terça-feira, julho 08, 2025

Jeremoabo: A Emancipação Ignorada e a Ruína da Memória


Jeremoabo: A Emancipação Ignorada e a Ruína da Memória

A história de Jeremoabo, no sertão baiano, é rica e complexa, profundamente entrelaçada com os grandes movimentos políticos e sociais do Brasil Império. Contudo, essa riqueza tem sido, lamentavelmente, negligenciada e até mesmo ameaçada por um preocupante descaso com seu patrimônio e sua verdade histórica. A pesquisa exaustiva sobre os anais da época confirma que a emancipação política de Jeremoabo, com sua elevação de julgado a vila e município, se consolidou em 6 de julho de 1925, conforme o decreto legislativo da Regência em nome de D. Pedro II. Este marco, que desmembrou Jeremoabo da vila de Itapicurú, não foi apenas um ato administrativo, mas o reconhecimento de uma região de crescente importância.

A Fazenda Caritá: Palco de Decisões Imperiais

No cerne dessa história está a Fazenda Caritá, que emerge das fontes como um verdadeiro epicentro de decisões políticas e sociais que reverberaram por toda a Bahia e pelo Império. Não se tratava de uma mera propriedade rural; a Caritá era, desde a década de 1820, um ponto estratégico, tendo servido inclusive como quartel durante a crucial Guerra da Independência. Foi nesse cenário histórico que, em 28 de junho de 1838, nasceu Cícero Dantas Martins, o futuro Barão de Jeremoabo, cuja vida seria intrinsecamente ligada à fazenda e à história da região.

A documentação consultada, incluindo relatos da época, como o do sexto vigário de Jeremoabo, Januário José de Souza Pereira, descreve uma freguesia em formação, com uma população escassa mas em constante crescimento, fruto do processo de povoamento do rio São Francisco e dos sertões adjacentes desde o século XVII. A Caritá, situada próxima ao rio Vaza Barris, era parte integrante desse tecido social e geográfico.

O Descaso com o Patrimônio e a Tentativa de Apagar a História

É com profunda consternação que se constata o abandono da Fazenda Caritá. A residência do Barão de Jeremoabo, um local que testemunhou eventos tão cruciais para a formação do município e do próprio país, foi deixada à mercê do tempo, transformando-se em ruínas. As autoridades de Jeremoabo, ao longo dos anos, falharam em preservar e valorizar essa joia histórica, um reflexo de uma desconexão com suas próprias origens.

Essa negligência não é um problema do passado distante. Ela se manifesta de forma ainda mais alarmante na atualidade, com a persistente intenção de desconsiderar e até mesmo "jogar na lata do lixo" o restante da história de Jeremoabo, culminando na tentativa de alterar a data de sua emancipação política. Tal movimento não é apenas um erro factual; é um atentado à memória coletiva e à identidade de um povo. A data de 6 de julho de 1925 não é apenas um número no calendário, mas o registro de um processo histórico que merece ser respeitado e perpetuado.

A Infância na Caritá e a Formação de Cícero Dantas Martins

A vida na Fazenda Caritá, conforme os relatos, era marcada por uma austeridade e respeitabilidade típicas da época. Cícero Dantas Martins e seus irmãos foram criados em um ambiente onde o temor aos pais e a obediência às determinações paternas eram pilares. A descrição da rotina, das brincadeiras infantis às ocupações das irmãs – como crochê e confecção de rendas, sempre sob a supervisão de escravas de confiança –, oferece um vislumbre da vida social e dos costumes dos senhores de engenho no sertão baiano do século XIX. A educação em casa, a reclusão das moças e a rigidez nas refeições e na capela da casa-grande pintam um quadro vívido de uma época e de uma sociedade que moldaram figuras como o Barão de Jeremoabo.

Um Apelo à Preservação da Memória

A história de Jeremoabo, com sua emancipação em 6 de julho de 2025 e o papel central da Fazenda Caritá, é um patrimônio inestimável que não pode ser apagado ou distorcido. É um apelo urgente às autoridades e à comunidade para que reconheçam a importância de preservar esses marcos, não apenas como ruínas ou datas, mas como testemunhos vivos de sua identidade e de sua contribuição para a história do Brasil. A memória é a base sobre a qual se constrói o futuro, e ignorá-la é condenar uma comunidade a perder suas raízes e seu senso de pertencimento. 

Fonte: https://www.familysearch.org/pt/memories/memory/30531216


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