domingo, setembro 11, 2022

"Imprensa errou ao dar muito espaço a Bolsonaro no 7/9"




Paula Cesarino Costa, ombudsman convidada da Lupa para o acompanhamento da cobertura das eleições em 2022

Para a ombudsman Paula Cesarino Costa, mídia caiu no jogo do presidente na cobertura do bicentenário. Em entrevista, ela diz que é preciso investir em investigações independentes para contornar estratégia bolsonarista.

Por Rayanne Azevedo

Em plena campanha eleitoral, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu  no bicentenário do 7 de Setembro mais uma vez galvanizar a atenção da imprensa e dominar o noticiário do dia, que dedicou ampla cobertura às mobilizações convocadas pelo candidato à reeleição e repercutiu com destaque suas bravatas e declarações de cunho sexista.

A exposição deu ao mandatário uma vantagem tática sobre seus oponentes – algo que, na avaliação da ombudsman Paula Cesarino Costa, provocou "um desequilíbrio noticioso” e pode, mais na frente, render votos.

Do ponto de vista jornalístico, argumenta a especialista, "não fazia sentido ignorar um evento que levou milhares às ruas". Mas a imprensa errou ao dar espaço demais ao show bolsonarista e de menos à relevância, contexto e reflexosda Independência do Brasil.

"A mídia tem de deixar de ser majoritariamente relatorial e declaratória para concentrar seus recursos humanos e financeiros na investigação crítica independente", afirma Costa, que atualmente é membro do Conselho Editorial da Agência Pública e ombudsman convidada da agência de checagem Lupa para o acompanhamento da cobertura das eleições.

Em entrevista à DW Brasil, a jornalista com 30 anos de carreira na Folha de S.Paulo, onde foi ombudsman de 2016 a 2019, cita coberturas recentes sobre temas como os bens do presidente e de seus familiares e o orçamento secreto como exemplos de decisões editoriais corajosas que priorizam a investigação independente em detrimento do jornalismo declaratório e fala sobre os desafios da imprensa diante das táticas diversionistas de Bolsonaro.

DW Brasil: Até que ponto Bolsonaro se beneficia de uma estratégia de marketing baseada no "falem bem, falem mal, mas falem de mim", e até que ponto a imprensa se permite ser usada nesse jogo?

Paula Cesarino Costa: Politicamente, Bolsonaro impôs sua agenda e enfoque no 7 de Setembro. Eleitoralmente, Bolsonaro conseguiu espaço muito maior no noticiário do que seus oponentes, a menos de um mês do pleito, provocando um desequilíbrio noticioso que pode ter reflexos em pesquisas e, consequentemente, em resultados eleitorais.

Jornalisticamente, não fazia sentido ignorar um evento que levou milhares às ruas. Mas a mídia brasileira repercutiu mais as declarações e eventos marqueteiros de Bolsonaro do que discutiu a relevância, o contexto e os reflexos de 1822.  Deu espaço demais para a divulgação do seu discurso conservador, machista, preconceituoso e mentiroso, que era o que Bolsonaro queria.

Por outro lado, avalio que grande parte da imprensa soube apontar o caráter antidemocrático e o uso eleitoral da data.

Até que ponto o bolsonarismo é eficiente em distrair a opinião pública, e até que ponto a imprensa embarca nesse jogo e deixa-se distrair pelo presidente?

A estratégia bolsonarista é chacriniana: confundir para não explicar. Não à toa, fazer chacrinha tornou-se uma expressão dicionarizada para definir agitação desordenada e barulhenta em ambiente que exige formalidade e respeito. A mídia brasileira cai muitas vezes no conto do presidente – alguns por passividade desinteressada, mas muitos por interesses ideológicos, políticos e financeiros explícitos ou ocultos.

É evidente que Bolsonaro usa a cartilha de Steve Bannon, guru do [ex-presidente dos EUA Donald] Trump, ao eleger a mídia como inimiga. "Não se trata de persuadir, e sim de desorientar". Mas a imprensa já percebeu isso.

O que mudou então?

Durante a campanha eleitoral, a mídia cometeu muitos erros e demorou a perceber a estratégia de Bolsonaro e o que estava acontecendo no país. Durante o governo, também falhou e se perdeu em muitos momentos. Aos poucos, busca se reinventar, vem criando instrumentos e estratégias.

Já não se publica tudo o que o presidente fala ou faz, sua live semanal é praticamente ignorada. Tem se noticiado de modo crítico, contextualizado e com contraditório muitas de suas falas ou decisões.

Há quem diga que o Bolsonaro só chegou à Presidência e mantém esse apelo popular porque declarações e atos chocantes dele eram e continuam a ser repercutidos pela imprensa. Concorda?

Difícil afirmar isso de modo tão categórico. É fato que a imprensa não levava Bolsonaro a sério na época de pré-campanha. Assim como aconteceu com Trump, nos Estados Unidos, as declarações e comportamentos absurdos e marqueteiros de Bolsonaro acabaram por ter mais espaço do que deveriam. Ou seja, muitos eleitores passaram a prestar mais atenção nele por causa do destaque dado pelos jornais.

Havia uma parcela da população brasileira, super conservadora, que não tinha voz e era ignorada pela mídia e mesmo por parte da elite do país. Demorou-se a perceber que Bolsonaro estava conquistando esses eleitores, sendo considerado por eles como uma opção real de poder.

A imprensa tem sua parcela de responsabilidade? Com certeza. Entretanto é preciso considerar muitos outros elementos decisivos na eleição de 2018, como o forte antipetismo da sociedade e de muitos órgãos de comunicação.

Redações, não raro, se veem diante de um dilema ético: cobrir ou não cobrir todas as atividades do presidente? Como responder a essa questão?

