quarta-feira, junho 15, 2022

Bolsonaro é refém de um cruel inimigo




A percepção de empobrecimento é o que leva o eleitor a votar para não perpetuar a realidade

Por Maria Clara R. M. do Prado

Em 1º de janeiro de 2019, quando Bolsonaro assumiu a Presidência da República, o salário mínimo era de R$ 998 e uma cesta de 35 produtos básicos largamente consumidos nos supermercados custava R$ 465,57. Ou seja, 46,6% do piso salarial no mercado formal de trabalho comprava por mês 27 diferentes itens alimentícios como carne, frango, óleo de soja, arroz, sal, feijão, açúcar e leite, entre outros, além de oito bens essenciais para limpeza e higiene, como sabão em pó, desinfetante e papel higiênico.

Em abril deste ano, a mesma cesta de produtos custava em média R$ 758,72 nos supermercados, valor equivalente a 62,6% do salário mínimo atual de R$ 1.212,00. Em três anos e quatro meses de governo, o bolso dos eleitores brasileiros de renda mais baixa foi impactado com o aumento de 67,38% em média dos preços cobrados pelos mesmos produtos básicos, enquanto o salário mínimo subiu apenas 21,44% no período.

Para que os gastos da cesta em abril deste ano tivessem o mesmo peso no piso da renda mensal do trabalhador, o salário mínimo vigente hoje deveria ser de R$ 1.626,40. Esse é o valor que manteria o poder de compra ao nível em que estava em 1º de janeiro de 2019, levando-se em conta a variação de preços dos itens aqui considerados.

Diante dos números, é fácil identificar a inflação como o mais cruel e potente inimigo do presidente no atual processo eleitoral. A desvalorização do real terá influência essencial na decisão da massa eleitoral na hora de apertar o botão da urna com o nome do candidato à Presidência.

Bolsonaro prefere ignorar a piora da situação econômica no seu mandato, do mesmo modo como ignorou os efeitos da pandemia, mas não é cego. Com certeza consegue enxergar a relação direta entre defasagem do valor real do salário mínimo - e, em geral, do rendimento real do trabalho formal ou informal - e o fraco desempenho do seu nome junto às classes de renda mais baixas, conforme captado pelas pesquisas de intenção de voto. Afinal, cerca de 34 milhões de brasileiros sobrevivem com renda mensal de até um salário mínimo no país, o equivalente a 36% do total de trabalhadores ocupados, segundo dados do IBGE. Outros tantos se viram como podem em atividades esporádicas, muitas vezes com rendas mensais inferiores ao piso mínimo.

Também sabe que a esta altura não teria mesmo muito o que fazer. As tentativas de manipular o mercado de derivados de petróleo - sem esquecer as intervenções na própria Petrobras - no sentido de reduzir artificialmente os valores cobrados pelo diesel e pela gasolina não terão grande efeito na formação dos preços dos alimentos praticados no varejo, pois não chegam a ser determinantes para explicar elevações tão expressivas quanto as observadas em especial a partir de setembro de 2020 quando o IPCA mensal pulou de patamar.

Aumento do custo de produção dos alimentos, nível do câmbio, condições climáticas, preços internacionais, gargalos no fornecimento de matérias primas e bens intermediários, além de alguma dose de repasse da inflação têm contribuído para a elevação dos preços dos alimentos no varejo nos últimos 21 meses.

Para ter uma ideia do impacto da inflação dos itens básicos no poder de compra do salário mínimo usou-se aqui a seleção dos 35 produtos definida pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras) em parceria com a empresa alemã GfK, especializada em mercado e em consumo, na pesquisa mensal que realiza em todas as regiões do país junto a 325 lojas de supermercados desde agosto de 2001. A mudança do valor médio de venda entre um mês e outro é contabilizada através de uma espécie de índice chamado de abrasmercado. O último levantamento disponível refere-se aos preços captados em abril deste ano.

Uma outra cesta de referência para produtos básicos de consumo poderia ter sido escolhida, com resultados para mais ou para menos dentro de uma margem de oscilação de preços. Qualquer uma confirmaria o fato de a inflação ser particularmente dolorosa para as camadas mais pobres da população, conforme revelam várias instituições de pesquisa. Vale, portanto, comparar a variação dos preços dos produtos pesquisados pela Abras com os movimentos captados pelo IPCA, um índice que abrange uma imensa lista de itens, entre produtos e serviços.

Em abril, enquanto o IPCA apontou variação de 1,06%, o índice da Abras para a cesta de 35 produtos largamente consumidos nos supermercados acusou aumento de 3,04% em comparação com março. Em doze meses, até abril, o índice abrasmercado elevou-se em 17,87% muito acima dos 12,13% registrados pelo IPCA.

Há muito tempo os políticos brasileiros perceberam a importância da estabilidade no imaginário da ideia de bem-estar da população. O primeiro sinal surgiu com os fiscais do Sarney que se recusavam a aceitar o retorno à realidade de preços em alta poucos meses depois do “milagre” provocado pelo congelamento do Plano Cruzado.

Outros planos de estabilização se sucederam, sempre com grande apoio popular, mesmo em circunstâncias políticas tão anormais para a época com foi o trauma do primeiro impeachment de um presidente da República.

