terça-feira, agosto 12, 2025

Parlamentares, futebol e a política das emendas: o “gol” além do gramado

Publicado em 12 de agosto de 2025 por Tribuna da Internet

Charge do Baggi (instagram.com/falabobaggi)

Pedro do Coutto

 
A reportagem publicada ontem no O Globo expôs com nitidez um problema que há muito se insinua nos bastidores da política brasileira: a não aplicação correta e lógica dos recursos oriundos das emendas parlamentares. Criadas para atender demandas legítimas da população, essas verbas acabam, em muitos casos, direcionadas para finalidades de interesse pessoal ou político, em vez de se revestirem de interesses coletivos.
 
O resultado é que se perde a força e o propósito original de um instrumento que, bem utilizado, poderia transformar realidades locais. As emendas parlamentares são instrumentos legítimos previstos na Constituição Federal, com regras claras: um teto de 2% da Receita Corrente Líquida (RCL), sendo metade obrigatoriamente destinada à saúde.
 
DESPESAS INUSITADAS – No entanto, quando essas verbas são canalizadas de maneira desproporcional para clubes de futebol ou para despesas inusitadas — como a compra de traves, pagamento de técnicos ou patrocínio de campeonatos —, abre-se um debate inevitável: até que ponto isso é gestão responsável e até que ponto é uso político?

O caso de São Paulo em 2024 é ilustrativo: R$ 81 milhões foram destinados a eventos esportivos, quatro vezes mais do que à Saúde e muito acima do que se investiu em Educação. O futebol, com seu apelo emocional e sua capacidade de reunir multidões, se torna um palanque natural para parlamentares em ano eleitoral. A presença em eventos, a entrega de uniformes e até o simples ato de “aparecer” ao lado da comunidade esportiva geram dividendos eleitorais difíceis de mensurar, mas politicamente valiosos.

Por outro lado, há iniciativas positivas, como em Aracaju, onde mais de R$ 4,6 milhões foram destinados a escolinhas de futebol na periferia, com foco em inclusão social e cidadania. Nesses casos, o esporte serve como ponte para oportunidades, disciplina e engajamento comunitário. O problema é que, ao lado dessas boas práticas, proliferam casos em que a justificativa social é apenas retórica.

DILEMA – Essa tensão revela um dilema estrutural: o mesmo instrumento que pode ser motor de transformação pode também se tornar ferramenta de marketing político. Quando o interesse eleitoral se sobrepõe ao coletivo, o potencial de impacto real se perde. A consequência é um ciclo vicioso onde a população deixa de confiar na destinação dessas verbas e o mecanismo se enfraquece.

O desafio não é apenas fiscalizar, mas estabelecer critérios e métricas que garantam que cada real destinado cumpra uma função social concreta e mensurável. O esporte, especialmente o futebol, não pode ser apenas uma vitrine eleitoral; precisa ser um caminho consistente para inclusão e desenvolvimento. Caso contrário, as emendas parlamentares continuarão marcando gols, mas apenas no placar político de quem as destina.


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