sábado, setembro 10, 2022

O #EleNão bolsonarista




Mobilização e radicalização andam de mãos dadas

Por César Felício* (foto)

O 7 de setembro, de um certo modo, foi o equivalente ao #EleNão do bolsonarismo. O golpismo teve ampla guarida no público vestido de verde e amarelo anteontem na praia de Copacabana, como mostrou o levantamento de um núcleo da USP, publicado no site do jornal “O Globo”, mas esta não foi a tônica das ruas.

Muito mais forte na retórica do presidente Jair Bolsonaro foi a diatribe contra o nove-dedos, o carniça, o cachaceiro, o ladrão, o comunista, o ameaçador das tradições, o pervertedor das famílias.

A aposta nas ruas implica naturalmente em radicalismo, não há outra maneira de se conseguir uma mobilização. Prega-se aos convertidos. Bolsonaro ontem reuniu uma plateia de aficcionados - 91% dos presentes votaram nele em 2018, de acordo com a pesquisa divulgada pelo “O Globo”. O saldo mais concreto em termos eleitorais é uma energização da base que leva o seu eleitor a se empenhar mais na persuasão ou intimidação de quem pensa diferente.

Como a maioria dos presentes nas ruas na quarta-feira é simpática ao que chamam de “intervenção militar constitucional”- tema que, frise-se, não fez parte da arenga do presidente - Bolsonaro já tem uma massa crítica para propósitos anti-institucionais que, no 7 de setembro, ficaram apenas na mensagem subliminar: as insistentes alusões a liberdades supostamente ameaçadas, o que tornaria necessário o uso da força, de uma forma que ele nunca explica.

“A mobilização gera imagens de impacto que em um primeiro momento permite ao candidato contestar o quadro das pesquisas e em um segundo momento o próprio resultado eleitoral”, observou o cientista político Pablo Ortellado, um dos coordenadores do estudo.

Em 2018, com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na cadeia e sem direitos políticos, a estratégia dos petistas foi a de ir às ruas contra o atual presidente. Às vésperas do primeiro e do segundo turno, produziram-se as maiores concentrações populares da campanha de 2018, capitaneadas sobretudo pelo eleitorado feminino, debaixo da aba da hashtag #EleNão. Os estrategistas da campanha de Fernando Haddad fizeram uma aposta na radicalização, para o bem e para o mal. Não foi suficiente para ganhar a eleição, por óbvio, mas talvez tenham sido plantadas ali as condições para o PT se manter hegemônico no polo oposicionista.

Hoje está patente que a estratégia de Lula é outra, talvez por falta de opção, já que muito provavelmente o líder nas pesquisas de intenção de voto, mesmo se quisesse, não seria capaz de mobilizar seus eleitores da forma como Bolsonaro mobiliza os dele. E nem da forma como se mobilizou em 2018 a favor de Haddad.

Seja como for, se Lula fosse às ruas, não poderia permanecer na narrativa que desenvolve para as eleições deste ano, como observou Ortellado.

“A gente percebe que Lula não está fazendo muito esforço para mobilizar uma contramarcha. Ele aparentemente está jogando outro jogo. Quem aposta na moderação e na união não pode exercer a opção da mobilização e da inflamação”, pondera o cientista político.

Ir às ruas para arengar as multidões não combina com o misto de saudosismo com pacifismo com o qual Lula vai dialogando com o que até hoje é uma maioria silenciosa que se declara antibolsonarista. Tanto é que nas vezes que o ex-presidente falou à multidão militante, radicalizou. Na relação entre o líder e as massas, há uma catarse em que um “looping” contínuo vai tornando tudo cada vez mais extremo e o momento das derrapagens verbais acontece aí.

Lula nestas eleições opera numa faixa de relativa ambiguidade, para que toda população que por um motivo ou por outro rechace Bolsonaro tenha alguma razão para prestar atenção em sua candidatura. Era outro o quadro em 2018. Sem poder contar com a candidatura de seu líder máximo, o PT precisava empolgar sua base para produzir a transferência de votos para Haddad.

Para isso as ruas serviram a esquerda, mas não houve como competir em radicalização e mobilização com Bolsonaro, prometendo mandar os adversários para “a ponta da praia”, forma velada de acenar com a exterminação física.

Pré-Bolsonaro

O ex-presidente Lula afirmou em seu vídeo de resposta a Bolsonaro que não houve uso eleitoral do 7 de setembro em 2006 e 2010, durante seu período de governo. De fato não houve. Em 2006 Lula reelegeu-se, mas em uma disputa relativamente apertada e bastante agressiva contra o seu atual companheiro de chapa, Geraldo Alckmin.

Naquele ano o país vinha da memória do mensalão que havia marcado 2005, quando estourou o escândalo dos sanguessugas, de desvio de recursos na área da saúde. Na cerimônia do 7 de setembro, o governo montou uma estratégia para blindar Lula do constrangimento de uma vaia. Próximo ao palanque de onde estava o presidente, só havia convidados.

O 7 de setembro de 2010 foi quase um não evento. Então candidata governista, Dilma Rousseff não apareceu. Lula chamou mais atenção ao aparecer no horário eleitoral da petista do que pelo que fez ou deixou de fazer no palanque oficial.

Na era pré-Bolsonaro, houve ao longo das últimas décadas presidentes que procuraram capitalizar politicamente a data de um ou outro modo. Em seu primeiro mandato, Fernando Henrique Cardoso sempre reservava o 7 de setembro para o anúncio de medidas na área de direitos humanos, no jardim do Palácio da Alvorada. A obrigatoriedade de rampas de acesso em prédios para deficientes públicos, por exemplo, surgiu em uma dessas ocasiões. Demarcações de terras indígenas ou quilombolas também eram frequentes.

