sábado, outubro 15, 2022

Lira, o vassalo - Editorial




Presidente da Câmara se curva a interesses de Bolsonaro ao ameaçar pesquisas

Ignorância, servilismo e má-fé se misturam na investida autoritária patrocinada pelo deputado Arthur Lira (PP-AL) contra as pesquisas de intenção de voto no Brasil.

Não satisfeito em criticar o trabalho dos institutos, o presidente da Câmara, agindo como vassalo de Jair Bolsonaro (PL), manobrou para acelerar a votação de um projeto de lei que criminaliza a divulgação dos levantamentos eleitorais.

Se aprovado, constituirá crime publicar pesquisa com números que, considerada a margem de erro, divirjam do resultado oficial. A regra se aplica a levantamentos veiculados nos 15 dias que antecedem o pleito e estabelece pena de prisão de 4 a 10 anos.

A iniciativa obscurantista tem como pano de fundo a disparidade entre os percentuais apresentados por algumas pesquisas antes do primeiro turno e os resultados alcançados por Bolsonaro e outros candidatos nas urnas.

Que existiu a disparidade é fato; classificá-la como erro é ignorância. Pesquisas de intenção de voto, com o perdão da redundância, medem intenção de voto em determinado momento. Retratam um quadro que não pode ser cotejado com a votação, pois esta reflete um momento diferente.

Procurar criminalizar as divergências existentes até 15 dias antes do pleito já adentra o terreno da má-fé. Migração de voto, decisão de última hora e abstenção podem provocar surpresas na reta final de uma eleição, alterando o quadro indicado pelos institutos.

Político experiente e oportunista, Lira sabe disso. Assim como sabe que a pena indicada no projeto de lei supera a de corrupção e pode ser maior até que a de homicídio, a depender do caso.

Se ele apoia a proposta, não é apesar de seus problemas, mas por causa deles. O deputado não pretende debater eventuais limitações dos institutos e aperfeiçoar suas metodologias. Quer tão somente impor a censura. Repete, com isso, uma pressão que outros políticos têm exercido há pelo menos 30 anos, inclusive com uma CPI.

Nunca se descobriu nada, mas não é essa a questão. Iniciativas dessa natureza têm o mero condão de intimidar atores independentes que buscam aumentar a transparência do processo democrático.

Não por outra razão, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) foi acionado contra os institutos de pesquisa, em uso do aparato estatal para atender a interesses de Bolsonaro. Ao mesmo submeteu-se a Polícia Federal, com a abertura de inquérito pedido pelo Ministério da Justiça.

Lira, assim como o presidente da República, a quem serve, sonha em enfraquecer as instituições e em monopolizar informações, em detrimento de cidadãos e eleitores.

Folha de São Paulo

Polícia Federal deflagra a Operação Fair Play




Investigados atuariam no ramo de shows e outros eventos

Segundo os investigadores, as ações de hoje dão sequência a apurações que vêm sendo feitas desde 2021Credit...Polícia Federal

A Polícia Federal deflagrou nesta sexta (14) a Operação Fair Play, com o objetivo de reprimir “crimes contra o sistema financeiro nacional, contra a economia popular, lavagem de dinheiro e organização criminosa”.

Segundo os investigadores, as ações de hoje dão sequência a apurações que vêm sendo feitas desde 2021, e que “ainda persistem”, contra um “grupo empresarial no ramo de investimentos financeiros”, ligado à promoção de eventos, em especial shows.

Cerca de 50 policiais federais participam da operação de hoje, para o cumprimento de sete mandados de prisão temporária e 18 ordens judiciais de busca e apreensão nas cidades de Manaus, Boa Vista, Belém e Natal.

“Além dos mandados, foi determinado o bloqueio de bens e valores das pessoas físicas e jurídicas investigadas, tal como o sequestro de bens móveis e imóveis que, eventualmente, estejam em sua posse”, informou a PF.

Eventos

De acordo com os investigadores, a empresa investigada está ligada a um grupo empresarial que atua “nos mais diversos segmentos comerciais” relacionados a promoção de eventos como shows com “atrações nacionais na cidade de Manaus, campeonatos de pescaria, patrocínio de equipe de e-sports, até a compra e venda de automóveis”.

Para ter sucesso nessa empreitada, os suspeitos adotaram como estratégia a de atrair principalmente servidores públicos e aposentados.

“Em um período de 2 anos, o grupo empresarial investigado movimentou, aproximadamente, R$ 156 milhões. Os sócios e representantes, por sua vez, apresentaram evolução patrimonial meteórica, enquanto ostentavam um alto padrão de vida em redes sociais, residindo em condomínios de luxo, realizando viagens nacionais e internacionais e adquirindo veículos e embarcações também de luxo”, detalhou a PF.

Segundo a PF, estão sendo apuradas práticas criminosas que vão desde crimes contra o sistema financeiro e a economia popular, até lavagem de dinheiro e organização criminosa, dentre outros. Se somadas, as penas podem ultrapassam 30 anos de prisão.

