sábado, dezembro 04, 2021

PIB per capita do Brasil está estagnado há 12 anos




"Somente com investimentos, desenvolvimento tecnológico ou reformas, a renda per capita brasileira poderá crescer novamente no médio prazo"

Por Alexander Busch

Paulo Guedes diz que o "Brasil está condenado a crescer". Mas é o contrário. É o Brasil – ou melhor, o brasileiro – que está condenado porque a economia não cresce, escreve Alexander Busch.

Os indicadores econômicos mais recentes confirmam o que muitos temiam: a economia brasileira está novamente em recessão. E o crescimento não deve voltar no próximo ano.

É um bom sinal, disse na quinta-feira (02/12) o ministro da Economia, Paulo Guedes, que a Bolsa esteja subindo apesar do desempenho ruim do PIB (Produto Interno Bruto). Isso mostra, segundo ele, que o "Brasil está condenado a crescer".

Mas é exatamente o contrário. O Brasil, ou melhor, os brasileiros, estão condenados porque a economia não cresce. E isso há doze anos.

Os últimos indicadores econômicos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) acabam de ser divulgados. A economia encolheu 0,1% no terceiro trimestre. Isso se deve principalmente ao fato de que o setor agropecuário, que sempre foi capaz de compensar os pontos fracos do PIB, produziu muito menos desta vez devido à seca e à geada. Como a economia já tinha retraído 0,4% no segundo trimestre em comparação com o trimestre anterior, a economia brasileira está em recessão.

Os bancos de investimento projetam um crescimento anual de somente cerca de 4,8% em 2021, o que colocaria a economia brasileira no final do ano no ponto onde estava antes do início da pandemia, no final de 2019. Dois anos perdidos, então.

Mas se você dividir o PIB pelo número de brasileiros, o resultado é ainda mais decepcionante. Cada brasileiro teria hoje um PIB per capita equivalente ao que foi registrado pela última vez em 2009, o que significa que a economia brasileira vem patinando há doze anos.

Isso dificilmente mudará no próximo ano. Ao contrário do que Guedes afirma, a maioria dos economistas espera uma economia estagnada, e possivelmente até recessiva, em 2022.

Por um lado, isso se deve à alta inflação, que deve chegar a 10% até o final do ano. Para conter a alta dos preços, o Banco Central terá que manter a taxa de juros alta, o que limitará o consumo. Ao mesmo tempo, serão realizadas eleições no ano que vem, cujo resultado ainda está completamente indefinido. Os investidores ficarão cautelosos enquanto não souberem quem irá governar pelos próximos quatro anos.

Somente com investimentos, desenvolvimento tecnológico ou reformas, a renda per capita brasileira poderá crescer novamente no médio prazo.

No curto prazo, apenas o aumento do consumo poderia acelerar o crescimento do Brasil. Afinal, o consumo de massa é o motor tradicional da economia brasileira. Mas o cenário parece ruim nessa área. Devido à alta taxa de desemprego de 12,6%, a média salarial está caindo. Neste ano, caiu 9% em termos nominais. Se considerarmos também a inflação, é possível dizer que o poder de compra dos brasileiros diminuiu em cerca de um quinto neste ano.

E é exatamente aí que reside a tentação populista do governo. É bem possível que o presidente Jair Bolsonaro reaja à sua crescente impopularidade no ano eleitoral com novos programas de gastos. Que ele e Guedes, por exemplo, aumentem ainda mais o valor de benefícios sociais, como acaba de acontecer, a fim de comprar votos no Congresso e, por fim, nas eleições.

Em um primeiro momento, os brasileiros pobres se beneficiariam disso. Mas eles terão que pagar a conta depois com inflação mais alta e recessão. As perspectivas não são boas para os próximos doze meses.

Deutsche Welle

Médicos no Afeganistão falam do desespero para salvar bebês e pacientes de 'inferno'




Criança desnutrida em hospital de Kandahar, fotografada em outubro

Por Elaine Jung e Tom Donkin

Uma jovem grávida chorava, implorando para que os médicos matassem ela e seu bebê, que estava prestes a nascer.

A cena foi presenciada pela médica obstetra Nuri, que atua na região central do Afeganistão e se preparava para fazer a cesárea dessa mãe.

"Não sei como consigo continuar viva", disse a mãe, conforme relembra a médica. "Como posso dar à luz outro ser humano?"

Outras mulheres pacientes na ala em que Nuri atende estão tão desnutridas que sabem ser improvável terem leite materno suficiente para alimentar seus filhos.