Fernando Henrique Cardoso nunca deixou de admitir que foi eleito presidente com a ajuda da estabilidade garantida pelo Plano Real, algo que seu então adversário de campanha, Luiz Inácio Lula da Silva, foi incapaz de perceber.

O atual governo poderia apontar fatores externos para explicar a inflação que tem marcado presença sistematicamente desde o final de 2020 e teria, a rigor, razão para fazê-lo, mas isso pouca mudança faria nas intenções de voto das classes mais baixas. O eleitor não mede de quem é a culpa pelo aumento dos preços no supermercado, apenas sente que com os mesmos reais não consegue comprar hoje o que conseguia meses atrás. A percepção de empobrecimento é o que o leva a votar com a esperança de que a realidade atual não será perpetuada.

Valor Econômico

O viável contra armas - Editorial




Acordo bipartidário oferece esperança de maior controle sobre produtos nos EUA

Na esteira da comoção causada pelos mais recentes morticínios nos Estados Unidos, um grupo de senadores democratas e republicanos anunciou um raro acordo bipartidário para restringir, ao menos parcialmente, o permissivo comércio de armas naquele país.

Trata-se de passo significativo num tema que está entre os mais divisivos da sociedade americana.

Em geral, os conservadores de lá veem nas armas um símbolo de autonomia individual, consagrado pela segunda emenda da Constituição. Qualquer tentativa de restringir esse direito é entendido como ingerência indevida do Estado na vida privada e uma violação de garantias fundamentais.

Já as forças mais à esquerda defendem o aumento das restrições aos produtos. Seu principal e mais persuasivo argumento são as repetidas matanças de civis, crianças em particular, cometidas por atiradores que, sem maiores dificuldades, adquirem até rifles de assalto.

A população apresenta-se dividida, com pequena maioria (52% na mais recente pesquisa Gallup) favorável a ampliar os controles, embora outros levantamentos tenham registrado percentuais mais elevados após os últimos ataques.

No Congresso, onde o lobby armamentista tem presença forte, a cizânia partidária vem bloqueando há décadas qualquer avanço maior em torno da questão.

Daí a importância do acordo consagrado no domingo (12). Assinada por dez senadores de cada legenda, a proposta é um caminho do meio entre as ambições democratas e as restrições republicanas.

Dentre as medidas, a mais relevante talvez seja a que aumenta o rigor na verificação de antecedentes de menores de 21 anos, incluindo pela primeira vez registros de saúde mental e comportamento.

O plano prevê ainda incentivos federais para que os estados promulguem as chamadas leis de bandeira vermelha, destinadas a retirar armas de fogo de pessoas consideradas uma ameaça a si mesmas ou a outros, além de ações de combate ao comércio ilegal.

As intenções ainda precisam ser concretizadas em legislação, e discordâncias acerca de alguns detalhes podem atravancar o processo —para nada dizer da oposição de grupos pró-armas e de parlamentares refratários a mudanças.

A despeito dos obstáculos, o acordo é visto como a melhor oportunidade em décadas para sustar o armamentismo no país. Cumpre fazer o possível, não aguardar o ideal.

Folha de São Paulo

Bolsonaro é ruim para os negócios - Editorial




Empresários precisam perceber que a ameaça do presidente de desobedecer ao STF e convulsionar o País é incompatível com um ambiente propício para empreender

O presidente Jair Bolsonaro foi aplaudido várias vezes por empresários reunidos em almoço na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ) durante um discurso em que voltou a mentir sobre o sistema eleitoral, a atacar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e a afirmar que não cumprirá decisões judiciais das quais discorda. 

Bolsonaro é o que é – um caso perdido. Mas é bastante preocupante, até mesmo contraditório, que um grupo de empresários compactue com essa retórica desestabilizadora. O interesse explícito de Bolsonaro em convulsionar o Brasil, investindo no caos institucional e social, é incompatível com um ambiente propício para o desenvolvimento dos negócios.

Referindo-se ao julgamento do marco temporal para demarcação de terras indígenas, ainda a ser julgado pelo STF, o presidente tornou a afirmar que não cumprirá a ordem judicial a depender do que a Corte decida. “Se aprovar isso (a constitucionalidade do marco), o que eu faço? Decisão do Supremo não se discute, se cumpre. É isso?”, perguntou Bolsonaro à plateia. Em coro, os comensais reunidos na ACRJ responderam “não”. 

É o caso de perguntar se aqueles empresários, de fato, concordam com essa desabrida ode à insegurança jurídica, tão nefasta para o florescimento da atividade econômica em qualquer país, feita por ninguém menos do que o presidente da República – que pretende ficar mais quatro anos no poder. Decerto é possível discordar de decisões judiciais, e aí está o extenso rol de recursos à disposição das partes de uma lide; descumpri-las, no entanto, é algo inconcebível à luz do Estado Democrático de Direito consagrado desde o preâmbulo da Constituição. Se a desobediência parte do presidente da República em pessoa, trata-se de grave ruptura da ordem constitucional.