Agência Brasil / Jornal do Brasil

Guerra suja bolsonarista vence




Situação está descontrolada e não sabemos quanto, mas o mal já venceu

Por Vinicius Torres Freire

O inquérito das "fake news" foi instaurado pelo Supremo faz três anos e sete meses. Não chegou ao fim e nem se sabe em que meio está. Até agora, serviu para mandar recados quando o bolsonarismo extrapolava, digamos. Notem a graça sinistra dessa frase. A Justiça tardou, falhou ou inexistiu e, assim, contribuiu para a imundície desatada desta campanha.

Não foi o único caso de tolerância. Jair Bolsonaro (PL) tentou o golpe explícito (não haveria eleições; se houvesse, o resultado será apenas aceitável em caso de vitória etc.). Insultou ministros do Supremo. Patrocinou mudanças eleitoreiras na Constituição. A guerra suja da campanha eleitoral eterna de Bolsonaro é apenas parte de seu programa impune de desativação das instituições republicanas.

A campanha de Bolsonaro consiste em lançar gases venenosos e produzir névoa de guerra. É uma combinação do gás tóxico de mentiras com a poeira da alucinação coletiva.

A campanha de mentiras contra as urnas foi substituída pelo ataque orquestrado contra as pesquisas eleitorais, conduzido pelos ultras e negocistas da direita parlamentar bolsonarista, agora com auxílio do Cade.

Tenta-se criar um transe com ofensivas que vão desde a disseminação da ideia de que a oposição, Lula da Silva (PT) em particular, é inimigo dos cristãos, candidato de presidiários e de facções, até a promoção do pânico moral.

A esquerda seria promotora da devassidão —o banheiro multissex é a mamadeira peniana desta eleição. Na mesma linha, por exemplo, Damares Alves (Republicanos, o partido da Universal), ex-ministra, senadora eleita pelo Distrito Federal, faz discursos depravados sobre crianças pequenas traficadas por cafetões do estupro pedófilo.

Acusada de prevaricar (não tomar atitudes legais a respeito) ou de mentir, retruca que ouviu a história por aí, desconversa ou diz "me aguardem".

É nevoa tóxica de guerra, terror em transe: estaríamos à beira da dissolução moral final. Assim, é preciso aderir ao frenesi a campanha de "Deus, Pátria e Família". No Rio Grande do Sul, Onyx Lorenzoni (PL) fez troça criminosa sobre o fato Eduardo Leite (PSDB) ser homossexual —os dois disputam o governo do estado.

Mal comparando, mas não muito, são crimes de guerra. Tudo parece com operações de guerra psicológica, como já observaram pesquisadores do assunto.

A campanha de Lula se vira para inventar algo como uma "carta aos cristãos". Mas, como se nota pela divulgação de checagens de "fake news", não deve fazer grande efeito, se algum.

A comunicação política e a guerra cultural operam em esferas públicas quase separadas ("bolhas"), apoiadas de resto por "tropas em terra" (igrejas, clubes de tiro, guarnições militares, pequenas prefeituras ou também por ameaças em empresas). A mensagem não chega ou bate em ouvidos moucos.

Não há "Convenção de Genebra" (tratados que em parte tratam de crimes de guerra) para este nosso conflito político. Ao contrário, a lei eleitoral se torna um trapo.

Nesse clima de ilicitude franca, o gás tóxico se espalha. Parte da campanha lulista contra-ataca com armas bolsonaristas —é o caso da guerrilha de André Janones (Avante-MG). A fim de aumentar e disseminar o impacto, pois muita gente não tem internet, a lama jorra para TV e rádio.

A situação está descontrolada e não sabemos quanto (o esgoto corre por canos subterrâneos). Há paliativos ali e aqui, logo atropelados por novidades na fraude ou pelo crime reiterado sob disfarces. A maioria e as classes poderosas aceitaram os termos bolsonaristas. Agora, alguns engajam-se no combate pelos mesmos meios, para "evitar o mal maior". O mal já venceu.

Folha de São Paulo

Qual é a liberdade defendida por Bolsonaro na campanha




Uso do termo pelo presidente reforça tradição brasileira de aliar autoritarismo a liberalismo, diz sociólogo. Para associação Livres, que difunde o liberalismo no país, Bolsonaro fere diversos preceitos liberais.

Por Bruno Lupion

O lema "Deus, Pátria e Família", citado por Jair Bolsonaro em inúmeros discursos desde a sua campanha de 2018, ganhou um quarto elemento na disputa eleitoral deste ano. Os atuais materiais de campanha do presidente usam: "Deus, Pátria, Família e Liberdade".

Nesta terça-feira (11/10), em Balneário Camboriú (SC), ele afirmou: "Temos a obrigação de lutar pela liberdade". Seus apoiadores também citam o termo com abundância. O empresário Roberto Justus divulgou um vídeo no qual se define como um "liberal na essência" e declara apoio a Bolsonaro por ele ser o candidato que "luta pela liberdade individual". Para completar, o atual partido do presidente se chama Partido Liberal (PL).