Na ditadura, Médici marcou o sesquicentenário com a vinda do corpo de Dom Pedro I de Portugal para São Paulo, uma minicopa mundial, em que o Brasil derrotou Portugal por 1 a 0 e um desfile militar com 18 mil integrantes.

Houve também presidentes que procuraram se esconder. Em 1989, Sarney mudou o desfile do Eixo Monumental para o Setor Militar Urbano e ficou a 80 metros da arquibancada mais próxima.

Protestos na data foram emblemáticos. Em 1992, Collor tomou uma vaia histórica em pleno clima de impeachment. Em 2013, na esteira das manifestações contra tudo agitadas por “black blocs”, houve protestos em 11 capitais, com 335 presos.

*César Felício é editor de Política

Valor Econômico

O Dia da Pátria que não houve




Bolsonaro jogou a rede e colheu o 7 de Setembro, o bicentenário e toda a mídia

Por Eliane Cantanhêde (foto)

O presidente Jair Bolsonaro não só implodiu a Constituição e as leis, sequestrou o 7 de Setembro e o bicentenário da Independência do Brasil e pôs a estrutura, os recursos, os funcionários públicos e as Forças Armadas a serviço da reeleição como também capturou toda a mídia nacional e os jornalistas com a armadilha da “princesa” e o “imbrochável”.

Não há uma só referência do presidente ao Dia da Pátria e à Independência na quarta-feira, em que rádios, televisões, internet e nós, editores, comentaristas, colunistas, repórteres, fotógrafos e cinegrafistas demos ao candidato Bolsonaro uma exposição que nenhum de seus concorrentes terá em toda a campanha, na cobertura e na propaganda eleitoral.

“Trending topics” do Twitter e citado até no The New York Times, o “imbrochável”, difícil de traduzir, foi o sucesso do Dia da Pátria. Tão abjeto quanto o presidente comparar sua mulher e a dos adversários e convocar solteiros a casar com “princesas”. Ou quanto o então presidente Lula se referir-se ao “ponto G” feminino numa entrevista com o americano George W. Bush em São Paulo. Isso tudo diminui homens, mulheres e o País.

Tal como na facada de 2018, o País, a mídia e os candidatos foram todos abduzidos pela campanha de Bolsonaro, principalmente em Brasília, sem os presidentes dos Poderes, e na icônica Copacabana, embalada pela Esquadrilha da Fumaça da FAB, por navios da Marinha brasileira e das armadas de países aliados e tiros de canhão do Exército. Não foi só o general Eduardo Pazuello, foram as Forças Armadas num comício. Mil anos de sigilo?

Depois da implosão da compostura, do desmanche de ambiente, saúde, educação, cultura, relações externas, lei eleitoral, do teto de gastos e da responsabilidade fiscal, do uso de militares, PGR, Câmara, PF, Receita e Coaf a favor dele, filhos e aliados... Não sobra pedra sobre pedra.

E nós? Nós vamos assistindo a tudo, esperando a próxima pesquisa, a próxima agonia, a próxima “gripezinha” que matou 680 mil brasileiros e a nova “cartinha” em defesa da democracia, temendo que o presidente, se reeleito, “extirpe” os adversários e nos enquadre a todos nas “quatro linhas da Constituição” – a dele – e o “povo” – o dele – armado, crente em mitos e fake news.

As cartas foram embaralhadas neste 7 de Setembro, Bolsonaro deu sua última cartada e a oposição se assustou e entra com ações na Justiça que não darão em nada, só em mais propaganda para ele. Não custa lembrar, porém, que o “Datapovo” bolsonarista só olha para as redes amigas e militantes de comício. O “povo” é muito, muito maior do que isso. Que venham as reais pesquisas! 

O Estado de São Paulo

O Golpe da Independência




É triste quando um povo celebra sua identidade e sua história desfilando tanques e cultivando cadáveres.

Por Simon Schwartzman* (foto)

Cem anos atrás, o Brasil comemorava um século da independência com uma grande exposição internacional no Rio de Janeiro, em que se celebrava a entrada do País na modernidade do rádio e da eletricidade. Havia nela o Pavilhão da Estatística, dedicado à “ciência da certeza”, que apresentava os resultados do censo brasileiro de 1920, o primeiro em quase 50 anos (*). Fake news, nunca mais! 1922 foi, também, o ano da Semana de Arte Moderna, em que pintores e escritores se propunham a mostrar o Brasil como ele era e falava de verdade, do Macunaíma de Mário de Andrade aos operários de Tarsila do Amaral, livres das amarras da pintura clássica e do português castiço das velhas elites educadas em Coimbra.

O tema era o Brasil do futuro, e ninguém olhava muito para o dia em que, cem anos antes, a Família Real dera um golpe de Estado contra a revolução liberal portuguesa, que limitava seus poderes, e colocara a coroa brasileira na cabeça do herdeiro, Pedro I, “antes que um outro aventureiro o faça”, como diz a lenda. Mas a República Velha não se movia, e o povo, que havia assistido bestializado ao fim do Império, continuava sem entender o que República e mundo moderno lhe traziam.

Cinquenta anos depois, o Sete de Setembro foi comemorado olhando para trás, com o traslado do corpo de Dom Pedro para o Brasil. Eram os anos de chumbo, a repressão do governo militar brasileiro chegava a seu auge e Portugal vivia sob a ditadura do Estado Novo salazarista. Nada melhor do que o cadáver do jovem e impetuoso imperador para celebrar esta comunhão, trazido com todas as honras para repousar no Museu do Ipiranga. Faltava, no entanto, o coração, guardado no formol, que volta agora, finalmente, para o Brasil neste bicentenário que quase ninguém comemora e em que os fantasmas do autoritarismo e da violência política voltam a assombrar.