A régua tem de estar na importância do tema em termos de governança, política pública e bem-estar social. Manobras diversionistas e declarações populistas não se encaixam nisso. Deveriam ser tratadas pelo que são: factoides, sementes de notícias falsas, viés político equivocado.

As notícias precisam mais do que nunca serem relatadas de forma crítica e com contexto.

Como a imprensa pode evitar ser usada pelo Bolsonaro?

A mídia tem de deixar de ser majoritariamente relatorial e declaratória para concentrar seus recursos humanos e financeiros na investigação crítica independente. Gastar mais dinheiro e tempo dos jornalistas para explicar a devastação amazônica do que falar da impotência de senhores de idade avançada em relacionamentos tóxicos.

Como mostraram reportagens recentes sobre os bens do presidente e de seus familiares ou sobre a existência e as engrenagens do orçamento secreto, o papel da mídia de qualidade deveria ser investigar de forma independente e crítica. Para tal, precisa saber hierarquizar prioridades, dosar os próprios reforços. É uma decisão de gestão de redação que precisa ser corajosa, ousada, não se submeter à camisa de força da audiência ou de torcidas organizadas.

As agências de checagem cada vez mais numerosas, fortes e ágeis são elementos decisivos para este objetivo. É urgente que se tenha a coragem de não publicar fatos e declarações que não sejam relevantes. Não é fácil. O risco de fazer opções erradas aumenta.

A mídia não pode se tornar um partido político, como gostariam os seguidores de Bannon. Mas as atitudes e postura não podem ser as mesmas de décadas atrás. As redes sociais transformaram o fazer político, o comportamento da sociedade e as formas de comunicação.


Deutsche Welle

Leilão pelo voto dos pobres - Editorial




Como se dinheiro público brotasse em árvores, Bolsonaro e Lula dão lances para ver quem compra o voto dos beneficiários do Auxílio Brasil, um programa que já é claramente eleitoreiro

Em uma das edições do programa eleitoral veiculada nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro se comprometeu a viabilizar um pagamento adicional de R$ 200 aos beneficiários do Auxílio Brasil que arrumarem emprego. “Os mais de 20 milhões de brasileiros que recebem Auxílio Brasil de no mínimo R$ 600 agora receberão mais R$ 200 se começarem a trabalhar. Vai ser R$ 800 mais o salário do trabalho”, diz o locutor. A promessa é, evidentemente, inviável, mas nem por isso deve ser ignorada. Ela expõe uma tentativa de compra do voto da parcela mais vulnerável da população, revela uma visão absolutamente distorcida sobre a realidade vivenciada por essas pessoas e demonstra o quanto o governo subestima a inteligência da maioria da sociedade.

A proposta de Orçamento enviada pelo governo ao Congresso é pública. Nela, o Executivo admitiu oficialmente não haver recursos suficientes para manter o piso do Auxílio Brasil em R$ 600 no ano que vem e, por isso, fixou um valor médio de R$ 405,21. Não havendo verba disponível para R$ 600, tampouco haverá para R$ 800. Logo, é possível inferir que, quando Bolsonaro faz essa promessa, sua única intenção é superar o compromisso de seu principal adversário, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Líder nas pesquisas de intenção de voto, sobretudo entre os eleitores de menor renda, Lula anunciou a intenção de incrementar o benefício social com o pagamento de um bônus de R$ 150 por criança de até seis anos de idade, um dos pilares do antigo Bolsa Família.

É sob essa lógica, semelhante à de um leilão a viva voz, que tem se pautado a atuação social do governo nos últimos anos. Ela foi inaugurada nas discussões do Auxílio Emergencial, no início da pandemia de covid-19. À época, o ministro da Economia, Paulo Guedes, propôs um pagamento de R$ 200, mas a Câmara dos Deputados considerou o valor insuficiente e o elevou a R$ 500. Foi somente depois disso que o governo contrapôs o valor de R$ 600 – não por uma genuína preocupação com os mais carentes, mas para impedir o Legislativo de ficar com os méritos do programa.

Superar um adversário político deveria passar longe dos objetivos de qualquer política pública consistente e orientada pelo combate à pobreza. Mas para um presidente beligerante e que se sustenta na base do conflito, essa talvez seja a única razão a justificar a generosa oferta bolsonarista. A contraposição fica ainda mais clara em outro trecho do programa eleitoral de Bolsonaro veiculado nesta semana. Nele, o locutor afirma que o bônus é um incentivo ao trabalho e faz críticas à política do petista, o Bolsa Família, que, segundo o programa, suspendia os pagamentos quando os beneficiários encontravam emprego. Ora, num programa social com foco, em um país com enormes desigualdades sociais e um orçamento apertado, a prioridade sempre deve ser atender os que mais precisam; manter a assistência a um beneficiário que tem condições de obter renda de outra forma é contraproducente e ineficaz.

Pagar um bônus para o beneficiário que encontrar trabalho, ademais, atesta uma leitura profundamente enviesada e determinista da realidade socioeconômica brasileira, segundo a qual o desemprego – e a pobreza, em última instância – é fruto de escolhas individuais, e não consequência de uma educação de péssima qualidade, da falta de políticas públicas para promover a qualificação profissional e da omissão do Estado em ofertar vagas em creches e em escolas de ensino integral. Quando um programa social tem entre as mulheres a maioria de chefes de família, esperar que elas tenham condições de assumir postos de trabalho formais sem proporcionar uma rede de apoio para suas crianças beira a ingenuidade. Ao contrário do que pensa Bolsonaro, a porta de saída para uma situação de miséria, muitas vezes, não está na empregabilidade dos adultos, mas na educação de seus filhos e no acesso às oportunidades que foram negadas às suas mães. As mulheres de baixa renda sabem disso e, pelo que dizem as pesquisas, não parecem dispostas a vender seu voto por migalhas.

O Estado de São Paulo

‘Que diabos quer dizer imbrochável?’