A defesa da liberdade no bolsonarismo também aparece ligada à flexibilização do acesso às armas e como reação a decisões judiciais que puniram apoiadores do presidente por ataques às instituições democráticas e a ministros do Supremo Tribunal Federal.

'Campanha de Bolsonaro incluiu "Liberdade" no mote "Deus, Pátria e Família" que vinha sendo usado pelo presidente'

Tripé liberal desrespeitado

Seria o uso do conceito de liberdade pelo presidente compatível com seus constantes ataques à liberdade de imprensa, à separação entre os Poderes e à liberdade de escolhas individuais, inclusive sexuais e de gênero, que fundamentam o liberalismo?

A associação Livres, que promove os valores do liberalismo no Brasil e reúne em seus quadros os economistas Pérsio Arida e Elena Landau, entre outros, afirma que não.

Mano Ferreira, diretor de comunicação do grupo, diz que o liberalismo, uma ideologia política e econômica que teve seu ápice no século 19, é representado no mundo contemporâneo por três pilares: democracia liberal, economia de mercado e sociedade aberta e tolerante. O que se vê na campanha do presidente, segundo ele, é apenas um desses aspectos, o econômico – e, mesmo assim, de forma deturpada.

Ele diz que o melhor teste para avaliar o compromisso de uma pessoa com o liberalismo não é checar se ela defende a própria liberdade ou a de seu grupo, mas a liberdade do outro. Esse preceito é resumido numa frase do historiador abolicionista Joaquim Nabuco (1849-1910), inspirador do Livres, de que é necessário cultivar o "amor da liberdade alheia". O atual presidente não passa nessa prova, afirma Ferreira.

"No discurso bolsonarista, há a evocação da liberdade para defender o grupo do próprio presidente, mas existe pouco compromisso com a liberdade do outro, de quem discorda. O Bolsonaro traz construções como a ideia de que a minoria deve se curvar à maioria ou desaparecer, um tipo de ideia profundamente antiliberal."

Ficam de fora do discurso do presidente, diz, a liberdade de imprensa, a liberdade sexual e de gênero e o respeito à separação de Poderes e ao sistema de freios e contrapesos da democracia liberal, entre outras.

Ele avalia que o primeiro mandato de Bolsonaro ficou muito distante de um governo liberal, com exceções pontuais como a aprovação da Lei da Liberdade Econômica, que reduziu a burocracia para a abertura de empresas, e do marco legal do saneamento, que ampliou a competição no setor.

No geral, diz, a gestão do presidente violou os valores do liberalismo ao "demonizar a divergência" e na sua agenda de políticas públicas, como no Ministério da Educação, na criação e ampliação de benefícios sociais às vésperas da eleição e nos repetidos ataques ao sistema eleitoral que ferem por consequência a liberdade política da população.

O Livres apoiou neste ano 59 candidatos a cargos eletivos, e elegeu um deputado federal, Alex Manete (Cidadania-SP) e dois deputados estaduais, Emerson Jarude (MDB-AC) e Cibele Moura (MDB-AL). Tem ainda um candidato a governador no segundo turno, Pedro Cunha Lima (PSDB-PB), e uma candidata a vice-governadora, Priscila Krause (Cidadania-PE). A associação não se posiciona sobre a disputa ao segundo turno para presidente.

Brasil tem tradição de conjugar liberalismo e autoritarismo

O liberalismo foi utilizado em muitos países nos séculos 18 e 19 como base teórica de movimentos que derrubaram regimes baseado na nobreza e criaram estados mais enxutos, que garantissem a liberdade privada e a segurança dos cidadãos.

No Brasil, esse processo ocorreu de forma peculiar, como um "liberalismo conservador", diz o sociólogo Fábio Gentile, professor da Universidade Federal do Ceará e autor de um artigo acadêmico que analisa a tensão entre liberalismo e autoritarismo ao longo da história do país.

O próprio processo de Independência, cita, foi dirigido por uma oligarquia, que outorgou a nova Constituição. "Não teve uma burguesia que fez uma revolução de baixo e chegou ao poder, criando o Estado e os direitos."

O liberalismo foi um mote da Independência, mas não estruturou um pacto político liberal, nem era associado à ética burguesa da livre iniciativa. Durante algumas décadas, o Brasil teve autodenominados liberais que defendiam a liberdade de ter trabalhadores escravos.

'Governador reeleito de MG, Romeu Zema, que defende o liberalismo, declarou apoio a Bolsonaro no 2º turno'

Nessa transição do Império para a República, Gentile afirma que muitos intelectuais e políticos brasileiros consideravam o liberalismo uma ideia "fora de lugar" no país, devido ao seu estágio de desenvolvimento econômico e social, e que o Brasil precisaria de uma "fase autoritária" para avançar.

A associação entre liberalismo e autoritarismo não foi exclusiva do Brasil. Gentile menciona que Milton Friedman, um dos expoentes do neoliberalismo – teoria que atualizou os princípios liberais na segunda metade do século 20 – considerava a realização da sociedade de mercado o objetivo principal, e deu seminários e instruiu autoridades da ditadura de Augusto Pinochet no Chile, que durou de 1973 a 1990.