O que se comemora nos dias nacionais dos diversos países? Nos Estados Unidos, o 4 de julho marca o dia, em 1776, em que representantes das 13 colônias, reunidos num congresso, declararam sua separação da Grã-Bretanha; na França, o 14 de julho celebra a queda da Bastilha, em 1789, que marca o fim do absolutismo monárquico; no Chile, o 18 de setembro comemora a organização do primeiro governo autônomo do país; e, na Noruega, o 17 de maio celebra a primeira Constituição, de 1814. São todos de uma mesma época, de surgimento dos Estados nacionais, com seus três componentes centrais: um Estado moderno, ou seja, um governo organizado, com capacidade de angariar e utilizar bem recursos técnicos, financeiros e militares; cidadãos compartilhando a mesma história e dotados de direitos civis, políticos e sociais; e um território definido em que essa população vive, com fronteiras mantidas e defendidas pelo Estado e seus cidadãos, de forma soberana.

Dos três, o Brasil independente herdou um imenso e quase desconhecido território; um Estado patrimonial organizado para cobrar impostos e explorar as riquezas dos territórios que dominava; e uma população formada sobretudo por negros escravizados, indígenas, brancos e mestiços empobrecidos e analfabetos, vivendo no campo e na periferia das cidades. Desde a Colônia que setores da população se revoltavam contra os governantes, reivindicando autonomia, mas foram sufocados um a um. No Segundo Reinado, estavam todos dominados, com o imperador e uma pequena elite brincando de democracia constitucional.

Havia pessoas, mas não cidadãos, por muito mais tempo do que poderia. Estima-se que, quando os portugueses chegaram, cerca de 5 milhões de nativos viviam no território brasileiro. Trezentos anos depois, estes povos haviam sido exterminados ou se refugiado no interior desconhecido. No primeiro censo brasileiro, de 1872, dos 10 milhões de recenseados, menos de 5% foram classificados como indígenas, e desapareceram dos censos seguintes, até serem relembrados recentemente.

Nos países em que os habitantes se tornaram cidadãos, a educação pública teve um papel central. Nos Estados Unidos, na época da independência, 60% da população já sabia ler; em meados do século 19, eram quase 100%. Na Noruega, a educação pública já era obrigatória desde meados do século 18. No Chile e na Argentina, políticos intelectuais como Domingo Faustino Sarmiento e Andrés Bello estimularam a criação das primeiras redes de escolas públicas e de universidades modernas em meados do século 19. No Brasil, o tema da educação pública só começa a ser discutido na década de 1920, a primeira universidade é de 1934 e em 1960 metade da população era ainda analfabeta.

Se o lado positivo dos novos Estados nacionais foram a formação da cidadania e o desenvolvimento de um setor público representativo e capaz de apoiar e proteger seus cidadãos, o lado negativo foram o nacionalismo e o militarismo, jogando uns povos contra outros e enaltecendo o culto das armas e da violência. É bonito quando um povo celebra sua identidade e sua história dançando nas ruas e se confraternizando, como no Chile e na Noruega; mas triste quando o faz desfilando tanques e cultivando cadáveres.

(*) Sobre as comemorações da Independência e a história das estatísticas públicas no Brasil, vejam o recente livro do IBGE ‘As estatísticas nas comemorações da independência do Brasil’ (2022), editado por Nelson de Castro Senra.

*Sociólogo, é membro da Academia Brasileira de Ciências

O Estado de São Paulo

Um algoz da economia: o ativismo judicial.




Seus efeitos negativos sobre a democracia, a economia e a política destroem a maioria das forças responsáveis pela cooperação social e pela estabilidade institucional. 

Por Ubiratan Jorge Iorio (foto)

Quando levamos uma xícara de café quente à boca, a precaução, ativada pela lembrança de alguma queimadura pretérita na língua, nos ensina a começar por um pequeno sorvo, para sentirmos se continuamos a beber ou esperamos um pouco. Antes de entrarmos em uma piscina, é sempre aconselhável checarmos a temperatura da água, para evitarmos sensações desagradáveis. Da mesma forma, a prudência nos recomenda colocarmos agasalhos na mala que vamos levar em uma viagem para a Serra Gaúcha.

Esse comportamento defensivo, quase sempre intuitivo, está presente na maior parte dos atos econômicos e manifesta-se tão mais fortemente quanto maior for a sua importância. Não precisamos de nenhuma cautela quando compramos um pãozinho, mas temos de tomar algum cuidado quando encomendamos uma adega pela internet, e necessitamos ter muita atenção antes de uma transação imobiliária. Todas as decisões relevantes, portanto, exigem cuidados em busca de menos incerteza e mais segurança.

À vista disso, riscos fazem parte da rotina das escolhas econômicas, e a teoria nos ensina que há três tipos de reações diante do perigo que representam, a saber: aversão, apego e neutralidade. Sabemos que a maioria dos indivíduos se enquadra na tipificação de avessos ao risco, o que significa que, para uma pessoa-padrão, buscar um mínimo de segurança para evitar ou minimizar riscos é um hábito tido como aconselhável.

A economia funciona pelas ações contínuas de bilhões de indivíduos tentando atingir objetivos específicos. Contudo, o fato de cada pessoa almejar fins exclusivamente seus e, portanto, diferentes daqueles perseguidos pelas demais não impede a existência de um núcleo de propósitos comuns, pois, se não fosse assim, viver em sociedade não faria muito sentido. O que caracteriza uma sociedade livre, aberta, virtuosa e próspera é, em muitos aspectos, a garantia dessa coexistência entre os objetivos de cada indivíduo e os fins comuns, e, teoricamente, o que pode assegurar esse sincronismo é a lei, que existe para garantir regras fixas para o jogo e a segurança, com vistas a minimizar os riscos.

