, as maiores, as mais medíocres, os maiores charlatães, as mais criminosas?

O sexo não é experimentado como o companheiro do desejo, mas como um desempenho, uma ginástica, como a higiene para os órgãos, o que só pode levar à confusão afetiva. “Qual é o tamanho ideal da vagina, o comprimento correto do pênis? Com que frequência? Quantos parceiros em uma vida, em uma semana, em um único dia, minuto a minuto?”. O avanço exasperado da “quantidade” encolhe o espaço de fruição da experiência amorosa. Não por acaso, estamos assistindo a um aumento nas queixas de todos os tipos.

Valor Econômico

11 A ciência prova que todos têm chifres.




Ao cabo, o sujeito vai mesmo ficar sozinho ou com chifres. Esse final apenas corroborará a sua visão animalesca do mundo. 

Por Bruna Frascolla (foto)

O mal de nossa época, que vem de longa data, é a aplicação da objetividade das ciências naturais às questões humanas e a consequente adoção de um fatalismo. Um primatologista e um químico observam o comportamento do bonobo e as reações de um composto químico. Ambos anotam em seus cadernos coisas que não poderiam ser de outro modo. Um composto químico não tem vontade; reage de maneira pré-determinada pelas leis da química. Um bonobo é um animal irracional cujas ações são primariamente ditadas por instintos. Podemos tentar adestrar um bonobo, mas não podemos nos sentar para observar seu comportamento e dizer: “Hoje ele toma jeito.” Bonobos não têm nenhuma perspectiva na vida. Não têm uma cultura. A vida de um bonobo antes de Cristo é idêntica à de um bonobo do século XXI. Ortega y Gasset dizia que “o tigre de hoje é idêntico ao de seis mil anos atrás, porque cada tigre tem que começar de novo a ser tigre, como se nunca houvera um tigre antes. O homem, por outro lado, graças ao seu poder de recordar, acumula seu próprio passado, possui-o e aproveita-o. O homem nunca é um primeiro homem: começa desde já a existir sobre certa altura de pretérito amontoado. Este é o tesouro único do homem, seu privilégio e seu signo.” (La rebelión de las masas, “Prólogo para franceses”, IV)

O homem é um bicho que nasce numa cultura e num lar, bem como com uma personalidade própria. É interessante analisar várias culturas para buscar tendências universais. No entanto, o que se faz nas ciências sociais é o contrário: pega-se um estado de coisas particular, observa-se, documenta-se e decreta-se provado cientificamente que as coisas são assim e não assado. Daí vem o fatalismo de nossa era. Está cientificamente provado que as mulheres abortam aos montes. Está cientificamente provado que jovens usam drogas. Logo, é obscurantismo querer mudar esse estado de coisas. Leis contra aborto e uso de drogas não refletem escolha moral, mas mera ignorância. Agora que os cientistas já apareceram e nos revelaram a Verdade, podemos legislar. Está cientificamente comprovado que negros se saem pior em provas escolares do que brancos, que homens não gostam de assumir filhos nem de se casar, que mulheres sofrem assédio sexual toda hora, que pobres são criminosos…

Fatalismo cem anos atrás

Chesterton se queixava bastante desse fatalismo, sobretudo quando propunha a sua alternativa ao capitalismo. Era 1926, ainda não havia proteção social ao trabalhador, e o povo inglês, recém saído da Revolução Industrial, comera o pão que o diabo amassou na mão dos grandes capitalistas. Chesterton lança então Um esboço da sanidade, onde propunha que se valorizasse a propriedade e se recriasse uma classe camponesa na Inglaterra. Explicava que se valorizava demais a iniciativa privada, sem se perceber que a iniciativa privada pode ser inimiga da propriedade privada – vide a iniciativa do batedor de carteiras. Assim, os capitalistas ingleses estavam açambarcando a propriedade e lançando os ingleses a casas empilhadas. Eles nos conta que as favelas onde os pobres criavam galinhas foram desmanchadas pelas autoridades, e os pobres foram postos contra a vontade dentro de apartamentos, onde não podiam ter nenhum hobby ligado à vida do campo. Ele diz não ser nenhum grande planificador; apenas reconhecia a urgente necessidade de desfazer monopólios e dizia que qualquer tentativa de descentralizar a propriedade seria reconhecida como distributista. Dizia que trustes e cartéis deveriam ser tratados como caso de polícia, e que se essa tendência não fosse refreada, chegar-se-ia a um estágio indiscernível do socialismo, no qual o povo não tem propriedade.

