segunda-feira, dezembro 06, 2021

Justiça declara inelegível o governador afastado do Tocantins

 Mauro Carlesse não poderá concorrer a cargos públicos até 2028

Mauro Carlesse está afastado do governo do Tocantins
Mauro Carlesse está afastado do governo do Tocantins | Foto: Nilson Chaves/Governo do Tocantins

A Justiça Eleitoral tornou inelegíveis o governador afastado do Tocantins, Mauro Cerlesse (PSL), a prefeita de Gurupi, Josi Nunes (Pros), e o vice-prefeito da cidade, Gleydson Nato (PTB). De acordo com a sentença, Carlesse usou recursos públicos para beneficiar Josi nas eleições municipais de 2020. Nenhum deles poderá concorrer a cargos públicos até 2028.

A decisão do juiz Nilson Afonso da Silva, da 2ª Zona Eleitoral de Tocantins, mostra que Carlesse praticou abuso de poder por meio da cessão de servidores públicos do Estado em prol da candidatura da atual prefeita. O magistrado argumenta que membros da Secretaria de Estado de Comunicação fizeram parte da coordenação de marketing e produção de propaganda eleitoral.

A decisão em primeira instância também afasta Josi e Gleydson do mandato na prefeitura do município. Segundo Nilson da Silva, os políticos foram diretamente beneficiados pelas práticas adotadas por Carlesse. A decisão é baseada em uma denúncia formalizada por Gutierres Torquato (PSB) e Eduardo Fortes, candidato a prefeito e vice-prefeito derrotados em Gurupi.

Carlesse fora do jogo

Em outubro, o político foi afastado do governo estadual por determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Ele é investigado em outro processo por envolvimento num esquema de propina e também por intervenção política em investigações policiais. Carlesse falou sobre essas acusações dois dias após seu afastamento e negou o cometimento de quaisquer crimes.

https://revistaoeste.com/politica

Nota da redação deste Blog - Enquanto isso, em Jeremoabo simplesmente nada e nada...

Esses cidadãos que a Justiça Eleitoral tornou inelegíveis em comparação ao atual prefeito de Jeremoabo, não passa de um aprendiz, de um neófito; pelo que consta na matéria o motivo principal para decretação da inelegibilidade foi haver usado o aparato público em benefício da candidatura à prefeitura de Gurupi(TO) .

Já o atual prefeito de Jeremoabo além de supostamente haver usado o aparato público, ainda reforçou faltando 3 ou 4 dias para o pleito, trazendo terceiros para prometer a população jeremoabense mais de 4.000 empregos, inclusive avisando que a população procurasse seu vice-prefeito para apresentar o curriculum-vitae, fato esse caracterizado como verdadeiro  estelionato eleitoral, já que passaram-se mais de ano e emprego até agora nada.

Como dizem que a justiça tarda mais não falha, só resta ao povo de Jeremoabo aguardar por uma decisão da justiça.

Violência em Paulo Afonso tem linha direta com o desemprego

 


Luiz Brito DRT/BA 3.913
Foto: Divulgação CUT

Um tempo atrás prevíamos o crescimento da violência em Paulo Afonso como consequência direta do aumento do desemprego.

A queda da economia na cidade, a falta de trabalho, e a paralisação das obras do "trecho", mudaram o perfil principalmente dos jovens, que tempos atrás experimentaram generosos salários e um modo de vida com poder maior de compra.

Com a mudança brusca do padrão social, que se tornou insustentável, muitos buscaram as drogas, seu comércio e a delinquência para manter seu "status quo".

A falta de perspectiva de empregos e renda na cidade, a falta de incentivo ao esporte e a cultura também contribuem para isto.

Não adianta somente reforçar a segurança pública, precisa atacar na base, oferecer melhores condições de vida para que o crime não seja opção sobrevivência.

Tempos difíceis hoje, e do jeito que anda, uma cidade com prefeitura falida e sem comando, não se ver nenhuma luz para o amanhã.

Nota da redação deste Blog - Esse fato também já era previsto para acontecer em Jeremoabo, principalmente pela falta de incentivos e assistência ao cidadão residente na Zona Rural onde abandonaram as roças mudaram-se para a cidade sem perspectiva de emprego.

A situação ainda não está pior devido os benefícios sociais bancados pelo governo federal, juntamente com aposentadorias rurais e urbanas.

Jeremoabo uma cidade pacata, tranquila onde sempre imperou a paz, está tornando-se uma cidade violenta, principalmente com assassinatos e assaltos que acontecem quase toda semana; violência essa na sua quase totalidade praticadas por jovens, sinal de que só construir prédios no caso delegacia em nada irá adiantar, com isso não quero dizer que não há necessidade dessas construção, mas não passa de uma simples gota d'água no oceano.

Paulo Afonso tem companhia do exercito, tem companhia da polícia, tem polícia civil, polícia federal e diariamente está havendo assassinatos, assaltos em plena luz do dia no centro da cidade..

No meu entender a causa principal é a falta de emprego, os poucos empregos que existem em Jeremoabo é na prefeitura, onde para complicar a situação o prefeito só emprega seus apadrinhados, seus eleitores ou seus adeptos, cometendo mais injustiças, insatisfação, revolta, tratando a coisa pública com verdadeira " Casa de Mãe Joana".

Com isso a quase totalidade dos jovens permanecem desocupados, sem perspectiva de melhora com um futuro incerto, apelam para drogas, e as consequências nefastas começam a aparecer.

