segunda-feira, agosto 18, 2025

China foi ofendida por Bolsonaro, mas nem por isso atacou os brasileiros


Dora Kramer
Folha

Governadores que pretendem representar a direita na disputa presidencial de 2026 insistem em responsabilizar o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) pela crise com os Estados Unidos. É a maneira confortável que acharam para se distanciar das ações bolsonaristas. A desonestidade mental na construção de versões não deixa de ser um direito inalienável de seus autores, embora o truque encontre na realidade um poderoso obstáculo.

Verdade que Lula não precisaria ter contaminado a relação entre os dois países com a doença infantil do antiamericanismo. Mais condizente com a tradição diplomática do Brasil teria sido manter a tradição de neutralidade, mas está feito e, pelo jeito, não vai mudar.

ÍNDIA, INCLUSIVE – Ademais, a ofensiva de Donald Trump não atingiu apenas adversários ideológicos. Alcançou governos politicamente amigáveis como a Índia, também sancionada com tarifas de 50%. Portanto, as posições de Lula podem até compor a cena, mas não servem como justificativa nem explicam o todo até agora sem explicação razoável.

Os governadores de São Paulo, Paraná, Minas Gerais e Goiás certamente não estão acometidos por um surto de amnésia. Devem se lembrar muito bem do tratamento que o então governo de Jair Bolsonaro (PL), apoiado por eles, reservava à China, da mesma forma por razões ideológicas.

O maior parceiro comercial do Brasil, à época visto como ameaça comunista, foi alvo de declarações ofensivas, de retórica agressiva e até culpado pela pandemia da Covid-19.

SEM INTERVIR – Em protesto, a embaixada chinesa reagiu com energia, mas nem por isso prejudicou a pauta de exportações nem tentou intervir em nossas questões internas ou aplicar sanções a pessoas cujos atos desagradassem a Pequim.

Pretensões eleitorais não autorizam ninguém a distorcer os fatos de modo para moldá-los às suas conveniências. No caso, o que temos é a figura de um agressor que decidiu acionar sua usina de punições para dar asas à própria violência. Uma doença que um telefonema de Lula não cura.

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