Segundo Nuri, o hospital está tão cheio que ela tem de se espremer para passar entre as mulheres em trabalho de parto, pressionadas contra paredes manchadas de sangue ou deitadas em lençóis sujos. A maioria dos faxineiros deixou o hospital há meses, cansados de trabalhar sem serem pagos.

A maternidade está tão lotada que às vezes várias mulheres precisam dividir o mesmo leito. Outras instituições e clínicas privadas tiveram que fechar, e esse outrora célebre e moderno hospital atende três vezes o número de mulheres que antes.

"A maternidade é uma das partes mais felizes de qualquer hospital, mas não é mais no Afeganistão", diz a obstetra, contando que em apenas duas semanas viu cinco bebês recém-nascidos morrerem de fome, em setembro.

"É um inferno aqui."

'Profissionais de saúde trabalham sem remuneração em partes do Afeganistão, enquanto crianças sofrem de desnutrição'

Médicos de hospitais afegãos como Nuri conversaram com a BBC sobre o agravamento da crise humanitária no país e sobre as condições de trabalho para profissionais de saúde, que em muitos casos estão com remuneração atrasada e sem perspectiva de normalização. Todos os nomes de entrevistados foram trocados, para preservar sua identidade.

O Afeganistão vinha se recuperando de uma seca severa e de décadas de conflito, mas a ascensão do grupo extremista Talebã, em agosto, intensificou a queda do país em direção ao colapso econômico.

Diretor de um hospital na província de Farah especializado no tratamento de covid-19, o doutor Rahmani compartilhou com a BBC uma carta do Ministério da Saúde — conduzido pelo Talebã — pedindo que os profissionais de saúde continuassem trabalhando sem remuneração, até que questões orçamentárias fossem resolvidas. A carta é datada de 30 de outubro.

A ajuda internacional, que por décadas apoiou a economia e o sistema de saúde do Afeganistão, ficou mais escassa a partir de agosto. Doadores justificam ter sérias preocupações em transferir dinheiro por meio de um regime que nega direitos básicos a mulheres e meninas e que aplica punições severas e violadoras dos direitos humanos.

Qalandar Ibad, ministro da Saúde nomeado pelo Talebã, disse à BBC Pashto que o governo está trabalhando em sintonia com a comunidade internacional para reimplementar o envio de verbas de assistência.

No entanto, os principais doadores estão tentando contornar o Talebã para fazer a ajuda chegar aos profissionais e à população. Em 10 de novembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) conseguiu fazer isso pela primeira vez injetando US$ 15 milhões diretamente no sistema de saúde do país. Cerca de US$ 8 milhões foram usados para pagar cerca de 23.500 profissionais de saúde, no mês passado.

Embora seja uma quantia relativamente pequena por enquanto, outros doadores esperam fazer o mesmo — mas o tempo está se esgotando.

Fome e morte

De acordo com dados recentes da ONU, o Afeganistão está enfrentando hoje sua pior crise de fome. Neste inverno (no hemisfério Norte), estima-se que cerca de 14 milhões de crianças sofram de níveis agudos de desnutrição.

Em todo o país, cerca de 2.300 unidades de saúde foram fechadas e médicos em áreas remotas relatam falta de acesso a medicamentos básicos. Na capital, Cabul, um importante hospital infantil está superlotado e enfrentando alguns dos piores casos de fome do país.

O diretor do hospital, o doutor Siddiqi, viu um aumento no número de fatalidades em setembro, depois que verbas foram cortadas. Desde então, a cada semana até quatro crianças menores de 10 anos morreram ali, de desnutrição ou doenças relacionadas.

De acordo com ele, são os mais novos que mais sofrem com o impacto da crise, com muitas crianças de cinco anos de idade chegando tarde demais para serem salvas.

Para as que sobrevivem, há poucos recursos para ajudá-las. Além da falta de alimentos e remédios no hospital, é difícil manter os pacientes aquecidos, já que falta combustível para climatização. Por isso, Siddiqi está pedindo que a equipe colete galhos secos para alimentar um fogão a lenha.

Na maternidade em que Nuri trabalha, cortes rotineiros de energia estão se provando fatais. Vários bebês prematuros morreram quando suas incubadoras pararam de funcionar durante interrupções no fornecimento de luz.

"É tão triste vê-los morrendo na frente dos seus olhos", diz a médica, mencionando também os riscos para outros pacientes além da maternidade.

"Outro dia, estávamos na sala de cirurgia e a eletricidade acabou. Tudo parou. Eu corri e gritei por socorro. Alguém tinha combustível no carro e nos deu para que pudéssemos ligar o gerador."

A médica conta que, sempre que há uma operação no hospital, ela pede que "as pessoas se apressem", o que é "muito estressante".