Conselho e água benta só se dá a quem pede, mesmo assim citarei para  meditação do prefeito uma frase dita por  Tancredo Neves, “quando a esperteza é muita, come o dono”.


 

Quanto mais ocultas, mais fétidas serão as emendas ao Orçamento

 




O patrimonialismo surge quando não existe distinção entre o público e o privado, as duas coisas se misturam. É o que está acontecendo no Congresso com as emendas secretas

Por Luiz Carlos Azedo (foto)

Nova semana de queda de braços entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF) teremos pela frente. Na aprovação da PEC dos Precatórios, a maioria do Senado manteve o sigilo sobre as emendas já executadas e adotou uma espécie de “me engana que eu gosto” em relação às que ainda não foram liberadas, ao propor que prefeituras, governos estaduais, órgãos federais e instituições da sociedade encaminhem “diretamente” ao relator os seus pedidos de emendas. A malandragem permite que os “padrinhos” desses pedidos não apareçam, ou seja os parlamentares, seus verdadeiros autores.

É como dizia, ironicamente, o cronista carioca Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, “ou restaura-se a moralidade ou nos locupletemos todos”. A proposta aprovada no Congresso adotou a segunda opção, que ainda vai dar muito pano para as mangas dos que estão distribuindo verbas do Orçamento com mãos de gato. O Supremo, ao endossar a decisão da ministra Rosa Weber, mandando sustar a execução das emendas, foi muito claro: orçamento secreto é inconstitucional. Tudo o que ocorreu precisa ter transparência, inclusive os nomes dos autores das emendas.

A forma desesperada como se tenta esconder seus autores só aumenta as suspeitas de “intermediação onerosa”, superfaturamento e desvios de recursos públicos. Haveria até mercado de emendas. Sobrou para o relator-geral do Orçamento da União de 2021, senador Marcio Bittar (MDB-AC), operador das emendas secretas. O presidente do Congresso, senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), segundo a Advocacia do Senado informou ao Supremo, pediu a Bittar (PSL-AC) que adote todas as “providências possíveis e necessárias para o cumprimento das citadas deliberações do Congresso Nacional e da mencionada decisão do Supremo Tribunal Federal”.

No documento encaminhado ao STF, os advogados do Senado fazem questão de ressaltar que não havia obrigação para que esses dados — o autor da emenda, o valor pedido, o valor liberado e a destinação, por exemplo — estivessem cadastrados em algum sistema do Congresso. Somente os tolos podem imaginar que alguma emenda parlamentar ao Orçamento da União seja aprovada e liberada sem que se saiba e se registre o autor. Até os brincantes do calçadão da Gameleira, em Rio Branco (AC), sabem que o senador Bittar não dá ponto sem nó.

Além disso, o toma lá dá cá como instrumento de fidelidade na base governista impede que esse tipo de informação não seja do conhecimento de alguns mandachuvas do Centrão: o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL); a deputada Flávia Arruda (PL-DF), ministra-chefe da Secretaria de Governo; e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ministro da Casa Civil.

Patrimonialismo

Tradicionalmente, a liberação de recursos para parlamentares consta também de planilhas das assessorias parlamentares da Presidência e dos principais ministérios, às quais os líderes do governo no Senado, Fernando Bezerra (MDB-PE), e na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), têm acesso, porque são o estuário das reclamações de insatisfeitos e responsáveis pela mobilização governista durante as votações do Congresso. Sob risco de se enrolar nesta história, será preciso muito óleo de peroba para Bittar não informar os nomes dos autores das emendas, já que Pacheco disponibilizou toda e estrutura e os servidores para levantar essas informações, “no prazo de 180 dias”.

O Brasil nunca se livrou do patrimonialismo, fenômeno estudado por Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro, Florestan Fernandes e Victor Nunes Leal, entre outros. Inspirados em Max Weber, autor do conceito, eles estudaram os mecanismos da formação e manutenção do poder das oligarquias, tanto na política quanto nas relações econômicas. O patrimonialismo surge quando não existe distinção entre o público e o privado, e as duas coisas se misturam.

É o que está acontecendo descaradamente com o Orçamento da União, desde que Arthur Lira (PP-AL) conseguiu articular a aprovação do orçamento secreto. Na acepção mais restrita do conceito, o patrimonialismo existe quando um líder político instrumentaliza o poder e cria mecanismos de controle de estruturas e agencias de Estado para obter privilégios e vantagens pessoais. É uma herança das monarquias absolutistas, que impede que a máquina pública, a partir da racionalidade impessoal, tenha mais eficiência. O patrimonialismo está entranhado na política brasileira desde o Império.

Correio Braziliense

Um conselho a André Mendonça




O medo da maior parte das pessoas com Bolsonaro emplacar no STF um ministro “terrivelmente evangélico” é que André Mendonça, ao se deixar adjetivar dessa forma, coloque em risco a laicidade do Poder Judiciário.

Por André Marsiglia Santos (foto)

Não tenho esse medo. Não me importo com o adjetivo atribuído a ele, mas com o advérbio. O problema é ser escolhido como alguém que é terrivelmente alguma coisa, seja qual for.

Meu incômodo gramatical pode parecer uma preocupação tola, mas não é. De todas as classes de palavras da língua portuguesa, os advérbios são os mais traiçoeiros: deslizam pela frase, modificam o sentido, tonteiam o leitor. Nada disso ocorre com adjetivos, sempre dependentes e acessórios do substantivo.