Coração de Dom Pedro I acabou destronado por um pinto presidencial, num evento nada republicano

Por Eduardo Affonso (foto)

Coitado do coração de Pedro I. Penou pelo amor da marquesa de Santos, bateu forte por dançarinas, atrizes, escravas, damas da corte, uma freira e sabe-se lá quantas outras mulheres. Deve ter disparado nos muitos retornos furtivos ao Palácio de São Cristóvão, onde o esperavam — cada uma a seu turno, mais ou menos resignadas — as imperatrizes Leopoldina e Amélia.

Há de ter se angustiado, o pobre coração, ao deixar para trás — e para nunca mais — quatro filhos pequenos e embarcar de volta a Portugal, a fim de garantir o trono da filha Maria da Glória. E de ter sofrido com a deslealdade do irmão Miguel, com a indiferença da mãe, Carlota Joaquina.

Durou pouco, esse coração: menos de 36 anos. Nem por isso lhe faltaram emoções: acelerou aos 9, fugindo, de madrugada, das tropas de Napoleão. Aos 23, é provável que tenha descompassado, às margens plácidas de um riacho de águas vermelhas, enquanto proclamava a Independência do Brasil. Parou definitivamente às 14h40 de um 24 de setembro de 1834, no mesmo quarto em que batera pela primeira vez fora do ventre materno.

O restante do corpo foi sepultado em Lisboa e, no sesquicentenário do 7 de Setembro, trasladado para São Paulo. Mas, por vontade expressa daquele em cujo peito pulsara tão intensamente, o coração ficou na cidade do Porto.

Lá, cansado de guerra, se desfazia aos poucos numa taça de formol. Até ser requisitado para o que deveria ser a celebração do ducentésimo aniversário do dia em que o jovem príncipe, montado numa mula e coberto de lama, cortou os laços que prendiam sua nova pátria à pátria antiga.

Viajou em vão, o nobre coração. Cruzou o mar-oceano (aquele cujo sal são lágrimas de Portugal) para ser figurante num comício eleitoral. O coração que foi do imperador Pedro I do Brasil e do rei Pedro IV de Portugal acabou destronado por um pinto presidencial, num evento nada republicano.

Como pode um coração em frangalhos, já esquecido do ofício de bombear sangue, competir com corpos cavernosos perenemente irrigados, em ereção priápica?

—Que país é este? — pode ter se perguntado ao ver a multidão de verde e amarelo pedir intervenção das Forças Armadas, destituição de ministros do Supremo Tribunal, rejeição de uma eventual derrota nas eleições.

— Que diabos quer dizer “imbrochável”? — terá se questionado o coração daquele que escrevia cartas eróticas ilustradas com falos e ejaculações e assinava “Demonão”, mas nunca precisou se gabar da própria virilidade em solenidades oficiais.

Sem entender por que o tiraram da Irmandade da Lapa, onde estava posto em sossego, para fazer figuração macabra numa disputa por votos, o coração terá reconhecido os acordes da melodia que escreveu em 1822 e virou o Hino da Independência. Ali se fala em “grito varonil”, “alma intrépida e viril”, expressões condizentes com o machismo estrutural de então. Mas nada que evocasse o esconjuro perpétuo da disfunção erétil, ilusão inalcançável numa época em que ainda não existiam o citrato de sildenafila e a prótese peniana.

— Que diferença 200 anos fazem no corpo e na alma de uma nação — há de ter pensado lá com seus átrios e ventrículos o desacorçoado coração.

O Globo

Mensagens chilenas




A chance desperdiçada de constitucionalizar direitos sociais é lição para a esquerda do Brasil

Por Demétrio Magnoli (foto)

Gabriel Boric, o jovem presidente chileno, sabe o significado da palavra democracia. Diante da derrota avassaladora da proposta de nova Constituição, falou em "autocrítica", pedindo "mais diálogo" para formular uma Constituição "que nos interprete a todos".

A Constituinte eleita na esteira das mobilizações populares tinha maioria da nova esquerda pós-moderna, que escolheu o caminho de produzir uma Constituição igual a si mesma. O texto foi rejeitado por 62% dos eleitores. Nem o apoio condicional da centro-esquerda (PS) e de parte do centro (DC) evitou o fracasso humilhante.

Constituições democráticas são contratos de princípios, que estabelecem as regras do jogo. Os constituintes chilenos escreveram uma Constituição programática, que pretendia determinar os resultados do jogo. O texto repelido fazia do programa de uma facção a lei do país. Por essa via, tentava congelar a política: os programas das outras facções se tornariam inconstitucionais.

"Pinochet renasceu", disse Gustavo Petro, presidente colombiano de esquerda, diante da decisão plebiscitária dos chilenos. Ele parece incapaz de aprender o que Boric entendeu. A primeira mensagem chilena é anti-autoritária: uma maioria circunstancial não deve se confundir com a nação inteira. Os outros —os que pensam diferente de mim— não são "inimigos do povo".

As manifestações que geraram a Constituinte pediam direitos universais (saúde, educação) e uma rede adequada de proteção social. Os constituintes responderam vendendo a quimera de instaurar uma Suécia em esteroides anabolizantes na América Latina. Mas, sobretudo, redigiram a primeira Constituição ancorada em políticas identitárias no mundo democrático: os povos originais e as mulheres foram alçados à condição de protagonistas exclusivos da vida pública.

No salão da Constituinte tremulavam as bandeiras de todos os povos indígenas, mas não a nacional. O texto final declara o Chile um "Estado plurinacional", proclamando o "autogoverno" dos povos indígenas e seu direito a "instituições jurisdicionais tradicionais". Só parece democracia: os indígenas chilenos ficariam submetidos a leis e tribunais criados por autoridades tradicionais. A nação única, disseram os eleitores, não precisa implicar opressão. Pelo contrário: é a garantia de direitos iguais de cidadania.

