Publicado em 12 de julho de 2025 por Tribuna da Internet

Charge reproduzida da revista Veja
Deborah Bizarria
Folha
O anúncio de tarifas de até 50% sobre produtos brasileiros, feito por Donald Trump sob a justificativa de “perseguição política” a Jair Bolsonaro, reacendeu a tensão entre Brasil e Estados Unidos. A medida foi interpretada como tendo apenas motivação política, permitindo ao governo Lula apresentar-se como alvo de uma articulação entre a oposição e o governo americano.
Desde então, analistas discutem se o episódio poderá ser usado para reforçar a coesão institucional e gerar ganhos eleitorais para Lula e o PT.
CASO A CASO – O que mostram outros episódios de sanções ou tarifas externas? Em alguns casos, gestos hostis vindos de fora estimulam apoio ao governo, especialmente quando a narrativa de soberania nacional é bem conduzida. Mas a literatura empírica mostra que a reação do eleitorado varia.
Quando os custos econômicos recaem sobre grupos articulados e não há compensação clara, a pressão externa pode se voltar contra quem governa, mesmo que o conflito tenha sido provocado por outros.
O exemplo mais recente é o do Canadá. Com o Partido Liberal em queda nas pesquisas e enfrentando uma campanha difícil contra os Conservadores, o anúncio de tarifas por Trump, acompanhado de insinuações sobre a soberania territorial, foi incorporado pela campanha como símbolo de agressão externa.
UNIDADE NACIONAL – O governo Trudeau ativou o discurso de unidade nacional, e Mark Carney passou a ser identificado como defensor da economia canadense. Pesquisas registraram aumento de aprovação e os Liberais venceram nas urnas.
No Irã, as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos durante o governo Trump foram enquadradas pelo regime como parte de uma ofensiva política contra o país.
Um estudo analisou cerca de dois milhões de postagens de influenciadores iranianos e observou que, após o endurecimento das sanções, houve aumento do apoio ao regime, inclusive entre opositores moderados. A retórica nacionalista pareceu se sobrepor ao custo material.
EXEMPLO DA RÚSSIA – Mas o mesmo padrão não se repete sempre. Na Rússia, as sanções ocidentais impostas após a anexação da Crimeia, em 2014, não resultaram em fortalecimento unânime do governo. Um estudo de Timothy Frye mostrou que a reação da população foi dividida.
Russos alinhados ao regime culparam o Ocidente e mantiveram seu apoio a Vladimir Putin. Mas em áreas urbanas afetadas pela deterioração econômica, houve queda de aprovação ao governo.
Já Alexseev e Hale mostraram que as sanções internacionais de 2014 contra a Rússia tiveram um efeito negativo modesto na aprovação de Putin. O patriotismo despertado pela anexação da Crimeia causou um aumento significativo no apoio ao governo, mas as sanções isoladas não geraram um reforço político —apenas um desgaste discreto.
EFEITOS NEGATIVOS – Um caso em retaliação comercial que gerou efeitos negativos vem dos Estados Unidos. Durante a guerra comercial com a China, iniciada no primeiro governo Trump, Pequim impôs tarifas sobre produtos agrícolas e industriais, atingindo diretamente redutos eleitorais republicanos.
Análises de Blanchard, Bown e Chor, e de Fetzer e Schwarz mostram que os condados mais afetados registraram queda significativa de apoio a candidatos republicanos nas eleições de meio de mandato em 2018.
As regiões mais prejudicadas eram as mesmas que haviam dado sustentação à eleição de Trump dois anos antes.
TUDO DEPENDE – A política tarifária do atual governo dos Estados Unidos recoloca esse impasse no Brasil. A medida anunciada por Trump tem claro conteúdo político e atinge diretamente setores exportadores.
Ainda não se sabe se o governo Lula conseguirá transformar esse episódio em capital político, como ocorreu no Canadá, ou se será interpretado como sinal de fragilidade internacional.
O que os estudos indicam é que os efeitos da pressão externa dependem do contexto, dos grupos afetados e da capacidade de reação. E nem sempre favorecem quem está no poder.