As críticas, a julgar pelas respostas, eram enfastiantes. Ora se dizia que nenhum trabalhador gostaria de deixar a cidade, onde há cinema, para se tornar um camponês atrasado. (Daí Chesterton falar dos favelados que gostavam de criar galinhas.) Ora se dizia, também, que a concentração da propriedade era inexorável, provada por leis econômicas. Assim, qualquer tentativa de descentralizar a propriedade era anticientífica e impossível. No entanto, dizia Chesterton, é como se após a descoberta das leis de Newton os homens começassem a dizer que não é possível construir arcos romanos, porque pedras não podem ficar suspensas no ar. Fato é que arcos existem. Olhar para o passado sempre nos abre horizontes e mostra possibilidades. É possível voltar a construir arcos romanos; é possível voltar a ter uma sociedade de proprietários.

Redução ao absurdo cem anos atrás

De fato, ao menos num aspecto Chesterton saiu vitorioso perante os seus contemporâneos: trustes e cartéis passaram a ser considerados caso de polícia. Por mais que sigamos nos batendo com problemas advindos da concentração de renda – e até em modelos novos, como o da BlackRock –, hoje lemos Chesterton e vemos como datada a crença na legitimidade e na inexorabilidade dos monopólios. Houve, nesse quesito, um aprimoramento moral entre a época dele e a nossa.

No entanto, como o progresso linear é uma ficção (e uma ficção dos fatalistas), o que salta aos olhos é a redução ao absurdo que Chesterton usa para convencer os seus contemporâneos da dimensão moral da propriedade. Ele faz um paralelo com o casamento. Cito-o: “É como se disséssemos que, porque alguns homens são mais atraentes às mulheres do que outros, seguir-se-ia que os habitantes de Balham [um bairro londrino] sob a Rainha Vitória [morta em 1901] jamais poderiam ter conseguido um modelo monogâmico, com um homem e uma mulher. Mais cedo ou mais tarde, dir-se-ia, todas as donzelas estarão se apinhando ao redor de uns poucos tipos fascinantes, e nada menos do que a solteirice haveria de ser o destino dos muitos pouco atraentes. Dentro em pouco, todo o subúrbio consistirá de cem eremitérios e três haréns. Mas esse não é o caso. Não é o caso no presente, seja lá o que possa ocorrer, caso a tradição moral do casamento venha a se perder em Balham. Enquanto essa tradição moral estiver viva, enquanto se desaprovar o roubo da mulher alheia ou se admirar a fidelidade duradoura à mulher, impor-se-ão limites ao distúrbio que o mais selvagem dos libertinos poderia causar no equilíbrio dos sexos.” (Um esboço da sanidade, p. 21)

A revolução sexual ocorreu. A infidelidade masculina dava mais asas à imaginação de Chesterton, mas a infidelidade feminina foi a mais propagandeada pela contracultura surgida no fim da década de 60. Assim, as gerações mais novas de homens foram se acostumando à ideia de que mulheres são infiéis, de modo que nenhum esforço próprio de fidelidade vale a pena. E como a ciência continua a ser convocada para decidir questões morais, a psicologia evolutiva – que descreve comportamentos humanos de uma perspectiva darwinista – não tardou a ser vulgarizada e popularizada. Concomitantemente, termos de primatologia, como macho alfa e macho beta, logo tomaram a internet e passaram a ser usados para descrever homens. Os jovens criaram gírias para descrever o próprio comportamento, como “betar” (agir como um beta). Usar termo de primatologia para se autodescrever mostra bem a conta em que o jovem se tem.