A pauta de gênero atravessa, obsessivamente, a Constituição derrotada. Mas, para surpresa dos constituintes, uma aplastante maioria de mulheres votou contra o texto ideológico.

De um lado, qualquer decisão judicial deveria subordinar-se a um subjetivo "enfoque de gênero", numa óbvia ruptura com o princípio da igualdade perante a lei. Todos os atos administrativos também deveriam conformar-se ao tal "enfoque de gênero", o que propiciaria a contestação perene das iniciativas cotidianas das autoridades eleitas.

De outro, uma regra de "paridade de gênero" teria que ser seguida na composição de todos os órgãos representativos, violando o direito popular de livre escolha dos representantes políticos. (Aqui no Brasil, os cavaleiros identitários nutrem o projeto de implantar tanto a "paridade de gênero", quanto cotas raciais nos órgãos eletivos).

Levada às suas consequências extremas, a política identitária é um assalto contra a democracia representativa e a igualdade jurídica dos cidadãos. A segunda mensagem chilena é anti-ideológica: a lei não pode ser entregue numa bandeja de prata a organizações de ativistas que se exibem como porta-vozes de identidades oprimidas.

No Chile, a esquerda desperdiçou a oportunidade histórica de constitucionalizar direitos sociais e econômicos, concluindo o ciclo aberto pelos protestos de massas. No lugar disso, ofereceu à direita a chance de enrolar-se nas bandeiras da unidade nacional e dos direitos de cidadania. É uma lição útil para a esquerda brasileira.

Folha de São Paulo

Teorias conspiratórias criam falsos mitos, mas viralizam nas redes sociais.




Elas são a inspiração inicial do novo livro de Richard Evans, 'Conspirações Sobre Hitler: o Terceiro Reich e a Imaginação Paranoica'. 

Por Elias Thomé Saliba (foto)

Quando uma discussão online viraliza, há uma probabilidade de quase 100% de ela terminar, quando se faz uma referência a Hitler. Este é um resumo da Lei de Godwin, que, desde de 1990, ganhou o seu verbete no Oxford Dictionary. Enunciada pela primeira vez pelo jurista e escritor americano Mike Godwin, ela virou um sintoma das quase infinitas teorias das conspirações, as quais, com o advento do universo digital, ganharam novo e surpreendente fôlego. Também é a inspiração inicial do novo livro de Richard Evans, Conspirações Sobre Hitler: o Terceiro Reich e a Imaginação Paranoica.

Especialista altamente credenciado da história do nazismo, lembre-se de que Evans atuou como perito no contencioso judicial do negacionista David Irving contra a historiadora Debora Liptstad, em 2000, e, seis anos depois, acabou virando personagem no conhecido filme Negação. Evans examina cinco casos, ainda tristemente famosos, de narrativas conspiratórias, colocadas no tom e estilo rasteiros da paranoia: os Protocolos dos Sábios de Sião foram uma autorização oficial para o genocídio? O exército alemão foi “apunhalado pelas costas” por socialistas e judeus em 1918? Os nazistas queimaram o Reichstag para tomar o poder? A fuga de Rudolph Hess para o Reino Unido, em 1941, foi autorizada por Hitler para propor a paz e foi omitida por Churchill? Hitler escapou do bunker em 1945, sobreviveu e fugiu para a América Latina?

Sem receio de enfrentar a complexidade, Evans tem a paciência de examinar cada um desses casos, em capítulos magistrais e meticulosamente documentados. Perda de tempo? Basta fazer uma busca na internet para verificar que nem a Lei de Godwin funciona mais – e muitas das fake news consistem basicamente em teorias da conspiração construídas a partir de fantasias e puras invencionices. O paradoxo da literatura paranoica é que ela é obsessiva por amealhar evidências para provar que o inacreditável é a única coisa em que se pode acreditar.

O caso dos Protocolos (a mais notória de todas as fraudes antissemitas) já foi amplamente estudado e Evans o define como o paradigma da conspiração sistêmica: uma única organização realiza uma ampla variedade de atividades veladas com o objetivo de assumir o controle de uma região, de um país ou mesmo do mundo inteiro. À margem de qualquer discurso racional, os Protocolos são ainda autovedantes: às críticas de que são plagiados e fraudulentos, conspiradores esgrimem a resposta pronta: são os próprios críticos (como judeus ou instrumentos a serviço dos judeus) que fazem parte da conspiração. Evans ainda comprova que o próprio antissemitismo é, em si mesmo, uma teoria da conspiração, mas vai além: o livrinho fraudulento nem fazia parte da biblioteca de 16 mil volumes de Hitler, que, com certeza, sequer tinha folheado quaisquer daqueles livros. O Führer apenas “ouviu falar” de partes do conteúdo, sabendo de orelhada, a partir de artigos de jornal escritos por alguma pena de aluguel para Henry Ford e depois traduzidos para o alemão em 1922.

O incêndio do Reichstag pelos nazistas foi encoberto durante décadas pela amnésica cultura política que vigorou na Alemanha no pós-guerra: falsearam provas, forjaram testemunhas e puseram a culpa num militante comunista, depois num judeu e, por último, num cigano. Já o caso de Rudolf Hess, personagem de um suposto complô de Hitler com o serviço secreto britânico para acabar com a guerra em 1941, não foi apenas um caso de paranoia pois, por muitos anos – e ainda hoje – o mito serve para atenuar as culpas dos alemães pelas atrocidades nazistas. Já a última alegação examinada – Hitler não morreu no bunker – ganha de todas as outras, e supera até mesmo os limites da paranoia sistêmica, ganhando espaço nos universos do ocultismo, da paranormalidade, da ufologia e até de um recente zen-fascismo. A mais estapafúrdia versão afirma que Hitler fugiu para a Argentina ao final da guerra, seguiu pelo Paraguai e chegou ao Brasil, onde se fixou no município de Nossa Senhora do Livramento, Mato Grosso: caçou tesouros enterrados com o auxílio de um mapa que recebeu de aliados no Vaticano e teria vivido 95 anos.