Diversos chilenos que haviam estudado na Universidade de Chicago nos anos 70 e 80 sob a orientação de Friedman trabalharam posteriormente no governo Pinochet, ficando conhecidos como Chicago Boys. O ministro da Economia brasileiro, Paulo Guedes, estudou nessa universidade na mesma época.

Gentile afirma que a ascensão da direita no Brasil na segunda década do século 21 reproduz a "peculiar convivência de princípios liberais e práticas autoritárias" e inclui alianças entre um líder de perfil autoritário e movimentos neoliberais que não concordam com toda a cartilha bolsonarista, mas o "consideram útil" para seus interesses.

Um exemplo é o apoio a Bolsonaro do governador de Minas Gerais, Romeu Zema, do partido Novo, criado em 2015 para defender o liberalismo no Brasil.

Liberdade versus fantasma do comunismo

Há um outro aspecto que ajuda a compreender o que o presidente tem em mente ao se referir à defesa da liberdade, diz Gentile: a época e o tipo de sua formação acadêmica.

O presidente graduou-se pela Academia Militar das Agulhas Negras em 1977, quando a liberdade era um conceito "abusado" no mundo e no Brasil para se contrapor ao modelo comunista durante a Guerra Fria.

A defesa da liberdade foi um dos motes do golpe militar de 1964, expresso no nome da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, uma sequência de manifestações de rua que antecederam a derrubada do governo do então presidente João Goulart.

Bolsonaro é um defensor da ditadura que governou o Brasil até 1985, e elogiou e homenageou líderes e torturadores do regime militar. "Ele incorporou a teoria do golpe de 1964 como um argumento de libertação do país do inimigo comunista, como um movimento libertador do Brasil. Então, para ele, a liberdade é totalmente compatível com uma ditadura que sufoca quem não está de acordo", diz Gentile.

O presidente e sua campanha à reeleição seguem recorrendo ao fantasma do comunismo para aglutinar apoiadores. Em setembro, antes do primeiro turno, ele disse num comício em Sorocaba que Lula era um "capeta que quer impor o comunismo no nosso Brasil". Nesta quarta-feira, a senadora eleita Damares Alves (Republicanos), afirmou em post no Twitter que o Brasil seria a "última barreira de proteção contra o avanço do comunismo na América".

Deutsche Welle

Só com uma tempestade perfeita




Desafio de Lula é segurar votos, o de Bolsonaro é conquistar eleitores

Por Eliane Cantanhêde (foto)

Por mais que a campanha de Jair Bolsonaro seja mais afiada e sem escrúpulos, a matemática está a favor de Luiz Inácio Lula da Silva, que atravessou a campanha à frente e venceu no primeiro turno – não tão bem como previsto e ele gostaria, mas venceu. Pela lógica e pela história das eleições, é mais fácil manter a dianteira do que virar o jogo no segundo turno, especialmente numa eleição tão polarizada e com alto grau, talvez inédito, de convicção do eleitor.

Há temor do lado lulista, torcida no bolsonarista e dúvidas pairando sobre o País, com uma guerra na TV, nas redes sociais, nos grupos de amigos e famílias, mas o fato, nu e cru, sem paixões, é que só uma tempestade perfeita (que pode acontecer, mas é difícil) tiraria a vitória de Lula. Senão, vejamos os desafios dos dois lados até o dia 30, que parece estar a anos-luz, mas está só a 17 dias.

Lula precisa não errar, não cair em armadilhas e ir para os debates, não só bem preparado, mas seguro e estável emocionalmente. Nem sempre isso acontece. A partir daí, precisa lutar para manter ou até ampliar seus votos no Nordeste, perder por pouco em São Paulo e Rio e ganhar em Minas.

Para Bolsonaro, a situação exige muito mais, além de pedir o que ele não pode dar: deixar de ser Bolsonaro. Ele tem de pescar 368 mil votos por dia, mas o mar não está para peixe, nem tem eleitor sobrando tanto assim. Tem de colher ¾ dos eleitores de Simone Tebet e Ciro Gomes. Tem de rezar em igrejas e templos para uma abstenção bem alta. Tem de melhorar no Nordeste. Tem de recuperar votos de 2010 no Sudeste. E tem de virar Minas.

É muito “tem de” e o tempo está correndo, sem grandes mudanças. Fiquemos em Minas, onde Bolsonaro amargou a falta de palanque no primeiro turno e agarra-se ao governador Romeu Zema no segundo. Ok. Zema foi franco favorito desde o início e reelegeu-se com muita folga, mas o voto Lulazema não evaporou.

Além disso, o governador traz voto para si, mas será que transfere? Em 2020, não fez nenhum prefeito. Em 2022, elegeu três deputados estaduais e nenhum federal. Por fim, nunca houve uma virada em Minas do primeiro para o segundo turno. Pode acontecer? Tudo pode, mas seria inédito.