Fatalismo chifrudo

Ao cabo, o homem bem informado do tempo sabe olhar para os próprios chifres e concluir, cientificamente, que era inexorável. As mulheres, segundo a Ciência (escolha o cientista), estão fadadas a copular com homens diferentes conforme o período do ciclo menstrual. Se o homem não ganhou chifres, é por mera questão de tempo até a fêmea trair. Mas se o homem não tiver tomado chifres por falta de mulher que os perpetrasse, isso quer dizer que ele é um beta. O homem bem sucedido seria um alfa que açambarca todas as mulheres, e todas as mulheres vão querer viver num harém. Como mostra a ciência, as mulheres evoluíram para gostar de homens poderosos e com recursos.

Ao cabo, o sujeito vai mesmo ficar sozinho ou com chifres. Esse final apenas corroborará a sua visão animalesca do mundo. Mas, porém, contudo, todavia, esse final é uma decorrência da sua visão de mundo. Porque o passado do Homem mostra as possibilidades do Homem. E nós estamos sentados “sobre uma montanha de pretérito amontoado”. Cabe a nós vasculhá-la. Porque com certeza o passado nos mostra possibilidades melhores do que o atual estado de coisas.

Gazeta do Povo (PR)

A democracia contra os extremistas




Cabe a cada país nomear seus bois, agarrá-los pelos chifres e submetê-los aos rigores da Justiça

Por João Gabriel de Lima* (foto)

A polícia alemã desbaratou, na quarta-feira, dia 7, uma organização que planejava um atentado contra o Parlamento do país. Foram presos 25 integrantes do Reichsburger, um grupo que armazenava armas e treinava militantes com o intuito de realizar atos terroristas. Investigam-se ainda 27 suspeitos de manter laços com a quadrilha ou apoiá-la financeiramente. Seu líder é o autodenominado príncipe Henrique XIII, descendente de nobres e renegado pela própria família.

“Foi entre os constitucionalistas alemães de 1945 que surgiu a distinção entre extremistas e radicais. Radicais são os que querem mudanças drásticas, mas dentro da Constituição. Extremistas são os que atuam de forma violenta contra a democracia”, diz o cientista político italiano Riccardo Marchi, estudioso do assunto, no minipodcast da semana. Segundo ele, a Alemanha tem um histórico de identificação e detenção de extremistas, talvez pela marca do passado nazista.

A ação da Justiça alemã evocou a invasão do Capitólio e a imagem do militante Jacob Anthony Chansley, apelidado de “xamã” – inesquecível em sua pintura facial com as cores da bandeira americana e um par de chifres pregados na testa. Por causa dele, os vândalos americanos ficaram conhecidos nas redes sociais como “os chifrudos do Capitólio”. A polícia dos Estados Unidos já efetuou mais de 700 prisões entre os fanáticos trumpistas.

Com indumentária bizarra ou delírios de nobreza, extremistas dão bons memes. O assunto, no entanto, é sério e é estudado na academia, que identifica padrões nos diferentes grupos. Um ponto em comum é acreditar em teorias conspiratórias, como as que veem em tudo um suposto “perigo vermelho” – como se a União Soviética não tivesse se dissolvido há mais de 30 anos. Outra é o aliciamento de integrantes do Exército e de forças policiais. “Na Alemanha, os militares são monitorados por causa disso, e algumas brigadas chegam a ser desativadas pela proximidade com extremistas”, diz Marchi.

A pluralidade de ideias, à esquerda e à direita, é saudável e desejável nas democracias. As exceções, como diz Marchi, são os que advogam a destruição da própria democracia. A invasão do Capitólio deixou cinco mortos e vários feridos. Felizmente os alemães agiram antes que houvesse vítimas.