Delírio? Nem sempre. Como toda teoria conspiratória acabou por ser oportunamente apropriada para usos diversos: a alegada sobrevivência de Hitler entrou na mitologia popular a partir de 1950 e acabou ajudando a União Soviética a justificar seu controle contínuo sobre o Leste Europeu – a Cortina de Ferro – por vários anos. Evans não ignora o enorme e duradouro apelo estético das conspirações como atraente dispositivo de enredo para a ficção: daí seus usos quase infinitos nas produções da indústria cultural, muitas delas até de bom nível documental e quase todas atreladas ao universo do entretenimento popular. Narrativas conspiratórias também dão muito lucro quanto mais carregam nas tintas do maniqueísmo e da eterna luta do bem contra o mal. Adeptos do mito da sobrevivência de Hitler são, muitas vezes, figuras destituídas de importância, que sobrevivem a duras penas, às margens do mundo do jornalismo, das coleções de arte, da política ou do ambiente acadêmico, buscando uma forma qualquer de entrar para o mundo da fama: apresentam a seus consumidores um mundo em preto e branco, de heróis individuais, geralmente lobos solitários que lutam contra todas as adversidades para descobrir a verdade, e de vilões, geralmente em posições de poder, que fazem de tudo para escondê-la.

A internet pode ter permitido que esse mundo de pseudoinformação subterrânea viralizasse mais rapidamente do que antes, mas em termos de conteúdo o contexto é muito antigo. O mito do grande líder que supostamente trapaceia a morte e continua a viver, em segredo, como uma inspiração para seus seguidores: o antigo rei Artur, da Bretanha, o imperador alemão Frederico Barbarossa, ou mesmo Napoleão Bonaparte, que, dizem – em tom anedótico, claro – que até já foi avistado (provavelmente nas imediações de um hospício). Falando sério, espanta muito mais o grau de credulidade coletiva nas conspirações. Essa credulidade diz mais sobre este nosso mundo repleto de incertezas políticas e reiterada ansiedade moral. Em contraste com as ambiguidades morais da vida real, as teorias da conspiração pintam um quadro de absolutos morais, do bem e do mal, imagem que é mais fácil de entender e, por isso, mais interessante e emocionante de retratar do que a cinzenta complexidade da realidade documentada.

Mas sejamos claros: história fraudulenta faz mal e é um mergulho no poço sem fundo da vergonha ética. Ofende veteranos de guerra, agride a memória de gente que perdeu tudo, ultraja o luto das milhares de vítimas dos nazistas e alimenta uma cumplicidade sutil com assassinos e genocidas. Sugerir que Hitler se recolheu em algum esconderijo com a conivência dos Aliados ocidentais é um insulto. Trivializa e nega a difícil vitória, obtida a duras penas, sobre os nazistas e, é ainda mais perturbador ver quantos adeptos da teoria da sobrevivência de Hitler são também antissemitas e negacionistas do Holocausto. Tirando vantagem das pessoas de educação precária, tratando-as com desdém e intensificando sua ignorância, teóricos da conspiração poluem os poços do conhecimento. Eles incentivam as pessoas a duvidar de obras de pesquisas, de fontes jornalísticas respeitadas e acabam desmoralizando a reputação da historiografia séria. Evans sabe que descobrir e entender o que realmente aconteceu na história é difícil, requer um esforço incansável de trabalho árduo no exame direto das evidências, pressupõe disposição para mudar de ideia e o abandono de preconceitos, inclusive diante das evidências que os contrariam. Tudo isso, afinal, faz lembrar daquele antigo preceito de John Bury: quanto mais irracional uma sociedade, mais ela torna secundária a função de seus historiadores.

O Estado de São Paulo

Elizabeth cumpriu o seu papel - Editorial




Exercendo seus deveres com temperança, ela encarnou a unidade e a continuidade de sua nação e foi exemplo para o mundo

Quando Elizabeth nasceu ninguém esperava que se tornasse monarca. Mas seu reinado foi o mais longo da história do Reino Unido e o segundo mais longo da história mundial. Aos 10 anos, com a abdicação de seu tio, Eduardo VIII, tornou-se abruptamente a primeira na linha da sucessão. Aos 25, foi consagrada “Rainha do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte e de Seus outros Reinos e Territórios, Cabeça da Comunidade das Nações, Defensora da Fé” ou simplesmente “a Rainha”. Nada menos – mas também nada mais. 

É compreensivelmente difícil para as populações do Novo Mundo reservarem às monarquias hereditárias do Velho Mundo mais do que o cinismo ou a irreverência devidos a relíquias anacrônicas ou aos fantasmas inofensivos e pitorescos de instituições medievais sepultadas nos idos da Revolução Francesa.

Nas monarquias constitucionais o poder real está nas mãos do povo e é exercido por seus representantes no Parlamento. O poder da Coroa é puramente simbólico. Mas esse símbolo representa a vontade única da Nação, e a unção sacramental do monarca simboliza que essa vontade serve a um poder maior e sumamente benevolente. Enquanto é “Ser Supremo”, na Declaração dos Direitos do Homem francesa, “Criador”, na Declaração de Independência americana, ou “Deus”, na Constituição brasileira, na Constituição não escrita britânica ele é tudo isso e mais, é também Jesus Cristo. Mais do que um dever institucional, para Elizabeth esse serviço foi uma devoção pessoal. “Para mim a vida de Jesus Cristo, o Príncipe da Paz, é uma inspiração e uma âncora. Modelo de reconciliação e misericórdia, ele estendeu suas mãos com amor, aceitação e cura.”

