sexta-feira, julho 25, 2025

Crise tarifária: Brasil lidera resposta multilateral contra medidas dos EUA


Na OMC, Brasil recebeu o apoio de cerca de 40 países

Pedro do Coutto

Na última sessão da Organização Mundial do Comércio (OMC), ocorrida nesta quarta-feira, o representante brasileiro proferiu um discurso contundente e necessário. A fala denunciou o uso político, desequilibrado e unilateral das tarifas comerciais por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, especificamente contra países como o Brasil. A crítica ganha relevo não apenas por sua dureza, mas pela consistência técnica e pelo risco real que tais medidas representam para a ordem econômica internacional.

A decisão de Trump de impor um novo pacote de tarifas — conhecido nos bastidores como tarifaço — não é apenas um ato protecionista. Trata-se de uma jogada que visa produzir efeitos eleitorais internos e reafirmar sua retórica de “America First”, ainda que isso custe a estabilidade do comércio global. A crítica brasileira ganhou respaldo imediato entre diversos países membros da OMC, justamente porque a elevação arbitrária das tarifas compromete o equilíbrio das cadeias produtivas e comerciais mundiais. Não é apenas uma questão entre EUA e Brasil — é um ataque ao sistema multilateral que sustenta o comércio desde o pós-guerra.

INFLAÇÃO INTERNA – É importante lembrar que o aumento de tarifas, ao contrário do que muitas vezes se propaga nos discursos nacionalistas, também afeta duramente o país que as impõe. Os produtos encarecem, a inflação interna sobe e empresas que dependem de insumos importados perdem competitividade. Estudos de instituições como o Peterson Institute for International Economics e o próprio Congressional Budget Office mostram que as tarifas impostas por Trump desde seu primeiro mandato resultaram em aumento de preços para o consumidor americano, perdas de empregos na indústria e tensões com aliados estratégicos.

No caso brasileiro, setores como o agronegócio, a indústria de base e a exportação de aço são diretamente impactados. O Brasil, que nos últimos anos vinha reconstruindo sua credibilidade internacional, vê-se agora forçado a responder à altura. Segundo fontes do Itamaraty e da Secretaria de Comércio Exterior, o presidente Lula da Silva avalia a formação de uma rede comercial de resistência, composta por até 40 países, para contrabalançar os efeitos das novas tarifas, que devem vigorar a partir de 1º de agosto.

DIPLOMACIA – A proposta lembra a articulação do chamado Sul Global e da União Europeia em momentos de tensão com Washington, e pode reforçar a diplomacia econômica brasileira como um vetor de liderança internacional. As tarifas elevadas causam, além de distorções de preços, um verdadeiro caos regulatório.

Ao variar de país para país, a diversidade de alíquotas quebra a previsibilidade necessária para o planejamento de empresas e investidores. Isso gera incertezas, desestimula o comércio e encoraja medidas retaliatórias. É nesse cenário de confusão que Trump prospera. Seu estilo político é alimentado por conflitos — comerciais, diplomáticos e ideológicos. E isso faz dele não apenas um líder controverso, mas um agente de instabilidade global.

RESPONSABILIDADE –  O alerta brasileiro na OMC deve ser entendido como um gesto de responsabilidade internacional. É preciso haver um contraponto à escalada tarifária e ao uso das tarifas como armas políticas. A OMC, embora enfraquecida nos últimos anos, ainda é o foro legítimo para conter abusos e restaurar a confiança no sistema multilateral.

Por fim, o que está em jogo vai além das tarifas em si. Trata-se da manutenção de um ambiente internacional baseado em regras, previsibilidade e cooperação — fundamentos que garantiram décadas de crescimento e desenvolvimento. O Brasil faz bem em reagir com firmeza, mas também com inteligência estratégica, para que não sejamos reféns da lógica de conflito que Trump parece não saber — ou não querer — evitar.

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