Economia e Direito são, portanto, indissociáveis, e não podemos nos esquecer de que uma das finalidades da lei é precisamente amparar as transações econômicas, especialmente decisões de investimento, que são escolhas de longo prazo e de grande relevância para o crescimento sustentado. Quando não há lei, ou quando sua função é pervertida, as atividades econômicas transformam-se em jogos de soma zero — ou seja, caracterizados por conflitos — e termina prevalecendo o caos social, ou, em linguagem menos rebuscada, a lei de Murici, aquela que manda a cooperação para a “cucuia” e ordena que cada um cuide apenas de si.

Infelizmente, temos assistido, no Brasil e em todo o mundo, a um fenômeno que até poucos anos atrás escapava à percepção da população, mas que atualmente é parte obrigatória em nossas conversas do dia a dia. Trata-se de uma ocorrência com repercussões importantes sobre o ordenamento social — vale dizer, econômico, político, jurídico e, em última instância, ético e moral — que, infelizmente, tem sido propositalmente omitida pelo grande “consórcio da desinformação” em que se transformou a imprensa tradicional. É a politização do Judiciário, de efeitos negativos sobre a democracia, a economia, a política e, portanto, a própria sociedade, porque, entre outras consequências maléficas, destrói a maioria das forças responsáveis pela cooperação social e pela estabilidade institucional.

A causa desse processo de politização é o relativismo moral niilista, que lançou uma deliberada nuvem cinzenta sobre a fronteira ética demarcatória entre o certo e o errado e que se espraiou a partir da segunda metade do século 19, durante o século 20 e continua bastante presente em todos os campos da ação humana, do Direito à Economia, da Política à Sociologia, da Psicologia à Antropologia, das Artes à Cultura, fazendo emergir o fatal conceit, aquela pretensão fatal tão bem apontada por Hayek: a crença cega de que “soluções políticas” são superiores às geradas de forma espontânea em cada um dos subsistemas que compõem as sociedades. É uma crendice perigosíssima, haja vista que gerou práticas e instituições que levaram aos grandes males do século passado, como o nazismo, o socialismo, o fascismo e o comunismo.

Os males do ativismo jurídico

No campo jurídico, o relativismo de adornos marxistas armou-se com o escudo da Doutrina do Direito Alternativo ou Relativo ou Paralelo e com a espada perigosíssima do ativismo judicial. A pedra angular desses princípios é que, como a lei não esgota o Direito, os juízes devem assumir posturas “críticas” diante dela, o que os autoriza a deixarem de aplicá-la, caso considerem-na “injusta”. De fato, como nem todas as normas são justas, a lei não esgota o Direito, mas isso não é argumento para que juízes assumam as funções de deuses de togas e se postem acima delas, por mais nobres que possam ser as suas intenções. Na verdade, tal silogismo nada mais é do que um embuste ideológico disfarçado.

Não é por acaso que a politização do Judiciário pode ser encontrada tanto na Alemanha de Hitler quanto na antiga União Soviética e, ainda hoje, em todos os países que optaram por sistemas totalitários como o socialismo. Uma rápida olhada para a América Latina atual dirime qualquer dúvida. O Brasil precisa neutralizar esse mal, pelo aperfeiçoamento das instituições, antes que seja tarde. É a nossa liberdade que está em jogo.

É assustador, caros leitores, quando uma doutrina sustenta que um juiz está acima da lei e que pode submetê-la a suas preferências ideológicas ou partidárias, ou mesmo a seus instintos tirânicos, sob o pretexto de que seria dever do Direito realizar “transformações sociais”, uma vez que a lei seria produzida pelos que estão no poder e, portanto, refletiria os interesses de uma classe dominante, em detrimento dos “marginalizados”. Essa aberração repudia os princípios consagrados de neutralidade da lei e de imparcialidade do juiz: a lei não seria neutra porque se originaria do poder dominante, e o juiz não deveria ser imparcial porque seria seu dever julgar os fatos subjetivamente e posicionar-se tendo em vista os objetivos “sociais” — entenda-se, “revolucionários” —, o que lhe aumenta os poderes e lhe permite questionar e até mesmo repelir o conjunto de normas legais vigentes. O magistrado entra dessa forma diretamente na “luta de classes”, abandonando sua postura de imparcialidade, que o “aprisionaria” dentro do estrito cumprimento da lei. Não é, portanto, de estranhar quando um magistrado alinhado a essa corrente atribui a si, com extrema arrogância, o papel de corretor de erros “históricos”, para justificar decisões que frequentemente agridem princípios morais elementares.

O ativismo judicial manifesta uma visão política e ideológica do Direito, supralegal e inteiramente comprometida com o socialismo e com tendências tirânicas, incompatível com a garantia das liberdades individuais e da verdadeira democracia. Primeiro, porque, ao abraçar o conceito marxista de “lutas de classes”, retira do Direito o seu atributo de ciência normativa; segundo, porque o juiz não pode substituir o legislador e nem o presidente; terceiro, porque se uma determinada lei é “injusta”, o correto é que o Legislativo a revogue e não que um juiz a modifique a bel-prazer; quarto, porque nada justifica a defesa de que juízes não precisam ser imparciais; quinto, porque lhes confere poderes exorbitantes, dotando-os de um livre-arbítrio que pode ser despótico e calamitoso; sexto, porque, como cada cabeça é uma sentença, abre as portas para jurisprudências contraditórias, ou seja, para aumentar a insegurança jurídica; e sétimo, porque agride o princípio do devido processo legal, ou seja, a garantia de que ninguém pode ser atingido em seus bens e direitos sem o competente processo que respeite princípios constitucionais diretivos, como o da legalidade, o da isonomia e o do contraditório.