A mera menção à hipótese de descumprimento de ordens judiciais por parte do presidente deveria ser objeto de pronto e manifesto repúdio por parte dos empresários. Para quem investe tempo e capital para abrir ou expandir seus negócios, não há nada mais sagrado do que o respeito aos contratos – e o mais importante dos contratos numa sociedade genuinamente democrática é aquele pactuado entre os cidadãos na forma de sua Constituição.

Nesse contrato, está escrito, no artigo 102, que a “guarda da Constituição” é competência precípua do Supremo Tribunal Federal. Assim, goste-se ou não, a interpretação final dos termos do contrato constitucional é do Supremo. Desrespeitar ordens do Supremo, portanto, equivale a desrespeitar a Constituição. Se o “guardião da Constituição” é desacatado, “a integridade do sistema político, a proteção das liberdades públicas, a estabilidade do ordenamento normativo do Estado, a segurança das relações jurídicas e a legitimidade das instituições da República restarão profundamente comprometidas”, como salientou em decisão de 1999 o então ministro Celso de Mello.

Logo, como se vê, um presidente da República não poderia nem cogitar de desacatar ordens do Supremo, pois somente a menção a essa possibilidade tem o condão de causar instabilidade. Por esse motivo, é incompreensível que empresários, que deveriam desejar a estabilidade, aplaudam a mera hipótese de uma ruptura, por mais fundados que sejam seus receios em relação a uma possível vitória do principal adversário de Bolsonaro, o petista Lula da Silva.

O movimento racional que é esperado de empresários ciosos da situação do País foi visto em setembro do ano passado. À época, mais de 240 importantes entidades representativas de diversos segmentos econômicos subscreveram um manifesto externando suas preocupações com a rusga entre Poderes da República e os reiterados ataques de Bolsonaro às instituições democráticas. São empresários que compreendem que a instabilidade política e jurídica pode ser muito boa para os interesses eleitorais do presidente-candidato, mas é péssima para o País e para os brasileiros. Vale dizer, são empresários que sabem muito bem que Bolsonaro é ruim para os negócios.

O Estado de São Paulo

Empatia seletiva




Por Merval Pereira (foto)

O senso de empatia do presidente Bolsonaro somente se revela quando um dos seus é atingido, como quando tomou um avião para ir ao Rio para o enterro de um paraquedista ou quando, por meio das redes sociais, lamentou a morte de Marília Mendonça, a rainha do feminejo, a música sertaneja por mulheres, ou do MC Reaça, assassinado. As mortes dos ícones da música brasileira João Gilberto ou Elza Soares não mereceram do presidente um tuíte.

Também não visitou hospitais durante a fase mais aguda da pandemia de Covid-19 e demorou meses para lamentar as mortes, que batiam recordes diários no país. Ao contrário, dizia com frequência que milhares de pessoas morriam diariamente no país de doenças variadas, tentando normalizar a tragédia que se abatia sobre nós.

Não é de admirar que agora, com a tragédia que atingiu o jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista Bruno Pereira, tenha demorado a se pronunciar e, quando o fez, tenha sido para lamentar que os dois fizeram “uma aventura” num território perigoso. Com o passar dos dias, a pressão internacional aumentando, Bolsonaro foi tentando amenizar sua carantonha, chegando a dizer que tudo indica que “fizeram uma maldade” com os dois. Agora, tardiamente, anuncia que visitará a Região Amazônica.

Mas voltou a demonstrar insensibilidade ao criticar o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso, que deu cinco dias ao governo para explicar sua atuação no caso. Irritado com o que julga ser uma interferência indevida, o presidente disse que milhares de pessoas desaparecem todos os dias no Brasil, e Barroso nunca se preocupou com elas. Uma tentativa canhestra de se justificar, fingindo que não sabe que, no caso atual, não se trata de pessoas desaparecidas por razões fortuitas, mas de um jornalista britânico e um indigenista brasileiro que trabalhavam na região, um fato de repercussão internacional, que envolve tráfico de drogas, garimpo ilegal, invasão de terras indígenas, falta de controle do governo nessas áreas, tudo o que é criticado no mundo inteiro.

Bolsonaro fica fingindo que são “apenas” mais duas mortes, mas essa tragédia não tem relação com o número de desaparecidos no Brasil. No mundo deve ser a mesma coisa; mesmo nos países desenvolvidos, deve sumir muita gente. Mas não some gente assassinada por grileiro, por traficantes de droga e de madeira. Não se pode normalizar uma coisa dessas. Temo que a informação da viúva do jornalista britânico esteja correta, pois, se os corpos já foram mesmo encontrados, e a Polícia Federal nega por razões inexplicáveis, seria mais um efeito colateral negativo para a imagem brasileira no exterior.

É uma tragédia brasileira. A atitude do governo desde o começo desse caso foi um desastre. Dizer que o local em que os dois estavam era “perigoso” é praticamente uma admissão de culpa, porque o governo não controla a fronteira da Amazônia com os países vizinhos, território livre para tráficos. O ambiente na Região Amazônica piorou muito porque seu governo é leniente com garimpeiros e exploradores de madeira ilegais.

O tráfico internacional de drogas aproveita-se dessa leniência do governo com os territórios indígenas para se expandir pelo Brasil, numa conjunção de organizações criminosas que se interligam. Há tráfico de tudo: ararinhas-azuis, que valem uma fortuna e correm o risco de extinção, tornando-se mais valiosas; peixes ornamentais; madeira; ouro. E o governo brasileiro não tem um planejamento para combater os crimes nesses territórios, dominados pelas mais diversas gangues, inclusive internacionais.

