Publicado em 22 de agosto de 2025 por Tribuna da Internet

Charge de William Medeiros (william.com.br)
Pedro do Coutto
Desde o anúncio da imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros pelos Estados Unidos, a partir de 1º de agosto de 2025, sob a liderança do presidente Donald Trump, o Brasil vem enfrentando uma crescente turbulência econômica, com efeitos diretos tanto no comércio exterior quanto no custo de vida interno. A medida, motivada por considerações políticas — com o governo Trump alegando uma “caça às bruxas” ao ex-presidente Bolsonaro — tem potencial para sacudir profundamente setores como agronegócio, aeronáutica e tecnologia.
O impacto se desdobra em múltiplas frentes. No plano externo, as exportações brasileiras aos EUA, que alcançaram aproximadamente US$ 40 bilhões em 2024, estão entre as mais afetadas, com destaque para café, carne bovina, celulose, petróleo e componentes industriais. Internamente, a reação já se materializa: setores como carnes, frutas e embalagens estão reduzindo embarques por precaução, enquanto produtos redirecionados ao mercado doméstico podem estar encarecidos por efeito da depreciação do real e da inflação.
CÂMBIO – A baixa no câmbio se fez sentir com vigor, chegando a cair quase 3%, enquanto a bolsa paulistana também sofreu perdas sensíveis. Empresas como a Embraer viram suas ações recuarem significativamente, com projeções internas estimando um prejuízo de até US$ 350 milhões por aeronave vendida aos EUA. Setores como carne bovina e suco de laranja enfrentam desafios de viabilidade econômica frente às taxas elevadas.
Ainda que a transição para outros mercados — como China, Índia e União Europeia — esteja em andamento como estratégia de diversificação, a incerteza persiste. Internamente, o impacto pode chegar a reduzir o PIB em até R$ 25,8 bilhões em dois anos e eliminar mais de 146 mil empregos; em um horizonte mais longo, as perdas podem atingir quase 1% do PIB, com 618 mil postos de trabalho comprometidos.
No entanto, há uma contraposição inesperada: o tarifaço, ao reduzir as exportações, pode provocar um maior escoamento de produtos no mercado interno, gerando inflação em curto prazo, mas potencialmente aliviando preços de alguns bens, especialmente aqueles originalmente destinados ao exterior, como alimentos e commodities. Isso cria um dilema macroeconômico — ao passo que a inflação importada pode subir, alguns preços internos podem ceder, o que adiciona complexidade ao controle monetário do país.
CRISE DIPLOMÁTICA – E mais: além de comprometer a estabilidade econômica, a ofensiva tarifária de Trump instiga uma crise diplomática que extravasa o campo mercantil. A postura agressiva do governo dos EUA dá sinais de desrespeito ao multilateralismo e à equidade, afetando o cenário geopolítico global. A coerência e firmeza do governo brasileiro se mostram fundamentais na defesa da soberania nacional, em meio a um quadro de instabilidade econômica e política.
O “tarifaço” aplicado por Donald Trump sobre o Brasil expõe de forma crua os riscos de uma política externa unilateral que trata o comércio como ferramenta de pressão política. Seus efeitos colaterais atingem diretamente a economia real brasileira — desde a produção até o bolso do consumidor — e abalam as bases do crescimento sustentável.
Em curto prazo, poderão surgir alívios pontuais em alguns preços, mas o cenário permanece ameaçador: falta previsibilidade, aumenta a recessividade de certos setores e a confiança nos mercados se debilita. A resposta inteligente do Brasil passa pela diversificação comercial, resistência institucional e capacidade de adaptação frente a uma tempestade que, se não for enfrentada com estratégia, poderá ser devastadora.