É uma doutrina moldada para justificar a idiossincrasia da esquerda, tão bem identificada pelo filósofo Roger Scruton, que é julgar o sucesso de alguns pelo fracasso de outros, o que fornece sempre uma vítima a ser “resgatada”. Assim foi, no século 19, com o proletariado; nos anos 1960, com a juventude; depois, com as mulheres; e, sucessivamente, com os negros, os homossexuais, os índios, os animais, o planeta. Qual será o próximo refém a ser salvo por esses justiceiros sociais, sem que precisem atender a ditames processuais, prazos e normas, tudo em nome de uma aludida e sempre nebulosa “justiça social”?

Consequências econômicas do ativismo judicial

O ativismo exacerbado que podemos observar em várias decisões do STF, cuja missão — sempre é de bom alvitre lembrar — é zelar pela Constituição, diminui o espaço de atuação institucional dos demais Poderes e subverte a Suprema Corte, transformando-a inaceitavelmente na depositária única de todas as demandas da sociedade e, o que ainda é pior, na formuladora de todas as soluções. Adicionalmente, a formação técnica dos magistrados está muito longe de capacitá-los a exarar decisões econômicas, administrativas e políticas.

Há algum tempo o Brasil vem assistindo — atônito — a magistrados sem conhecimentos de economia e de gestão, sem a representatividade política que só o voto lhes poderia conferir e livres de responsabilidade no que concerne às alocações de recursos estabelecidas nos orçamentos, tomando decisões que competem constitucionalmente ao Legislativo e ao Executivo. Essa prática de intromissão nos demais Poderes, cada vez mais recorrente, tisna o papel insubstituível de bastião último da democracia que só o Judiciário pode cumprir.

Os efeitos do ativismo judicial sobre a economia são desastrosos. E não se trata apenas de interferir indevidamente em privatizações, preços, alíquotas de impostos e outras atribuições de competência exclusiva do Ministério da Economia; não se trata somente de aumentar o risco inerente às decisões econômicas importantes, como as de investimentos: trata-se de espalhar insegurança jurídica generalizada e, portanto, maximizar riscos. Chamam a atenção muitos fatos que vêm se tornando corriqueiros, estranhos às verdadeiras práticas democráticas, aparentemente sem conexão com a economia, mas que podem produzir efeitos econômicos devastadores, comprometendo boa parte do enorme esforço que a equipe econômica vem fazendo para colocar o país no caminho da prosperidade.

Apenas para dar um exemplo, a política econômica do governo já garantiu até hoje, apenas com as privatizações, R$ 200 bilhões (sendo R$ 78 bilhões apenas neste ano), bem como mais de R$ 800 bilhões de investimentos privados nos próximos anos. Agora, suponha que você reside no exterior, que resolveu investir R$ 100 bilhões no Brasil em cinco anos e que já ingressou com 10% desse montante, ou seja, por analogia, deu uma bicadinha na xícara, colocou a mão embaixo do chuveiro e reservou hotel em Bento Gonçalves. Então, um iluminado de toga decide investigar, instigado por um senador que — pasmem — está no comando da campanha do principal opositor do governo, as conversas privadas de empresários importantes. O que isso sinaliza para todos? Não é óbvio que está abertamente impondo riscos maiores, indicando que o café está “pelando”, ou que a piscina está fria demais ou que é melhor adiar sua viagem? Ora, por prudência, não é melhor então esperar para colocar os seus R$ 90 bilhões restantes no país? O mesmo raciocínio vale para residentes no Brasil. E os investimentos, e os empregos, e a economia, como ficam?

Há, ainda, um risco adicional, representado pelas eleições: dependendo de quem será o próximo presidente, nada garante que não vão roubar a sua xícara, o café, a água, a mala com os seus agasalhos e até os ladrilhos da piscina. O povo deu o seu recado no dia 7 de Setembro, ao manifestar-se contra o absurdo ativismo judicial vigente. Que seja ouvido.

Revista Oeste

Elizabeth II: in memoriam.




"Declaro diante de todos vós que toda a minha vida, seja ela longa ou curta, será dedicada a servir-vos e a servir a nossa grande família imperial, à qual todos nós pertencemos". 

Por Vicente Ferreira da Silva

No dia em que festejou 21 anos expressou o seguinte:

“I declare before you all that my whole life, whether it be long or short, shall be devoted to your service and the service of our great imperial family to which we all belong”. (Declaro diante de todos vós que toda a minha vida, seja ela longa ou curta, será dedicada a servir-vos e a servir a nossa grande família imperial, à qual todos nós pertencemos).

Hoje, decorridos 75 anos, é inquestionável que a sua longa vida foi integralmente dedicada ao serviço público e é possível afirmar sem a mais ínfima réstia de dúvida que Isabel II foi um exemplo sem igual de dedicação e de serviço à causa pública.

Ao longo da sua vida de serviço, Isabel II foi capaz de lidar com as circunstâncias decorrentes da evolução e desenvolvimento da sociedade, assim como com os condicionalismos inerentes à sua condição de Chefe de Estado do Reino Unido, quer a nível nacional, quer internacional. Quantas vezes o mundo mudou durante o seu reinado? Neste sentido, não posso deixar de referir que Isabel II é a última representantes dos líderes que tiveram a responsabilidade de liderar vidas em tempos muito difíceis.

Não deve ter sido nada fácil. E apesar de ter tido uma vida de privilégios, não pode ser esquecido, nem negligenciado, que essa vida foi igualmente uma vida de obrigações e de compromisso. E durante todos estes anos de serviço, Isabel II foi um modelo de abnegação, de humildade e de sacrifício. Foi igualmente um ser humano altruísta e excepcional.

Deixou-nos hoje um verdadeiro padrão de estabilidade e quem, para mim, melhor representou o conceito de dever e de responsabilidade, e o sentido e a dignidade de Estado.