Não há mal nenhum em um ministro ser evangélico; há tantos que são e foram ligados a religiões e nada disso os fez melhores ou piores. Ministros têm religião, time de futebol, preferências culinárias. São seres humanos como nós, embora nem sempre assim se enxerguem.

Também não há mal nenhum em ser a indicação de Bolsonaro destinada especificamente a um evangélico. Se o exercício da magistratura não pode ser político, a indicação de um magistrado pelo presidente – falemos a verdade – sempre é, e isso não começou nesse governo. Para Bolsonaro, é essencial fazer política com sua base aliada de evangélicos, faz parte do jogo.

Portanto, nessa história toda não é descabido Bolsonaro escolher um evangélico ou ele aceitar assim ser adjetivado, o descabido é ele ser terrivelmente algo.

Um julgador –evangélico ou não – precisa aplicar ao caso concreto a justa medida de forma equilibrada, como há tantos e tantos séculos já recomendava Aristóteles em suas lições de Ética sobre a arte de decidir. E ninguém será capaz de alcançar o necessário equilíbrio agindo terrivelmente.

O novo ministro, no exercício de seu cargo, não precisa disfarçar suas crenças, não precisa deixar de ser evangélico, pois sua religião faz parte de sua cultura, e é também investido dela que um juiz examina um caso.

Meu conselho, André Mendonça, se me permite, é: se afaste do advérbio. Fuja dele. Enquanto juiz, corra dessa traiçoeira classe de palavras, e não seja terrivelmente nada. Do contrário, os adjetivos que o povo e a imprensa lhe darão não serão dos melhores.

O Antagonista

O barril de pólvora da pandemia na África: o desafio de um continente sem vacinar contra a covid-19




Vacinação em Lagos, a maior cidade da Nigéria, em 26 de novembro.

Fornecimento errático de doses, os problemas de distribuição e uma percepção atenuada do risco da covid-19 dificultam a imunização do continente, que só alcança 7% da população

Por José Naranjo

Banjul - A baixa taxa de vacinação na África, situada em torno de 7% da população com a pauta completa contra 44% mundial, é um dos maiores desafios enfrentados pelo mundo para acabar com a pandemia de covid-19. Os especialistas concordam que os problemas de acesso às doses pelo monopólio exercido pelos países ricos foram o principal fator que explica esses dados, mas não o único. A isso se somam as complicações de distribuição de vacinas que chegam tarde e a tropeções em sistemas de saúde com recursos escassos para realizar complexas campanhas de imunização, além da desconfiança em um continente em que não houve uma estratégia clara e onde a percepção do risco pela covid-19 é menor.

Na África só foram administradas 241 milhões de vacinas das 8 bilhões de doses inoculadas em todo o mundo, de acordo com a Our World in Data. “Algo que essa pandemia está nos ensinando é que tudo é global, que é muito importante que as porcentagens de vacinação sejam altas em todos os países para evitar que apareçam novas variantes”, diz Anna Roca, epidemiologista da Unidade da Gâmbia da Escola de Higiene e Medicina Tropical da Universidade de Londres. “Ainda que na África do Sul tenham sido os primeiros a descobri-la, não está claro onde a ômicron surgiu, mas o que é evidente é que em duas semanas estará presente em muitos países, se transmite com muita rapidez”, acrescenta a especialista.

As autoridades sanitárias mundiais e a comunidade científica vinham repetindo como um mantra há meses: deixar para trás na vacinação os países de baixos recursos é uma ameaça a todos. “Há um ano, quando começamos a ver que alguns países assinaram acordos bilaterais com os fabricantes, alertamos que os mais pobres e vulneráveis seriam pisoteados nessa corrida mundial pelas vacinas. E foi exatamente isso o que aconteceu”, lembrou nessa semana Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), “mas não podemos acabar com essa pandemia se não solucionarmos a crise das vacinas”. Os países ricos receberam 15 vezes mais doses por habitante do que os países de baixa renda, de acordo com a Unicef.

O desafio na África não é só que as vacinas cheguem aos aeroportos das grandes capitais; depois precisam ser injetadas. A iniciativa Covax, que fracassou em seu objetivo de repartir 2 bilhões de vacinas entre os países de baixa renda no final de 2021, é um exemplo: centenas de milhares de doses precisaram ser jogadas no lixo na África pela escassa margem entre a entrega e sua validade. “A Covax não funcionou como era previsto. Mas nem tudo foi um problema de escassez, também faltou uma estratégia clara”, afirma Eric Delaporte, epidemiologista da Universidade de Montpellier. Manter a rede de armazenamento e chegar além da capital foi um quebra-cabeças para muitos países. Segundo a OMS, uma em cada quatro vacinas enviadas à África não foi administrada.

O fornecimento errático e improvisado, sem uma previsão que permitisse adaptar as campanhas de imunização ao estoque, não contribuiu para gerar a confiança necessária. Um exemplo é Senegal. “O país vivenciou um pico de casos durante a terceira onda em julho. As pessoas se preocuparam e foram se vacinar maciçamente, mas em agosto as doses acabaram e muitas ficaram sem a imunização. Quando em setembro chegaram mais vacinas, as pessoas já não voltaram, de modo que no final do mês perderam a validade. Em outubro 200.000 vacinas foram destruídas”, afirma Alice Desclaux, antropóloga médica do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento em Senegal.

