terça-feira, agosto 20, 2019

Este país tem muito a fazer, presidente Bolsonaro, mesmo sem haver dinheiro


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Charge do Nani (nanihumor.com)
Mathias Erdtmann
O comentário recente de que o Brasil não tem dinheiro, feito pelo próprio presidente, lembra uma anedota alemã cujo personagem é uma figura controversa. Ouvi o relato como se fosse verdadeiro, mas não consegui assegurar a veracidade, portanto repasso como anedota mesmo. Quanto a controvérsia, que é de natureza grave, peço paciência do leitor, ela será explicada depois.
Um dia, no auge da crise alemã entre a Primeira e a Segunda Grande Guerra, um diretor de um grande banco americano falou para o presidente do Banco Central alemão (uma pessoa reconhecidamente inteligente):
“Você, altamente capaz, poderia vir para cá, trabalhar comigo ou em qualquer banco que você escolher, até mesmo ocupando meu lugar. Mas cisma em continuar aí! Aí você não tem dinheiro, e aqui temos muito. Venha para cá, e aí você aprenderá a ser banqueiro de verdade!”.
A CONTROVÉRSIA – Nisso o alemão respondeu: “Meu amigo, infelizmente tenho que declinar da generosa oferta. Mas te digo algo: aí vocês têm dinheiro demais e aqui, não temos dinheiro nenhum. Venha para cá, aqui você poderá aprender a ser banqueiro de verdade”. Fim da conversa.
Essa era a anedota. A controvérsia é o personagem alemão: o primeiro presidente do Banco Central do III Reich, nomeado por Hitler. Antes que os leitores cessem a leitura e eu ganhe um rótulo indevido, peço que renovem a paciência, para conhecer a história de Hjalmar Schacht.
Nascido de um lar aristocrata, com ideais liberais e de boas relações com os americanos, foi tornado pobre pela crise da Primeira Guerra, ainda criança. Foi a Hannover e estudou economia, trabalhando em bancos até atingir, na República de Weimar (aquela, da hiperinflação alemã) um posto de secretário responsável por lutar contra a hiperinflação.
TIPO PLANO REAL – Com uma estratégia parecida com o plano real, sugeriu a troca da inflação por títulos da dívida, caríssimos de serem mantidos, mas que, ao menos, continham a inflação. Pelo trabalho no controle da inflação, foi chamado pelo recém- empossado Hitler para resolver o novo problema: ausência total de dinheiro ou crédito e excesso de desemprego.
Schacht bolou uma estratégia fantástica, que consistia em desbancarizar o governo, tentando se livrar dos grilhões da divída pública, já sabendo que qualquer credor cobraria caro por novas emissões. Para desbancarizar, reinstituiu o escambo: acordos bilaterais onde países trocavam bens com a Alemanha, sem dinheiro envolvido (10 toneladas de trigo em troca de um Fusca, por exemplo).
Além disso criou um novo papel de promissória, onde o lastro era a única coisa que existia com excedentes: a mão de obra do povo alemão. Todo valor arrecadado seria usado para construir e operar fábricas de produtos de aço. O pagamento era dado em produtos de aço, não em dinheiro (como se fosse uma compra antecipada e garantida de pistões).
DEU CERTO – Com essas medidas, rapidamente 6 milhões de alemães saíram do desemprego e o país retornou ao desenvolvimento, e ainda levaria mais três anos para o economista britânico Keynes publicar seu mais famoso tratado.
Depois disso começaram as divergências com o governo. Schacht discordava dos novos rumos, em direção ao belicismo, pois para ele essa estratégia levaria a Alemanha à fome: Schacht dizia que o país não produzia comida suficiente e que, portanto, tinha que ter produtos para dar em troca de comida. Nesse sentido, os produtos da indústria bélica são uma péssima opção: nem todo mundo precisa, nem todo mundo quer, e nem todo mundo está disposto a não usar o produto contra o vendedor. Além das razões da lógica financeira, a guerra ainda provoca nefastos efeitos colaterais.
CONTRA HITLER – Por fim, pelas divergências, foi demitido do cargo e largado ao ostracismo, mas não abdicou de um cargo decorativo no governo. Por dentro do governo, ajudou a planejar um atentado contra Hitler, que não logrou êxito. Em razão do atentado, foi preso pelo governo nazista, sendo solto por tropas americanas, quando do fim da guerra.
Em seguida, foi preso pelos americanos, em razão de seu óbvio envolvimento prévio com o regime nazista. Solto em seguida, muito possivelmente após esclarecida sua posição dissidente no fim do governo.
Voltou a ser preso, desta vez por alemães, para ser julgado no tribunal de Stuttgart, acerca dos crimes cometidos durante o governo nazista.
FOI CONDENADO – Certamente que sua classificação como inimigo do regime no fim atenuou a punição do então sexagenário, mas mesmo assim, foi considerado culpado, pois não abdicou de seu cargo decorativo logo após sua demissão do Banco Central, o que foi considerado uma forma de omissão.
Assim, foi sentenciado a anos de prestação de serviços sociais. Tendo concordado com a pena, a cumpriu plenamente (imagine a culpa que cada um carrega, por mais que tenha lutado pela reversão, ao ver os resultados nefastos do apoio inicial ao regime eleito que se tornara ditatorial).
Teve ainda muitos anos de vida pós-pena, vindo a falecer tranquilamente aos 93 anos.
TIRAR UMA LIÇÃO – Felizmente vivemos dias menos mórbidos que os vividos por Schacht, e, com todas as ressalvas possíveis e imagináveis, penso que é possível sim, tirar uma lição da anedota, e fazer muito trabalho sem dinheiro, pois o Brasil está em posição muito melhor que a Alemanha do fim da República de Weimar.
Temos comida, energia, natureza e gente para tocar esse barco, sem guerras e em união fraterna.