A política leniente do governo Bolsonaro com a exploração da Amazônia vem desde o início do mandato e fez com que o já precário sistema de proteção da floresta e dos indígenas se tornasse praticamente inexistente. A visão distorcida de Bolsonaro, de que existe muita área valiosa para poucos índios — que ele não valoriza — , fez com que os crimes aumentassem na região. O governo não compreende que a imagem no Brasil sofre desgastes enormes cada vez que o recorde de devastação da Amazônia aumenta ou que um bandido da floresta assassina um jornalista estrangeiro que se especializou justamente na cobertura da região para jornais internacionais como The Guardian ou The New York Times.

Nem que fosse por esperteza política, Bolsonaro deveria ter sido mais enfático nas suas declarações e preocupações com a Região Amazônica. Mas aí não seria quem é.

O Globo

Cúpula das Américas




O diálogo entre os EUA e a América Latina e o Caribe encontra-se hoje num dos piores momentos desde o fim da guerra fria.

Por Rubens Barbosa* (foto)

A 9.ª Cúpula das Américas, reunindo chefes de Estado dos países da região, ocorreu na semana passada em Los Angeles, nos EUA, em circunstâncias muito diferentes da primeira reunião, organizada em Miami em 1994, quando os EUA apresentaram a proposta de uma Área de Livre-comércio nas Américas (Alca). O encontro foi realizado num momento difícil para o anfitrião, às voltas com o apoio à Ucrânia na guerra contra a Rússia e a disputa pela hegemonia global com a China. A divisão interna nos EUA impediu que propostas dos dois partidos pudessem ser formuladas e apresentadas por Joe Biden. A América Latina está bem abaixo nas prioridades da política externa dos EUA. Em pronunciamento recente sobre as prioridades do país nesta área, o secretário de Estado, Antony Blinken, nem mencionou a América Latina. O diálogo entre os EUA e a América Latina e o Caribe encontra-se hoje num dos piores momentos desde o fim da guerra fria.

Os EUA formularam sugestões consistentes e coerentes com seus próprios interesses na defesa da democracia e do meio ambiente, na imigração e na expansão do comércio e do investimento, mas ignoraram questões sociais relacionadas com a desigualdade social e as dificuldades econômicas em praticamente todos os países da região. Mal preparados pelo atraso na organização dos documentos e na escolha dos temas para discussão, os EUA não convidaram Cuba, Venezuela e Nicarágua. Essa decisão equivocada de Washington acarretou o esvaziamento parcial da reunião, pelo boicote dos presidentes do Mexico, Guatemala, Honduras, El Salvador e Bolívia, que, junto com outros países, reconhecem que as sanções e o isolamento impostos por Washington não trouxeram de volta a democracia. O Brasil, apesar de o Itamaraty recomendar a presença presidencial, só decidiu participar depois do oferecimento de encontro com Biden, à margem da reunião. O único intuito foi atender à prioridade de política eleitoral interna de Bolsonaro, ou seja, a chance de uma foto.

Neste contexto, os EUA perderam uma oportunidade para tentar recuperar a liderança nos países hemisféricos, quando estão enfrentando crescente desafio econômico e comercial na região em virtude da cada vez maior presença da China, da Rússia e do Irã, além da ameaça do envio de tropas da Rússia para a Venezuela e Cuba, a depender da evolução da guerra na Ucrânia. A Cúpula, que poderia ter sido uma oportunidade para Washington mostrar a força de sua liderança ameaçada, expôs a queda da influência dos EUA no hemisfério. O diálogo com os EUA tornou-se mais difícil, também, pela fragmentação econômica e ideológica dos países e pelo populismo de esquerda e de direita emergente, o que impede o aparecimento de uma liderança regional efetiva. A liderança tem um preço. O Brasil, nos últimos anos, renunciou à liderança sul-americana. Será que os EUA seguirão os passos do Brasil na América Latina e no Caribe?

A ideia central dos EUA foi a proposta de uma “parceria para a prosperidade econômica” no hemisfério, para se contrapor à crescente influência da China na região, com investimentos, o fortalecimento das cadeias de suprimento e uma evolução dos acordos comerciais existentes. Ainda vaga e sem detalhes, a proposta focará em “parceiros com posições políticas parecidas que já tenham acordos comerciais com os EUA”. O pacote inclui, ainda, uma declaração sobre imigração e a promessa de US$ 300 milhões em ajuda. Foram anunciados, também, a criação de um Corpo de Saúde das Américas, talvez para se contrapor aos “médicos cubanos”, e a doação de US$ 12 milhões ao Brasil e à Colômbia para a preservação da Amazônia. Também foi assinado, por apenas 14 países, documento sobre boas práticas regulatórias no comércio.

Além da retórica (“a América Latina não é o nosso quintal, mas nosso jardim”), os documentos divulgados ao fim da Cúpula focalizaram, entre outros temas, o fortalecimento da democracia, direitos humanos, novas tecnologia, desenvolvimento sustentável e futuro verde. Não significam uma mudança de política e pouco acrescentaram.