'Eu, como médica, não tenho comida suficiente'

Perto do hospital em que o doutor Rahmani trabalha, em Farah, há uma instituição especializada no tratamento de pessoas com dependência química. Os pacientes não têm mais medicamentos para lidar com suas abstinências de heroína, ópio e metanfetamina.

Sem os devidos cuidados, o "hospital é exatamente igual a uma prisão" para os internados, diz o diretor da instituição, doutor Nowruz. O lugar também está à beira de fechar as portas devido à diminuição da equipe e, se fechar, Nowruz teme pelo destino dos pacientes.

"Não há abrigo para eles. Normalmente eles vão viver em lugares como embaixo de pontes, em ruínas, em cemitérios. Uma situação insuportável para o ser humano", afirma.

Condições meteorológicas adversas em breve restringirão o transporte de mercadorias vindas de países como Paquistão e Índia.

Nuri conta que sua própria família dela também está lutando para sobreviver. "Sempre que as mulheres deixam nosso hospital com seus bebês, fico pensando nelas. Elas não têm dinheiro, não conseguem comprar comida."

"Mesmo eu, como médica, não tenho comida suficiente. Não tenho dinheiro para isso e quase gastei todas as minhas economias', relata.

"Não sei por que ainda venho trabalhar. Todas as manhãs me faço essa pergunta. Talvez seja porque ainda tenho esperança de um futuro melhor."

Reportagem adicional de Ali Hamedani, Kawoon Khamoosh, Ahmad Khalid e Hafizullah Maroof

BBC Brasil

Vacinas agem contra covid grave, mesmo com nova variante




Cientistas sul-africanos concluíram que as vacinas existentes contra a covid-19 evitam a doença grave com a variante Ômicron do SARS-CoV-2. Avanços preliminares de um estudo indicam que o teste de PCR permite perceber se o contágio é com a nova mutação, sem ter que segmentar o genoma.

A Rede de Vigilância do Genoma da África do Sul (NGS-SA) apresentou os estudos sobre a Ômicron à Comissão de Saúde do Parlamento.

Apesar de ainda necessitarem de tempo para ajustar os dados, sobre o que já consideram o início da quarta onda da pandemia, garantem que estão concentrados na transmissibilidade e no efeito da imunidade que as vacinas proporcionam.

“A genética da Ômicron é completamente diferente da variante Delta ou das variantes anteriores”, afirmou Richard Lessels, especialista em doenças infectocontagiosas.

Os cientistas ainda não sabem se o período da incubação se mantém numa média de cinco dias. No entanto, Lessels garante que “as vacinas são a ferramenta que pode evitar a doença grave e a hospitalização”.

“Estamos preocupados não tanto com o número de mutações, mas onde elas estão concentradas, porque muitas delas o fazem no pico da proteína e, especificamente, em partes-chave que são importantes para ter acesso às nossas células. Não sabemos se os anticorpos são capazes de lidar com elas”, acrescentou.

O especialista destacou que, “embora a maioria dos casos positivos com a nova variante tenha sintomas ligeiros, é muito cedo para dizer o nível de periculosidade da Ômicron, porque foi detectada muito recentemente. Não sabemos se vamos ver casos mais graves”.

A variante já está presente em todas as províncias da África do Sul. A dúvida dos especialistas é se ela vai substituir a Delta “que se propagava a níveis muito baixos”. Lessels afirma que o teste PCR é capaz de detectar a nova variante sem a necessidade de sequenciar o genoma.

“Se um dos três sinais ou alvos do PCR é negativo e os outros dois positivos, então o teste continua positivo, mas algo diferente é observado. Não é possível detectar o gene Skipe. E foi o que aconteceu no laboratório Lancet, em Gauteng [província no norte da África do Sul], onde descobriram que alguns casos positivos tinham esta marca: o nocaute do gene, o que não acontece com a variante Delta. Por isso, com o PCR podemos acompanhar o rastreamento da Ômicron em tempo real, não é necessário ter a sequência genética completa, o que costuma demorar duas semanas em laboratório”, explicou.

O Instituto Nacional de Doenças Infecciosas da África do Sul confirmou, em novembro, que de 249 sequências localizadas, 183 eram da Ômicron. A imunidade pós-covid-19, cuja duração é desconhecida, não oferece proteção contra a nova variante.

A província de Gauteng (a mais populosa do país e que inclui as cidades de Pretória e Joanesburgo) continua a ser a que apresenta mais casos positivos diários, seguindo-se KuaZulu-Natal e Cabo Ocidental.

