quarta-feira, setembro 24, 2025

Sob olhar de arquitetos das sanções, Lula desafiou ofensiva americana contra o Brasil


Discurso de Lula defende soberania brasileira

Malu Gaspar
O Globo

O discurso de Lula com duras críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pela ofensiva contra o Brasil na abertura da Assembleia Geral da ONU foi assistido de perto pelos arquitetos das sanções financeiras contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e sua mulher, a advogada Viviane Barci de Moraes.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, e o chefe do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, estavam no salão da Assembleia Geral durante a fala do presidente brasileiro. Os três são os principais responsáveis pela aplicação da Lei Magnitsky aos alvos brasileiros, sob a justificativa de que o STF promove uma “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão pela trama golpista.

REUNIÃO – Rubio, um dos mais enfáticos críticos do governo brasileiro e do Supremo, e Bessent, a quem cabe implementar as sanções, assistiram impassíveis o chefe anunciar uma reunião com Lula o “na próxima semana” e dizer que o encontro rápido nos bastidores da ONU foi um “bom começo”. “Eu o vi, ele me viu, e nos abraçamos”, relatou Trump. “Não tivemos muito tempo para conversar, tipo uns 20 segundos”.

“Em retrospecto, fico feliz de ter esperado. Nós tivemos uma boa conversa e combinamos de nos encontrar na próxima semana, se isso for de interesse mútuo, mas ele pareceu um homem muito agradável. Na verdade, ele gostou de mim e eu gostei dele”, prosseguiu. Nesse momento, apenas Mike Waltz, representante dos EUA nas Nações Unidas, olhou para o lado e sorriu para alguém fora do quadro da tela.

“MODELO” – Nas redes, Rubio classificou o discurso do chefe como “incrível” e avaliou que Trump está estabelecendo um “modelo para o mundo livre”. Citou ainda temas extensamente explorados pelo presidente na fala à Assembleia Geral, como a imigração ilegal e o negacionismo climático, mas deixou de fora a intervenção sobre Lula e o Brasil.

Como chefe da diplomacia americana, Rubio seleciona os estrangeiros a serem punidos pela Magnitsky, que passam a integrar a lista das chamadas sanções Ofac, sigla em inglês para Office of Foreign Assets Control, o Escritório de Controle de Ativos Externos do Departamento do Tesouro.

Bessent, por sua vez, é responsável por executar as restrições Ofac no âmbito dos EUA e também fez parte da costura do tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros imposto por Trump.

USO DESVIRTUADO  – A legislação foi criada no governo Barack Obama (2009-2017) para punir autoridades estrangeiras violadoras de direitos humanos, mas tem sido usada neste segundo mandato de Trump contra desafetos de Washington como Moraes e Karim Khan, procurador do Tribunal de Haia responsável pelo pedido de prisão contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, por crimes de guerra na Faixa de Gaza.

Em sua fala, Lula disparou críticas às retaliações americanas. “Mesmo sob ataque sem precedentes, o Brasil optou por resistir e defender sua democracia, reconquistada há quarenta anos pelo seu povo, depois de duas décadas de governos ditatoriais. Não há justificativa para as medidas unilaterais e arbitrárias contra nossas instituições e nossa economia. A agressão contra a independência do Poder Judiciário é inaceitável”, afirmou o petista.

“Essa ingerência em assuntos internos conta com o auxílio de uma extrema direita subserviente e saudosa de antigas hegemonias. Falsos patriotas arquitetam e promovem publicamente ações contra o Brasil. Não há pacificação com impunidade”, completou em uma referência tácita ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e ao ex-apresentador Paulo Figueiredo, articuladores das sanções junto ao governo Trump.

AMPLO DIREITO DE DEFESA – Na sequência, o petista destacou que Bolsonaro foi investigado, indiciado, julgado e condenado em um processo independente com amplo direito de defesa, sem mencionar o ex-presidente pelo nome.

“Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado a todos os candidatos a autocratas e àqueles que os apoiam: nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis. Seguiremos como nação independente e como povo livre de qualquer tipo de tutela”, alfinetou. Até o fechamento desta reportagem, as falas de Lula não haviam sido rebatidas por Rubio, Bessent ou auxiliares dos secretários nas redes sociais.


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