Este não é apenas um momento de tristeza, de profunda tristeza para mim apesar de não ser monárquico. Este é um momento que simboliza o fim de uma era.

Não posso deixar de expressar gratidão por ter tido a oportunidade de aprender com o seu exemplo e apresento os meus sentidos pêsames à sua família e a todos os ingleses.

Que descanse em paz!

Observador (PT)

A vitória de Bolsonaro no 7 de setembro não significa vitória nas eleições




A relevância do fato histórico por si já seria o suficiente para atrair todas as câmeras e veículos de comunicação. E lá estavam eles. Na obrigatória cobertura das celebrações patrióticas, foram levados a dar publicidade também para a micareta oficialista.

Por Guilherme Macalossi (foto)

Jair Bolsonaro colocou toda sua gente na rua no 7 de Setembro. O grosso da militância se fez presente, principalmente em cidades como Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo. Mas não apenas nelas. Em outras muitas, atos supostamente comemorativos da data serviram para acomodar uma gigantesca mobilização eleitoral. Dos líderes políticos brasileiros, ninguém tem nem de perto a capacidade de arregimentar seus apoiadores do que o atual presidente. E ele mostrou isso enchendo a Esplanada dos Ministérios, a orla de Copacabana e a Avenida Paulista. Uma demonstração de força.

Durante o dia, houve quem fizesse o esforço inútil de tentar minimizar a adesão maciça ao conjunto de manifestações. Cumpre perguntar a esses: qual outro candidato conseguiria juntar mais apoiadores nas ruas ao mesmo tempo em tantos lugares? Até Lula seria incapaz de tanto. A negação da realidade não é boa conselheira. Alguns, por rejeitarem Bolsonaro, acabam passando o ridículo de brigar com imagens que mostram outra realidade.

O presidente e seus aliados usaram o bicentenário da independência para capturar as atenções, no que foram muito bem-sucedidos. A relevância do fato histórico por si já seria o suficiente para atrair todas as câmeras e veículos de comunicação. E lá estavam eles. Na obrigatória cobertura das celebrações patrióticas, foram levados a dar publicidade também para a micareta oficialista. Bolsonaro usou a imprensa para amplificar seu discurso pelas redes de rádio e televisão, que o ajudaram a misturar o que era de interesse público com o que era apenas de seu interesse.

A estratégia de Bolsonaro mostrou-se acertada. A tão demonizada mídia lhe deu espaço desproporcional, com a quase exclusividade na cobertura jornalística durante toda a data. Enquanto seus concorrentes apareceram discretamente com notinhas ou breves citações, ele monopolizou noticiário. Teve espaço até mesmo para promover a autocelebração de sua suposta capacidade erétil.

Todas as imagens produzidas serão usadas para alimentar a indústria de narrativas que opera nas redes sociais, reforçando a mobilização política até o dia da eleição. As pesquisas que apontam Lula na dianteira serão contrastadas com fotos e vídeos do “povo na rua”. E, ainda que capacidade de mobilização política não signifique necessariamente adesão da maior parte do eleitorado (que permanece em silêncio) ou mesmo favoritismo, isso será o suficiente para manter a tropa aguerrida.

Para se reeleger, Bolsonaro aposta no mais descarado populismo econômico e político. Mandou às favas qualquer compostura, rasgou as regras fiscais e também as eleitorais. Não, nada do que viu no 7 de Setembro é capaz de determinar a vitória de Bolsonaro, ainda que ele possa vencer. O teor de sua mensagem, entre o ameaçador e o circense, não lhe abre pontes com os demais setores da sociedade. O candidato falava para sua bolha, achando que ela é o mundo inteiro.

Gazeta do Povo (PR)

Maior usina da Europa sofre novo ataque, e ONU aponta aumento de risco de acidente nuclear




Fumaça é vista saindo de planta nuclear de Zaporizhzhia após um incêndio no complexo em 24 de agosto de 2022

Central de Zaporizhzhia f
ica em território ucraniano ocupado pela Rússia. Na semana passada, a agência nuclear da ONU enviou uma missão à usina para avaliar riscos.

A agência nuclear da Organização das Nações Unidas (ONU) fez um novo alerta nesta sexta-feira (9) pelo aumento de risco de um acidente radioativo na central de Zaporizhzhia, a maior usina da Europa que fica em território ucraniano e está ocupada pela Rússia.

Há semanas, a usina tem sido alvo de bombardeios, e Moscou e Kiev se acusam mutuamente pelos ataques. A ONU enviou uma missão ao local na semana passada para vistoriar os riscos de um acidente nuclear sem precedentes, considerado alto.

Segundo Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), da ONU, a cidade de Enerhodar, onde fica a central, foi bombardeada nesta manhã. Com o ataque, a situação da cidade é "precária", segundo a agência.

O chefe da AIEA, Rafael Grossi, pediu um cessar-fogo imediato no local.

"Eu peço urgentemente que todos os bombardeios em toda a área sejam interrompidos. Apenas dessa forma a segurança da equipe que opera a usina será garantida".

Ainda segundo a AIEA, a cidade ficou sem energia após os ataques.

G1

O golpe que nunca vem e a democracia que nunca chega




O Brasil vive o paradoxo da instabilidade estável. Os bárbaros já chegaram e estamos esperando para ver se eles vão mesmo levar a barbárie até suas consequências extremas. 

De novo, não teve golpe.

Por Jerônimo Teixeira (foto)

A essa altura, é verdade, parece que ninguém mais esperava uma tentativa de golpe. Havia, isso sim, a expectativa de que o cardápio básico do bolsonarismo fosse servido no Dia da Independência: ataques à democracia, ao STF, às urnas. Dias antes dos comícios patriótico-eleitoreiros do 7 de setembro, Jair Bolsonaro havia chamado Alexandre de Moraes de “vagabundo”. Talvez fosse um passo a caminho da moderação: um ano atrás, o termo usado foi “canalha”.

