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Michelle Bolsonaro saberia brincar de Isabelita Perón?
Pablo Ortellado
O Globo
Com a inelegibilidade de Bolsonaro, o campo político que hoje orbita em torno dele precisará não apenas de um novo candidato para 2026, como de um novo nome. Tem sido chamado de “bolsonarismo” um pouco por conveniência, mas, se refletirmos bem, o nome nunca foi adequado, pois sugere que o vigoroso movimento da sociedade a sustentá-lo se esgota na expressão eleitoral.
O que chamamos hoje de bolsonarismo foi se formando antes de Bolsonaro e provavelmente sobreviverá a ele. É um fenômeno social, e não meramente eleitoral. Que outro nome podemos adotar agora que Bolsonaro está impedido de concorrer?
DESDE A ERA DILMA – A candidatura Bolsonaro começou a germinar muito antes de 2018. Podemos tomar as mobilizações anti-Dilma de 2015 e 2016 como ponto de partida, já que os grupos que convocavam essas manifestações terminaram apoiando Bolsonaro em 2018.
E olhar ainda para a mobilização das igrejas católica e evangélicas em 2014 e 2015 contra o uso do termo “gênero” nos planos de educação (nacional, depois estaduais e municipais) e para toda a campanha contra a “ideologia de gênero” que se estruturou desde então, cujas principais lideranças apoiaram Bolsonaro em 2018.
Podemos olhar também para a formação do movimento anticorrupção, que depois se confunde com o movimento anti-Dilma/anti-PT, e para a onda social de apoio à Operação Lava-Jato que começa em 2014.
MUDANÇA DA IMPRENSA – Por fim, olhar para a grande mudança editorial de setores da imprensa brasileira, que abraçaram e deram destaque a ideias conservadoras nos anos 2010, ou para a cultura juvenil da zoeira e do politicamente incorreto, que ganhou projeção nas mídias sociais no mesmo período.
A candidatura de Jair Bolsonaro em 2018 é onde deságuam esses e outros movimentos da sociedade brasileira. Bolsonaro não os criou nem os liderou, apenas os articulou numa candidatura eleitoral.
Mas, agora que estão bem amarrados, que outro nome daremos ao movimento que deverá sobreviver a Bolsonaro?
SERIA POPULISMO? – Podemos chamá-lo de “populismo”, seguindo diversos cientistas políticos. O movimento político que chamamos de bolsonarismo parece adequar-se perfeitamente a essa categoria da ciência política, que descreve movimentos com discursos antielites propondo conexão direta com o líder carismático e rejeitando instituições de representação como os partidos.
Mas o termo populismo é algo técnico, totalmente rejeitado pelos bolsonaristas, que não se reconhecem nele. Pensando nisso, podemos seguir outro caminho e adotar uma categoria “nativa”, como dizem os antropólogos. Podemos chamá-lo de “patriota”, termo amplamente adotado pelos bolsonaristas para se referir ao próprio campo político.
O termo tem a vantagem de ser nativo, mas a desvantagem de ser positivo, quase elogioso, lembrando patriotismo ou civismo. Além disso, sugere nacionalismo, um equívoco. Embora os bolsonaristas acreditem estar defendendo o Brasil, certamente não são nacionalistas e não defendem a cultura, os empregos ou a economia nacional.
CONSERVADORISMO – Minha opção predileta é chamar o bolsonarismo pós-Bolsonaro de “conservadorismo”, outro termo nativo. “Conservadorismo” é adotado pelos bolsonaristas e empregado como contraponto à desordem e ao progressismo.
Ressalta, por um lado, a defesa da tradição e da ordem e, por outro, a rejeição aos movimentos feminista e LGBTQIA+, traços efetivamente importantes do bolsonarismo.
Está na hora de acadêmicos e jornalistas pensarem em como chamar o movimento que teve como expressão eleitoral a candidatura Bolsonaro em 2018 e 2022 e que deverá ter outro candidato em 2026 — a não ser, é claro, que essa candidatura termine ocupada pela mulher ou por um dos filhos do ex-presidente.