Oito dos 15 milhões dos habitantes de Gauteng não foram vacinados, e a taxa de transmissibilidade passou de um para 2,3.

“É claro que os jovens não vacinados são uma grande preocupação. Continuamos a enviar a mensagem de que ser vacinado é importante porque as pessoas imunizadas estão apresentando sintomas mais leves”, afirmou David Makhura, primeiro-ministro de Gauteng.

A Ômicron foi detectada em mais de 20 países, mas a África do Sul e Botsuana continuam a ser responsáveis por 62% dos novos casos identificados no mundo.

RTP / Daynews

EUA dizem confiar plenamente na democracia brasileira




Assessor de Biden vê eleições "livres e justas" no Brasil em 2022. Casa Branca realiza na próxima semana Cúpula pela Democracia, que inclui Bolsonaro. Putin, que não foi convidado, oferece ao brasileiro visita à Rússia.

O governo dos Estados Unidos afirmou nesta quinta-feira (02/12) ter plena confiança de que as eleições de 2022 no Brasil serão "livres e justas". A declaração foi feita por Juan González, encarregado de assuntos da América Latina do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca.

Ele respondia a uma pergunta sobre o risco de o Brasil ter no ano que vem o seu próprio "6 de janeiro", em referência à invasão do Congresso americano por apoiadores do ex-presidente Donald Trump, que tentavam evitar a certificação da vitória de Joe Biden.

O presidente Jair Bolsonaro, apelidado por alguns analistas como "Trump dos trópicos", afirmou diversas vezes, sem apresentar provas, que o sistema eletrônico de votação no Brasil sofre fraudes e disse que não admitiria uma derrota eleitoral. "Só Deus me tira daqui", disse ele em maio, após defender a adoção do voto impresso.

González fez em abril sua primeira viagem oficial à América Latina, que incluiu Colômbia, Argentina e Uruguai. O Brasil ficou de fora.

Cúpula pela Democracia

Na próxima semana, o governo Joe Biden realizará aCúpula pela Democracia, para a qual o Brasil foi convidado e terá Bolsonaro como participante.

A cúpula virtual reunirá líderes de governos, de organizações da sociedade civil e de empresas, e será realizada na próxima quinta e sexta.

Questionado sobre a pertinência de ter Bolsonaro na cúpula, tendo em vista seus constantes ataques ao sistema democrático, González disse que o Brasil "definitivamente precisava ter um assento na mesa". "Se olharmos a trajetória da democracia brasileira, creio que as instituições brasileiras têm muito a ensinar ao mundo sobre a democracia."

O assessor do governo Biden ressaltou que a cúpula não terá somente a participação de governantes. "Acho importante que os líderes escutem os jornalistas e a sociedade civil e os ajudem a assumir seus próprios compromissos sobre como os governos podem realmente responder a algumas das demandas que recebem da população", disse.

Bolsonaro também aceita convite de Putin

A Cúpula pela Democracia organizada por Biden convidou chefes de governo e de Estado de cerca de 110 nações, e deixou de fora a Rússia, China, Turquia, Hungria, Venezuela e Bolívia, entre outros países.

Uma das nações que ficou irritada com a iniciativa americana foi a Rússia. Em novembro, o Kremlin acusou os Estados Unidos de tentarem criar divisão entre os países com a cúpula.

'Putin já veio ao Brasil em 2019 para Cúpula dos Brics, mas Bolsonaro ainda não fez viagem oficial à Rússia'

"Certamente temos uma atitude negativa em relação a esse evento. Não é nada mais do que uma tentativa de traçar novas linhas divisórias", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov. Ele acusou os Estados Unidos de tentarem "privatizar a palavra 'democracia'", acrescentando que, para Washington, democracia é apenas o que se encaixa em seu entendimento.

Nesta quinta-feira, Bolsonaro informou que aceitou um convite do presidente russo, Vladimir Putin, para viajar ao seu país em 2022. Segundo a agência de notícias estatal russa, Putin disse que o Brasil era um dos "mais importantes parceiros estratégicos" da Rússia.

Bolsonaro disse que havia aceitado o convite e está "feliz" e "honrado", pois a inciativa "abre uma janela de oportunidade" para o Brasil. "É um grande mercado consumidor. Vamos aprofundar esse relacionamento com a Rússia. (...) Vamos nos preparar para fazer dessa visita uma oportunidade de alavancarmos a nossa economia", afirmou.

Deutsche Welle

África do Sul vive alta sem precedentes de casos de covid-19




Infecções aumentaram mais de 300% em uma semana, sugerindo alta transmissibilidade da nova variante ômicron do coronavírus. Cientistas afirmam que reinfecções são três vezes mais prováveis do que com a delta.