As democracias vêm aprendendo, aos poucos, a identificar e punir seus extremistas. Cabe a cada país nomear seus bois, agarrá-los pelos chifres e – respeitado o devido processo legal – submetê-los aos rigores da Justiça. Alemães e americanos vêm fazendo isso, pelo bem de suas democracias. Dão um exemplo ao mundo. 

*Escritor, professor da Faap e doutorando em ciência política na Universidade de Lisboa

O Estado de São Paulo

Alerta dos EUA sobre protestos mobiliza Lula e Alckmin




O novo governo coleta informações sobre a organização de atos para provocar tumulto. Futuro ministro da Defesa prevê dias "muito difíceis" até à posse. 

Por José Casado 

Faltam 21 dias para a mudança de governo. Serão três semanas de suspense político — dias “muito difíceis”, na previsão feita pelo novo ministro da Defesa, José Múcio, na noite de sexta-feira (9) em entrevista à Globonews.

Múcio, 74 anos, foi lacônico de maneira proposital. Sua escolha de palavras está baseada em informações que ele, Lula e Geraldo Alckmin receberam sobre tentativas de tumulto bolsonarista antes e no dia da posse presidencial, 1º de janeiro.

A pedido de Lula, no início da semana Alckmin esteve com representantes do governo dos Estados Unidos.

A conversa, em Brasília, foi sobre o cenário das próximos 21 dias e a possível viagem do ex-presidente Barack Obama como emissário de Joe Biden à posse de Lula. Não está confirmada, mas a simples consulta indica o nível de preocupação da Casa Branca com a estabilidade no Brasil.

O enredo retórico foi pontuado pela palavra “sedição”. Ela acabou revigorada no léxico político americano por causa da invasão do Congresso, em janeiro do ano passado, patrocinada por Donald Trump numa tentativa frustrada de impedir a posse de Joe Biden.

Sinônimo de sublevação, revolta e motim, entre outros substantivos, é crime previsto no código penal dos EUA e do Brasil. Lá é punível com 20 anos de prisão, como demonstraram 12 jurados de um tribunal federal em Washington, dez dias atrás, ao aplicar a pena ao chefe de uma facção de extrema direita, Stewart Rhodes, envolvida na invasão da sede do Congresso.

Alckmin alertou Lula. Com ajuda de Múcio acabaram complementando o quadro de informações sobre iniciativas em andamento com o objetivo de provocar tumulto, se possível, com engajamento de frações militares e policiais aparentemente alinhadas aos derrotados Jair Bolsonaro e seu candidato a vice Walter Braga Netto.

A eleição acabou há 40 dias, mas prossegue a contestação bolsonarista do resultado, com organização de políticos e financiamento de empresários aliados. Estão previstas novas manifestações neste final de semana em Brasília e outras cidades.

Para o novo ministro da Defesa, “as Forças Armadas têm demonstrado que não apoiam qualquer movimento desses [golpistas]”. Reconheceu divisão nos quartéis, durante entrevista à Globonews: “Evidentemente que [todos os militares] têm suas preferências. Se você me dizer que temos três Forças [Armadas], sou capaz de dizer que temos seis Forças. O Exército, a Marinha e a Aeronáutica que gostam de Bolsonaro; e o Exército, a Marinha e a Aeronáutica que gostam de Lula.”

A “questão militar” desenhada por Múcio não é novidade. Deriva, na essência, de uma constante omissão do poder civil sobre o arcaísmo da formação, da estrutura e do profissionalismo na hierarquia das Forças Armadas.

Bolsonaro enxergou uma oportunidade política para aglutinar extremistas e simpatizantes num governo de moldura militarista. O ciclo acabou em fiasco nas urnas. Sobrou uma respeitável, mas difusa, oposição a Lula e ao PT, que Bolsonaro pretende liderar a partir da planície da política, em janeiro.

Na tarde de sexta-feira, acompanhado por Braga Netto, fez um discurso a um grupo de seguidores na frente do Palácio da Alvorada. Foi a primeira vez que falou em pública, desde a derrota eleitoral.