A estratégia de Bolsonaro foi se pendurar em governadores eleitos e reeleitos no primeiro turno, a começar do próprio Zema e de Cláudio Castro, do Rio. A de Lula é surfar nos palanques dos aliados que foram para o segundo turno, numa onda que convém a ele e a eles e justifica os comícios desta semana na Bahia, Sergipe e Alagoas e, hoje, em Pernambuco, onde a virada está sendo contra Marília Arraes e a favor de Raquel Lyra. Depois, é mergulhar no Sudeste, onde a eleição está, efetivamente, sendo decidida.

O Estado de São Paulo

Vilipêndio da fé e da democracia - Editorial




Bolsonaro avança na manipulação eleitoral da fé e desrespeita até o Dia da Padroeira do Brasil. A tática agride a democracia e tira o foco das questões seculares que precisam ser debatidas

Depois de ter transformado o Bicentenário da Independência em comício, o presidente Jair Bolsonaro valeu-se do Dia da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, para explícita manipulação da fé com fins eleitorais. Infelizmente, tornou-se habitual que candidatos usem espaços religiosos para angariar votos, mas o bolsonarismo pôs a manipulação religiosa noutro patamar. 

O que ocorreu na cidade de Aparecida (SP) no dia 12 – quando Bolsonaro transformou o evento religioso em oportunidade para a produção de imagens para sua campanha e seus fanáticos seguidores fizeram baderna em frente à Basílica, mostrando ter maior devoção por seu “mito” do que pela Virgem – afronta não apenas o regime democrático, como a própria natureza específica do fenômeno religioso.

No Brasil, o Estado é laico – isto é, não abraça, defende ou privilegia as religiões. Nenhum político concorre a uma função de natureza religiosa. A religião pessoal do candidato – ou a ausência dela – não tem nenhuma relevância pública. É tema de ordem privada.

Jair Bolsonaro, no entanto, não apenas não entende o princípio da laicidade do poder estatal, como o desrespeita explicitamente. Ao indicar André Mendonça para o Supremo Tribunal Federal (STF), por exemplo, repetiu diversas vezes que sua escolha se baseava na orientação religiosa do indicado. Ou seja, Jair Bolsonaro defendeu que a religião deve orientar a atuação de um juiz – o que é rigorosamente inconstitucional – e ainda tentou obter proveito político-eleitoral dessa confusão – como se os fiéis daquela igreja tivessem uma dívida com Jair Bolsonaro por causa da indicação de um “ministro terrivelmente evangélico”.

Precisamente em razão da laicidade do Estado, a Constituição de 1988 assegura a liberdade religiosa e de culto a todos os cidadãos. Professar ou não uma fé não qualifica ou desqualifica ninguém. Todos – sejam crentes, ateus, agnósticos ou indiferentes ao tema religioso – são iguais perante a lei. É incompatível com a República qualquer tipo de privilégio ou discriminação em função da religião.

No entanto, com o bolsonarismo, a laicidade do Estado é relegada a um segundo plano. Sabendo que a grande maioria dos brasileiros é religiosa, a campanha de Jair Bolsonaro tem dado à fé um caráter de trunfo eleitoral, como se as eleições fossem uma batalha entre questões religiosas, e não uma disputa política que, num Estado laico, nada tem a ver com religião. Em Aparecida, foi preciso que um prelado, o padre Camilo Júnior, recordasse o óbvio: que igreja não é lugar de política. “Hoje não é dia de pedir votos, é dia de pedir bênçãos”, disse o padre na missa.

Na véspera do feriado religioso, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) voltou a lembrar que a manipulação religiosa “desvirtua valores do Evangelho e tira o foco dos reais problemas que precisam ser debatidos e enfrentados no País”. A mesma mensagem tinha sido transmitida pelos bispos católicos em uma nota em setembro, diante da instrumentalização da religião “protagonizada por políticos e religiosos”.

Nesta semana, a entidade católica foi firme em reprovar o uso de “momentos especificamente religiosos” por candidatos “para apresentarem suas propostas de campanha e demais assuntos relacionados às eleições”. A mensagem não podia ser mais cristalina: “Ratificamos que a CNBB condena, veementemente, o uso da religião por todo e qualquer candidato como ferramenta de sua campanha eleitoral”.

O alerta da entidade serve a todos os candidatos, sem exceção. Mas é preciso reconhecer que, com Jair Bolsonaro, o tema ganhou outra gravidade. O bolsonarismo tem afirmado que a liberdade religiosa corre risco nessas eleições. Logicamente, sendo a fé um aspecto vital para muitos brasileiros, tal afirmação desperta imediata preocupação. Na quarta-feira, Jair Bolsonaro voltou a fazer insinuações nesse sentido. “Em alguns momentos, passamos um tempo atrás, o fechamento de igrejas e templos evangélicos. Isso não é admissível”, disse.

Como se fosse candidato a sumo sacerdote fundamentalista, e não a presidente, Bolsonaro quer transformar a eleição em guerra santa – que desvia a atenção das questões seculares que o presidente é incapaz de debater.

O Estado de São Paulo

A tale of two cities




Não se estranhe que a Polônia e a Hungria, nações antigas como a nossa mas com uma estatalidade instável devido à vizinhança de grandes impérios, resistam ao “suave jugo” do imperialismo de Bruxelas.