Dos 2 bilhões de doses de vacinas previstas em 2021, a Covax entregou 590 milhões. Um porta-voz do mecanismo atribui o fato, além do monopólio dos países ricos, às restrições à exportação e à falta de transparência dos fabricantes. “O grande desafio agora é manter os fornecimentos e torná-los mais frequentes, assim como trabalhar com os países para ampliar sua capacidade de absorver doses. O segundo ponto é importante, já que precisam de tempo para se preparar para qualquer envio de vacinas em grande escala. Nas últimas semanas, os doadores e fabricantes começaram a fornecer dados mais precisos, após um ano em que as doses e a transparência foram muito escassas”, afirma.

Para muitos países se trata da maior mobilização de vacinas de sua história, diz a Covax, e em alguns casos “terão que lidar com mais de cinco vezes o volume de vacinas que normalmente trabalham. Também entregarão a partes da população às que normalmente não precisam se dirigir. Geralmente, as vacinas são administradas em bebês e adolescentes, mas muitos países não contam com um programa de vacinação para adultos. Além disso, se a maioria dos países já implementou campanhas maciças antes, têm um prazo de entrega de um ou dois anos e, portanto, podem planejar em consequência, incluindo ter um fornecimento frequente. E com as vacinas contra a covid-19, estamos falando de um fornecimento que vêm de múltiplas fontes e o momento da entrega é, frequentemente, imprevisível”, informa Alejandra Agudo.

Infectados sem detectar

A escassez de doses, pelo menos até o verão, e os problemas logísticos criaram um caldo de cultura pouco propício entre a população. Os números oficiais da pandemia na África —8,7 milhões de casos e 223.000 mortes para 1,3 bilhão de habitantes— não refletem a realidade. A escassa capacidade de testagem e o caráter leve e assintomático da imensa maioria das infecções, principalmente pela juventude da população, ocultaram que o vírus circulou muito mais do que dizem as estatísticas. “Agora sabemos pelos estudos de seroprevalência”, comenta Delaporte. “Fizemos uma investigação em seis países da África ocidental e central e, após a segunda onda, havia de 45% a 55% de pessoas com anticorpos que haviam se infectado, principalmente nas grandes cidades”, acrescenta.

Apesar dessa ampla circulação do vírus, entretanto, milhões de africanos têm uma sensação muito diferente. “Nekut fii” (expressão em língua wolof que significa “não está aqui”), responde a jovem garçonete Fatumata Kande quando é perguntada sobre a covid-19, usando a expressão que se popularizou na Gâmbia para se referir à pandemia, que é vista como uma doença de brancos. “Não foi igual em todo o continente. Na África do Sul teve a gravidade do Brasil e da Europa, mas se olharmos a África ocidental vemos que a severidade é menor. E não se explica somente pela juventude da população”, diz Anna Roca. Os cientistas pesquisam outros fatores que podem ter reduzido os casos graves, como a maior exposição à malária e a outros coronavírus humanos e o contato com parasitas que modulam a resposta imunitária.

As dúvidas surgidas em todo o mundo sobre os efeitos secundários de algumas vacinas, como a da AstraZeneca —majoritariamente utilizada pela Covax—, também tiveram um impacto notável no continente africano. “Não é um fenômeno exclusivo da África”, lembra Delaporte, mas quando a França anunciou que não daria um visto sanitário às pessoas vacinadas com a AstraZeneca distribuída no continente e vinda da Índia o receio se espalhou. “A desconfiança existe, mas não podemos culpar a população, não existiu uma estratégia e uma comunicação clara sobre as vacinas”, diz Desclaux.

A África também não ficou de fora da outra epidemia, a de notícias falsas e de rumores sobre as vacinas. Enquanto na Europa e nos Estados Unidos se espalham os comentários sobre microchips e alterações de DNA, em muitos locais da África se temem supostos efeitos secundários e, principalmente, que provoque infertilidade. Como a ONG Care alertou, há países africanos onde só se vacinou uma mulher para cada três homens por essas crenças falsas. No Malawi e na Somália, mulheres casadas em idade fértil resistem à vacinação. Esse é um rumor recorrente: durante as campanhas de vacinação contra a poliomielite na Nigéria em décadas passadas muitas comunidades recusaram porque diziam que era uma tentativa secreta de esterilizar as crianças.

Para tentar reduzir a dependência exterior, a África se lançou em uma corrida para colocar em andamento centros de produção de vacinas. Nos últimos meses, surgiram três projetos diferentes na África do Sul, Ruanda e Senegal, onde a ideia é fabricar vacinas anticovid com RNA mensageiro, mas também lutar contra outras doenças. Todos acham ser possível começar a produção em 2023 e, para isso, assinaram acordos com empresas como a BioNTech e a Bioavac. Mas, por enquanto, será preciso continuar esperando a solidariedade global. Nessa semana o presidente chinês, Xi Jinping, prometeu 1 bilhão de doses extras à África, em um plano em que os interesses políticos e econômicos também entram em jogo.

El País

Relatório Otálvora: Esquerda planeja controlar o continente




Mesa dos trabalhos do 7º Encontro do Grupo Puebla na Cidade do México

O Grupo Puebla deixa rapidamente de ser um grupo de "reflexão" e propaganda da esquerda continental para se tornar um aparato de ação política paraestatal internacional.