Elizabeth não foi estadista, menos ainda santa. Ela não praticou heroicamente a caridade, muito menos fez milagres. Não governou, e, para sermos honestos, qual teria sido sua real contribuição para a paz e a prosperidade mundiais? Ela só “representou”, no sentido teatral do termo, essas aspirações. Nada mais – mas também nada menos. É precisamente por não ter nenhum poder real sobre o Estado ou a Igreja que o monarca pode encenar seu papel de servo do povo, como chefe de Estado, e servo dos servos de Deus, como cabeça da Igreja.

“Quero pedir a vocês, qualquer que seja a sua religião, para rezarem por mim”, rogou Elizabeth na coroação, “para que Deus me conceda sabedoria e força para sustentar as promessas solenes que farei, e para que eu sirva fielmente a Ele e a vocês, todos os dias de minha vida.” Na maior parte deles, assim o fez. Protagonizando seu papel com graça, temperança e decência, ela encarnou para seu povo a unidade de propósito em meio à multiplicidade de visões, a continuidade em meio às mudanças.

Sua última foto, a dois dias de sua morte, quando “conferiu”, pela 14.ª vez, o governo à nova primeira-ministra, Liz Truss, a mostra lúcida, feliz e trabalhando. Ela foi uma mãe, depois uma avó e até uma bisavó para os britânicos. Seu senso de dever foi um exemplo para toda a família das nações, e por isso elas se unem a eles em suas orações para que Deus salve a rainha.

O Estado de São Paulo

Escravismo, guerra e fome: veja cinco fatos da história britânica




A morte da Rainha Elizabeth II despertou curiosidades sobre a história de uma monarca famosa, mas o Reino Unido é responsável por massacres, tráfico de pessoas, fome e guerras; em seu auge, o Império Britânico subjugava 25% da população mundial

A mais longeva monarca britânica da história, que passou 70 anos no trono, morreu na quinta-feira (8), aos 96 anos, no castelo de Balmoral, na Escócia. A Rainha Elizabeth II foi considerada por pessoas do movimento negro como um símbolo do colonialismo e do racismo moderno. O poder hegemônico do Império Britânico, ainda pouco difundido, foi responsável por subjugar 25% da população mundial, no auge de sua atuação.

De acordo com o material didático divulgado pela professora Joelza Ester Domingues, em 1920, o Império Britânico dominava cerca de 458 milhões de pessoas e abrangia 20% das terras do planeta. Apenas no continente africano, o Reino Unido colonizou cerca de um terço do território.

A deputada estadual de Minas Gerais Andréia de Jesus (PT-MG) escreveu em suas redes sociais que a herança que fica, com a morte da monarca britânica, é escravocrata, aristocrata e colonizadora. “Sua influência monárquica é racista e de opressão para o povo negro. Aclamada pelo mundo globalizado, perversa para a nossa ancestralidade”, publicou. “Solidariedade a todos que sofreram com o Apartheid!”, concluiu a parlamentar.

Em 2006, Tony Blair, líder do Partido Trabalhista e primeiro-ministro britânico (1997 a 2007), pediu desculpas acerca do papel da Grã-Bretanha no comércio transatlântico de pessoas escravizadas, descravendo a prática como um “crime contra a humanidade”.

Porém, essa opinião não é unânime entre os oligarcas e grande parte do povo inglês. Em 2016, uma pesquisa feita pela YouGov mostrou que 44% dos britânicos tinham orgulho da história do colonialismo.

Em toda a história, apenas 22 países no mundo não foram invadidos pelo Reino Unido: Andorra, Belarus, Bolívia, Burundi, Chade, Costa do Marfim, Guatemala, Ilhas Marshall, Liechtenstein, Luxemburgo, Mali, Mônaco, Mongólia, Paraguai, Quirguistão, República Centro Africana, República do Congo, São Tomé e Príncipe, Suécia, Tadjiquistão, Uzbequistão e Vaticano.

Os dados são do historiador inglês Stuart Laycock, que listou no livro "All the Countries We've Ever Invaded: And the Few We Never Got Round To" (Todos os países que já invadimos: e os poucos a que nunca chegamos, em tradução literal).

Com o auxílio do material didático de Joelza Domingues listamos cinco fatos vergonhosos da história britânica:

1. Escravismo e tráfico de pessoas

O comércio britânico de escravizados começou em 1562, durante o reinado de Elizabeth I. Os britânicos dominaram o tráfico de pessoas no Caribe estendendo-o depois às 13 colônias inglesas na América do Norte. Estima-se que até 1807, quando o tráfico foi proibido, os navios escravocratas britânicos teriam transportado cerca de 4 milhões de pessoas negras.

2. Guerra e campos de concentração na África do Sul

A descoberta de minas de diamante, ouro e ferro no território atraiu a atenção dos britânicos para estender seu domínio por todo o sul da África. Então, eles provocaram uma guerra entre os anos de 1880 e 1881, e outra de 1899 a 1902. Os campos de centração foram construídos no final da guerra. Cerca de 100 mil colonos foram presos e 27 mil deles morreram, sendo 24 mil menores de 16 anos. A prática foi responsável pelo extermínio de 50% da população infantil.

3. Tortura no Quênia

Milhares de quenianos sofreram todo tipo de tortura durante a Revolta do Mau-Mau (1952-1963). Os Mau-Mau lutavam para libertar o país dos colonizadores britânicos que, desde 1888, dominavam o país. Estimativas falam que até 100 mil pessoas morreram. Em 2013, o governo britânico pagou em torno de 30 milhões de libras de indenização atendendo às reivindicações feitas por mais de 5 mil veteranos Mau-Mau.

4. Massacre na Índia

Em 1919, uma multidão manifestava-se de forma pacífica contra o domínio britânico em Amritsar, cidade sagrada no norte da Índia. O governo britânico tinha ordenado que não houvessem protestos. Então, o exército fechou a única saída da praça e abriu fogo contra a população. Foram 379 mortos e 1200 feridos em 10 minutos de fuzilamento. Na versão britânica, foi um ato de defesa onde 90 soldados tinham que conter a fúria de 25 mil indianos.