Por Jaime Nogueira Pinto (foto)

Com um mês de diferença, entre Julho e Setembro, estive em Budapeste e em Varsóvia. Embora não seja um fanático das errâncias – até porque viajei e viajo muito, mais por dever e trabalho que por prazer e turismo –, continuo a achar que respirar os ares das terras nos ajuda a entendê-las melhor.

Assim, faço o trabalho de casa – recapitulo a imaginação, a crónica e a história; e depois gosto de me entregar e de me deixar agarrar pelo espírito dos lugares.

A batalha e destruição de Varsóvia

De Varsóvia sabia da história trágica da nação polaca e da cidade mártir – um pouco a sorte de muitos destes povos e cidades da MittellEuropa, no limes dos Impérios históricos, civilizados ou bárbaros. A Polónia – como a Hungria – teve a sorte, ou a má sorte, de estar na encruzilhada da Prússia-Alemanha, da Rússia dos czares e dos bolcheviques e da Áustria dos Habsburgo de Viena. E entre ocupações e partilhas múltiplas, pagou o preço por ter sido a última fronteira cristã, católica, face a luteranos, ortodoxos, pagãos e materialistas históricos.

Da última dessas partilhas passaram há pouco 83 anos. Nos finais de Agosto de 1939, em Moscovo, Ribbentrop e Molotov assinaram o pacto da divisão da Polónia. Dias depois, a 1 de Setembro, as tropas de Hitler avançaram, testando na longa planície polaca a Blitzkrieg. Os soviéticos invadiram pelo Oriente e, em quatro semanas, a Polónia voltava a perder a independência.

Seguiu-se um longo calvário. Varsóvia teria, nesse tempo, um milhão e duzentos mil habitantes, dos quais cerca de um terço eram judeus. Os ocupantes alemães desenharam então um gueto preventivo, isolando os judeus numa área da cidade e retirando daí os polacos não judeus. Em 1942, começaram a deportar os judeus do gueto para campos de trabalho e extermínio, como Treblinka. Na Primavera de 1943, quando Himmler determinou a sua remoção total, os judeus residentes no gueto não passariam de cinquenta mil; Himmler enfrentou alguma resistência armada, que esmagou, e os sobreviventes seguiram a fatídica estrada dos campos de trabalho e extermínio.

No Verão de 1944, foi a vez dos polacos arianos se revoltarem: a sorte da guerra dera a volta e as tropas de Hitler estavam em retirada para Ocidente. A resistência polaca, organizada militarmente no Exército Nacional Polaco – Armia Krajowa –, esperava que a ofensiva soviética, empurrando os alemães para Ocidente, fosse debilitando os ocupantes, e preparava um levantamento em várias cidades polacas: a Operação Tempestade.

Esta operação levava em conta a preocupação do Governo polaco no exílio, em Londres, de que os soviéticos se quisessem substituir aos alemães, eliminando qualquer veleidade de independência polaca. De resto, Estaline já obtivera, em Teerão, em Novembro de 1943, largas concessões territoriais de Churchill e Roosevelt.

Com isso, o “Czar Vermelho” pretendia alargar o domínio soviético para Ocidente, aproveitando a circunstancial cumplicidade interessada dos seus aliados capitalistas. Queria também garantir o aniquilamento de qualquer força militar nacional que, sob a orientação do Governo polaco no exílio, corporizasse a resistência à ocupação soviética, que iria usar como instrumento os comunistas polacos.

Foi o que veio a acontecer. Já no avanço para Ocidente, os soviéticos iam mostrar discretamente a verdadeira natureza dos pactos com os comunistas: quando uma força do Exército Nacional Polaco, comandada pelo general Krzyzanowski, tomou e libertou Wilno, os destacamentos da Secreta soviética armaram uma cilada aos polacos, prendendo o General e os oficiais, matando centenas de soldados e deportando uns milhares para Kaluga. O mesmo aconteceu em Lvov.

Varsóvia revoltou-se em 1 de Agosto de 1944, já com os soviéticos às portas da cidade. Ali estavam e ali ficaram, sem se mexerem, sem dispararem um obus, parando o avanço e permitindo que os alemães esmagassem a resistência.

Era um plano maquiavélico, com a lógica e a estratégia de Estaline bem claras: os alemães destruiriam a resistência armada polaca e assim, quando os fantoches do Comité Polaco de Libertação Nacional, o Comité de Lublin, formado por comunistas e esquerdistas, avançassem com as tropas russas, ninguém lhes oporia resistência.

Ao fim de dois meses, cerca de vinte mil combatentes polacos e talvez uns cento e cinquenta mil civis tinham morrido. Churchill e Roosevelt ainda insistiram com Estaline para que avançasse para libertar os polacos, mas depois desistiram. Como represália, além da cidade arrasada durante os combates, houve uma destruição sistemática de Varsóvia ordenada por Hitler.