POR EDGAR C. OTÁLVORA
 
Os EUA poderiam fornecer uma frota de aeronaves F16 para a Colômbia

A principal plataforma de vôo da Força Aérea Colombiana são os caças israelenses Kfir, adquiridos no final da década de 1980. Apesar das inúmeras atualizações, os Kfir colombianos, herdeiros do francês Mirage 5, exigem substituição imediata e o mercado mundial de armas está se movimentando na competição pela venda de duas dezenas de aeronaves de combate. As relações particulares da Colômbia com os EUA e um notável interesse do governo Biden em alavancar a indústria militar norte-americana, levantam especulações sobre uma decisão colombiana a favor da versão F-16V, em detrimento das ofertas sueca e francesa.

A propósito, a Casa Branca estaria planejando uma visita antecipada de Joe Biden à Colômbia. Inicialmente, teria sido combinada uma viagem de dois dias, provavelmente a Cartagena das Índias, em meados de dezembro de 2021. A viagem não se concretizou e os dois governos estariam negociando uma nova data.

(Nota DefesaNet - Caso a Colômbia opte pelo caça SAAB JAS 39 Gripen o Brasil participaria como co-produção na EMBRAER. A Força Aérea Brasileira (FAB) receberá as primeiras quatro unidades no início de 2022.)

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O Departamento de Estado dos Estados Unidos decidiu renovar a lista de organizações e indivíduos relacionados ao terrorismo na Colômbia. Além de retirar da lista de terroristas guerrilheiros falecidos como o chefe das FARC Manuel Marulanda e seu genro Raúl Reyes, o governo dos Estados Unidos também retirou de sua lista negra líderes políticos "pacificados", como Rodrigo Londoño Timochenko e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, a organização guerrilheira das FARC foi dissolvida e transformada no partido Comunes.

O governo dos Estados Unidos advertiu que "a decisão de revogar a designação não altera a posição em relação a qualquer acusação ou possível acusação nos EUA contra ex-líderes das FARC, incluindo tráfico de drogas" nem apaga a culpa por crimes contra a humanidade, mas "facilitará a capacidade dos EUA de apoiar melhor a implementação do acordo de 2016, incluindo o trabalho com desmobilizados ”.

Simultaneamente, a lista controlada pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos passa a incluir os nomes adquiridos pelos "dissidentes" das FARC que nunca cederam as armas: Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia - Ejército del Pueblo FARC-EP  o "Segunda Marquetalia". As organizações guerrilheiras chefiadas por Iván Márquez, Hernán Darío Velásquez "El Paisa" e Henry Castellanos "Romaña" e que são aliados declarados do regime chavista venezuelano agora fazem parte da lista oficial de terroristas. De acordo com a lista atualizada do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, Iván Márquez está domiciliado no estado de Apure, na fronteira da Venezuela com a Colômbia.
 
A propósito, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos aproveitou as mudanças na lista de terroristas para atualizar informações sobre vários líderes chavistas. Um deles é Fredy Bernal Rosales, que as autoridades eleitorais do regime proclamaram governador do estado de Táchira, fronteira com a Colômbia, na votação de 21NOV2021.
 
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O Grupo Puebla rapidamente deixa de ser um grupo de "reflexão" e propaganda da esquerda continental para se tornar um aparato de ação política internacional paraestatal. Diplomacia paralela à oficial, que os governos Castro-Chavista chamaram de "diplomacia social" e que realizaram nas últimas duas décadas tendo Hugo Chávez como pivô e financista, agora está centrada no Grupo Puebla, que se reuniu, em 30NOV a 02DEZ 2021, na cidade do México.

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Embora a reunião não tenha sido realizada em um prédio do Estado, já que foi realizada no famoso hotel "Fiesta Americana Reforma", ela teve o patrocínio oficial do Estado mexicano e do partido governante Morena. Estiveram presentes o chanceler Marcelo Ebrard e o presidente da Morena Mario Delgado, e o evento também foi transmitido nos sistemas de internet do governo mexicano. O encontro contou com a participação, via internet ou presencial, de altas autoridades da Argentina, Bolívia, Peru e México, incluindo os presidentes Alberto Fernández e Luis Arce da Argentina e Bolívia, a vice-presidente peruana Dina Boluarte e ministros da Argentina e do México. Em última análise, foi um evento com a presença oficial de pelo menos quatro governos.
 
Além disso, estiveram presentes os espanhóis José Rodríguez Zapatero e Juan Carlos Monedero, ambos operadores internacionais do regime chavista; os brasileiros Lula da Silva (participação via tele) e Dilma Rousseff, os colombianos Ernesto Samper Pizano e Iván Cepeda, o paraguaio Fernando Lugo e o equatoriano Rafael Correa. Samper atua como coordenador da produção de documentos do grupo.

Como de costume, a proclamação da reunião do México incluiu o apoio às ditaduras da Venezuela, Nicarágua e Cuba, embora os “pueblanos” tenham o cuidado de não incluir representantes desses regimes nos acontecimentos do Grupo Puebla.
 
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Uma intervenção particularmente relevante, via vídeo, foi a do ex-presidente do Parlamento Europeu Martín Schulz, que também é ex-presidente do Partido Social-Democrata (SPD). Schulz anunciou que o novo governo alemão, liderado por seu partido, tenderá a unir forças com as forças "progressistas" da América Latina para enfrentar a "extrema direita". O alemão interveio no fórum mexicano na qualidade de presidente da Fundação Friedrich Ebert (FES) pertencente ao SPD, o que sugere que a Fundação Social-democrata alemã está obtendo financiamento para as despesas operacionais do Grupo Puebla.
 