Em meio a incertezas sobre quão perigosa é a variante ômicron do coronavírus, Michelle Groome, cientista do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis da África do Sul, afirmou que o país está enfrentando uma alta sem precedentes de infecções devido à nova cepa.

O país registrou 11.535 casos nesta quinta-feira (02/12), a maioria deles na província de Gauteng. O número aumentou mais de 300% em relação ao registrado há uma semana, quando cientistas alertaram a Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a nova variante.

O ministro da Saúde da África do Sul, Joe Phaahla, afirmou nesta sexta-feira que o país está entrando numa quarta onda de covid-19. Sete das nove províncias da África do Sul já registraram casos da variante, mas por enquanto a situação dos hospitais está sob controle, segundo Phaahla.

"Esta variante é de fato altamente transmissível, inclusive entre pessoas já vacinadas", disse. Somente cerca de 42% dos adultos receberam ao menos uma dose de vacina no país. Considerando a população total, a taxa está em cerca de 24%.

"Dados preliminares sugerem que a ômicron é mais transmissível e tem alguma evasão do sistema imune", disse Groome, de maneira mais cautelosoa.

A especialista afirmou que o vírus está se espalhando mais rápido do que nunca na província de Gauteng, onde ficam Joanesburgo e a capital Pretória.

Embora, em geral, pacientes estejam apresentando sintomas leves, Groome alertou que casos graves só seriam esperados ao longo das próximas duas semanas.

Cientistas sul-africanos afirmaram nesta sexta que reinfecções são três vezes mais prováveis com a ômicron do que eram com as variantes delta e beta.

Alta de crianças hospitalizadas

Também nesta sexta, médicos na África do Sul disseram que foi registrada uma alta nas hospitalizações entre crianças pequenas desde a descoberta da ômicron.

Os primeiros focos de casos da ômicron no país se concentraram em estudantes universitários. Os casos se espalharam rapidamente entre jovens, que parecem ter transmitido a variante para pessoas mais velhas.

Mas cientistas e autoridades de saúde afirmaram ter visto mais hospitalizações de crianças com menos de cinco anos, além de mais testes positivos para a covid-19 entre crianças com idades entre 10 e 14 anos.

"Vimos uma alta acentuada entre todas as faixas etárias, particularmente entre os com menos de cinco anos", afirmou Wassila Jassat, do Instituto Nacional de Doenças Transmissíveis, referindo-se às hospitalizações. "A incidência entre os com menos de cinco anos é atualmente a segunda mais alta, atrás somente dos maiores de 60."

Uma das razões apontadas por especialistas é que crianças com menos de 12 anos ainda não estão sendo vacinadas na África do Sul. Médicos relataram casos em que tanto crianças quanto pais que testaram positivo não estavam vacinados.

A variante ômicron

Detectada inicialmente em amostras coletadas na África do Sul e no vizinho Botsuana na primeira metade de novembro e comunicada à OMS no dia 24, a ômicron foi classificada como "variante de preocupação" pela agência da ONU.

Por conter 32 mutações na chamada proteína spike, teme-se que a nova cepa possa ser mais contagiosa e driblar a proteção de vacinas. Mas ainda não há dados suficientes para confirmar isso, nem se a variante provoca casos mais graves de covid-19. A variante delta, atualmente dominante no mundo, contém oito mutações na proteína spike.

A ômicron já foi detectada em mais de 20 países, entre eles os Estados Unidos e vários da Europa. Por enquanto, o Brasil é o único país latino-americano com presença detectada da nova variante, com cinco casos confirmados, três em São Paulo e dois em Brasília.

OMS diz que vacinação e não restrições de viagem é chave 

Nesta sexta, a OMS pediu que países reforcem seus sistemas de saúde e ampliem a vacinação contra a covid-19 para conter a disseminação da variante ômicron, e afirmou que restrições de viagem podem fazer com que se ganhe tempo, mas não devem ser a única medida.

Apesar de fechar suas fronteiras para Estados do sul da África devido à ômicron – assim como vários outros países, entre eles o Brasil –, a Austrália se tornou o mais recente país a reportar transmissão comunitária da nova variante.

"Controles de fronteira podem comprar tempo, mas todos os países e todas as comunidades devem se preparar para altas nos casos", disse Takeshi Kasai, diretor da OMS para o Pacífico ocidental.

O ministro da Saúde sul-africano expressou "indignação e decepção" em relação a países que impuseram restrições de viagens, afirmando se tratar de um "caminho destrutivo" que mina a cooperação internacional e a solidariedade.