Falo em moderação, bem entendido, para os padrões de Bolsonaro. No comício em Brasília, ele deu a deixa para a multidão vaiar o STF. Depois da vaia, emendou o chavão: “A voz do povo é a voz de Deus” (momentos antes, Deus, esse pândego, juntara-se aos gritos de “imbrochável, imbrochável”). Bolsonaro mandou ainda um recado velado ao STF, repetido em termos similares no comício em Copacabana: “Com uma reeleição, nós traremos para dentro das quatro linhas [da Constituição] todos que ousam ficar fora delas”. De novo, essa ameaça só parece velada para padrões bolsonaristas; na real, ela é tão gritante e escandalosa quanto o terno de papagaio do Véio da Havan.

A produção de um clima de tensão constante faz parte do teatro canastrão do presidente. Por isso ele xinga ministros do STF, ofende jornalistas com termos cafajestes e lança dúvidas boçais sobre a segurança das urnas eletrônicas. Mais recentemente, em resposta a um Judiciário que resolveu defender a democracia impondo a obrigação de que todos sejam democratas, Bolsonaro pegou o vezo de falar em “liberdade”, mas a gente sabe que essa defesa da livre expressão dura só até o próximo especial de Natal do Porta dos Fundos. E é assim que ele entusiasma os seguidores e alarma os opositores.

Sob a ameaça do golpe que não virá, o cenário político brasileiro vive o paradoxo da instabilidade estável. Tal como os cidadãos do império descrito em À Espera dos Bárbaros, poema do grego Konstantinos Kaváfis, estamos todos imobilizados, na expectativa de bárbaros que nunca chegam. Bem, o paralelo é imperfeito: no caso brasileiro, os bárbaros já chegaram, e estamos esperando para ver se eles vão mesmo levar a barbárie até suas consequências extremas.

Existe uma minoria ruidosa e vulgar que se sente frustrada porque o golpe não veio, não vem, não virá. São aquelas figuras histriônicas que no Dia da Independência levantavam faixas pedindo intervenção militar. E há outro grupo inflamado cujos sentimentos sobre o golpe comportam ambiguidades esquisitas: a esquerda petista.

O PT vem propagando a ideia de que Dilma Rousseff foi derrubada por um golpe. Alguns petistas de alto ou médio escalão às vezes hesitam em aderir à tese: em 2016, com o processo de impeachment ainda em curso, Fernando Haddad disse que golpe era uma palavra “muito dura”. Mas o grão-petista confirmou a palavra, em toda sua dureza: Dilma sofreu, sim, um golpe, disse Lula no debate entre candidatos à presidência na Band.

No governo Temer, começou a ganhar corpo uma conversa estranha sobre a necessidade de resistir ao golpe (isso quando não se falava em resistir ao fascismo!). A palavra “resistência” conjurava a miragem histórica do enfrentamento armado à ditadura militar. O documentário Democracia em Vertigem deu forma a essa ilusão, fundindo a trajetória dos pais da diretora Petra Costa, que participaram de um movimento clandestino contra o regime militar, à derrocada de Dilma Rousseff.

Depois que um capitão reformado que exalta a ditadura e seus torturadores foi eleito presidente, “resistência” tornou-se um clichê nos meios progressistas. Hoje, quando ouço um resistente gritando “golpe”, já não sei mais se ele está fazendo uma denúncia ou expressando um desejo recalcado. O jovem militante de rede social anseia pela fase final do golpe, em que os tanques ganharão as ruas – fazendo muita fumaça – e os porões do DOPS serão reabertos. Só assim seus pesadelos mais temidos e suas ilusões mais queridas se tornariam realidade.

Sei que também há gente adulta e razoável preocupada com as inegáveis aspirações antidemocráticas do bolsonarismo. No entanto, a fixação no fantasma do golpe vem acompanhada de um vício de análise: a cada vez que uma insinuação de ruptura não se cumpre, conclui-se que nossas instituições democráticas são vigorosas e estão funcionando. Na verdade, a submissão da máquina pública aos ditames da chamada guerra cultural – iniciada nos anos petistas, sim, mas radicalizada com Bolsonaro – já corroeu as tais instituições. E o desgaste não se limita ao Estado aparelhado por milicos e olavetes. Igrejas, escolas, empresas e até grupos familiares estão divididos por ideologias beligerantes.

No ano passado, entrevistei o filósofo inglês John Gray para a finada revista Época. O autor de O Silêncio dos Animais fez uma avaliação desalentadora sobre os Estados Unidos depois do governo Trump: o país ainda é uma democracia, com eleições limpas e regulares, mas não pode mais ser considerado uma sociedade liberal. O liberalismo de que Gray fala (e cujas ilusões critica em obras como Cachorros de Palha) não se limita ao livre mercado, mas se estende às liberdades individuais e às instituições que as sustentam. “Para se ter de fato uma sociedade liberal é preciso que exista uma grande variedade de instituições que não são marcadamente politizadas”, dizia Gray na entrevista. Essa condição já não se encontraria mais nos Estados Unidos. “Não acredito que uma sociedade liberal ainda esteja viva quando todas as instituições vivem em guerra interna e estão em guerra umas com as outras”, complementava o filósofo. Sem nunca ter desenvolvido uma sociedade liberal digna desse nome, o Brasil vive a mesma situação.

Revista Crusoé

Charles 3°, o príncipe que esperou a vida toda para ser rei




Antes tarde do que nunca. Aos 73 anos, filho mais velho da rainha Elizabeth 2ª finalmente assume o trono britânico, com a missão de conquistar a mesma popularidade da mãe.