O cerco de Budapeste

Varsóvia foi reduzida a escombros no Outono-Inverno de 1944-1945, com os patriotas polacos abandonados pelos aliados da coligação anti-Eixo. A Primeira Brigada Paraquedista Polaca, comandada pelo major general Stanislav Sosabowski, cujos elementos queriam voar e saltar em apoio dos compatriotas, foi impedida de intervir. (Seriam depois em parte sacrificados na malograda operação de Setembro de 1944, Market Garden, com Sosabowski – que no filme A Bridge too Far é encarnado por Gene Hackman – a avisar Montgomery, desde o princípio, contra a estupidez do ataque sobre Arnhem.)

Estava Varsóvia a acabar de ser arrasada e estavam os soviéticos – e os seus recém-aliados romenos – a aproximar-se de Budapeste. A Hungria tornara-se independente com o fim do império dos Habsburgo e sofrera uma das primeiras experiências de ditadura comunista com Béla Kun, entre Março e Outubro de 1919. Vencidos os comunistas, o almirante Miklos Horthy governou como Regente do reino da Hungria que, nos anos 30, procurou reaver parte das regiões que o país tinha perdido a seguir à Grande Guerra no tratado de Trianon — nada mais, nada menos que 66% do seu território.

O governo nacional-conservador e autoritário de Horthy manteve um parlamento e uma oposição. Havia também na Hungria uma corrente radical, fascistizante e anti-semita.

O facto de ter sido um Estado maltratado pela guerra e pela paz aproximava a Hungria dos poderes do Eixo, como a Alemanha, onde Hitler fora eleito graças ao ressentimento popular contra Versalhes. Com esta aproximação e alguma recuperação territorial à custa da Checoslováquia, da Roménia e, depois, da Jugoslávia, veio a aliança com Berlim, e tropas húngaras participaram na invasão da URSS, em Junho de 1941. Mas apesar da introdução de alguma legislação anti-semita, Horthy resistiu às medidas raciais mais radicais. Quando os soviéticos avançaram para Ocidente e perante a percepção de que a Alemanha ia perder a guerra, o Almirante quis negociar um cessar-fogo com os invasores russos. Os alemães anteciparam-se e puseram no poder Ferenc Szálasi, líder do partido nazi Cruzes de Flecha. Horny exilou-se e veio a morar em Portugal em 1957.

É neste quadro político que se dá o cerco e a destruição parcial de Budapeste, entre os últimos dias de 1944 e 13 de Fevereiro de 1945.

Os invasores, comandados pelo marechal Malinovsky, eram muitas centenas de milhares e no dia 26 de Dezembro fecharam o cerco à cidade, defendida por uma força germano-húngara de setenta mil homens. E havia oitocentos mil civis na cidade.

O cerco prolongou-se pelas primeiras semanas de Janeiro com os alemães – forças de Exército e das Waffen SS – e os seus aliados húngaros a recusaram qualquer rendição. Estaline reforçou os meios de ataque, os defensores abandonaram Pest e destruíram as pontes sobre o Danúbio. Em Buda, aproveitando as colinas, aguentaram mais algum tempo, com uma força das SS na cidadela de Gellért Hill, que finalmente caiu a 11 de Fevereiro. Nessa mesma noite, cerca de trinta mil soldados alemães e húngaros tentaram, a partir da colina do Castelo, romper o cerco e escapar da cidade. Milhares de civis tentaram a sorte com eles. A maioria foi morta pelos soviéticos. As unidades do Exército e das SS – a Florian Geyer e a 22ª Divisão de voluntários Maria Teresa –, bem como a maior parte dos combatentes húngaros, foram dizimados. Os civis mortos nos combates e de fome foram quarenta mil, e os soviéticos levaram cerca de seiscentos mil húngaros para os campos de trabalho na URSS. Duzentos mil terão morrido por lá.

Também em Budapeste houve cenas de violação sistemática de mulheres e raparigas, que depois se repetirão por toda a Alemanha tomada pelos soviéticos.

No cerco de Budapeste, o número de soldados comunistas mortos ficou entre os cem e os cento e sessenta mil.

Budapeste e Varsóvia foram reconstruídas e são hoje duas belas cidades europeias, capitais de duas nações orgulhosas e independentes, mas que continuam com a guerra à porta. Ontem era a vizinhança da Alemanha e da URSS, hoje é vizinhança da Rússia de Putin.

Em Roma, num debate entre nacionalistas de todas as nações da Europa, discutimos as experiências das nossas pátrias, das nossas nações.

A consideração da história das nações polaca e húngara – uma história de violência, opressão e ocupação pelos impérios da região, ora Moscovo, ora Berlim, ora mesmo Viena –, nações tão antigas como a nossa, mas com uma estatalidade difícil e trágica, devem ajudar-nos a perceber porque é que a Polónia e a Hungria resistem ao “suave jugo” do imperialismo de Bruxelas. É que já passaram por outros.

Observador (PT)

O desafio de um país dividido




A grandeza da tarefa que temos pela frente às vezes desanima. Mas é o país que temos e simplesmente não podemos desistir dele, sobretudo agora.