5. Fome deliberada na Irlanda e Índia

Em 1943, cerca de 3 milhões de pessoas morreram de fome e desnutrição em Bengala, na Índia, sob administração do Ímpério britânico. Em guerra com o Japão pelo território da Birmânia, o maior produtor e exportador de arroz para a Índia, a Inglaterra perdeu o controle sobre esse território. O primeiro-ministro à época ordenou que os estoques de alimento fossem destinados para os soldados e ainda enviou grandes quantidades de suprimentos para a Grécia.

Jornal do Brasil

As lições do Chile




Constituições demandam consensos amplos e limitados, e servem fundamentalmente para proteger a liberdade e a igualdade de todos diante da lei. 

Por Fernando Schüler (foto)

O rechazo ganhou no Chile e o que seria a fantástica nova Constituição da América Latina foi parar em uma gaveta. Mas ficará na história. Será lembrada como a primeira Constituição ativista. Identitária, progressista, ambientalista, antissexista, antipatriarcal, indigenista, animalista. E feita do amor às palavras. São exatas 49 637, seis vezes mais do que na Constituição dos Estados Unidos. Não há problema com os ativistas. Eu mesmo já fui um deles, lá pelos meus 20 anos. O problema é o “ativista fora do lugar”. O sujeito que se põe a formatar a sociedade a partir de sua visão de mundo muito particular. A fazer “engenharia social”, ou ainda, como nesse caso, uma superengenharia social. Regulando as palavras que devemos usar, definindo as “identidades” merecedoras de mais ou menos direitos, o padrão correto de desigualdades econômicas, e mesmo coisas mais sublimes, como reconhecer “a espiritualidade como um elemento essencial do ser humano”, como se lia no projeto chileno.

Lendo aquele texto quase infinito, tive a sensação de me perder no paraíso. “Direito à moradia”, ao “ar limpo”, à “alimentação saudável e culturalmente pertinente”, ao acesso à internet, à “educação sexual integral”, ao uso de “sementes tradicionais”, a uma “morte digna”. E à “igualdade substantiva”, conceito que não faço ideia de como será interpretado pelos juízes chilenos. Apreciei o “direito à cosmovisão”, talvez posto lá por uma minoria “filosófica”. A palavra direito/direitos aparece 422 vezes. Recorde mundial, entre todas as constituições do planeta, segundo o Comparative Constitutions Project.

Os economistas, com sua mania xarope de perguntar sobre o custo das coisas, foram estragar a festa. Disseram que o novo texto iria custar entre 9% e 14% do PIB chileno. The Economist chamou o projeto de “lista fantasiosa e fiscalmente irresponsável da esquerda”, vocacionada a dar marcha a ré no progresso que o Chile conquistou ao longo das últimas quatro décadas. O Chile é o primeiro colocado, na América Latina, em virtualmente todos os indicadores relevantes. Melhor IDH, maior PIB per capita, melhor educação, medida pelo Pisa, menores taxas de pobreza e mortalidade infantil. Tudo culpa do “modelo neoliberal”, que, segundo se lê por aí, era urgente que fosse posto abaixo no país.

Muita gente achou paradoxal que as pessoas tenham apoiado, em 2020, a realização do processo constituinte, e no frigir dos ovos tenham votado contra o texto final. Não há paradoxo nenhum. No primeiro referendo, facultativo, votaram 50% dos eleitores; no segundo, obrigatório, foram 86%. “A maioria silenciosa entrou em campo”, me diz um colega chileno, e “muitos eleitores imaginavam corrigir falhas da atual Constituição, não colocar o edifício inteiro abaixo. “Houve também uma interpretação equivocada sobre o significado dos protestos de 2019”, ele diz. Não houve uma revolução, e tampouco havia ali algum programa de mudanças minimamente estruturado. Havia um descontentamento difuso, conduzido por grupos muito à esquerda do pensamento médio da sociedade chilena. Seu resultado mais objetivo foi o impulso dado à eleição de Gabriel Boric. Me lembrei das lições de Hannah Arendt: a guerra de libertação é sempre mais fácil do que a construção da liberdade. Daí sua admiração pela moderação e o senso prático dos revolucionários americanos, e seu ceticismo com a eloquência vazia dos revolucionários franceses.

De minha parte, lembrei dos protestos de rua do Brasil em 2013. Há traço comum aí das democracias atuais. O súbito aparecimento do “quinto poder”, feito da multidão aglutinada via redes digitais, ao estilo flashmob. Manuel Castells radiografou isso com precisão, observando que se tratam, em regra, de movimentos desordenados, nascidos de algum “gatilho” (como foi o aumento do metrô, no Chile) com um apelo difuso à “dignidade”, e efêmeros. Diferentemente do que ocorreu no Brasil, o “estalido social” chileno foi violento. Trinta mortes e vandalização generalizada de bens públicos. E que aprovou um processo constituinte, que abriu a caixa de pandora e resultou no texto agora rechaçado.

O engraçado é ler algumas explicações. De uma analista, leio que a população não “compreendeu” o significado da nova Carta, e a culpa seria das fake news sobre a relativização dos direitos à propriedade, abertura das fronteiras aos imigrantes e coisas do tipo. É curioso. Parecemos imaginar que a ignorância anda sempre do “outro lado”. Em uma manifestação do “Aprovo”, o grupo Las Indetectables realizou uma performance extraindo uma bandeira chilena do ânus de um performer, representando o que seria o “aborto do velho Chile”. Tudo avançado demais para “essa gente” entender. Vai aí uma marca das democracias atuais: a tensão permanente entre a minoria ativista e a maioria formada pelos homens comuns. O conservador, o “gado”, que não entende, que gosta de música ruim, piadas de mau gosto, usa as palavras erradas e não reconhece os avanços do progressismo.