Não por acaso, o documento com maior divulgação foi a declaração sobre imigração, assinada por 20 chefes de Estado, entre os quais o presidente Bolsonaro. Esse foi o tema de maior interesse do governo americano, mas 11 países não assinaram o documento e os quatro países de maior imigração para os EUA – México, Guatemala, Honduras e El Salvador – não compareceram com seus chefes de Estado. A declaração, que não é obrigatória, propõe a busca de financiamento de bancos internacionais para as questões migratórias, o reforço de modelos de migração temporária para trabalho e a retomada de programas de reagrupamento familiar de imigrantes. Os objetivos declarados são melhorar o acesso aos serviços públicos, como saúde, e promover a inclusão social e econômica deste grupo.

Como expressão clara da reduzida importância da Cúpula das Américas para os EUA, nem o The New York Times nem o The Washington Post, nas edições de sábado, publicaram qualquer informação sobre os resultados do encontro, limitando-se a noticiar que o presidente Biden, em campanha para aumentar o isolamento da Rússia, está encontrando resistência dos países latino-americanos que mantêm relações econômicas e comerciais com Moscou.

*PRESIDENTE DO INSTITUTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS E COMÉRCIO EXTERIOR (IRICE)

O Estado de São Paulo

Presidente ucraniano pede às tropas que 'aguentem' batalha-chave no Donbass




O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, encorajou na noite desta terça-feira (13) suas tropas a "aguentar" os ataques russos na região leste do Donbass, em uma batalha que ele considera "vital" para o curso da guerra.

"É vital permanecermos no Donbass", disse o presidente em sua mensagem diária à população. "A defesa da região é essencial para dar uma indicação de quem vai dominar [no terreno] nas próximas semanas", afirmou.

"Temos que aguentar", completou Zelensky em um vídeo gravado do lado de fora da sede do governo em Kiev.

As forças russas intensificaram o cerco à cidade industrial de Severodonetsk, que já controlam em grande parte, e tentam isolar as defesas ucranianas destruindo as três pontes que a ligam à vizinha Lysychansk.

Ambas as cidades, separadas pelo rio Donets, são o último reduto de Kiev em Lugansk, uma das duas regiões que, juntamente com Donetsk, compõem a bacia de mineração do Donbass.

Diante desse ataque, as autoridades ucranianas estão multiplicando seus pedidos de armas de países ocidentais, um pedido ao qual o secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, aderiu neste terça-feira.

"A Ucrânia deveria ter mais armas pesadas, porque depende absolutamente disso para poder lidar com a brutal invasão russa", disse Stoltenberg após uma reunião com líderes de sete aliados europeus em Haia.

Nesse sentido, Zelensky denunciou que "os russos têm dez, cem vezes mais armas" do que as tropas ucranianas e sua vice-ministra da Defesa, Anna Maliar, denunciou que seu país recebeu apenas "10% das armas que indicamos precisar".

Os Estados Unidos já começaram a entregar armas pesadas à Ucrânia e, nesta quarta-feira, seu secretário de Defesa, Lloyd Austin, presidirá uma reunião em Bruxelas com aliados para discutir uma possível aceleração das entregas.

- "Bombardeiam e bombardeiam" -

Para a Rússia, controlar Severodonetsk abriria o caminho para avançar em direção a outra grande cidade do Donbass, Kramatorsk, um passo importante para conquistar toda esta região que já está parcialmente sob controle de rebeldes apoiados por Moscou desde 2014.

"Os russos tentam cercar os ucranianos em Severodonetsk, Lysychansk e em algumas localidades próximas, como Pryvillia e Borivske", disse o governador de Lugansk, Serguei Gaiday. De acordo com ele, as forças de Moscou receberam reforços de "dois grupos de batalhões táticos".

"A situação é muito grave", acrescentou o governador, que na segunda-feira admitiu que as forças ucranianas foram expulsas do centro de Severodonetsk após semanas de resistência.

Oleksandr Striouk, prefeito de Severodonetsk, informou a destruição de uma terceira ponte que ligava a cidade com Lysychansk após "bombardeios em larga escala", mas afirmou que a cidade não está isolada. "Há canais de comunicação, mas são complicados", disse.

O prefeito também informou que "540 a 560 pessoas" estão refugiadas nos túneis subterrâneos da fábrica de produtos químicos Azot, que foi bombardeada.

O exército russo anunciou que pretende organizar um corredor humanitário na quarta-feira para os civis entrincheirados na fábrica Azot, que serão enviados à zona de Lugansk controlada pelos separatistas pró-russos.

Em Lysychansk, cujo terreno elevado possibilita que as forças ucranianas ataquem os russos em Severodonetsk de uma posição privilegiada, os danos são imensos e a cidade está sem fornecimento de água potável, energia elétrica e cobertura de telefonia.

Restam poucos moradores, expostos a morrer a qualquer momento em uma explosão. "Eles bombardeiam e bombardeiam e não sabemos o que fazer", disse Yevgueniya Panicheva, cujos vizinhos morreram quando uma bomba caiu em seu jardim.

