sábado, julho 08, 2023

Facções “verde e amarelo” e ‘boina vermelha’ seriam as articuladoras dos atos golpistas

 

Publicado em 8 de julho de 2023 por Tribuna da Internet

— Foto: Reprodução

Marcelo Soares Correa seria um dos líderes

Camila Turtelli e Eduardo Gonçalves
O Globo

Relatórios sigilosos da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) apontam os supostos “articuladores dos atos intervencionistas” que contestaram, sem provas, o resultado das eleições e culminaram na invasão às sedes dos três Poderes no dia 8 de janeiro. Os documentos, obtidos pelo Globo, indicam que por trás da escalada golpista está um grupo formado por produtores rurais e um núcleo de pessoas identificadas como “incitadoras” da depredação de prédios públicos no início deste ano.

Em um relatório intitulado “participação de lideranças do agronegócio em atos antidemocráticos e em ações de contestação do resultado eleitoral”, a Abin detalha a atuação do Movimento Brasil Verde e Amarelo (MBVA), que reúne produtores rurais, na suposta articulação de atos antidemocráticos.

BLOQUEIO EM RODOVIAS – Segundo o documento 0005/2023 produzido pela agência de inteligência em 10 de janeiro, integrantes do MBVA “lideraram” bloqueios de caminhoneiros em novembro de 2022, em Goiás, Mato Grosso do Sul, Tocantins e Roraima, com o objetivo de “contestar”, sem provas, a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições daquele ano.

O grupo, segundo a Abin, tem à disposição “recursos econômicos para financiar transporte de manifestantes e ações extremistas, como as ocorridas no 8 de janeiro”.

O Movimento Brasil Verde e Amarelo surgiu em 2017, formado majoritariamente por grupos de produtores de soja do Centro-Oeste, e cresceu entre divergências com os demais segmentos do agronegócio pelo país, especialmente os mais voltados à exportação.

APOIO DA APROSOJA – Segundo a própria Abin, o MBVA não representa a maioria do setor, tendo papel secundário, mas conta com o apoio da Associação Brasileira dos Produtores de Soja do Brasil (Aprosoja) para articular atos.

De acordo com a agência, o movimento tem como líder o ruralista Antonio Galvan, presidente da Aprosoja, alvo de inquérito no Supremo por supostamente apoiar atos golpistas, já tendo sido alvo de mandado de busca e apreensão, em 2021.

Ao ser intimado para prestar depoimento à Polícia Federal, ele compareceu à sede da corporação em cima de um trator e cercado de manifestantes. No ano passado, Galvan foi candidato ao Senado em Mato Grosso pelo PTB, mas não se elegeu.

 — Foto: Reprodução

Antonio Galvan, presidente da Aprosoja

OUTRO LÍDER – O relatório da Abin ainda cita outro “líder ideológico” do movimento, o advogado e produtor rural Jeferson da Rocha. Nas redes sociais, Rocha publicou um manifesto defendendo a anulação do segundo turno das eleições de 2022 e divulgou uma carta pregando colocar “freios” em membros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Nas eleições passadas, ele concorreu a deputado federal pelo PROS, mas não conseguiu votos suficientes para se eleger. Procurado, Rocha negou ter participado de atos golpistas.

— O STF é uma instituição pública de importância fundamental para a manutenção da democracia. Nós sempre repreendemos com veemência qualquer tipo de discurso a favor de ditadura e intervenção militar.

INCITADORES – Em outro relatório, produzido em 17 de janeiro, a Abin identificou um grupo suspeito de ter estimulado as invasões e a depredação aos prédios do Congresso, do Planalto e do Supremo.

O documento, intitulado “Segurança Institucional – intervenção federal /detenção não identificada até 26 janeiro”, destaca a participação do reservista do Exército Marcelo Soares Correa, conhecido como cabo Correa, no ato golpista em 8 de janeiro.

Segundo anotações dos agentes infiltrados, durante a caminhada em direção ao Congresso, cabo Correa disse que “o limite do pacífico acabou”. Na interpretação da agência, essa afirmação ecoou a percepção que havia entre os extremistas de que apenas a existência do acampamento em frente ao Quartel General do Exército, em Brasília, “não teria resultado” para provocar uma ruptura institucional defendida pelos golpistas.

BOINAS VERMELHAS – O militar da reserva chegou a ser preso pela Polícia Federal após invadir, em 2016, o plenário da Câmara dos Deputados para pedir a “intervenção militar”. Segundo a Abin, ele é um dos líderes dos “Boinas Vermelhas”, uma agremiação formada “por reservistas autônomos que compartilham informação política ideológica semelhante, discurso radical de deslegitimação às instituições e propensão à ação violenta”.

— Ele sumiu do mapa. Nunca mais ouvimos falar — disse o presidente do partido no Rio, Sidclei Bernardo.

A agência também cita Symon Albino, conhecido como Symon Patriota, e Ana Priscila Azevedo como os outros principais “incitadores” dos atos. Apontado como articulador de uma viagem que levou a Brasília extremistas de Campinas (SP), Symon gravou vídeos fazendo convocações antes de 8 de janeiro e pedindo para o povo se “preparar”. Em um deles, depois excluído, ele afirmou que a população não podia “aceitar que comunismo lixo tomasse posse”.

PRISCILA ESTÁ PRESA – Já Ana Priscila foi alvo de uma operação da Polícia Federal e está presa preventivamente por ordem do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Ela gravou vídeos dizendo que queria “colapsar o sistema” e “tomar o poder de assalto”.

Líder de um grupo no Telegram com milhares de membros, Ana Priscila compartilhou registros nos ataques em Brasília no dia dos atos. Em uma das gravações ela aparece dentro do STF e no Congresso, diante de um cenário de destruição.

O advogado Cláudio Avelar, que defende Ana Priscila, afirmou que ela está presa há mais de cinco meses “sem nenhuma denúncia”: — Independentemente do que vem sendo dito, não houve golpe e, portanto, não houve golpistas. Ela está sendo investigada porque seria uma incitadora. Ela tem um carisma próprio e, por isso, falava coisas, e as pessoas foram ouvindo.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG –
 Ao que tudo indica, mas investigações estão andando muito devagar. Há um excesso de réus e o Supremo não tem condições de conduzir mais de mil processos simultaneamente. Assim, as pessoas nem foram denunciadas, não há processo contra elas, mas continuam presas preventivamente ou em prisão domiciliar. Ou seja, cumprem pena antecipadamente, sem terem sido condenadas, desmoralizando a suposta política “garantista” que o Supremo diz estar adotando para soltar presos tipo Sérgio Cabral, condenado a 425 anos de prisão e 20 dias. Depois voltaremos ao assunto(C.N.)


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