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É marcante a reiterada presença da mexicana Alicia Bárcena nos acontecimentos do Grupo Puebla, apesar de sua condição de funcionária da ONU como Secretária Executiva da CEPAL. A intervenção de altos funcionários da ONU em eventos "políticos" é um terreno acinzentado nas regulamentações trabalhistas da organização multilateral, mas a participação de Bárcena em um evento político claramente partidário, e dentro de seu país de origem, é uma violação aberta das normas. que a ONU impõe aos seus funcionários.
 
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O secretário e fundador do Grupo Puebla, o chileno Marco Enríquez-Ominami, disputou quatro eleições presidenciais em seu país. No mais recente, o primeiro turno das eleições de 2021, somou apenas 7% do total de votos presidenciais.

No primeiro turno das eleições presidenciais peruanas de 11ABR2021, a candidata “natural” de Castro-Chavismo e fundadora do Grupo Puebla, Verónika Mendoza, mal conseguiu 7% dos votos. Estes resultados fizeram com que todo o aparato internacional Castro-Chavista se voltasse para apoiar o "candidato secreto" de Evo Morales, o finalmente vitorioso e atual presidente do Peru Pedro Castillo. Um evento semelhante está ocorrendo no Chile. A derrota de Ominami deu origem à virada automática do castrochavismo, com proclamações abertas desde a reunião do Grupo Puebla, apoiando o candidato de esquerda Gabriel Boric que enfrenta José Antonio Kast no segundo turno de 19DEZ 2021. Tanto o espanhol Zapatero quanto o alemão Schulz fizeram, durante seus discursos, ataques dietos ao candidato chileno e na declaraçã final do evento se referem  a ultra-direita no Chile.

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O Grupo Puebla comemorou o triunfo em Honduras do candidato castrista-chavista Xiomara Castro, anunciou que uniu forças para conquistar a vitória de Boric no Chile e se sente confiante na vitória de Lula da Silva nas eleições brasileiras de 2022. Triunfo de Lula no Brasil "vai mudar o continente e a ordem internacional", conjecturou Zapatero, que prevê uma futura aliança entre o México e o Brasil para criar um "órgão de integração latino-americano", evidenciando o propósito de desmantelar a OEA.
 
Segundo conta do Grupo Puebla, até o final de 2022 deve haver pelo menos uma dezena de governos latino-americanos em mãos “progressistas”, incluindo as três principais economias regionais: Brasil, México e Argentina. Além dos aliados caribenhos, o cenário “progressista” também inclui a possibilidade de triunfo de seu candidato colombiano Gustavo Petro. A esquerda continental, a aliança “progressista” com setores da esquerda europeia e os governos de Castro-Chávez estão trabalhando, com objetivos precisos, para aumentar seu espaço de poder na América, com a complacência e o apoio de dois atores extrarregionais: a Rússia e China.

Por sua vez, Nicolás Maduro, que limitou o número e o alcance de suas viagens fora da Venezuela desde que os Estados Unidos anunciaram uma recompensa por sua captura, viajou a Havana em 2621 de novembro. Como de costume, a transferência para Cuba foi mantida em segredo até que foi divulgada pela imprensa cubana, que destacou que Maduro foi recebido no aeroporto por Raúl Castro e Miguel Díaz-Canel.

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Outros que, após as votações regionais de 21 de novembro na Venezuela, viajaram para o exterior foram os representantes dos partidos de oposição venezuelanos. Em DEZ 0121, a Subsecretária de Estado para Assuntos Políticos, Victoria Nuland, acompanhada do Embaixador dos Estados Unidos na Venezuela (residente em Bogotá) James Story, recebeu um grupo de opositores, quase todos de Caracas. Eram integrantes da delegação da oposição que participou das negociações com o governo de Maduro realizadas no México entre agosto e outubro passado. A delegação incluiu Gerardo Blyde, Freddy Guevara, Tomás Guanipa, Luis Emilio Rondón, Luis Aquiles Moreno, Roberto Enríquez, Mariela Magallanes, Claudia Nikken e Stalin González.

A franca divisão da oposição venezuelana faz com que o grupo que viajou a Washington não represente mais uma aliança em torno de Juan Guaidó, mas um aglomerado de partidos com planos divergentes de curto e longo prazo. A realização da reunião no Departamento de Estado foi revelada, no dia seguinte, pela subsecretária Nuland por meio de um tweet informal no qual garantiu que os Estados Unidos esperam que Maduro volte à mesa de negociações.

A posição dos Estados Unidos foi a de confirmar o reconhecimento de Guaidó, expresso pelo Subsecretário de Estado para o Hemisfério Ocidental, Embaixador Brian Nichols. Por enquanto, não há mudança de planos de Washington em relação à Venezuela e os votos do 21NOV21 apenas confirmaram a inexistência de condições para eleições livres e democráticas.
 
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Em 26NOV2021, por meio de uma conferência pela Internet, Guaidó realizou um encontro de trabalho com os diplomatas que mantém em vários países da América. O objetivo da reunião foi avaliar a situação após as votações do 21NOV21 e coordenar ações. A reunião foi um termômetro para medir o estado de colapso da aliança de oposição venezuelana.
 
Julio Borges, líder do partido Primero Justicia que reside na Colômbia e detém o status de Comissário Presidencial de Relações Exteriores da Venezuela, não participou do encontro de Guaidó com os diplomatas do "governo" do qual Borges é supostamente seu "chanceler."