Em relação a Mariupol, que caiu no final de maio, o governo ucraniano indicou ter recebido os corpos de 64 militares que morreram em Azovstal em uma troca com a Rússia, que também recuperou um número não especificado de corpos.

- Crítica do papa -

O papa Francisco, que já fez diversos apelos à paz desde o início do conflito, condenou a "brutalidade" das tropas russas contra um povo ucraniano "corajoso".

"O que vemos é a brutalidade e a ferocidade com que esta guerra está sendo travada pelas tropas, geralmente mercenárias, utilizadas pelos russos. Os russos preferem enviar chechenos, sírios, mercenários", lamentou Francisco.

Na frente diplomática, a Rússia anunciou nesta terça que proibirá a entrada em seu território de 49 cidadãos britânicos, jornalistas e representantes do setor da Defesa.

Além do Donbass, os combates também acontecem no sul da Ucrânia. O comando sul das tropas ucranianas relatou batalhas aéreas e ataques de helicópteros russos contra posições ucranianas em Mykolaiv e Kherson.


Em Mykolaiv, um importante porto no estuário do Dnieper, o avanço russo parou nos arredores da cidade e o exército ucraniano cavou trincheiras na região.

Os ucranianos temem que os russos organizem em breve um referendo na região de Kherson, perto da península da Crimeia, e em outras áreas ocupadas pelas forças russas, visando a anexação à Rússia.

AFP / Estado de Minas

O território russo na Europa que pode ser 'cercado' por países da Otan




Cidade portuária fundamental no mar Báltico, Kaliningrado possui o único porto da região que permanece livre de gelo durante todo o ano

Após a invasão militar russa na Ucrânia, dois países nórdicos tradicionalmente neutros reverteram sua política e pediram para ingressar na Otan, a aliança militar do Ocidente: Finlândia e Suécia.

Alguns analistas acreditam que a decisão é um "desastre" para Moscou, que sempre considerou a expansão da aliança uma ameaça para sua segurança.

Mas o presidente russo, Vladimir Putin, surpreendeu a muitos em maio de 2022, ao afirmar que não há "nenhum problema", desde que os novos membros da Otan não abriguem infraestrutura militar no seu território, especialmente armas nucleares.

O que ficou claro é que o mapa estratégico da região será totalmente diferente quando a Finlândia e a Suécia ingressarem na Otan.

"O mar Báltico será efetivamente convertido em um lago da Otan", segundo declarou recentemente Andrey Kortunov, chefe do Conselho de Assuntos Internacionais da Rússia, um centro de estudos sediado em Moscou, afiliado ao Ministério das Relações Exteriores russo.

De fato, com a Suécia e a Finlândia passando a integrar a Otan, a Rússia conservará cerca de 200 km no litoral do mar Báltico. Já os países da aliança ocuparão 90% dos outros 8.000 km de costa: Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Alemanha, Dinamarca e os novos membros, Suécia e Finlândia.

Mas, incrustado entre a Polônia e a Lituânia, fica o oblast de Kaliningrado - um exclave, região russa ladeada por outras nações.

Com pouco menos de um milhão de habitantes, Kaliningrado tornou-se um ponto estratégico nas divisões cada vez mais profundas entre o Ocidente e a Rússia.

Existem analistas que garantem que esse pequeno território é fundamental, tanto para a ofensiva de Moscou contra a Ucrânia, quanto para garantir suas defesas contra eventuais hostilidades dos países da Otan. E há até relatos de que a Rússia já instalou armas nucleares no local.

De Königsberg a Kaliningrado

Kaliningrado é atualmente um dos 46 oblasts da Rússia, mas é o único que não tem fronteira terrestre com o país. Além da sua importância estratégica e militar, Kaliningrado tem grande importância histórica, tanto para a Europa, quanto para a Rússia.

As origens históricas do território remontam a muito tempo atrás e apresentam estreita relação com o destino da Prússia Oriental e sua capital, Königsberg. A antiga cidade foi fundada em 1255 pelos Cavaleiros Teutônicos - uma cruzada católica de origem alemã que governou a Prússia.

Quando a Prússia Oriental se separou da Alemanha após a Primeira Guerra Mundial, o território seguiu sendo parte da Alemanha até princípios de 1945. No final da Segunda Guerra Mundial, ele foi conquistado pelo Exército Vermelho da União Soviética.

A Conferência de Yalta definiu a divisão do território entre a Polônia e a URSS, que foi formalizada em Potsdam, em 1945. Seu nome russo é derivado de Mikhail Kalinin, que foi um dos principais membros do movimento comunista bolchevique e chefe de Estado da União Soviética entre 1922 e 1946.

'Exercícios militares envolvendo a Frota Báltica vêm sendo regularmente realizados em Kaliningrado'

Entre a Rússia e o Ocidente

Kaliningrado abriga o único porto do mar Báltico livre de gelo durante todo o ano. Por isso, a cidade portuária é fundamental, tanto para a Rússia quanto para os Estados bálticos, para garantir o transporte e o comércio em toda a região, onde as temperaturas costumam ficar abaixo de zero durante grande parte do inverno.

Mas, além do transporte e do comércio, Kaliningrado é uma região estrategicamente vital para a Rússia, devido à sua posição geográfica no mar Báltico e sua proximidade com a Otan. Ela abriga a Frota Báltica da Rússia e é o território mais ocidental de Moscou, perto do coração da Europa.