Senado vive uma “guerra de pareceres” sobre a indicação de Eduardo Bolsonaro

Posted on 

Charge do Ivan Cabral (www.ivancabral.com)
Daniel Weterman
Estadão
A indicação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, para a embaixada brasileira em Washington criou uma “guerra de pareceres” no Senado. Após a divulgação de um documento elaborado pela consultoria legislativa da Casa que aponta nepotismo na possível nomeação, outro parecer, também de consultores, afirma o contrário: a indicação não configuraria favorecimento indevido de um parente por parte do presidente da República.
O parecer favorável a Eduardo foi requisitado pela liderança do governo no Senado e encaminhado ao presidente da Comissão de Relações Exteriores, Nelsinho Trad (PSD-MS). O colegiado é responsável por sabatinar os indicados para representações diplomáticas. Já o documento que considera nepotismo foi encomendado pelo senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), contrário à indicação.
LEVANTAMENTO – Bolsonaro ainda não encaminhou o nome de Eduardo para o Senado e espera que o filho tenha votos na Casa para só então enviar a indicação. Conforme levantamento do Estado, 15 senadores afirmam que pretendem votar a favor do nome do “filho 03” do presidente, enquanto 29 dizem ser contra – 29 não quiseram responder e 7 se declararam indecisos. São necessários no mínimo 41 votos para que ele seja aprovado.
Elaborados por técnicos da consultoria legislativa do Senado, os pareceres, que podem ou não ser usados pelos parlamentares na hora do voto, costumam apresentar interpretações às demandas dos senadores. A distribuição dos pedidos para elaboração de notas técnicas ocorre de acordo com a área de atuação e a disponibilidade dos profissionais, por isso podem ter conclusões diferentes.
DIVERGÊNCIA – O conflito no conteúdo dos pareceres favorável e contrário a Eduardo está na divergência sobre a natureza do cargo de um embaixador. A súmula número 13 do Supremo Tribunal Federal diz que a nomeação de um familiar até o terceiro grau para cargos de confiança viola a Constituição Federal. O STF já se manifestou com a interpretação de que, para agentes políticos, a súmula não se aplica. A dúvida é justamente se um representante diplomático é um agente político ou não.
Para os consultores Renato Monteiro de Rezende e Tarciso Dal Maso Jardim, que assinam o parecer pedido por Vieira, os embaixadores “não são titulares de órgãos de cúpula do Estado, nem atuam com a independência funcional que caracteriza os agentes políticos”. O entendimento diverge do outro parecer, que não teve o conteúdo divulgado.
NEPOTISMO – Segundo Nelsinho Trad, os diferentes entendimentos servirão como base para o relator da indicação de Eduardo elaborar seu parecer. “São vários consultores. Alguns entendem que tem (nepotismo), outros entendem que não tem. É igual no Supremo Tribunal Federal com os ministros”, disse Trad ao Estadão/Broadcast. “Tem pareceres para todos os gostos e tipos. O importante é que o relator ou relatora a ser escolhido vai ter todos esses elementos em mãos, vai fazer o relatório dele e, aí, o colegiado vai decidir se é nepotismo ou não.”
Autor do pedido do parecer contrário a Eduardo, Vieira afirmou ser preciso avaliar tecnicamente o assunto. “Não conheço o parecer (favorável a Eduardo), é preciso avaliar. Mas não adianta tapar o sol com a peneira, a única razão para a indicação é o vínculo familiar. Todo o resto é balela.”

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