A plateia manteve-se na rotina de reivindicar uma “intervenção” para impedir o governo Lula. Bolsonaro respondeu, usando a força da ambiguidade para incitação: “Nada está perdido. O final, somente com a morte. Quem decide meu futuro, para onde eu vou, são vocês. Quem decide para onde vão as Forças Armadas são vocês (…) Se Deus quiser, tudo dará certo no momento oportuno.”

Como notou o novo ministro da Defesa, depois de 40 dias de silêncio, Bolsonaro atravessou o jardim do Alvorada para deixar suas digitais numa manifestação contra o regime democrático.

“Ele hoje colocou a digital, hoje” — comentou Múcio. “Por enquanto, a gente não podia dizer ‘está por trás’. Não, são os caminhoneiros, donos das empresas de transporte, é o pessoal do agronegócio. Hoje, o presidente falou. Você viu o filmezinho? Ele falando, as pessoas atrás. Isso é uma coisa, realmente, que vai deixar a gente pensando.”

Revista Veja

“Queremos tirar os sem-vergonha do Bolsa Família”, diz membro da equipe de transição


Governo Lula vai revisar regras do Bolsa Família: "queremos tirar os  sem-vergonha", diz Tereza Campello - Brasil 247

Tereza Campello denuncia que o Auxílio virou um caça-votos

Pedro Venceslau
Estadão

A economista Tereza Campello, de 60 anos, disse ao Estadão que sua principal missão é desarmar o que ela acredita ser uma bomba-relógio deixada pelo governo de Jair Bolsonaro para a próxima gestão do Cadastro Único do Auxílio Brasil, que vai voltar a se chamar Bolsa Família.

Ex-ministra de Desenvolvimento Social e Combate à Fome no governo Dilma Rousseff (PT), atua no Gabinete de Transição como uma das coordenadoras do Grupo de Trabalho de Assistência Social, ao lado da senadora Simone Tebet (MDB-MS).

Qual a expectativa sobre o Bolsa Família para 2023?
O que já sabemos, a partir das investigações, é que há distorções muito grandes no Cadastro Único. A imprensa fala muito em pente fino, como se a população pobre tivesse um comportamento de fraudador, mas não foi isso que aconteceu.

Quais são as distorções?
Temos duas situações muito graves. O governo Bolsonaro fez uma péssima gestão do Cadastro Único e do Auxílio Brasil e isso induziu as pessoas a se cadastrar errado. Não é que as pessoas tentaram fraudar, mas o modelo que eles implantaram induz as famílias a se cadastrarem por adulto. Se tem dois adultos na mesma casa, se cadastram os dois. O certo seria uma família, como era no Bolsa Família. Um adulto morando sozinho ganha R$ 600, e uma mãe com duas crianças ganha o mesmo. Isso gera uma desigualdade enorme. Eles criaram um modelo injusto e que induz que as famílias se fracionem. Nunca fizeram campanha explicando, não conversaram com os municípios e não treinaram as equipes na rede de assistência social. Criaram um aplicativo que quando você entra já puxa o CPF e induz (o beneficiário) a fazer o cadastro individualmente.

Vai ser muito difícil regularizar o cadastro?
Vai dar muito trabalho. Além da população pobre ter sido induzida por má gestão e do modelo equivocado, houve o movimento pré-eleitoral para ampliar o número de pessoas beneficiadas, o que é abuso de poder econômico e político. Por que explode o cadastro? Porque botaram dentro do Auxílio Brasil na última hora e véspera da eleição milhões de pessoas. Tem um monte de gente que entrou que não faz parte da população pobre ou desinformada. Tem gente com má fé. Veja os casos do agressor do Gilberto Gil e da filha do Pazuello. Está coalhado de casos que são fraude mesmo. Será preciso apurar. Foram 79 mil militares que receberam o benefício. Temos que ir atrás do dinheiro.