Em maio de 2022, a Frota Báltica anunciou que realizaria uma série de ataques com mísseis simulados do seu sistema Iskander, que possui capacidade nuclear. O sistema de mísseis Iskander foi introduzido pela primeira vez na região em 2016 e atualizado em 2018, como parte de uma estratégia russa para contrabalançar o desenvolvimento de um escudo de defesa antimísseis balísticos na Europa pela Otan.

Exercícios militares regulares com a participação da Frota Báltica vêm ocorrendo em Kaliningrado desde a invasão da Ucrânia.

"Kaliningrado é um ponto central das preocupações de segurança da Rússia desde que foi anunciada a primeira onda de ampliação da Otan, na década de 1990", segundo Ruth Deyermond, professora de segurança pós-soviética do Departamento de Estudos da Guerra do King's College de Londres.

"Inevitavelmente, nos períodos em que aumentam as tensões entre a Rússia e a Otan, também aumentam as preocupações sobre Kaliningrado", declarou ela à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.

Kaliningrado já é fortemente militarizada há anos, mas a presença militar russa na região foi reforçada depois da anexação da Crimeia pela Rússia em 2014. E, quanto mais se deterioram as relações entre a Rússia e o Ocidente, mais reforçada é a presença militar das duas partes na região.

"Não surpreende que essa região, que provavelmente é a parte da Europa com maior concentração de forças da Rússia e da Otan, seja agora o foco de maiores preocupações de segurança por ambos os lados", afirma Deyermond.

'O sistema de mísseis Iskander foi introduzido pela primeira vez em Kaliningrado em 2016'

Os riscos

A Rússia não desmente, nem reconhece, que tenha instalado armas nucleares em Kaliningrado e costuma usar linguagem vaga sobre essas acusações.

"A instalação desta ou daquela arma, o deslocamento de unidades militares etc. em território russo são exclusivamente assuntos de soberania da Federação Russa", afirmou em 2018 o porta-voz do Kremlin Dmitry Peskov.

Mas algumas autoridades, como o presidente da Lituânia, Gitanas Nausėda, garantem que Moscou já instalou armas nucleares naquela região estratégica do Báltico.

Analistas militares acreditam que, se a Otan interviesse no conflito atual na Ucrânia ou se Moscou apontasse suas armas para outras ex-repúblicas soviéticas, como a Lituânia, Kaliningrado poderia ser uma plataforma de lançamento para um ataque da Rússia a esses países.

Mas Stefan Wolff, professor de segurança internacional da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, não acredita que este seja atualmente um cenário provável.

"Não tenho a impressão de que a Rússia esteja considerando seriamente uma escalada, nem que detenha os recursos para fazê-lo no momento", afirmou ele à BBC News Mundo. "Mas é uma possibilidade a longo prazo. Por isso, seria importante fortalecer agora as capacidades defensivas da Otan para dissuadir qualquer movimento da Rússia no futuro."

Os especialistas concordam que, quando a Suécia e a Finlândia passarem a ser membros da aliança, é provável que a Rússia fortaleça sua posição militar em Kaliningrado. Mas isso, segundo Ruth Deyermond, "deve ser provavelmente compreendido mais como algo de caráter defensivo. A Rússia estará protegendo seu território contra a Otan, e não se preparando para atacar a Polônia ou os estados bálticos."

Não se sabe quanto tempo pode demorar o processo de ratificação da inclusão da Suécia e da Finlândia no Otan. Normalmente, esse tipo de processo dura menos de um ano, mas já se afirmou que, neste caso, alguns membros da aliança poderiam pressionar para acelerar esse trâmite, como os Estados Unidos.

Enquanto isso, os especialistas acreditam que o território fortemente militarizado de Kaliningrado poderia tornar-se um ponto fundamental para a ofensiva da Rússia contra a Ucrânia.

"Ainda não é fundamental, mas sua importância pode aumentar se houver uma escalada entre a Rússia e a Otan ou se a Rússia iniciar operações de desestabilização nos Estados bálticos ou na Polônia", destaca Stefan Wolff.

Para Ruth Deyermond, o risco mais grave não é uma invasão deliberada, nem o uso intencional de armas nucleares. "O risco mais grave no Báltico é um erro de cálculo ou um mal-entendido que provoque uma escalada que ninguém deseja."

"A região é pequena, o terreno não oferece barreiras naturais significativas e há muito pessoal militar, muito próximos uns dos outros. Isso fornece condições favoráveis para que um acidente saia de controle", explica ela.

"Mas, enquanto todas as partes estiverem conscientes dessa possibilidade, como acredito que estejam, o risco pode ser administrado", assegura a especialista do King's College.

BBC Brasil

Taiwan: EUA e China podem entrar em guerra pela ilha?

 




Ministro da Defesa da China criticou EUA por comentários recentes sobre Taiwan

Por Tessa Wong

Semanas após o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, alertar a China sobre Taiwan, o governo chinês fez sua declaração mais incisiva até agora sobre o tema, dizendo que "esmagaria resolutamente qualquer tentativa" de independência da ilha.