Diario Las Americas / DefesaNet

Ato de negacionistas com tochas causa indignação na Alemanha

 




Políticos afirmam que protesto contra medidas anticovid diante da casa da secretária de Saúde da Saxônia, no leste do país, é "fascistoide" e remete ao nazismo. Extremistas de direita organizam atos do tipo via Telegram.

Por Sabine Kinkartz

Já havia anoitecido na pequena cidade de Grimma, na Saxônia, estado do leste da Alemanha, quando cerca de 30 pessoas se reuniram em frente à casa da secretária de Saúde Petra Köpping na última sexta-feira (03/12). Alguns portavam tochas; outros, cartazes. Gritando e assobiando, eles protestavam contra medidas anticovid e contra a vacinação obrigatória.

O grupo Freie Sachsen (Saxônia Livre), oficialmente classificado como extremista de direita, filmou o ato e divulgou o vídeo na internet.

Köpping, do Partido Social-Democrata (SPD), de centro-esquerda, chamou a polícia. Quinze veículos foram controlados, 25 identidades foram estabelecidas, e 25 infrações foram relatadas, segundo a polícia. O Ministério Público abriu uma investigação sobre o incidente.

Enquanto os manifestantes, que se organizam por meio do aplicativo de mensagens Telegram, chamam os atos de "visitas cidadãs" e "passeios", para a secretária de Saúde da Saxônia, trata-se de uma tentativa de intimidação. Críticas objetivas a medidas anticovid são totalmente legítimas, diz Köpping, afirmando estar sempre aberta ao diálogo, "mas um protesto com tochas diante da minha casa é repugnante e indecente".

Não se trata de um ato isolado, diz a política. Ela afirma que tais "tentativas organizadas de intimidação por extremistas de direita e adeptos de conspirações" já foram vistas em consultórios médicos, centros de vacinação e hospitais. O prefeito da cidade e outros envolvidos no combate à pandemia também foram ameaçados.

A Saxônia é uma das regiões do país onde a situação da quarta onda de covid-19 é mais preocupante. No sábado, o estado registrou uma incidência de 1.235 casos por 100 mil habitantes em sete dias, a mais alta da Alemanha. Da população saxã, 58,4% estão totalmente vacinados contra a covid-19, o menor índice no país, bem abaixo da média nacional de 68,8%.

"Ato fascistoide"

A marcha com tochas causou indignação pelo país. "Estes são métodos inventados pela SA", disse o governador de Baden-Württemberg, Winfried Kretschmann (Partido Verde), fazendo referência à tropa de assalto nazista.

O colíder do SPD, Norbert Walter-Borjans, descreveu o que aconteceu em frente à casa de Köpping como "fascistoide".

Saskia Esken, que encabeça o SPD ao lado de Walter-Borjans, também se manifestou. "Solidariedade total, querida Petra Köpping. Mesmo que uns poucos tentem espalhar medo e terror: os sensatos e responsáveis são a grande maioria e estão do seu lado", escreveu no Twitter.
                                        
O secretário-geral do SPD, Lars Klingbeil, exige consequências. Para ele, não se pode permitir que políticos sejam ameaçados e que "conspiradores de direita" se reúnam com tochas em frente à casa de uma política. "Os limites da liberdade de expressão foram ultrapassados", afirma. "Isso precisa de uma resposta no pleno rigor do Estado de direito."

Radicalização

Esta também é a opinião do vice-governador da Saxônia, Wolfram Günther (Partido Verde), que falou de uma nova quebra de tabu. "Negacionistas do coronavírus e os extremistas de direita ao seu lado estão se tornando cada vez mais descarados e radicalizados", afirmou.

De fato, a cena formada por antivacinas, negacionistas da pandemia, teóricos da conspiração e também cada vez mais extremistas de direita se radicalizou visivelmente nas últimas semanas. Em grupos no Telegram, a mobilização é cada vez mais agressiva, com a convocação de protestos.

Diante da grave situação da pandemia na Saxônia, reuniões foram limitadas a até dez pessoas. Mas há semanas grupos, alguns deles com centenas de pessoas, vêm realizando o que chamam de "passeios" por cidades do estado. A polícia raramente interveio. Em Chemnitz, ela até afirmou que os tais "passeios" não são classificados como reuniões se o distanciamento mínimo entre os participantes for observado.

O Freie Sachsen (Saxônia Livre) é um dos grupos mais ativos na convocação dos atos. Segundo o site da agremiação, fundada como partido em fevereiro de 2021, seu objetivo é "dar uma estrutura organizacional às mais diversas iniciativas liberais e patrióticas". Alguns dos fundadores do grupo já são ativos na cena de extrema direita há tempos.

Apelo à revolução e ameaças de morte

Mais de 91 mil usuários estão atualmente inscritos no canal "Saxônia Livre" no Telegram, onde o número crescente de infecções e o consequente endurecimento das restrições anticovid são  comentados com raiva.

Fala-se de revolução, e policiais e militares são chamados a se juntarem aos protestos. Os policiais que controlam o cumprimento das medidas contra o coronavírus são chamados de "CoStaPo", Polícia Estatal do Coronavírus, que lembra muito a "Gestapo", a Polícia Secreta do Estado da Alemanha nazista.