Por Fernando Gabeira (foto)

É compreensível que o Brasil esteja mergulhado no debate sobre o segundo turno das eleições. Afinal, o futuro está em jogo. Mas chega a ser desanimador ver o debate nas redes sociais sobre satanismo, canibalismo e outras aberrações, quando sabemos o que nos espera na virada do ano.

No início de 2023, o novo presidente, possivelmente com a oposição de quase metade do País, terá de tratar não apenas da crise econômica, das bombas fiscais montadas por Bolsonaro, mas também de uma conjuntura internacional adversa.

É possível dizer que agora é um momento de paixão e que as reflexões pertencem ao futuro. Mas o período eleitoral é uma excelente oportunidade para definir rumos, trocar ideias, não só porque há nuvens sombrias no horizonte mundial, mas também porque o Brasil está atrasado em inúmeros campos essenciais para sua sobrevivência.

A questão mais ampla diz respeito às mudanças climáticas. Com o potencial de nossos recursos naturais, é necessário não só assumir compromissos, como delinear uma política de redução de emissões, reorientar a economia, atrair investimentos, enfim, correr atrás do tempo perdido.

Da mesma forma, o chamado bônus populacional, que é a grande presença de jovens, pode ser perdido se não houver uma política adequada para integrar a juventude no mercado de trabalho, se não forem abertas novas perspectivas.

Também no campo do digital estamos atrasados. Num livro recentemente lançado no Brasil, Jaideep Prabhu mostra como a Índia conseguiu tornar eficaz seu sistema de ajuda social, por meio da criação de um gigantesco programa de identificação digital. Eram milhões de dólares que desapareciam no ralo de uma distribuição incompetente, algo que ocorre hoje por aqui. Isso é apenas um aspecto do problema. O mais importante talvez seja o de superar a distância na possibilidades de acesso entre crianças pobres e ricas.

Não se sabe ao certo o que pode acontecer no mundo. Mas a guerra na Ucrânia deve prosseguir, a crise energética europeia deve atingir seu ápice no inverno e as ameaças, que pareciam sepultadas, de conflito nuclear voltam a assombrar.

Num quadro tão sombrio, como traçar o caminho de um país que sai das urnas dividido? O primeiro impulso é confiar na sensibilidade política do eleito. É uma aposta, mas não se pode jogar nela todas as fichas.

Talvez seja impossível alterar o processo de insultos e fake news na internet. Mas, certamente, há algo a fazer na cena política mais ampla, que compreende não só profissionais, mas todos os que participam do debate, inclusive os meios de comunicação. Talvez tenhamos ido longe demais no processo de desgaste do debate democrático. Ele precisa ser revivido, novas ideias, para além da polarização, têm de circular e um clima de renascimento precisa se instalar para que o País avance.

Tudo isso parece romântico e fora da realidade. Não só a internet favorece confrontos ou depende de indignações. É uma realidade também da imprensa: um dos seus motores é o conflito, uma espécie de antídoto permanente contra o tédio da vida cotidiana. Mas, se conseguirmos convencer a maioria de que estamos diante de grandes dilemas e que se não tomarmos as decisões acertadas perderemos o bonde da História, no sentido de que o País será sempre de segunda categoria, quem sabe algo pode sair desse esforço?

Um importante exercício num país dividido é levantar minuciosamente os temas que podem nos unir. O que é possível fazer para que o interesse nacional prevaleça, em que campos os adversários podem se encontrar, ainda que momentaneamente? Nos EUA, já houve vários momentos em que republicanos acharam um ponto de contato. Ninguém saiu perdendo e ninguém passou a duvidar de seus princípios políticos. Simplesmente, há ocasiões em que todos ganham, porque o país também ganha.

Uma das possibilidades com a passagem do período eleitoral é o processo de reavaliação que todas as forças políticas envolvidas nele costumam fazer.

A oposição entre PSDB e PT não era um modelo ideal, mas nos colocava mais perto de acordos pontuais. Tão cedo não voltaremos a esse tipo de relação política menos turbulenta. No entanto, um esforço social inédito para recuperar o País pode não só esfriar o clima, mas canalizar um pouco dessa energia negativa para algo que precisamos desesperadamente em 2023.

Ainda viveremos quase três semanas num clima intenso de eleições, no qual os candidatos tentam aumentar o nível de rejeição do outro e narradores contam histórias escabrosas para assustar os incautos. Em breve, acordaremos com a eleição resolvida e uma gigantesca tarefa pela frente. Não escrevo ainda para mobilizar, mas apenas para que não se assustem ao amanhecer do novo ano.

Entre as eleições e a posse, certamente será preciso debater não só propostas de governo, que rarearam até agora, mas principalmente que interferência poderemos ter num ânimo de reconciliação e diálogo.

Um dos espaços que podem ser influenciados é o Congresso, apesar de sua composição. Sempre foi majoritariamente de direita, ficou mais radical agora, mas ainda assim tem algumas janelas para o País.

A grandeza da tarefa às vezes desanima. Mas é o país que temos e simplesmente não podemos desistir dele, sobretudo agora.

O Estado de São Paulo

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