Apesar de indicativos de que a variante é altamente transmissível, a OMS afirmou que as informações disponíveis até o momento sugerem que as medidas que vinham sendo adotadas contra outras variantes também devem ser eficazes contra a ômicron.

Kasai apelou para que países vacinem completamente grupos vulneráveis e continuem adotando medidas preventivas como o uso de máscaras e distanciamento social.

Deutsche Welle

Guedes perdeu o rumo, mas ninguém tem uma alternativa

 




Por Luiz Carlos Azedo 

O processo eleitoral é um fator de incertezas; ao mesmo tempo, é a travessia a ser feita, porque um novo governo terá credibilidade para tirar a economia da estagnação. O problema é que todos os pré-candidatos estão fugindo do debate econômico

A desaceleração global da indústria e a redução do preço das commodities podem provocar uma tempestade perfeita no Brasil, se a economia brasileira continuar fora de controle e desacelerando. Na prática, o único instrumento disponível para evitar uma explosão dos preços é a alta dos juros. O ministro da Economia, Paulo Guedes, perdeu a credibilidade e a economia está ancorada apenas na política monetária, ou seja, na ortodoxia do Banco Central (BC).

Os números divulgados, ontem, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que o Brasil está vivendo uma “recessão técnica”, puxada pelo agronegócio — pasmem! —, que teve uma queda de atividade de 8% no terceiro trimestre de 2021. O PIB variou -0,1% em relação ao trimestre imediatamente anterior. A Indústria ficou estável (0,0%) e os Serviços subiram (1,1%). No setor externo, tanto as exportações de bens e serviços (-9,8%) quanto as importações de bens e serviços (-8,3%) tiveram quedas em relação ao segundo trimestre de 2021. Mesmo assim, o PIB cresceu 4,0% frente ao mesmo período do ano passado.

É aí que mora o perigo, por causa da falta de compromisso com o equilíbrio fiscal e o auto-engano do governo em relação ao desempenho da economia, haja vista o baluartismo do presidente Jair Bolsonaro nas viagens que fez à Itália e aos Emiratos Árabes. O PIB desse ano deve crescer 5%, mas esse crescimento é relativo ao desempenho da economia no ano passado, quando a recessão foi de -4,1%, a pior retração em 24 anos. Ou seja, estamos diante de um “voo de galinha”, que pode virar um mergulho no mar de incertezas de 2022.

Enquanto a política segue seu curso intangível, sem previsibilidade do que vai ocorrer nas eleições presidenciais do próximo ano, o debate eleitoral que se avizinha, pelas manifestações dos pré-candidatos até agora, não é nada animador. Ninguém tem uma proposta clara para a economia, e as narrativas predominantes, tanto no governo quanto na oposição, são de viés populista, sem nenhum compromisso com o problema fiscal nem uma chave realista para a retomada do crescimento.

A principal causa de revisão das expectativas para o PIB em 2022 é a inflação, que deve obrigar o Banco Central a subir ainda mais os juros, com efeito negativo sobre o consumo das famílias e o investimento das empresas. O mercado financeiro está prevendo uma inflação de 8,4% em 2021. O PIB do próximo ano foi revisado de 1,7% para 1,3%.

Incertezas eleitorais

Mesmo com o novo Auxílio Brasil, viabilizado ontem pela aprovação da PEC dos Precatórios no Senado, a renda das famílias deve crescer 1,5%. A taxa de desemprego deve chegar aos níveis pré-pandemia somente em 2023. Além disso, haverá uma acomodação de preços das commodities, principalmente de minérios, além de redução das exportações para a China. O espetacular crescimento do superavit da balança comercial, que foi de US$ 76,6 bilhões em 2021, deve desacelerar em 2022, ficando em US$ 74,1 bilhões.

É aí que a questão eleitoral ganha contornos dramáticos. O processo eleitoral é um fator de incertezas para a mercado financeiro. Ao mesmo tempo, é a travessia a ser feita, porque um novo governo terá credibilidade para adotar medidas econômicas e tirar a economia da estagnação. O problema é que todos os pré-candidatos estão fugindo do debate econômico; apenas emitem sinais de fumaça, quando indicam um porta-voz econômico — como fez o ex-ministro Sergio Moro ao indicar Antonio Celso Pastore para comandar seu programa econômico — ou lançam propostas que miram muito mais os interesses corporativos do que, propriamente, uma saída da crise — como fez o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao falar dos preços dos combustíveis e da Petrobras.

