Valdemar, Bolsonaro e a confissão que abala o bolsonarismo

Valdemar admite que houve ‘planejamento de golpe’
Pedro do Coutto
A recente declaração de Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, de que havia de fato um plano de golpe de Estado para manter Jair Bolsonaro no poder, abriu uma crise sem precedentes dentro da direita brasileira. Não se trata apenas de uma fala infeliz ou de um deslize verbal: Valdemar, um dos principais articuladores políticos do bolsonarismo, reforçou publicamente a tese sustentada pela Procuradoria-Geral da República e acolhida pelo Supremo Tribunal Federal.
Na prática, confirmou aquilo que o STF já havia julgado e condenado: a conspiração contra o Estado Democrático de Direito. Com essa admissão, ainda que posteriormente negada, o líder do PL ofereceu munição pesada a opositores e colocou em xeque a estratégia de defesa de Bolsonaro e de sua base.
REFLEXOS – A reação de Bolsonaro foi imediata e furiosa. O ex-presidente, condenado a mais de 27 anos de prisão, nunca admitiu a existência de um plano golpista, preferindo sustentar a narrativa de perseguição política. Quando um dos seus mais próximos aliados rompe essa versão e reconhece, ainda que por descuido, a articulação da ruptura institucional, toda a retórica cuidadosamente construída desmorona.
Valdemar percebeu o erro e, num movimento típico da política, tentou recuar, relativizar suas palavras e negar o que havia dito. Mas, como lembrava Magalhães Pinto, a política é como a nuvem: muda de forma com o vento. A tentativa de desdizer o que já estava dito não apagou o estrago. A imagem de um líder partidário admitindo a conspiração ficou registrada no imaginário político e midiático.
ANISTIA – O impacto imediato foi sobre a articulação da anistia que bolsonaristas pressionam para colocar em votação no Congresso. O discurso de Valdemar enfraqueceu sobremaneira o projeto, pois deu razão àqueles que acusam a proposta de ser uma manobra para encobrir crimes graves contra a democracia.
Parlamentares alinhados ao governo e setores da sociedade civil passaram a usar as palavras do próprio presidente do PL como prova de que a anistia não pode prosperar. Valdemar, ao tentar apagar o fogo que ele mesmo acendeu, acabou revelando uma contradição incontornável: como defender a anistia de crimes que já foram confirmados por seus próprios aliados?
O episódio pode se consolidar como um divisor de águas, deixando claro que, ao menos no terreno político, o bolsonarismo começa a enfrentar não apenas a resistência institucional, mas também as rachaduras internas que comprometem sua narrativa de unidade e vitimização.