
Plano de Washington propõe concessões territoriais à Rússia
Marcelo Copelli
Revista Visão (Portugal)
O plano atribuído ao governo de Donald Trump, que prevê concessões territoriais à Rússia e pressões diretas sobre a Ucrânia para aceitar um acordo baseado em desigualdade de forças, provocou forte reação na União Europeia e reacendeu o debate internacional sobre os limites da diplomacia em tempos de guerra. Kaja Kallas, alta representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, expressou em Bruxelas o que rapidamente se consolidou como a posição oficial europeia: a pressão deve recair sobre o agressor — a Rússia — e não sobre a Ucrânia, cuja soberania foi violada em 2022 e permanece sob ataque contínuo.
Com uma clareza rara em momentos de tensão transatlântica, a Europa manifestou oposição firme a qualquer proposta que obrigue Kiev a ceder território, capacidade militar ou autonomia política como condição para um cessar-fogo imposto externamente. A declaração de Kallas — “A pressão deve estar no agressor, não na vítima; fazer o contrário é um convite a novas agressões” — transcende a dimensão moral e reflete um diagnóstico estratégico sustentado por um princípio fundamental do direito internacional: nenhum Estado agredido deve ser penalizado pela violência que sofreu.
ACORDO – A crítica europeia decorre da inquietação causada pelo alegado plano de 28 pontos divulgado pela imprensa internacional, segundo o qual Washington estaria avaliando um acordo que incluiria a cessão de territórios atualmente ocupados pela Rússia e a redução significativa das Forças Armadas ucranianas. Para a UE, tal proposta equivaleria a institucionalizar o expansionismo russo e abrir um precedente extremamente perigoso para a segurança no continente.
Esse posicionamento repousa sobre lições históricas que, na visão europeia, os EUA parecem minimizar. O continente conhece de forma dolorosa o custo da cedência ao agressor. Das capitulações dos anos 1930 aos conflitos nos Balcãs, a história demonstra que recompensar a força com ganhos territoriais não conduz à pacificação — ao contrário, legitima e amplia a violência. O alerta de Kallas ecoa essa memória coletiva: mapas redesenhados pela imposição militar produzem apenas uma paz aparente e profundamente instável. A Ucrânia não emergiria como um país pacificado, mas como um Estado mutilado, condenado a conviver com novas ameaças.
O desconforto europeu diante do posicionamento de Washington evidencia tensões geopolíticas crescentes. Aceitar um acordo que legitime conquistas militares seria renunciar a qualquer autoridade moral futura para condenar agressões semelhantes, seja no Leste Europeu, seja em regiões onde o direito internacional ainda funciona como última barreira à lógica da força. Por isso, Bruxelas insiste em uma estratégia dupla: aprofundar sanções contra Moscou e reforçar o apoio militar e econômico a Kiev — não para prolongar o conflito, mas para impedir que uma capitulação disfarçada de diplomacia inaugure um ciclo ainda mais perigoso de instabilidade.
PRIORIDADES INTERNAS – O contraste com a Casa Branca torna-se particularmente sensível em um momento em que os Estados Unidos procuram recentrar sua política externa em prioridades internas e no desafio representado pela China. Trump parece apostar na ideia de que um “conflito congelado” reduziria o custo político e financeiro da guerra para Washington. No entanto, esse cálculo desconsidera a realidade geoestratégica: é a Europa — e não os EUA — que vive com a ameaça às portas. Permitir que a Rússia mantenha territórios ocupados significaria abdicar da segurança continental e da coerência normativa que tem fundamentado a política externa europeia desde o pós-guerra.
Nesse contexto, a intervenção de Kaja Kallas assume ainda mais relevância. A diplomata estoniana fala a partir da experiência de um país que vive sob a sombra histórica e geográfica da Rússia. A trajetória dos Estados bálticos confere peso adicional ao alerta: uma Rússia recompensada pela agressão inevitavelmente se tornaria mais assertiva diante de vizinhos que Moscou considera parte de sua “esfera de influência”. A pergunta é inevitável: se a Ucrânia for obrigada a ceder, quem será o próximo alvo?
PARTICIPAÇÃO DA UCRÂNIA – A resposta europeia não ignora a urgência de construir uma paz duradoura. A UE reconhece que a guerra não pode prolongar-se indefinidamente, mas insiste que qualquer solução deve ser construída com a participação da Ucrânia e não às suas custas. Um acordo que sacrifique a soberania de um Estado produzirá apenas um armistício temporário e frágil. Por isso, Bruxelas defende que a diplomacia só será legítima se se apoiar em dois pilares fundamentais: a restauração das fronteiras internacionalmente reconhecidas e o fortalecimento das capacidades de defesa ucranianas.
No essencial, a posição europeia não configura apenas uma rejeição ao plano norte-americano — é a afirmação de um modelo distinto de segurança internacional. Um modelo que não concebe a paz como mera interrupção das hostilidades, mas como a construção de condições que impeçam o agressor de reincidir. Um modelo que, ao contrário da lógica das esferas de influência, reconhece cada Estado como sujeito pleno de direitos, independentemente de sua dimensão ou poder militar. É esse modelo que está em disputa — tanto na Ucrânia quanto no futuro da Europa como projeto de paz.
ADVERTÊNCIA – Assim, a divergência entre Washington e Bruxelas não deve ser interpretada como ruptura, mas como advertência. A estabilidade do continente não pode ser terceirizada para acordos que beneficiem o agressor. Se a Ucrânia for forçada a aceitar uma paz desvantajosa, a credibilidade do Ocidente será profundamente comprometida. E a Rússia, que testa sistematicamente os limites da ordem internacional, ganhará novo incentivo para acreditar que a força compensa.
É por isso que o alerta de Kaja Kallas ecoou muito além da conferência de imprensa. Foi um lembrete claro de que a paz não se alcança sacrificando a vítima — alcança-se freando o agressor. A Europa, mais do que nunca, sabe disso. E escolheu afirmar essa posição em voz alta.