O único pré-candidato que tem propostas claras e conhecidas para a economia é Ciro Gomes (PDT). Mas o ex-ministro da Fazenda de Itamar Franco nas eleições de 1994 não tem a simpatia do mercado financeiro. Com prefácio do Roberto Mangabeira Unger, seu livro Projeto Nacional, o Dever da Esperança propõe a retomada do percurso inaugurado pela Era Vargas e interrompido no início da década de 1980. “O neoliberalismo nos trouxe até aqui. Mas não nos tirará daqui”, avalia. Acontece que o nacional-desenvolvimentismo é considerado um modelo esgotado pela globalização.

Correio Braziliense

AL está presa num ciclo de instabilidade política




Eleição de extremista no Chile será um marco dessa onda

Por Humberto Saccomandi 

Um extremista será eleito, daqui a duas semanas, presidente do Chile, país que foi por três décadas um paradigma de desenvolvimento econômico e estabilidade política na América Latina. Será um momento simbólico no processo de desorganização política da região, que começou em 2015 e vem se agravando.

A América Latina nunca foi politicamente estável. Golpes, ditaduras, assassinatos, caudilhismo, populismo e corrupção marcam a história da região. A palavra “golpe” (idêntica em português e espanhol) é frequentemente usada em outros países, numa contribuição latino-americana ao vocabulário político global.

Mas a região viveu um momento de estabilidade e até euforia política a partir dos anos 90, à medida que muitos países foram se redemocratizando. Os processos foram diferentes, cada país teve suas particularidades. Mas parecia que, aos poucos, o cenário político e institucional latino-americano ia amadurecendo e se assentando.

Hoje é cada vez mais claro que a América Latina viveu um breve período de estabilidade política induzido do exterior, financiado pelo chamado superciclo de commodities. Os preços crescentes, a partir do ano 2000, de produtos de exportação como minério de ferro, cobre, soja e petróleo, puxados pela demanda chinesa, ajudaram a financiar de investimentos a programas sociais. Isso gerou as condições sócio-econômicas que favoreceram a estabilidade política. Permitiram também a compra sem precedentes de apoio político pelos governos.

Esse ciclo de preços altos das commodities, no entanto, recuou rapidamente a partir de 2014. Crescimento econômico e arrecadação começaram a cair na região. Os governos então tiveram de apertar os cintos, num momento de pressão social por mais e melhores serviços. A entropia voltou a aumentar.

Ainda em 2014, as três eleições presidenciais realizadas na América do Sul (Brasil, Colômbia e Uruguai) resultaram em vitórias governistas. Foi o ato final desse período de estabilidade política. Desde então, apenas dois governistas se elegeram (no Equador, em 2017, e no Paraguai, em 2018), e mesmo assim em situações muito particulares. Um oposicionista será eleito no Chile, em 19 de dezembro, e possivelmente na Colômbia, em maio de 2022. Isso é um péssimo presságio para as pretensões de reeleição do presidente Jair Bolsonaro.

Essa onda de instabilidade parece não ter uma clara coloração política. Governos de direita e de esquerda estão sendo castigados por eleitores insatisfeitos. O governo do kirchnertista Alberto Fernández acabou de ser derrotado nas eleições para o Congresso na Argentina.

No caso do Chile, o liberal Sebastián Piñera deixa o cargo com a pior taxa de aprovação de um presidente desde o fim da ditadura Pinochet. Isso apesar de o país ter sido o primeiro da região a aplicar vacinas contra a covid-19, um mês antes do Brasil, e ter a melhor taxa de vacinação regional. Além disso, a economia chilena deve crescer perto de 12% neste ano, recuperando-se com ampla margem da queda de 6% no ano passado.

Piñera será substituído no cargo ou por José Antonio Kast, de 55 anos, um neopinochetista de extrema-direita, ou por Gabriel Boric, de 35 anos, ex-líder estudantil de extrema-esquerda, que disputam o segundo turno.. Será algo inédito na história recente do país. Por 30 anos, o sistema político chileno evitou o extremismo e elegeu líderes moderados, de centro-esquerda ou centro-direita. Agora, os candidatos desses partidos centristas, que governaram nessas três décadas, obtiveram juntos só 20% dos votos.

Os programas de Kast e Boric estão recheados de propostas irrealistas e que dificilmente serão aprovadas, já que nenhum deles terá maioria no Congresso chileno. Kast propõe, por exemplo, uma ampla redução de impostos, sem mostrar cálculos de como financiar isso nem levar em consideração que há uma Assembleia Constituinte em andamento no Chile e que a nova Constituição deve impor mais, e não menos gastos ao Estado. Já Boric promete coisas como a estatização de várias atividades, alta de impostos e elevar a cobrança de royalties de empresas de mineração.