Por Robert Mudge

Como filho mais velho da rainha Elizabeth 2ª e, portanto, próximo na linha sucessória ao reino britânico, Charles passou os 70 anos do reinado da monarca se preparando para ser rei. Ele foi o herdeiro do trono britânico que mais esperou para assumi-lo. Após a morte da mãe, ele é também o herdeiro mais velho a iniciar um reinado, aos 73 anos, passando a ser chamado de rei Charles 3º.

À frente da coroa, Charles 3° terá pela frente a missão de conquistar a mesma popularidade da mãe, que por sete décadas foi encarada como um símbolo de estabilidade e unidade, ajudando a manter a instituição da monarquia sem muitos questionamentos decisivos.

Para Charles, não deve ser uma tarefa tao simples. Uma pesquisa divulgada no primeiro semestre apontou que 75% dos britânicos avaliavam positivamente Elizabeth. A porcentagem foi de 42% para Charles, mais baixa que a do seu filho William, que aparece com 66%.

Pesquisa do YouGov do segundo trimestre deste ano mostra que, enquanto 75% dos britânicos tinham uma opinião positiva de Elizabeth 2ª, o índice para Charles é de 42%. Seu filho William, primeiro na linha de sucessão, tem 66%.

"A posse é cuidadosamente planejada, assim como os preparativos para o funeral da rainha, então de início a transição será suave. Depois, muito dependerá da reação do público à coroação, de como o próprio Charles se comporta, e do apoio que o governo lhe der", avalia Robert Hazell, professor de governo e Constituição no University College London.

O novo rei do Reino Unido teve bastante tempo para se acostumar à vida no foco do interesse público. Nos últimos anos, ele já vinha assumindo várias funções protocolares da mãe, conforme a saúde de Elizabeth entrava em declínio. Agora, a esposa de Charles, Camilla, deve receber o título de rainha consorte.

Filantropo e defensor do clima

Charles se formou no Trinity College de Cambridge em 1970, antes de embarcar numa carreira militar que culminou com o comando do navio caça-minas HMS Bronington.

No verão de 1981, casou-se com Diana Spencer, na época com 20 anos de idade, em parte de sangue real, em meio a enorme fanfarra midiática e entusiasmo popular. Lady Di, como ficou conhecida, era intensamente popular e acompanhada com curiosidade.

Anos de fofocas e escândalos levaram ao divórcio em 1996. Na época, consta que Charles haveria lhe dito: "Você seriamente espera que eu seja o primeiro príncipe de Gales a não ter uma amante?" – uma referência a seu amor de longa data, Camilla Parker Bowles, com quem se casaria em 2005. Diana morreu num acidente de automóvel em 1997.

Para além da vida amorosa, Charles se destaca como filantropo: ao lado da The Prince's Trust, ele tem apoiado diversas outras instituições de caridade, patrocinado programas educacionais e fundado iniciativas de arte. Como rei, espera-se que seguirá promovendo diversidade religiosa e a natureza cultural da Inglaterra moderna. 

Sua principal paixão, contudo, é o meio ambiente e o combate à mudança climática. Em 2007, fundou o Prince's Rainforest Project, uma iniciativa global para conscientizar e promover ações contra o desflorestamento tropical, com o respaldo de corporações, políticos e celebridades.

Envolvimento na política

Charles não herdou da mãe, a rainha Elizabeth 2ª, o instinto para se manter imparcial em questões políticas e sociais – o que tem suas vantagens e desvantagens: no passado ele não fez segredo de suas opiniões. A neutralidade política voou janela afora, por exemplo, no caso dos memorandos "aranha negra" – assim chamados devido à escrita garranchada do príncipe.

Publicados em 2015 pelo jornal The Guardian, após longa batalha legal, os documentos revelaram como ele praticara lobismo intenso com os ministros e políticos do governo britânico, em assuntos que iam da preservação de espécies de peixes ameaçadas e encomendas de equipamento militar para as tropas no Iraque, a pressionar pelo abate de texugos, a fim de sustar a propagação da tuberculose bovina.

Como rei, Charles terá que conter tais inclinações, antecipou Hazell. "O monarca deve ser escrupulosamente neutro em todos os assuntos políticos, como tem sido a rainha."

"Charles terá ocasião de expressar seus pontos de vista na audiência semanal com o primeiro-ministro, exercendo seu trio de direitos, de acordo com [Walter] Bagehot [autor da Constituição britânica]: ser consultado, encorajar e advertir." Caso vá além disso, "conto com que o governo lhe vá recordar os deveres de um monarca constitucional", comenta o professor do University College.

Escândalos passados

Em 2017, Charles se viu envolvido no vazamento dos assim chamados "Paradise Papers", que revelaram nomes de personalidades mundiais implicadas em investimentos offshore duvidosos. Seu caso supostamente envolvia negócios realizados nas ilhas Bermudas.

Emergiram relatos de que, ao pressionar por reformas na política de combate à mudança climática, em 2007, Charles se abstivera de divulgar que lucraria com as emendas através de seus empreendimentos no exterior. De sua parte, afirmou não ter qualquer envolvimento na conta offshore.

Mais recentemente, novas revelações sobre o escândalo real de "cash-for-honors" (dinheiro por honrarias). Alega-se que ricaços estrangeiros teriam obtido títulos de nobreza em troca de contribuições para The Prince's Foundation, instituição benemerente criada por Charles.

Em um dos casos, um magnata saudita teria sido ordenado cavaleiro por suas doações; em outro, um encontro com o príncipe teria sido prometido a um banqueiro russo. As revelações resultaram nas renúncias de três funcionários-chave da fundação, enquanto o príncipe nega ter tido conhecimento de tais práticas.

Segundo observadores, enquanto rei, será importante que Charles evite armadilhas desse tipo se deseja ter a opinião pública do seu lado.

Deutsche Welle

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