A revisão do benefício não pode gerar uma revolta?
Estamos tentando administrar essa situação. Quando chegou em dezembro (de 2021), esses benefícios unipessoais – que são as pessoas que alegam estar morando sozinhas – deram um pulo de 2 para 3 milhões. Depois, passou para 3,5 milhões, para 4 milhões, 4,5 e chegou a 5 milhões em um ano. É um escândalo. O governo devia ter visto e tomado atitude para impedir, mas não tomou. Agora, após a eleição ele entrou com processo de averiguação, chamando as pessoas e dizendo que vai bloquear entre janeiro e fevereiro.

O governo Bolsonaro deixou uma bomba relógio?
Queremos criar um ambiente de construção de uma transição, mas ao mesmo tempo é irregular. A legislação é clara: as pessoas não podiam estar recebendo. Estamos conversando com os municípios. Esse povo vai bater na porta da prefeitura quando o recurso for bloqueado. Serão filas enormes no início do governo Lula com muita gente pobre, mas também muita gente sem vergonha. Queremos tirar os sem-vergonha.

Então essa é uma crise precificada logo no começo do governo Lula?
É uma crise conhecida porque estamos atuando. Somos transição. Não somos governo. Já fizemos uma reunião que o governo atual devia ter feito. Chamamos as prefeituras e as organizações dos municípios que fazem a gestão do Bolsa Família para tentar construir uma trajetória comum com o setor público que, na ponta, vai administrar essa filas.

 

Foi o risco de quebra da disciplina militar que levou Lula a anunciar cinco ministros


Lula anuncia ministros da Fazenda, Justiça, Defesa, Casa Civil e Relações  Exteriores

Os comandantes militares atuais ainda preocupam Lula

Denise Rothenburg
Correio Braziliense

Estava tudo pronto para que o presidente Lula anunciasse a primeira leva de ministros na segunda-feira, dia 12, logo depois de sua diplomação pelo Tribunal Superior Eleitoral. Mas ele preferiu desatar logo alguns nós. Diante das incertezas que vive o país, inclusive com risco de saída antecipada de comandantes militares, o que poderia levar a uma leitura de quebra de hierarquia e disciplina militar, Lula decidiu anunciar antecipadamente os ministros considerados chaves.

Com isso, começou a efetivar a transição, para evitar transtornos – isso, em pleno dia de jogo do Brasil, o que não estava nos planos iniciais do presidente, um aficionado por futebol.

CARGOS ESTRATÉGICOS – Pelo menos quatro dos ministros anunciados – Casa Civil, Justiça, Defesa e Fazenda – são os mais estratégicos para qualquer governo. Especialmente, num cenário em que há tanta gente acampada nas portas dos quartéis, pedindo intervenção. Vamos à importância de cada um.

Defesa: Na transição e fora dela, há quem tenha detectado um risco de quebra de hierarquia com a saída antecipada de comandantes militares. Isso porque, nas Forças Armadas, não há transição. Há apenas troca de comando depois da posse. E, no momento em que os comandantes se preparam para sair antes, pode-se passar à tropa e aos escalões inferiores a ideia de rejeição ao novo governo e ao presidente eleito. Agora, com José Múcio Monteiro anunciado ministro da Defesa, ele fará as conversas com o meio militar com um peso maior, dissipando leituras e, como ele já estará atuando como futuro ministro, espera-se que afaste qualquer leitura de quebra de hierarquia.

Justiça: A pasta inclui a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal, acusada de fazer “corpo mole” quando do bloqueio de rodovias por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro logo depois de conhecido o resultado da eleição. Agora, caberá ao futuro ministro, Flávio Dino, começar a transição nas polícias.

Casa Civil: De lá saem decretos e leis. Por isso, é preciso ficar de olho no que está sendo preparado nesta reta final de governo. A partir de agora, o governador da Bahia, Rui Costa, terá condições de montar uma equipe que ajude a acompanhar de perto a Casa Civil, de forma a evitar surpresas.

