Estudantes da Faculdade Ages realizaram uma visita de campo à Fazenda Caritá, antiga casa do Barão de Jeremoabo, para documentar in loco e pesquisar a história de Jeremoabo que se revela entre as ruínas.
A Luta Pelo Casarão da Fazenda Caritá: Um Tesouro Histórico de Jeremoabo em Busca de Reconhecimento
O Casarão da Fazenda Caritá, outrora imponente residência do Barão de Jeremoabo, Cícero Dantas Martins, emerge como um símbolo do patrimônio histórico e cultural que, apesar das ruínas impostas pelo tempo e pelo abandono, clama por reconhecimento e preservação. Sua relevância transcende as fronteiras municipais, e o esforço para sua recuperação envolve diversas esferas do poder público e da academia.
A jornada para a valorização desse tesouro começou com a administração do prefeito Tista de Deda, que iniciou os trâmites para a regularização do imóvel. Paralelamente, o deputado Jacó intensificou essa luta ao apresentar o Projeto de Lei 23.398/2019 na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA). O objetivo é que o Estado da Bahia reconheça o Casarão da Fazenda Caritá como patrimônio cultural imaterial, um passo crucial para sua preservação.
Para justificar a proposta, o parlamentar fundamenta-se em um texto do professor Roberto Ventura, renomado estudioso de teoria literária da Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro "Estilo Tropical". Ventura salienta a importância histórica do prédio, que, embora em ruínas, carrega um peso significativo na literatura e na história do Brasil.
O Barão de Jeremoabo, Cícero Dantas Martins (nascido em 1838 na própria Fazenda Caritá e agraciado com o título de barão por D. Pedro II), é uma figura que ecoa em obras de gigantes da literatura. No romance "A Guerra do Fim do Mundo", Mario Vargas Llosa criou o Barão de Canabrava, figura inspirada diretamente na liderança baiana de Jeremoabo. Sua influência também é sentida nas entrelinhas de "Os Sertões", de Euclides da Cunha, onde o ensaio histórico de 1902 denuncia o massacre de Canudos. A citação de uma carta do barão ao Jornal de Notícias, em 1897, defendendo-se de acusações de monarquismo e aliança com Conselheiro, ilustra sua relevância histórica.
Outros registros, descritos na justificativa do projeto, solidificam a posição do barão na literatura e na história: como chefe da vasta região de Itapicuru e Jeremoabo, estendendo seu prestígio até Inhambupe. Segundo o folclorista Câmara Cascudo, ele teceu uma imensa rede de influência que cobria léguas e léguas, abrangendo engenhos, fazendas, sítios e povoados.
A Questão da Desapropriação e o Valor Patrimonial
Uma nota da Redação esclarece um ponto crucial sobre a propriedade da Fazenda Caritá: embora o INCRA tenha realizado a desapropriação do terreno da Fazenda Caritá em 07.07.2005 (conforme registro no Cartório de Jeremoabo, Livro 2-Q, fls 68, matrícula 01-3029.2.0003959'35 de 06.11.2006), é imperativo entender que um prédio histórico não pode ser desapropriado pelo INCRA para fins de reforma agrária.
A missão do INCRA foca na desapropriação de imóveis rurais que não cumprem sua função social, visando a reforma agrária. Edificações de valor histórico e cultural, como o Casarão da Fazenda Caritá, enquadram-se em categorias de proteção patrimonial e não são alvo desse tipo de desapropriação.
Portanto, a quem quer que pertença o terreno da Fazenda Caritá, seja ao Sítio do Quinto (município desmembrado de Jeremoabo) ou a Jeremoabo, a realidade inquestionável é que o Casarão da Antiga Residência do Barão de Jeremoabo é um patrimônio Cultural e Histórico. Sua preservação transcende questões de divisa territorial e propriedade, sendo um dever para com a memória do estado e do país. A luta para que este casarão seja devidamente reconhecido e restaurado é uma batalha pela preservação da própria identidade de Jeremoabo e do sertão baiano.