No domingo (12/6), o ministro da Defesa da China, general Wei Fenghe, acusou os EUA de apoiar a independência de Taiwan, dizendo que os americanos estavam "violando sua promessa em Taiwan" e "interferindo" nos assuntos da China.

"Vou deixar isso claro: se alguém ousar separar Taiwan da China, não hesitaremos em lutar. Vamos lutar a todo custo e vamos lutar até o fim. Esta é a única opção para a China", disse o ministro durante o Diálogo Shangri-la, uma cúpula de segurança asiática realizada em Singapura.

Biden havia dito que a China estava "flertando com o perigo" ao pilotar seus aviões de guerra perto de Taiwan. O americano prometeu proteger a ilha militarmente caso ela seja atacada.

Taiwan, que se considera uma nação soberana, é historicamente reivindicada pela China. Já a China a considera uma província "rebelde". Mas Taiwan tem nos EUA seu maior aliado. Uma lei americana determina que os EUA ajudem a ilha a se defender.

A escalada na retórica dos dois países ocorre em um momento em que a China envia cada vez mais aviões de guerra para a zona de defesa aérea de Taiwan, enquanto os EUA deslocam navios de guerra para as águas da ilha.

Os EUA e a China estão perto de um conflito militar?

Tensões maiores

Um grande temor é que uma guerra comece com a China invadindo Taiwan. O governo de Pequim disse no passado que pode retomar o controle da ilha à força, caso seja necessário.

Mas a maioria dos analistas diz que isso não é provável — pelo menos por enquanto.

Existe um debate entre especialistas sobre se a China tem capacidade militar para conseguir tomar Taiwan. A ilha tem aumentado consideravelmente suas defesas aéreas e marítimas.

Mas muitos concordam que até mesmo Pequim reconhece que essa medida seria cara e desastrosa, não apenas para a China, mas também para o restante do mundo.

"Há muita retórica, mas os chineses precisam ter muito cuidado se quiserem invadir Taiwan, especialmente neste momento tão perto da crise da Ucrânia. A economia chinesa está muito mais interconectada com a economia global do que a da Rússia", diz William Choong, do Instituto de Estudos do Sudeste Asiático, um instituto de pesquisas ligado ao governo de Singapura.

A China tem consistentemente dito que busca "reunificação pacífica" com Taiwan — um argumento que o general Wei repetiu no domingo — e que só agiria caso enfrentasse uma provocação.

Um exemplo do que a China pode considerar como provocação seria Taiwan declarar formalmente a sua independência. Mas isso é algo que a presidente Tsai Ing-wen evita com bastante ênfase. Na visão dela, Taiwan já é um Estado soberano.

A maioria dos taiwaneses apoia essa posição — conhecida como "mantendo o status quo" — embora haja quem queira avançar rumo à independência.

Da mesma forma, os EUA estariam relutantes em se envolver em um conflito militar caro na Ásia e repetidamente sinalizaram que não querem a guerra.

O secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, que também participou do Diálogo, disse em seu discurso que os EUA não apoiam a independência de Taiwan, nem querem "uma nova Guerra Fria".

"Ambos os lados mantêm suas armas em Taiwan. Eles (EUA e China) precisam parecer fortes e não querem ser vistos como se estivessem recuando", diz Collin Koh, pesquisador da Escola S Rajaratnam de Estudos Internacionais, em Singapura.

"Mas, ao mesmo tempo, eles estão muito cuidadosos sobre entrar em um conflito direto. Estão olhando para a retórica um do outro com olhos bem abertos, e ambos os lados estão tentando medir o risco."

Um encontro entre Gen Wei e Austin no Diálogo Shangri-la foi visto como um sinal positivo, mostrando que ambos os lados querem mostrar que "ainda estão dispostos a sentar e conversar, chegar a um consenso, e que concordam em discordar", assinala Koh.

Isso, disse o pesquisador, reduziria a possibilidade de erros de cálculo que resultariam em um conflito e a um "revigoramento geral do diálogo" — algo que estava faltando no governo de Donald Trump (2017-2021).

'Recentes comentários de Biden sobre Taiwan foram vistos por alguns como mudança de tom na política dos EUA'

Apesar disso, analistas acreditam que China e EUA continuarão com tensa retórica no futuro próximo.

A China pode até intensificar sua "guerra de zona cinzenta" projetada para desgastar as forças militares e a paciência de Taiwan, enviando mais aviões de guerra e criando campanhas de desinformação, diz Ian Chong, especialista em China da Universidade Nacional de Singapura.

No passado, Taiwan acusou a China de criar campanhas de desinformação antes das eleições na ilha. Taiwan realizará importantes eleições no final do ano.

Pelo menos para os EUA e a China, "não há vontade política de mudar de posição" por enquanto, particularmente com eventos significativos no horizonte — as eleições de meio de mandato dos EUA em novembro e o 20º Congresso do Partido Comunista da China na segunda metade do ano, em que se espera que o presidente chinês Xi Jinping consolide ainda mais seu poder.

"O lado bom é que nenhuma das partes está disposta a aumentar as tensões", diz Chong.

"Mas a não escalada não significa que chegaremos a um patamar melhor. Portanto, estamos todos presos nessa posição por um tempo."

BBC Brasil

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