Há algum tempo, os "saxões livres" têm atacado o governador Michael Kretschmer, que no canal do Telegram é chamado de déspota e ditador. Em reação a um post que afirma que o governador prepara um lockdown rígido, usuários fizeram ameaças de morte. "Prendam Kretschmer imediatamente! Reintroduzir a pena de morte na Alemanha", diz um comentário, enquanto outro contém apenas a palavra "forca".

Regulamentar serviços de mensagens

Em um recente programa de televisão, Kretschmer falou de propaganda maliciosa, ódio e incitação e pediu que o Ministério da Justiça adote medidas legais. "Temos que fazer algo a respeito", afirmou.

O governador não é o único político a exigir uma regulamentação de serviços como o Telegram. A partir de fevereiro de 2022, redes sociais terão que denunciar conteúdo ilegal ao Departamento Federal de Investigações (BKA), mas os serviços de mensagens estão isentos. Uma lacuna que não pode permanecer como está, afirmaram o ministro do Interior e secretários estaduais na semana passada.

Deutsche Welle

Um Estado para chamar de seu - Editorial




Eleito por suas críticas ao aparelhamento do Estado pelo PT, Bolsonaro quer subvertê-lo em instrumento de seus interesses particulares

À época da ditadura, a pior ofensa que se podia fazer à Polícia Federal (PF) era dizer que era um órgão de governo, não de Estado. Caudatário daquele regime de exceção, Jair Bolsonaro, em seu arremedo de autocracia, dá um passo além: quer transformar a PF em sua guarda pretoriana, para não dizer sua milícia particular.

Como mostrou recente reportagem do Estadão, Bolsonaro acumula ao menos duas dezenas de mudanças na PF, um volume sem precedentes na história da República. Os delegados afastados têm em comum o fato de terem contrariado o presidente de alguma forma, em geral investigando zelotes bolsonaristas.

Seria tentador dizer que Bolsonaro confunde interesses pessoais com interesses de governo e de Estado. Mas o fato de que os primeiros sempre prevalecem revela que ele distingue bem as três dimensões e quer subvertê-las por completo: o Estado a serviço do governo; o governo a seu serviço.

O aparelhamento das forças de segurança é talvez a única tarefa à qual o ergofóbico presidente se dedica com afinco, seja porque formam suas bases eleitorais, seja pelos seus apetites autoritários, seja para apaziguar ressentimentos recalcados: o capitão enxotado do Exército por insubordinação e sedição, agora se quer generalíssimo.

“Meu Exército” é como Bolsonaro se referiu mais de uma vez à corporação do Duque de Caxias. Seguindo a cartilha do caudilho Hugo Chávez, a quem já declarou admiração, Bolsonaro colonizou o governo com militares. Mesmo após a sua malograda tentativa de “alinhar” as Forças Armadas, que levou à demissão dos seus comandantes, elas se permitiram confundir, em alguns momentos, com o bolsonarismo, como no desfile dos blindados no coração de Brasília para intimidar o Congresso e o Supremo ou ao tolerar a participação do general Eduardo Pazuello em manifestações políticas (e golpistas).

Bolsonaro chegou a ensaiar um projeto de lei que lhe permitiria convocar “mobilização nacional” para assumir as Polícias Militares e intervir nos Estados durante a pandemia. Recorrentemente ele acena com novos privilégios às forças de segurança. As hostes bolsonaristas já mobilizaram as forças policiais para reprimir manifestações pacíficas contra o governo e orquestraram motins em vários Estados.

Sob o comando de André Mendonça, agora ministro do STF, a Advocacia-Geral da União e o Ministério da Justiça foram subvertidos em instrumentos de defesa de correligionários bolsonaristas e de perseguição a seus críticos. Para proteger sua prole, Bolsonaro já tentou interferir na Receita, Coaf, TCU, STJ. Além da PF, a Procuradoria-Geral da República e a Agência Brasileira de Inteligência são hoje comandadas por leais servidores da família Bolsonaro.

São manobras típicas de quem vê nos votos de 2018 não um mandato de governo, mas de posse do Estado. Órgãos de controle, agências reguladoras, postos no exterior, estatais, tudo é tratado como uma extensão da Casa Bolsonaro.

Os Conselhos de Estado não extintos foram transformados em conchavos interministeriais; a TV Brasil (antiga “TV Lula”) foi transformada na “TV Bolsonaro”; os órgãos de Educação e Cultura, em casamatas de guerrilheiros culturais. Às instituições responsáveis por pautas que Bolsonaro hostiliza ou julga inúteis ao seu projeto de poder, como o Meio Ambiente ou a Ciência, resta o sucateamento.

Com sua capacidade congênita de farejar a lealdade oportunista, Bolsonaro instalou um timaço de sabujos desqualificados em postos estratégicos – na Saúde, na Educação, nas Relações Exteriores, no Meio Ambiente e nos Direitos Humanos, entre outros. Esse pessoal cumpre à risca a função de consumir o debate público em polêmicas irrelevantes, enquanto o presidente transaciona com o Centrão sua manutenção no cargo e se dedica à campanha eleitoral. A fórmula do “mito” para 2022 está contratada: reacionarismo na mídia; fisiologismo, clientelismo, patrimonialismo e nepotismo no Estado.

É uma tarefa hercúlea identificar qual dos princípios da administração pública foi o mais violentado por Bolsonaro, se a legalidade, a moralidade, a publicidade, a eficiência ou a impessoalidade, mas este último é fortíssimo candidato.

O Estado de São Paulo

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