O que ninguém admite é que as pessoas possam ter votado “não” porque acharam o projeto ruim, e é assim nas democracias. Uma democracia não é boa apenas quando ganham as posições progressistas, mas também quando ganha o outro lado. Difícil entender? Outro ponto é fazer distinção entre o que é matéria constitucional e o que é matéria de política pública. A Constituição trata das regras do jogo. Direitos fundamentais, organização da República e temas de grande consenso. Liberdade de expressão é matéria constitucional; lutar contra a mudança climática (como se lê no projeto chileno) é política pública. Temas de política pública são transitórios, sujeitos a consensos provisórios, numa sociedade aberta. Nossa Constituição é um exemplo dessa confusão. Por que consideramos que é matéria constitucional proteger a Zona Franca de Manaus? Ou que determinada categoria profissional tenha um piso salarial, diferentemente das demais, igualmente dignas? Um colega cáustico me definiu o problema: põe isso lá quem tem lobby no Congresso, e isso vale para piso, benefícios fiscais ou aposentadorias especiais. Temos uma Constituição marcada a ferro pelo lobby no mundo político. Não deveria ser assim.

É esta a lição chilena. Que nenhum grupo em particular, nenhuma minoria ideológica, deve pretender fixar as regras do jogo em uma sociedade plural. Que as constituições demandam consensos amplos e limitados, e servem fundamentalmente para proteger a liberdade e a igualdade de todos diante da lei. Aqueles direitos elementares que, de geração em geração, forjaram o melhor do mundo moderno, e dos quais não deveríamos abrir mão.

*Fernando Schüler é cientista político e professor do Insper

Revista Veja

O que não aparece na campanha




Na propaganda eleitoral, as dívidas serão perdoadas, negociadas, reduzidas, enfim, aliviadas. Como?

Por Carlos Alberto Sardenberg (foto)

Olhando os grandes números, parece mesmo que a economia brasileira passa por um bom momento: a inflação desacelera, o crescimento acelerou no segundo semestre, deixando um embalo para o final do ano, a taxa de desemprego caiu, e não há dificuldades nas contas externas.

Comparando com a situação e as expectativas do início deste ano, o ambiente é claramente melhor. Mas não dá para concluir que isso tudo deixará uma boa herança para o próximo presidente.

Começando pelos preços ao consumidor. Pelo IPCA de agosto, divulgado ontem, a inflação em 12 meses caiu para 8,73%, a primeira vez em um ano que fica abaixo dos dois dígitos. Governo e mercado esperam desaceleração lenta, porém consistente para os próximos meses.

Essa expectativa faz sentido porque, depois de várias tentativas, finalmente temos uma legislação que garante a independência do Banco Central (BC). Isso permite que a instituição pratique uma política monetária de juros muito elevados mesmo em pleno ciclo eleitoral.

Mais ainda: pela nova lei, o mandato do presidente da República não coincide com o do presidente do BC. O atual chefe da instituição, Roberto Campos Neto, tem mandato até 2024 — e isso significa que a política monetária será mantida nos próximos dois anos. A expectativa dominante sugere que a inflação chegará à meta (3%) somente em 2024, depois de três anos seguidos de estouros.

No médio termo, está bom, mas em termos políticos há uma óbvia dificuldade. A inflação vem sendo derrubada a golpes de juros muito elevados — ou de uma política muito restritiva, como têm repetido os diretores do BC.

“Restritiva” quer dizer uma política que restringe investimentos e consumo. Fica muito caro tomar financiamento para qualquer coisa. Isso limita programas de expansão da atividade e do emprego, que constam da propaganda dos candidatos. Nenhum deles disse até agora como agirá diante de juros tão elevados por tanto tempo.

Outra dificuldade econômica e política está no elevado endividamento das famílias. Na propaganda eleitoral, as dívidas serão perdoadas, negociadas, reduzidas — enfim, aliviadas. Como? Ou não há respostas ou há explicações fantasiosas, que colocam no mesmo saco desde dívidas tributárias até carnês em atraso. Não funciona, muito menos enquanto os juros permanecerem elevados. Há aí, portanto, uma séria restrição ao crescimento econômico.

Tem mais. Como tudo no Brasil, a inflação também é desigual. Quem encheu o tanque em agosto pagou menos do que no mês anterior. Quem pegou avião também gastou menos. Mas quem foi ao supermercado comprar alimentos pagou muito mais.

Em 12 meses, a inflação de alimentos alcançou 13,43%, bem acima do índice médio. Preços de comida estão agora subindo menos, mas subindo.

Para ficar nos combustíveis, a queda se deve basicamente à redução de impostos, que arruína a receita de estados e municípios. De algum modo, essa receita terá de ser reposta no ano que vem — já que as despesas não caíram. Logo haverá uma conta para o contribuinte, a ser cobrada pelos novos governantes.

Visto de perto, portanto, 2023 estará assim: inflação caindo, mas ainda pesando no bolso, convivendo com juros elevados para empresas e famílias, a maior parte destas endividadas. Não há como acelerar o crescimento nessas circunstâncias.

A menos que o governo federal coloque um monte de dinheiro novo na economia. Não há esse dinheiro. Ao contrário, o governo Bolsonaro estourou o teto de gastos várias vezes e deixará buracos espalhados para os próximos anos. Fatal. Consequência da política de cortar impostos e distribuir “bondades” sem reduzir despesas. No máximo, adiaram despesas deste para os próximos anos, um baita problema para o sucessor.

Não acabou: o mundo desenvolvido está muito perto de uma recessão (com juros altos), e a China, nossa principal parceira econômica, cresce cada vez menos por causa da política de Covid Zero, que coloca populações em lockdown praticamente todo mês.

Isso, não se vê na campanha.

O Globo

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