Kast defende regularmente o regime militar do general Pinochet. Já Boric até pouco tempo atrás dizia não acreditar nos partidos nem na democracia representativa.

Quem quer que seja eleito terá muita dificuldade para governar. Além da falta de apoio no Congresso e na Constituinte, Kast enfrentaria o risco de uma nova onda de protestos, como a que abalou o governo Piñera em 2019; já Boric teria contra si a oposição de toda a elite econômica chilena.

No Equador e no Peru, presidentes recém-eleitos, com poucos meses de governo, já enfrentam forte oposição, descontentamento e queda de popularidade. O liberal Guillermo Lasso, que está sendo investigado por investimentos offshore não declarados, colocou o Equador sob estado de emergência e sancionou um importante pacote de reforma fiscal sem aprovação do Congresso. O esquerdista Pedro Castillo já é alvo de pedido de impeachment no Peru e lidera um governo semiparalisado. Desde começo de 2018, o país teve cinco presidentes.

A covid-19 piorou ainda mais o quadro social e econômico na América Latina, que vinha se deteriorando. A região é a que teve mais mortes na pandemia. Agora, é a que mais sofre com a alta global da inflação. Pobreza e desigualdade estão em alta. Até a fome voltou a níveis de 20 anos atrás, segundo informou a FAO nesta semana. Essa deterioração, por sua vez, agrava a instabilidade política, num círculo vicioso.

Nesse cenário, cresce o apelo e o risco do autoritarismo. Além de Cuba e da Venezuela, países da América Central, como Nicarágua (onde Daniel Ortega foi reeleito presidente após afastar e/ou prender os seus principais adversários), El Salvador e Guatemala parecem rumar para modelos autoritários.

Sem um novo superciclo de commodities à vista, a América Latina tem o imenso desafio é criar por conta própria as condições sociais e econômicas internas que propiciem a estabilidade política. O cenário eleitoral desolador no Chile parece indicar que, por enquanto, não há um caminho claro para isso. Parece haver ainda muito túnel antes da luz.

Valor Econômico

Crescimento de Moro nas pesquisas como terceira via assombra Bolsonaro




A possível candidatura do ex-ministro da Justiça, Sergio Moro (Podemos), ao Palácio do Planalto mexe com os ânimos das figuras que estavam pleiteando a vaga de “terceira via” nas eleições de 2022, além de gerar insegurança para o próprio presidente, Jair Bolsonaro (PL).

O chefe do Executivo afirmou, durante live em suas redes sociais, nessa quinta-feira (2/12), que seu ex-ministro é mentiroso. “Esse cara está mentindo descaradamente. Faz um papel de palhaço, sem caráter. Mentiroso deslavado”, disse em transmissão ao vivo. Não apenas Bolsonaro manifestou insegurança: as últimas semanas foram marcadas pela corrida de legendas para marcar posição. Confirmaram as pré-candidaturas à Presidência os senadores Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e Simone Tebet (MDB-MS), e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

Moro também assusta por conta do desempenho positivo nas pesquisas. Segundo divulgado na última pesquisa do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), feita entre 22 e 24 de novembro, o ex-juiz da Lava-Jato apareceu com 11 pontos, três à frente da anterior, de outubro. Enquanto isso, o presidente Jair Bolsonaro caiu três posições, tendo 25% das intenções de voto. Lula manteve o primeiro lugar, com 42%.

“Luz amarela”

A preocupação é maior para Bolsonaro: os três pontos perdidos de um mês para outro foram herdados por Moro. Para o professor de Ciência Política e Relações Internacionais do Insper, Leandro Consentino, o medo do presidente está cada vez mais visível. “Ele deixa claro nas declarações e posicionamentos. A metralhadora do Planalto foi deslocada para o ex-ministro, tirando do alvo por hora o ex-presidente Lula”. O especialista explica que tamanha insegurança se deve ao que Moro “tira” de Bolsonaro, que seria uma possível vaga no segundo turno das eleições. “Isso acende uma luz amarela no Planalto”.

Faltando 11 meses para o pleito, o surgimento de uma terceira via com força suficiente para desmantelar a polaridade já instaurada se torna improvável. É o que analisa o cientista político. “O desafio da terceira via é difícil quando há pulverização de candidatos, mas pode ser que essa novidade do Moro possa mudar ou corrigir esses rumos. Ele é quem tem mais condições de fazer isso neste momento”, avalia. Leandro ainda destaca que, para um crescimento sustentável, Moro terá de aglutinar outros atores políticos em torno de si, tirando o elo mais frágil, que seria Bolsonaro. “Não é uma tarefa fácil”.

Correio Braziliense / Daynews

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