Fazenda: Decidido a fatiar o Ministério da Economia e retomar o modelo anterior com ministérios separados para Fazenda, Planejamento e Indústria e Comércio, Lula anuncia logo o ministro da Fazenda para dar mais tempo à transição. O futuro ministro é Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, que montará uma equipe mais técnica para os cargos-chaves da pasta, Secretaria do Tesouro, Política Econômica e tudo mais.

Itamaraty – Por fim, Lula decidiu anunciar logo o embaixador Mauro Vieira para Relações Exteriores, que foi chanceler no governo Dilma Rousseff, a fim de colocar o Itamaraty no preparo das viagens que o presidente eleito deve fazer depois da posse, começando por Estados Unidos e Argentina.

Os anúncios desta sexta-feira devem ainda esvaziar ainda mais os gabinetes da transição. Lula, por exemplo, tem feito a maioria das conversas importantes no hotel onde está hospedado.  Agora, os novos ministros passarão a dividir as atenções.

Alemanha demonstra que cabe a cada país enquadrar extremistas e submetê-los à lei

Publicado em 11 de dezembro de 2022 por Tribuna da Internet

Chifrudo do Capitólio' não come desde que foi preso por falta de comida  orgânica

Nos EUA, este chifrudo pegou 3 anos e 5 meses de prisão

João Gabriel de Lima
Estado

A polícia alemã desbaratou, na quarta-feira, dia 7, uma organização que planejava um atentado contra o Parlamento do país. Foram presos 25 integrantes do Reichsburger, um grupo que armazenava armas e treinava militantes com o intuito de realizar atos terroristas.

Investigam-se ainda 27 suspeitos de manter laços com a quadrilha ou apoiá-la financeiramente. Seu líder é o autodenominado príncipe Henrique XIII, descendente de nobres e renegado pela própria família.

EXTREMISMO, NÃO! – “Foi entre os constitucionalistas alemães de 1945 que surgiu a distinção entre extremistas e radicais. Radicais são os que querem mudanças drásticas, mas dentro da Constituição. Extremistas são os que atuam de forma violenta contra a democracia”, diz o cientista político italiano Riccardo Marchi, estudioso do assunto.

Segundo ele, a Alemanha tem um histórico de identificação e detenção de extremistas, talvez pela marca do passado nazista.

A ação da Justiça alemã evocou a invasão do Capitólio e a imagem do militante Jacob Anthony Chansley, apelidado de “Xamã” – inesquecível em sua pintura facial com as cores da bandeira americana e um par de chifres pregados na testa. Por causa dele, os vândalos americanos ficaram conhecidos nas redes sociais como “os chifrudos do Capitólio”. A polícia dos Estados Unidos já efetuou mais de 700 prisões entre os fanáticos trumpistas.

GRAVE PROBLEMA – Com indumentária bizarra ou delírios de nobreza, extremistas dão bons memes. O assunto, no entanto, é sério e é estudado na academia, que identifica padrões nos diferentes grupos.

Um ponto em comum é acreditar em teorias conspiratórias, como as que veem em tudo um suposto “perigo vermelho” – como se a União Soviética não tivesse se dissolvido há mais de 30 anos.

Outra coisa é o aliciamento de integrantes do Exército e de forças policiais. “Na Alemanha, os militares são monitorados por causa disso, e algumas brigadas chegam a ser desativadas pela proximidade com extremistas”, diz Marchi.

AGIR PREVENTIVAMENTE – A pluralidade de ideias, à esquerda e à direita, é saudável e desejável nas democracias. As exceções, como diz Marchi, são os que advogam a destruição da própria democracia. A invasão do Capitólio deixou cinco mortos e vários feridos. Felizmente os alemães agiram antes que houvesse vítimas.

As democracias vêm aprendendo, aos poucos, a identificar e punir seus extremistas. Cabe a cada país nomear seus bois, agarrá-los pelos chifres e – respeitado o devido processo legal – submetê-los aos rigores da Justiça.

Alemães e americanos vêm fazendo isso, pelo bem de suas democracias. Dão um exemplo ao mundo.

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